6 RESULTADOS DE UM PERCURSO FORMATIVO ÉTNICO-RACIAL
6.1 A FORMAÇÃO ENQUANTO PROCESSO DE REFLEXIVIDADE,
DIALOGICIDADE E PRODUÇÃO DE CONHECIMENTOS
A formação foi realizada no período de 24 agosto a 7 de dezembro de 2019, sempre aos sábados, no horário de 7 horas e trinta minutos às 17 horas. Cada encontro de formação teve a seguinte organização: o período da manhã foi reservado para os professores responsáveis trabalharem a temática e teoria por meio de aulas expositivas e debates, como mostra a fotografia 1 em que apresentamos o primeiro encontro cuja temática foi “Formação docente e educação para relações étnico- raciais”, mediado pelo professor Aldieris Braz Amorim Caprini.
Fotografia 1 - Primeiro encontro de formação docente
Fonte: Arquivo de imagem da pesquisadora Nádia Juliana Rodrigues Serafim (2019).
Já no período da tarde eram desenvolvidas oficinas por meio da parceria entre as professoras responsáveis (pesquisadoras) e formadores convidados, como podemos ver na fotografia 2 que mostra o processo de realização da oficina “Bonecas de papel”, e também a fotografia 3 que mostra as cursistas e pesquisadora apresentando o resultado da oficina .
Fotografia 2 - Oficina de bonecas de papel
Fotografia 3 - Resultado da oficina de bonecas de papel
Fonte: Arquivo da pesquisadora (2019).
Vale salientar que essa pesquisa teve como enfoque os movimentos formativos que permearam a reflexão sobre as relações étnico-raciais na educação formal por meio dos temas relacionados à literatura afro-brasileira, para os quais foram destinadas uma carga horária de 60 horas, do total das 120 horas realizadas. Nessa etapa, foi proposta a leitura do texto e das imagens de livros de literatura infantojuvenil, e a partir desse movimento de análise das obras foram disparadas problematizações considerando a realidade em que os professores cursistas estão inseridos e, posteriormente, colocaram-se em exercício de elaborar propostas de atividades relacionando literatura e educação para as relações étnico-raciais, numa perspectiva antirracista.
Assim, foi na análise de livros de literatura infantil afro-brasileira em que utilizamos questões com a intenção de provocar a reflexão dos professores cursistas, a citar: a) quais valores podemos trabalhar com esse livro em sala de aula?; b) como esse livro ressoa na vida do aluno?; e, c) na sua opinião esse livro apresenta uma prática pedagógica antirracista?.
Além dessas questões, os professores eram provocados a pensar e elaborar uma sugestão de como trabalhar em sala de aula o livro que estavam analisando. Abaixo,
apresentamos algumas perguntas, e consequentemente, as respostas dadas pelos professores a partir da análise de uma obra de literatura infantil14:
Quais valores podemos trabalhar com esse livro em sala de aula? Podemos trabalhar a valorização da cor preta, a diversidade, cuidado, afeto e amor na relação familiar, gosto pela leitura, o brincar que é retratado no livro e que a criança pode almejar ser o que quiser. (Professor 2)
Dê uma sugestão de como posso trabalhar esse livro:
Pode ser trabalhado de forma reflexiva e dialogada. Ler o livro, fazer uma leitura compartilhada contando com a participação de todos, fazendo também uma releitura com desenhos e expor para toda escola. (Professor 6)
Como esse livro ressoa na vida do aluno?
Depende de como eu apresento. Posso reforçar o racismo, assim como posso valorizar a cultura, a beleza, a família e o cuidado. (Professor 9) Na sua opinião esse livro apresenta uma prática pedagógica antirracista? Justifique:
- Há alguns equívocos, mas que o educador pode ressignificar junto com as crianças e produzir um novo olhar através de algumas reflexões. (Professor 2)
- Sim, pois a criança retratada no livro é uma criança bem cuidada e feliz, que ama o seu cabelo, que ama ser quem é e ela é muito admirada por sua cor. (Professor 8)
Essa dinâmica de análise exigiu dos professores não só permanecer no campo teórico, mas se colocar o movimento de pensar, criticar, discutir e também elaborar propostas relacionadas às suas práticas pedagógicas (Fotografia 4).
