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CAPÍTULO 1 O SIGNIFICADO DO PROFESSOR ITINERANTE

1.4 Os princípios da inclusão e a constituição identitária do professor itinerante

1.4.3 A Formação Profissional do Professor Itinerante

A função do professor encontra-se alicerçada numa concepção de ensino tradicional, de caráter propedêutico e enciclopedista, onde este profissional é o detentor dos conhecimentos e será o transmissor para o aluno que, passivamente, irá absorvê-lo e incorporá-lo. Nesse modelo, não existe espaço para a construção de saber pelo aluno, uma vez que o aprendiz estará envolvido com a reprodução do conhecimento transmitido pelo docente.

Esta prática pedagógica perdurou durante muitas décadas nas escolas de Ensino Fundamental e foi a partir dela que muitos professores itinerantes se embasaram para vivenciar a sua docência.

Com o avanço das Ciências, especialmente através da Psicologia Cognitiva, principalmente com a contribuição dos estudos de Piaget, Vygotsky, Freinet, dentre outros, o foco do ensino deixou de ser o professor, colocando o aluno no centro desse processo. Essas teorias trazem à tona a exigência de uma nova abordagem educacional, respeitando-se o espaço do aluno na construção do conhecimento, o seu nível de desenvolvimento, valorizando suas construções, encarando o erro enquanto etapa de aprendizagem.

Desta feita, são exigidos do professor uma nova postura, um novo olhar, uma outra prática pedagógica, uma vez que as teorias construtivistas e sócio-interacionistas não permitem mais um professor castrador e reprodutor de conhecimentos.

Nesse processo, Libâneo (1986) situa, dentre outras, as abordagens progressistas: libertárias e libertadoras na Pedagogia, contribuindo para a ruptura com os modelos reprodutivistas de ensino-aprendizagem.

Apesar desses avanços conceituais, na prática docente são vivenciadas diferentes concepções pedagógicas por diferentes professores. Segundo Cavalcanti (1998, p. 06), “tudo vai depender de sua visão de mundo, homem, sujeito e, principalmente, de sua formação inicial e continuada”.

Sob essa égide, a LDBEN N° 9394/96 anuncia qual o nível de formação que o professor deve adquirir para atuar no Ensino Fundamental:

A formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, em universidades e institutos superiores de educação, admitida, como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nas quatro primeiras séries do ensino fundamental, a oferecida em nível médio na modalidade normal (BRASIL, 1996, p. 48).

Deste modo, os Referenciais Curriculares Nacionais para a Formação de Professores, da Secretaria de Educação Fundamental – Ministério da Educação (BRASIL, 1999), alertam que esse professor deve ter, no nível dos saberes docentes, as seguintes características no exercício profissional:

 Conhecimento sobre crianças, jovens e adultos;

 Conhecimento sobre a dimensão cultural, social e política da educação;  Conhecimento da Cultura geral e profissional;

 Conhecimento pedagógico;

 Conhecimento experiencial contextualizado em situações educacionais.

Vale salientar que se espera desse profissional um novo perfil, uma nova roupagem, distinta daquela à qual ele foi inicialmente formado.

As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, através do Parecer do CNE/CP N° 0009/01 (BRASIL, 2001, p. 04), descreve o perfil profissional que o professor da Educação Básica deve incorporar. Dentre outros aspectos, destacam-se:

 orientar e mediar o ensino para a aprendizagem dos alunos;  comprometer-se com o sucesso da aprendizagem dos alunos;  assumir e saber lidar com a diversidade existente entre os alunos;  elaborar e executar projetos para desenvolver conteúdos curriculares;  utilizar novas metodologias, estratégias e materiais de apoio;

 desenvolver hábitos de colaboração e trabalho em equipe.

