É consenso na literatura que trata do setor avícola (tanto em âmbito nacional quanto internacional) o progresso tecnológico e comercial que este ramo de atividade auferiu ao longo de pouco mais de um século e que continua auferindo no período atual. De acordo com Bugos (1992), as primeiras aves que cruzaram o Atlântico foram trazidas pelos colonizadores ingleses de Jamestown – primeira colônia inglesa permanente nas Américas –, no início do século XVII, para consumo da população que ali se instalava. Nesta fase inicial, os animais eram criados soltos, não havia nenhum controle sobre a sua reprodução e o consumo ainda era pouco difundido.
Em meados do século XIX inicia-se a comercialização de aves puras para atender a um mercado emergente: o de colecionadores de aves ornamentais. Esta fase foi marcada pela importação de centenas de raças provenientes de diversas partes do mundo, ampliando o material genético disponível na região. Mas não havendo como os criadores terem controle sobre a reprodução das aves que eram importadas, já que qualquer comprador que adquirisse um macho e uma fêmea poderia entrar no mercado (baixa barreira à entrada), a atividade deixa, aos poucos, de ser lucrativa e, por volta de 1870, ela entra em colapso (BUGOS, 1992).
Foi nos anos de 1880 que a avicultura emergiu. Com a desestruturação do mercado de aves ornamentais, os criadores procuraram recuperar os investimentos feitos mediante a produção de ovos para consumo. Para tornar a atividade mais rentável, os criadores passaram a criar raças melhoradas, mais propensas a produzir ovos em quantidades e tamanhos maiores. O melhoramento (breeding) como uma atividade de pesquisa (mas ainda não como uma indústria estruturada) iniciou-se nos Estados Unidos, em meados de 1800, quando alguns criadores aprenderam sobre as funções reprodutivas das aves e iniciaram um programa de melhoramento mediante o cruzamento de diversas raças (outbreeding) advindas da Malásia, da China e de outras partes da Ásia, dando origem à raça Rhode Island Red, de grande potencial para o segmento de postura. A disseminação dos novos materiais genéticos (Rhode Island Red, Plymouth Rocks e Leghorns, para ficar em alguns exemplos) realizava-se mediante o aluguel dos melhores galos aos criadores que quisessem produzir o animal (BUGOS, 1992).
No entanto, os ovos comercializados apresentavam enormes diferenças de tamanho, forma e cor da gema. Estas variações decorriam do tipo de dieta fornecida às poedeiras e das raças que lhes deram origem. A partir desta constatação os mercados finais de Nova Iorque,
Filadélfia e São Francisco forçaram os criadores a classificar os ovos com vistas a uniformizar o produto transacionado. O esforço de padronização estendeu-se também aos plantéis, havendo grande incentivo à disseminação das raças puras17, principalmente por parte de entidades como a
American Poultry Association – entidade responsável pela promoção e proteção das raças puras e
pela regulação de padrões de produção – e as agências agrícolas estaduais. Em 1920, as raças mais significantes industrialmente estavam padronizadas e o consumo de ovos foi difundido por toda a América. Paralelamente a estes dois eventos, uma importante atividade se manifestava: a dos melhoradores (breeders), especializados no aluguel de galos ou na comercialização de animais para reprodução (duas galinhas e um galo) ou ovos férteis de galinhas para postura (BUGOS, 1992).
Em 1911, uma empresa chamada Candee Company começou a comercializar incubadeiras artificiais que foram adquiridas por alguns criadores. Eles passaram a ter maior controle sobre as operações de postura (não havia mais a necessidade das galinhas chocarem os ovos) e abriu-se a possibilidade de vender pintos de um dia para outros criadores. Foi assim que emergiu outra importante atividade: a dos multiplicadores (hatchery operators). Pode-se notar, portanto, que nesta primeira fase começa a emergir uma divisão do trabalho na área da genética que, como veremos adiante, perdura até os dias atuais. De um lado, agentes (breeders) que passaram a deter um domínio sobre os resultados de cruzamentos de diversas raças puras. E, de outro lado, agentes (hatchery operators) que souberam se aproveitar de conhecimentos tácitos relacionados à criação animal e se especializaram na multiplicação destas raças, passando a testá- las no campo18 a fim de identificar quais se adaptavam melhor às condições locais de clima e de custos de alimentação e quais estavam menos propensas a doenças (BUGOS, 1992).
