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A formação continuada em serviço e a reconstrução do PPP

3 O CONTEXTO POLÍTICO, ECONÔMICO E SOCIAL QUE DETERMINA A

6.3 Os professores e as políticas nacionais de formação

6.3.2 A formação continuada em serviço e a reconstrução do PPP

Conforme já dissemos nossa pesquisa busca desvelar a formação continuada em serviço em duas cidades do Vale do Rio Pardo e como resultado dessa formação a reconstrução do PPP, nas duas cidades pesquisadas, e a partir dessa reconstrução os professores (as) atuem, em suas escolas com novas práticas pedagógicas.

Há, porém um problema. Assim como o processo de reconstrução do PPP já tem uma proposta pré-estabelecida, na cidade Alfa as propostas de práticas pedagógicas também ou trabalho que os professores devem desenvolver em sala de aula.

Existe então uma diferença entre as cidades Alfa e Beta e o processo de formação. A cidade (Alfa) está contando com parcerias de outra instituição, que vem assessorar os encontros e dirigir a formação dos professores estrategicamente, já que possuem seus próprios objetivos para serem desenvolvidos. Isso demonstra mais uma vez a forma de alienação que os professores são submetidos.

Já na cidade Beta os professores foram acompanhados pela SMECD para elaborarem a nova proposta, contando em sua formação com leituras específicas que vieram ao encontro da necessidade dos temas para o momento de formação que estavam: a elaboração da nova Proposta Político – Pedagógica (PPP).

As professoras entrevistadas falam de sua formação e aplicação dessa reconstrução do PPP dizendo: “claro que é importante a construção coletiva do PPP, mas não assim, induzindo, e outra, para a escola, criaram os tais projetos, os professores tem medo de dizer que não, porque faz parte da proposta cooperativa do Programa, mas a gente sabe que os professores estão cansados, acabam fazendo cada um a parte que lhe cabe e os alunos participam muito pouco dessa palhaçada. Acho que a prioridade devia ser a educação, o ensino dos alunos e não inventar projetos que causam mais desgaste aos professores, só pra

promover o nome da escola? Do município? Mas e o ensino? Facilitam cada vez para o aluno passar e ter bons índices, mas não que o ensino seja a prioridade. Enquanto educadora, não posso dizer que essa formação nos ajuda em algo. Tão só fazendo o ‘nome’, e não demonstrando preocupação com o ensino e também com os professores que estão mais que sobrecarregados de tarefas. (PROF. 6; ALFA).

“Algumas coisas dentro de nossa formação precisam ser mais esclarecidas e colocadas em prática. Na formação que estamos tendo pra fazer o PPP, foi bom porque a gente se reuniu por anos específicos, lemos textos, montamos o nosso desejo e isso foi levado ao grupo de sistematização, que também discutia as opiniões.

Quando ficava pronta essa etapa, o trabalho volta pra escola e a gente revisa pra ver se ficou como o esperado. Acho que a formação vem ao encontro de nossas expectativas, pois todos os professores precisam conhecer o PPP, mesmo assim tem uns que acham que não é necessário, mas acho que isso acontece pela falta de conhecimento do seu conteúdo.” (PROF. 7; BETA).

“A nossa formação em serviço é essa que a prefeitura oferece durante o ano letivo: cursos, palestras motivacionais. Esse ano é para a reconstrução do PPP A formação está envolvendo todo mundo mesmo. O bom é que já conhecemos a realidade do município através desse trabalho.” (PROF. 2; BETA).

Infelizmente, os políticos e gestores têm na imagem da educação uma ideologia, que passando seu tempo de gestão, entrará outros gestores e novamente a concepção de educação será outra. O que essa formação de professores e reestruturação do PPP está demonstrando principalmente na cidade Alfa, onde existe um Programa específico para a formação, é que realmente os professores não apresentam capacidades suficientes para produzir, elaborar suas próprias aulas. Os gestores, encabeçados por opiniões ideológicas de formação, querem transformar a educação em uma educação ideal ao seu ponto de vista. O professor aparece como um mero cumpridor de tarefas, alienado, desmotivado e doente.

Mesmo a cidade Beta permitindo aos professores mais autonomia na elaboração do PPP, que é o que demonstram os professores em suas entrevistas, falta algo essencial em suas

formações que é o conhecimento teórico. Em muitas dos encontros de formação realizados para decidir o conteúdo do PPP do município Beta, os professores demonstravam ‘vontades’

que não podem ser cumpridas devido às legislações vigentes, o que então era esclarecido pela equipe da SMECD que acompanhava e conduzia a formação.