Santana (2005, p. 105-106) relata que a função educativa para o professor do Ensino Fundamental perdura desde a criação do Curso de Pedagogia. Assim, a autora contextualiza historicamente a formação do professor:

Constatamos, através da história da formação de professores no Brasil que a discussão a respeito do pedagogo como profissional, sua identidade, campo de trabalho e formação, perdura desde a criação do curso de Pedagogia em 1939. Desde então, surgem concepções com relação a função educativa desse profissional.

Mizukami et al. (2000) anunciam que a partir da formação continuada esteja sendo reconstruída a identidade docente. Os autores exprimem a importância da formação continuada tratar de problemas educacionais, a partir da reflexão crítica sobre a prática pedagógica, abrindo caminhos para o desenvolvimento profissional, abolindo o caráter meramente tecnicista de reciclagem.

Segundo as Diretrizes Nacionais de Educação Especial na Educação Básica (BRASIL, 2001), o perfil do Professor de Educação Especial baseia-se nos requisitos para o exercício da docência no Ensino Fundamental, acrescidos da formação continuada, através de cursos de especialização lato-sensu, onde o professor irá adquirir as competências necessárias para trabalhar com o aluno com Necessidades Educacionais Especiais, inclusive com os alunos com deficiência:

[...] Essa política inclusiva exige intensificação quantitativa e qualitativa na formação de recursos humanos e garantia de recursos financeiros e serviços de apoio pedagógico públicos e especializados para assegurar o desenvolvimento educacional dos alunos (p. 29-30).

As mesmas Diretrizes apontam para o inciso III do artigo 59 da LDBEN Nº 9394/96, (BRASIL, 1996) referindo-se a dois perfis de professores para atuar com alunos que apresentam necessidades educacionais especiais: o professor da classe comum capacitado e o professor especializado em educação especial.

Assim, são considerados professores capacitados para atuar em classes comuns com alunos que apresentem necessidades educacionais especiais aqueles que comprovem que, em sua formação, de nível médio ou superior, foram incluídos conteúdos ou disciplinas sobre educação especial e desenvolvidas competências para:

I – perceber as necessidades educacionais especiais dos alunos;

II – flexibilizar a ação pedagógica nas diferentes áreas de conhecimento; III – avaliar continuamente a eficácia do processo educativo;

IV – atuar em equipe, inclusive com professores especializados em educação especial.

São considerados professores especializados em educação especial aqueles que desenvolveram competências para identificar as necessidades educacionais especiais, definir e

implementar respostas educativas a essas necessidades, apoiar o professor da classe comum, atuar nos processos de desenvolvimento e aprendizagem dos alunos, desenvolvendo estratégias alternativas, entre outras, e que possam comprovar:

a) formação em cursos de licenciatura em educação especial ou em uma de suas áreas, preferencialmente de modo concomitante e associado à licenciatura para educação infantil ou para os anos iniciais do ensino fundamental; e

b) complementação de estudos ou pós-graduação em áreas específicas da educação especial, posterior à licenciatura nas diferentes áreas do conhecimento, para atuação nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio.

Por conseguinte, o professor itinerante terá um perfil diferente daquele para o qual ele foi formado, ou seja, para ser professor do Ensino Fundamental, como também se distanciará do professor que atendia ao aluno com deficiência, a partir das dificuldades diagnosticadas, num atendimento segregacionista. Nessa interface, ele adquirirá uma identidade diferente das duas proposições para as quais tinha se instrumentalizado, possibilitando, assim, a reconstrução de uma outra identidade no exercício de sua docência.

O próximo capítulo discorrerá sobre a prática pedagógica do professor itinerante e a constituição da sua itinerância, frente à Política de Educação Integradora e Inclusiva, postulando a inserção da pessoa com deficiência na sala comum da escola regular, situando o fazer pedagógico desse docente, bem como elucidando o papel do professor itinerante frente à escola acolhedora da diversidade.

CAPÍTULO 2 - A PRÁTICA PEDAGÓGICA E A CONSTITUIÇÃO DA