A produção de carne em escala industrial começou a se estruturar na década de 1930, quando uma produtora de ovos de Maryland passou a reproduzir suas aves poedeiras e a vendê- las a um açougueiro da região. Até então, a carne consumida provinha de qualquer tipo de ave ou de aves poedeiras não mais úteis para a produção de ovos (BUGOS, 1992). Mas foi a partir da II
17 De acordo com a American Poultry Association, animais de raças puras são aqueles que carregam seus traços genéticos tão fortemente que, quando cruzados, a maior parte da prole assemelha-se aos progenitores (BUGOS, 1992).
18 Evidencia-se aqui o binômio genótipo-ambiente. É provável que os resultados zootécnicos esperados de uma determinada linhagem genética, obtidos por meio de atividades de P&D realizadas dentro de laboratórios ou de atividades de criação em escala piloto, não coincidam com os resultados alcançados quando esta mesma linhagem é submetida às diversas condições ambientais reais. Isto porque, o ambiente exerce forte influência sobre as características dos animais, o que mostra que fatores puramente genéticos não são os únicos determinantes.
Guerra Mundial que a produção de carne deu uma guinada. Até o período anterior à II Guerra Mundial a avicultura era considerada sem importância comercial e a criação era artesanal, incipiente e de baixa escala. Com o confronto mundial de 1939-1945 tornou-se necessário produzir carnes alternativas às carnes vermelhas para o suprimento dos soldados em combate. Mas era preciso escolher um animal de pequeno porte e com ciclo de crescimento curto para que a oferta acompanhasse a demanda em rápida expansão. Abriu-se, desta forma, uma oportunidade para o desenvolvimento do setor avícola de corte (LIMA et al., 1995).
Com o crescimento da escala produtiva do setor avícola de corte é que os melhoradores passaram a cruzar raças que pudessem produzir animais maiores e com mais carne nas carcaças. É neste período da década de 1940 que se destacam pessoas como Oliver Hubbard desenvolvedor da raça New Hampshire que, em 1943, correspondia a 50% dos frangos consumidos nos Estados Unidos. Além dele, outros dois que se destacaram na época foram Charles Vantress e Henry Saglio (herdeiro da Arbor Acres). A disseminação das raças desenvolvidas por estes três empreendedores foi tão grande que as barreiras à entrada de novos competidores elevaram-se substancialmente. E já no início de 1950, a indústria abandonou a busca por novas raças. Os melhoradores perdedores retornaram às suas atividades de criação e os ganhadores iniciaram programas para melhorar suas raças (pedigrees) (BUGOS, 1992).
No entanto, o grande salto genético ocorreu por volta de 1950 e foi denominado por Bugos (1992) como a fase de hibridação. O primeiro frango híbrido foi produzido, por Henry A. Wallace, fundador da Pioneer Hi-bred Corn Company, em 1942, a partir de seus conhecimentos adquiridos com o emprego da técnica na produção do milho híbrido. O frango híbrido resultou do cruzamento genético das raças White Leghorns e White Minorcas e foi introduzido no mercado com a marca Hy-Line. Outra empresa envolvida na produção de milho híbrido e que se engajou na produção de frango híbrido foi a Dekalb Company, comercializando o frango Dekalb a partir de 1948. Em 1959 é a vez da Arbor Acres introduzir seu híbrido, Arbor Acres 50 Female Broiler, substituindo sua fêmea White Rock.
Inicialmente, os criadores se sentiram relutantes em adotar estes híbridos, uma vez que haviam sido alertados sobre os riscos da miscigenação do plantel durante as décadas anteriores. No entanto, novas pesquisas das estações experimentais agrícolas dos Estados Unidos durante a década de 1940 apontaram que cruzamentos consanguíneos de raças puras poderiam causar infertilidade e tornar os animais mais suscetíveis a doenças. Ao mesmo tempo, os animais
híbridos apresentavam índices zootécnicos cada vez mais satisfatórios e superiores aos alcançados pelas raças puras. Esta vantagem dos híbridos sobre as raças puras foi atribuída ao fenômeno da heterose. Por heterose entende-se o fenômeno pelo qual os filhos apresentam melhor desempenho (mais vigor ou maior produção) do que a média dos pais. A heterose é mais pronunciada quanto mais divergentes (geneticamente diferentes) forem as raças ou linhagens envolvidas no cruzamento. Em dez anos todas as empresas de genética estavam comercializando animais híbridos (BUGOS, 1992 e GURA, 2007).