Temos também opiniões do diário de campo a partir das conversas informais durante a formação. Uma professora da cidade Alfa nos disse: “a gente sabe que precisa mudar, mas não dá pra falar nada que acham que a gente está contra eles, e na verdade tratam a gente mesmo como se a gente não pensasse, que a gente não sabe que a educação tem verbas que são destinadas a reforma da escola, do espaço físico e para nos pagarem. Fazem o que por lei devem fazer e querem que na última reunião do ano letivo a gente fique aplaudindo os gestores pelos números que trazem e pelo “abono” que nos pagam do FUNDEB. Como se isso não fosse obrigação deles, que fazem porque são ‘bonzinhos’. (DIÁRIO DE CAMPO).16

Há uma manifestação de descontentamento dos professores quanto à forma que estão dando a educação e reelaboração do PPP. Parece-nos que os professores em seu pouco conhecimento, desconhecem as lutas de classes para almejar mudanças, tem medo de ficarem

“visadas”, de pegarem no pé, de serem removidas para outra escola. Suas formações, para aquelas professoras que já não estão em universidades, se baseia nos cursos oferecidos pela SMECD. Contam os pontos dos certificados para obter mudança de classe e aumento de salário a cada cinco anos segundo o Plano de Carreira do Magistério. Para esses professores a acomodação é mais valiosa, pois não querem se incomodar é mais fácil aceitar e cumprir o que é estabelecido.

Os professores com menos tempo de trabalho, que ainda estão buscando formação nas universidades, conseguem ter uma visão mais crítica sobre o que acontece nessa formação.

Mesmo porque, não recebem apoio nenhum para buscar a sua formação, como uma redução de horário para estudar. A presença de empresas na gestão da educação, onde é definida a forma como será conduzida, não pode ser encarada pelos professores como um construtivismo, pois este Programa que está aos poucos moldando a educação desse município tem claro as suas concepções de educação e de professor como cumpridor de suas tarefas.

Demo (2005, p. 2) nos diz ao falar de educação e neoliberalismo:

educação nunca é “tudo”, como consta no marketing neoliberal de muitas empresas, não só porque para elas o mercado é “tudo”, mas principalmente porque a

16Fala de uma prof. da cidade Alfa durante conversa informal.

complexidade não linear da realidade humana não pode ser reduzida a uma única dimensão. É muito interessante que o mercado neoliberal valorize a educação, mas essa valorização tem como parâmetro a competitividade e a produtividade, não a cidadania. O signo do mercado neoliberal é a autodestruição, ao passo que a educação poderia indicar contextos mais ajuizados, porque seriam integrados por sociedades que sabem pensar para melhor intervir.

Analisando o que dizem os professores da cidade Beta a respeito da formação oferecida para a reconstrução do PPP das escolas municipais, percebemos que os mesmos mostraram mais interesse na elaboração do projeto já que os mesmos entendem qual o seu papel durante o desenvolvimento dos trabalhos.

“Todo o material necessário para construção do PPP foi organizado em grupos e isso foi bom. Todos os professores estão participando e assim conhecendo mais da educação e da realidade do município. No decorrer das nossas atividades de formação, tivemos momentos de leitura para poder desenvolver melhor o trabalho e entender onde queremos chegar com esse trabalho, o que é necessário ter no nosso PPP.” (PROF. 2; BETA).

“Os professores estão comprometidos com a elaboração do PPP, estão acrescentando possibilidades e mudando o que não se encaixa para nossos dias atuais. Ainda não conheço o suficiente dessa proposta, pois é um processo que está sempre em criação, não fica pronto sempre de ano em ano, pois a clientela muda, os objetivos são outros, novos desafios, novos projetos. Precisa-se ler muito para por em prática uma ideia real e não somente escrever lindos textos para o referencial sem nossa realidade.” (PROF. 4; BETA).

“Nessa atual formação que estamos recebendo, buscamos a mudança do PPP é também a oportunidade de conhecermos esse documento, que pra maioria dos professores é desconhecido, ele fica esquecido nos armários da escola. Enquanto educadora, nossa formação está sendo boa, pois buscamos mais informações sobre a educação do município. Essa construção coletiva do PPP está possibilitando esse entrosamento, pois os professores é que são os responsáveis pelos

dados necessários para reconstrução, todos acabam tendo esse conhecimento.” (PROF. 5; BETA).

Os professores estão demonstrando que o estudo de referências, de possuir teoria para poder construir um PPP é de fundamental importância. Com o conhecimento adquirido anteriormente durante os encontros dos professores por área de atuação, parece ter garantido um melhor desenvolvimento do trabalho grupal para que o PPP fosse construído de forma conjunta.