Fotografia 4 - Processo de elaboração de práticas educativas
Fonte: Arquivo da pesquisadora (2019).
14 A obra em questão trata-se da história de uma menina negra que quando indagada, por um personagem representado por um coelho, o motivo da sua cor de pele ser “tão pretinha”, acabava por inventar inúmeras respostas.
Nesse viés, o curso de formação ao trabalhar a literatura infantojuvenil afro-brasileira contemplou a relação entre teoria e prática, bem como buscou incentivar o desenvolvimento de atividades nas unidades de ensino pelos cursistas, possibilitando que fossem protagonistas de projetos com ênfase nas diferenças, nas questões étnico-raciais e demais assuntos discutidos no curso, realizando-os junto a seus alunos e envolvendo colegas e gestores nessa produção de conhecimento.
Ibiapina, acerca do protagonismo dos docentes, afirma que
[…] o professor deixa de ser mero objeto, compartilhando com os pesquisadores a atividade de transformar as práticas, a escola e a sociedade, portanto, as pesquisas deixam de investigar sobre o professor e passam a investigar com o professor, trabalhando na perspectiva de contribuir para que os docentes se reconheçam como produtores de conhecimentos, da teoria e da prática de ensinar, transformando assim, as compreensões e o próprio contexto do trabalho escolar. (IBIAPINA, 2008, p. 12,13, grifos nossos)
Desse modo, percebemos a formação continuada como um potente instrumento a ser priorizado na educação, tendo em vista que é um espaço de produção de conhecimento. Além disso, é um mecanismo que auxilia os professores no processo de ensino e aprendizagem de seus estudantes, uma vez que permite a aquisição de conhecimentos teóricos e metodológicos, bem como contribui para a transformação da prática docente, e consequentemente, para a transformação social.
É claro que não podemos atribuir toda a responsabilidade pela transformação do mundo à educação, tendo em vista que ela não é a forma única de transformação social, mas se constitui uma importante ferramenta para que essa ação aconteça de (FREIRE, 1996). Paulo Freire nos alerta, ainda, que essa transformação só se dá por meio da práxis, que ele afirma ser “reflexão e ação dos homens sobre o mundo para transformá-lo” (2017, p. 52). Portanto, apostamos no movimento de ação-reflexão- ação defendido por Freire como mecanismo pelo qual fomos apresentando e discutindo questões pertinentes de combate ao racismo, visando a um impacto positivo e transformador da prática docente.
Ainda sobre a importância do processo reflexão-ação, corroboramos com Ibiapina quando afirma que:
[…] o processo reflexivo exige um mergulho tanto no conhecimento teórico quanto no mundo da experiência, para que se possa desvelar a que interesses servem as ações sociais e como elas reproduzem práticas ideológicas, isto é, a reflexão oferece mais poder para os professores (re)construírem o contexto social em que estão inseridos, proporcionando condições para que esses profissionais compreendam que, para mudar a teoria educacional, a política e a prática, é necessário mudar a própria forma de pensar e agir. (2008, p. 18)
Por isso, foi primordial nessa formação com enfoque antirracista, possibilitar o diálogo e a reflexão sobre questões que envolvam a diversidade cultural e étnico-racial, pois entendemos que são esses movimentos dialógicos e reflexivos que nos levam a identificar e compreender as manifestações de preconceitos que permeiam a vida escolar e a forma como temos tratado a questão. Ademais, é através dessa formação que somos movidos a buscar estratégias de como agir frente a essas adversidades.
Por conseguinte, uma estratégia de ação de combate ao racismo, dentre outras que foram pensadas no decorrer do curso, materializou-se através do produto educativo. Considerando as discussões, oficinas e rodas de conversa desenvolvidas ao longo da formação, foi realizada, junto aos cursistas, a elaboração do produto educativo: material textual para suporte ao professor na observação de suas próprias práticas, permitindo a reflexão de suas posturas, visando a uma educação antirracista. E é sobre o material educativo que falaremos a seguir.