Uma questão a ser destacada é que o processo de hibridação permitiu às empresas proteger seus ativos. O processo em si não é de caráter proprietário, mas os resultados de sua aplicação são. Se um macho e uma fêmea, ambos híbridos, forem cruzados, a geração seguinte não apresentará o vigor de seus progenitores. Somando a isto, não é possível, mesmo com as técnicas mais sofisticadas de genética, identificar as linhagens puras que originaram os animais híbridos. Estes dois pontos têm uma implicação importante do ponto de vista econômico: o emprego da hibridação gera um “bloqueio biológico” (biological lock) que impede que outros agentes (inclusive os criadores) – que não detêm os conhecimentos tácitos relacionados aos resultados de diversos cruzamentos – possam reproduzir os animais a partir dos animais disponíveis ou mesmo copiá-los. Isto gerou um aprisionamento dos criadores ao material genético produzido por estas empresas, forçando-os a repor sistematicamente seus plantéis. Ao mesmo tempo, permitiu às empresas manterem seus ativos sob domínio.
É nos anos de 1940 e 1950 que os Estados Unidos também começaram a desenvolver pesquisas com vistas a obter concentrados e formulações de rações que atendessem aos requerimentos nutricionais das novas linhagens animais e medicamentos específicos e mais eficazes no combate e prevenção de doenças. A tendência de melhoramento nos fatores de produção (genética, nutrição e medicamentos) foi reproduzida em outras regiões, tais como Europa durante o pós-guerra (1950 e 1960). Além destes esforços para melhorar os insumos houve também, nas décadas de 1960 e 1970, maior preocupação com questões vinculadas ao manejo dos animais e intensificação da integração entre criadores e empresas processadoras para que o ritmo da produção se elevasse mais rapidamente (LIMA et al., 1995).
Na medida em que a indústria de frango crescia, as empresas processadoras expandiam suas unidades produtivas e adotavam novos sistemas de produção (sistemas integrados e integração de outros elos do complexo avícola) a fim de atender a demanda em rápida expansão.
No entanto, com o rápido crescimento das instalações, problemas sanitários também emergiram, o que levou o governo norte-americano, em 1957, através do Poultry Products Inspection Act, a exigir a presença contínua de inspetores dentro das unidades produtivas. As pequenas processadoras que não conseguiram se adequar às novas normas (principalmente por falta de recursos) fecharam ou foram adquiridas por empresas maiores, resultando num processo de concentração no setor. Como destacado por Bugos (1992), em 1973, as quatro maiores processadoras controlavam 17% do mercado norte-americano. Em 1988, as quatro maiores (Tyson Foods, ConAgra, Gold Kist e Perdue) controlavam 43%.
A presença de poucas empresas no setor de processamento restringiu a demanda por linhagens genéticas, o que favoreceu a manutenção das linhagens mais usadas e, portanto, das poucas empresas que as ofertavam. Em contrapartida, as empresas que não detinham uma marca ou reputação bem consolidada acabaram saindo do mercado, o que resultou também na concentração do setor de genética (BUGOS, 1992).
Há diversos trabalhos que afirmam que o desenvolvimento, no Brasil, de uma avicultura de corte em escala industrial iniciou-se nas décadas de 1960 e 1970 com a importação de linhagens genéticas de frangos19 produzidas por empresas multinacionais norte-americanas, o que viabilizou melhoramentos nas características das aves, tais como ganho de peso, conversão alimentar, idade de abate e rendimento da carcaça. Os avanços na genética foram acompanhados tanto pelo aprimoramento na alimentação (com o fornecimento de rações balanceadas) quanto pelo desenvolvimento de medicamentos para uso animal, indicando uma maior preocupação com os aspectos nutricionais e de saúde das aves. No que tange especificamente à sanidade, a crescente preocupação, não só brasileira, mas mundial, com a segurança dos plantéis foi desencadeada pela emergência, em várias regiões do mundo, de diversas doenças que afetam as aves, resultado do aumento da escala de produção e da falta de cuidados com o manejo destes animais. Diante deste cenário, esforços foram demandados, principalmente dos grandes laboratórios farmacêuticos estrangeiros, no sentido de desenvolver novos princípios ativos que combatessem ou prevenissem estas doenças (LIMA et al., 1995; NICOLAU et al., 2001; ALVES, 2003; SANTINI et al., 2004; TAVARES e RIBEIRO, 2007).
