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4 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

4.2 FORICIDADE, DÊIXIS E REFERENCIAÇÃO

4.2.1 A foricidade e a dêixis

Castilho (1993, p. 122-123) prefere o uso do termo foricidade em lugar de referenciação, por considerar este último dotado de caráter ambíguo, muitas vezes, ou mesmo ambivalente, tendo-se em vista significar não somente os mecanismos e processos de designação, mas ainda os de retomada de conteúdo no texto/no discurso.

No âmbito da perspectiva funcionalista, Castilho discute os principais aspectos semânticos dos determinantes – artigos e demonstrativos – sob a ótica da foricidade, apresentando esta como um “processo fundamentalmente semântico-textual de retomada dos conteúdos verbais já mencionados no texto, ou contidos na situação de fala, trazendo-os à nossa lembrança”. (idem).

Para esse teórico, os artigos – sobretudo os definidos –, os pronomes (pessoais, demonstrativos, possessivos e relativos) são os itens representativos do campo da foricidade, atuando “como verdadeiros operadores fóricos”.

Souza (2003, p. 75) considera os itens fóricos, como formas referenciais ou remissivas, elementos da língua “que não podem ser interpretados por si mesmos, mas remetem a outros itens do discurso necessários à sua interpretação”. A autora toma como base para a tessitura das argumentações que apresenta nesse campo, os estudos de Neves (2000) que na introdução à segunda parte da Gramática de usos do português, intitulada A

referenciação situacional e textual: as palavras fóricas, afirma existirem termos da língua

cuja função particular é “de fazer referenciação, entretanto sem nomear, ou denominar como os substantivos”. (p. 389).

Tais palavras ou termos são designadas como fóricos (lat. fero, gr. phéro:”levar”, “trazer”), pois “têm como traço categorial, a capacidade de remeter-se a algum outro elemento”, de fazer referência quer aos participantes do discurso (na interlocução) quer aos “participantes dos eventos” (na remissão textual). Portanto, caracterizam-se por serem portadores ou por exercerem uma função “fundamental no uso da linguagem”: a de realizar e ajudar na firmação e estabelecimento da coerência e da coesão textuais.

Neves assinala ainda que as palavras fóricas, como os artigos definidos, principalmente, e os pronomes – pessoais, demonstrativos, possessivos e de tratamento – são, em geral, considerados pronominais, dados os traços de caráter referenciativo muito similares que essas palavras possuem e que as une.

Castilho (1993, p. 123) faz menção, a partir das análises de Renzi (1988, p. 622), aos aspectos que uma gramática da foricidade deveria tomar como diretrizes de funcionamento: (1) a posição do referente retomado; (2) a natureza semântica de tal referente; (3) a disposição que esse referente ocupa no enunciado; e (4) a extensão do referente (um sintagma? uma sentença? ou uma unidade discursiva completa?).

Neves (2002, 2004), por sua vez, apresenta a foricidade, a predicação e a conjunção, num plano de investigação semântica, enquanto processos básicos constituintes do enunciado, o que também encontra assento nas disposições de Poggio (2002, p. 38). O fundamento

basilar da coesão textual seria configurado pelos arranjos que os itens, em processos fóricos, realizariam de modo a compor a “teia do texto” (SOUZA, 2003, p. 76).

Quanto à dêixis, aparece inicialmente na foricidade, explicita Poggio (2002, p. 38) apoiando-se em Castilho (1996). No entanto, os operadores fóricos distinguem-se dos dêiticos, por apresentarem funções distintas. De acordo com Lyons (1980, p. 260), o termo dêixis

provém da palavra grega [deiktikos] que significa “mostrar” ou “indicar” por se referir à função de pronomes pessoais e demonstrativos, de tempo e de um leque de traços gramaticais e lexicais que ligam os enunciados dos eixos espaço-temporais do ato da enunciação.18

Os gramáticos gregos utilizavam o adjetivo dêitico (deiktikos) com o sentido de demonstrativo. Na verdade, eles não faziam diferenciação sob o prisma da forma ou da função semântica, entre pronomes demonstrativos, artigo definido e pronome relativo.

No capítulo quarto da obra Sémantique linguistique, intitulado Deixis, espace et temps, Lyons fornece um entendimento mais completo sobre em que consiste a dêixis, mostrando que ela engloba não apenas as funções que caracterizam os pronomes demonstrativos, mas também o tempo e a pessoa e um número significativo de aspectos relacionados ao contexto da enunciação. Nas palavras do autor:

Por dêixis entende-se a localização e a identificação das pessoas, objetos, processos, eventos e atividades de que se fala e aqueles a que se faz referência pela relação ao contexto espaço-temporal criado e mantido pelo ato da enunciação e pela participação, em regra geral, de um único locutor e de ao menos um interlocutor.19 (p. 261).

Para Trask (2006, p. 52), dêixis significa “apontar por meios lingüísticos”, enfocando- se o tempo, o lugar e os papéis diferenciados dos participantes/indivíduos envolvidos no ato de fala. O autor enceta que há diferentes tipos de dêixis na língua, evidenciando-se distintas “categorias dêiticas”, cujo ponto de referência “é sempre a identidade do falante e o momento e o lugar da fala”. No rol das palavras dêiticas, esse estudioso apresenta pronomes pessoais, de tratamento, demonstrativos e advérbios.

18 [...]provient d’un mot grec [deiktikos] signifiant ‘montrer’ ou ‘indiquer’ pour se référer à la fonction des pronoms personnels et demonstratifs, des temps et d’un éventail de traits grammaticaux et lexicaux qui relient les énoncés aux coordonnées spacio-temporelles de l’acte d’énonciation. (Tradução minha).

19 Par deixis il faut entendre la localisation et l’identification des personnes, objets, processus, événements et activités dont on parle et auxquels on fait référence par rapport au contexte spatio-temporel créé et maintenu par l’acte d’énonciation et la participation en règle générale d’un locuteur unique et d’au moins un interlocuteur. (Tradução minha).

Barreto (1999, p. 80) e Souza (2003, p. 76), partindo de Castilho (1996) parecem uníssonas quanto às classes de palavras que se podem considerar como dêiticas. Enquanto a primeira autora focaliza, em linhas gerais, o papel dêitico dos artigos e dos demonstrativos – de modo especial, elencando a classe dos mostrativos, em Castilho (1993, p. 121):

este/esse/aquele (e formas plurais e femininas), isto/isso/aquilo, ele, o, mesmo, próprio, semelhante, tal –, a segunda destaca entre outras três classes: a dos pronomes, a dos advérbios

e a dos artigos. Ambas concordam que todos os elementos pertencentes a essas classes têm um traço em comum: a foricidade.

Marcuschi (2007, p. 76) apresenta, tomando as disposições de Karl Bühler (1978[1934]), que a dêixis deve ser encarada pelos pesquisadores, no plano funcional e cognitivo, como um dos instrumentos responsáveis por fazer da referenciação, “um ato de construção criativo e não um simples ato de representação ou de designação extensional de uma expressão no mundo extra-mental” (MARCUSCHI, 2007, p. 79), em virtude dos elementos dêiticos obterem sua determinação referencial na “relação com os contextos e os falantes” (p. 76) e, sobretudo, pela extraordinária potencialidade que possuem na representação lingüística.

A dêixis pode gerar, segundo pensa esse estudioso, um jogo ficcional em que “os interlocutores situam-se imageticamente num tempo e espaço” no qual os dêiticos atuam como um palco, numa peça teatral, daí a afirmação de que a dêixis é capaz de, tal qual os atores no teatro, “tornar presente o ausente” (p. 77).