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3. SUPERAÇÃO DO ATRASO, SEGUNDA LENTE: CELSO FURTADO,

3.2 A FORMAÇÃO DO SUBDESENVOLVIMENTO: O CENTRO

No esboço de análise que segue tentaremos captar o fenômeno do subdesenvolvimento no quadro da história contemporânea: como consequência da rápida propagação de novas formas de produção, partindo de um número limitado de centros irradiadores de inovações tecnológicas, em um processo que tendeu à criação de um sistema econômico de âmbito planetário. Dessa forma, consideramos o subdesenvolvimento como uma criação do desenvolvimento, isto é, como consequência do impacto, em grande número de sociedades, de processos técnicos e de formas de divisão do trabalho irradiados do pequeno número de sociedades que se haviam inserido na revolução industrial em sua fase inicial, ou seja, até fins do século XIX. (FURTADO, 2011, p. 88).

O subdesenvolvimento não constitui uma etapa necessária ao desenvolvimento, num esquema evolucionário de coisas; ele é um “processo histórico autônomo” (FURTADO, 1977, p. 189) fruto da penetração não homogeneizadora de técnicas e racionalidade produtivas oriundas da expansão econômica internacional e da subscrição subordinada aos papéis delegados pela lei das vantagens comparativas estáticas de David Ricardo (FURTADO, 1976, 1977, 1990). Subdesenvolvimento e desenvolvimento são coetâneos e, portanto, para se entender a lógica do primeiro é preciso antes explicitar como se deu o segundo. Sobretudo: qual a função precípua exercida pelo progresso técnico e pela acumulação no centro; como e por que ela difere do observado na periferia?

No concernente ao centro30, pode-se dividir a transformação econômica fruto da Revolução Industrial em duas fases, marcadas pelo grau de absorção do excedente de mão de obra disponível31. Na primeira etapa, a irrupção de novas tecnologias e de um novo padrão de

racionalidade, aos moldes weberianos (SWEDBERG, 2005), fizeram surgir de forma concomitante e coadunada (1) um excedente produtivo fruto da acumulação (aumento da dotação de capital por trabalhador) e (2) um mais alto nível de produtividade geral da economia, fruto do progresso técnico. Tudo a uma taxa de salários irrisória, posto que esta era definida pelo nível de vida da população, ainda muito próximo à subsistência (FURTADO, 1976, 1977, 2009, 2011). O que convém assinalar é que, sob o manto do progresso técnico atrelado à acumulação, os ganhos fundamentais de produtividade da economia eram decorrentes da sofisticação produtiva, da criação de tecnologia e de bens de capital – os eixos dinâmicos essenciais ao sistema (FURTADO, 1968, p. 20).

A segunda fase, muito resumidamente, se manifestava quando da absorção completa da mão de obra disponível à taxa de salário de subsistência em vigência (FURTADO, 2009). A partir desse ponto, a demanda por emprego excederia a sua oferta, e os níveis de salário passariam a se elevar. O desenvolvimento passaria a ser homogeneizador, uma vez que o capitalista industrial seria obrigado a transferir funcionalmente parte de sua renda, de seu excedente, a seus empregados, seja pela via de aumentos salariais, seja pelo barateamento dos                                                                                                                

30 E aqui leia-se, para um primeiro momento: Europa Ocidental do século XVIII, mormente o Reino Unido (FURTADO, 2009, p. 160).

31 A leitura sugerida àqueles que buscam se aprofundar no tema é Desenvolvimento e Subdesenvolvimento (FURTADO, 2009, p. 147 – 159), Teoria e Política do Desenvolvimento Econômico (FURTADO, 1977, p. 187 – 191), Raízes do Subdesenvolvimento (FURTADO, 2011, p. 87 – 101) e Prefácio à Nova Economia Política (FURTADO, 1976, p. 90 – 93).

produtos ofertados (FURTADO, 2011). Nessa etapa, o progresso tecnológico também estaria subordinado ao conflito distributivo em cena, refletindo a disputa pela apropriação do excedente criado (FURTADO, 2009, p. 158 – 159). Nesse estádio de maturação, considerações de demanda efetiva à lá Keynes passariam a ser primordiais, havendo compatibilização entre aumento de produtividade, progresso técnico, acumulação e demanda agregada. Em síntese,