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No Brasil, a introdução de linhagens genéticas híbridas norte-americanas ocorreu por volta de 1959, mediante importação das aves matrizes e, posteriormente, com a importação das aves avós (LIMA et al., 1995).
Seguindo a tendência mundial, o Brasil passou também durante as décadas de 1960 e 1970 a adotar o sistema de integração da produção, mediante consolidação de contratos entre as empresas processadoras e os produtores, inicialmente no oeste do estado de Santa Catarina, difundindo-se para os outros estados produtores de frangos. Alves (2003) menciona em seu trabalho que, atualmente, 90% da produção de frango é realizada mediante sistemas integrados de produção). De acordo com Tavares e Ribeiro (2007, p. 81), “(a) disseminação dos contratos de
parceria favoreceu o rápido desenvolvimento tecnológico da produção e industrialização de aves, gerando ganhos expressivos de produtividade, redução de custos, qualidade e padronização. Com isso, foi possível uma redução consistente dos preços, aumento do consumo doméstico e avanço em diversos mercados internacionais”. Como destacado em reportagem
publicada na revista Avicultura Industrial (n.03/2009), se a avicultura brasileira de corte não estivesse estruturada no sistema de integração, dificilmente o Brasil seria o maior exportador de frango.
Mas é por volta da década de 1970, com a emergência da Biologia Molecular, que o setor avícola mundial passou a apresentar resultados ainda mais expressivos em termos de produtividade, escala e ritmo de produção. A aplicação de técnicas biotecnológicas (biologia molecular e engenharia genética), ao possibilitar a identificação e transferência de um animal para outro dos genes de interesse comercial, viabilizou a produção de linhagens genéticas20 mais propensas a produzir carnes nobres (peitos e coxas) e com menor teor de gordura, a auferir ganho de peso em menor tempo e com quantidades decrescentes de rações (melhor conversão alimentar), a produzir quantidades crescentes de ovos (tanto no caso de frangos de corte quanto no caso das aves poedeiras) e mais resistentes a doenças (ALVES, 2003 e SILVEIRA e BORGES, 2004).
Atualmente, o frango é amplamente demandado pelos consumidores. Muitos autores, entre eles, Martinez e Zering (2004), afirmam que as pesquisas médicas feitas por volta de 1980, ao aliar problemas cardiovasculares ao consumo de carnes com elevados níveis de gordura (colesterol), foram determinantes para que os consumidores passassem a demandar carnes mais saudáveis, entre elas o frango. Aliada à questão da qualidade da carne, há também o fator renda da população, principalmente a dos países em desenvolvimento (com destaque para a China). É
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Atualmente, o termo híbrido não é mais usado na avicultura. Usa-se o termo linhagem genética, resultante do cruzamento de diversas raças.
amplamente reconhecido que o aumento da renda, principalmente das camadas mais pobres da população, desencadeia o processo de substituição de proteínas vegetais por animais, refletindo- se também no consumo de frango. Como apresentado por Zanatta et al. (2002), entre as décadas de 1970 e 1990 o consumo de carnes (bovina, suína e de frango) nestes países cresceu praticamente três vezes mais rápido do que nos países desenvolvidos.
A seção seguinte descreve o complexo avícola de frangos de corte e de postura, apresentando as etapas constituintes da cadeia produtiva, os principais atores envolvidos, direta ou indiretamente, nesta atividade e os encadeamentos tecnológicos existentes neste complexo não somente do ponto de vista das transações relacionadas à compra e venda de produtos, como também da perspectiva dos fluxos de informação que circulam dentro dele.
2.4.O COMPLEXO AVÍCOLA: CARACTERIZAÇÃO E ALGUMAS INOVAÇÕES REALIZADAS