Deve-se ter em conta que modificações profundas na distribuição de renda, particularmente no sentido igualitário, pressupõem alterações simultâneas na estrutura da oferta, devendo o setor produtor de bens de capital reduzir a sua importância relativa no produto. Por outro lado, a preservação do esquema de distribuição de renda requer a manutenção de uma taxa de poupança e investimento que se traduz em rápido processo de acumulação, portanto tende a fortalecer a classe trabalhadora na luta pelos frutos do aumento de produtividade. Dessa forma, ao favorecer a posição de luta dos assalariados, a acumulação cria condições para que se intensifique a assimilação do progresso tecnológico; este último ao reestabelecer a elasticidade de oferta de mão de obra, tende a preservar a forma de distribuição de renda e indiretamente mantar uma estrutura da oferta em que a participação dos bens de capital é relativamente alta; mantida a distribuição de renda e a estrutura da oferta, o processo de acumulação deverá prosseguir, fechando-se o círculo. Tudo passa, portanto, como se o antagonismo de classes inerente a um sistema em que a propriedade dos bens de produção está em mãos de uma pequena minoria – antagonismo que se manifesta na luta pela distribuição de renda –, conjuntamente com o controle e a orientação do progresso tecnológico pela minoria responsável pelos investimento criassem condição para a preservação de uma taxa de poupança e investimento mediante a qual se assegura a imutabilidade da distribuição da renda social, ao mesmo tempo que vão sendo satisfeitas as reivindicações básicas da melhoria de vida da classe assalariada. (FURTADO, 2011, p. 94).

Ou, de forma abreviada:

Conforme já assinalamos, identificam-se duas fases nesse processo; na primeira, a liberação de mão de obra era mais rápida que a absorção, o que tornava a oferta desse fator totalmente elástica; na segunda, a oferta da mão de obra, resultante da desarticulação da economia pré capitalista tende a esgotar-se. Caberá, então, ao progresso técnico dar flexibilidade ao sistema econômica, assegurando que os fatores se combinem, em proporções compatíveis com a oferta de bens de capital, a qual refletia o padrão de distribuição da renda que se cristalizara no período anterior. Desta forma, o desenvolvimento da técnica passa a ser cada vez mais condicionado pela disponibilidade relativa de fatores nos centros industriais. (FURTADO, 1977, p. 187).

Impondo a conclusão que:

Num esforço de simplificação, poderíamos definir o processo de desenvolvimento autônomo como aquele no qual a ordenação dos fatores primários de impulsão seria a seguinte: progresso tecnológico – acumulação de capital – modificações estruturais decorrentes de alteração no perfil da demanda. No extremo oposto, teríamos o processo

modificações na composição da demanda – acumulação de capital – progresso tecnológico. (FURTADO, 1968, p. 22, grifos nossos).

Assim, no centro capitalista, o aumento de produtividade relevante ao sistema seria originado do progresso técnico, razão pela qual a economia se tornaria mais sofisticada, e os trabalhadores, mais qualificados.

Ocorre, entretanto, que há outras maneiras de se aumentar a produtividade de uma coletividade. Elas são: “a) aumento da dotação de capital por trabalhador, b) modificação do processo produtivo, ou seja, elevação do nível tecnológico, e c) modificação na estrutura produtiva decorrente da alteração no perfil da demanda global” (FURTADO, 1968, p. 20). Os dois primeiros processos indicados (a e b) refletem o desenvolvimento conforme ele se dá no centro, com aumento de capital por trabalhador (a) ou refino da tecnologia disponível (b); eles obedecem a lógica exposta acima e representam o crescimento homogeneizador do qual Furtado tanto desejava. O subdesenvolvimento, contudo, viria a equalizar crescimento com formas não estruturantes de aumento da produtividade, puxadas sobejamente pela expansão da demanda (geralmente de produtos primários) do centro (FURTADO, 2008, p. 156). A constituição histórica dos países subdesenvolvidos, articulados de maneira subalterna à divisão internacional do trabalho, é o que explica esse viés regressivo dos ganhos de produtividade na periferia. Esta é a primeira manifestação do subdesenvolvimento, e é dela que se trata a próxima seção.