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A forma como as c/j entram em acolhimento

Capítulo II – Acolhimento institucional de crianças e jovens: contributos internacionais e a experiência da Casa Pia de Lisboa

3. Acolhimento institucional de c/j

3.1 A forma como as c/j entram em acolhimento

Uma síntese apresentada por Kendrick (1998), nos EUA, sobre os cuidados prestados em acolhimento, menciona que as c/j ingressam devido a dificuldades familiares, problemas escolares ou a maus-tratos.

Outra pesquisa americana, conduzida por Courtney et al. (2001), refere que bastantes vezes, os cuidadores das c/j têm historial de abuso de substâncias (álcool/drogas) e existe doença mental de um deles. Confirma-se violência domestica e reclusão de, pelo menos, um dos cuidadores e verifica-se a inexistência de competências parentais e situações de negligência, abandono, abuso físico e de abuso sexual, em menor número de casos. Quando dá entrada em acolhimento, por ordem judicial, a maioria das c/j já experienciou, pelo menos, uma forma de maus-tratos. Ainda nos resultados deste trabalho, verifica-se o aumento da incidência de situações de negligência e de abuso infantil ao mesmo tempo que se verifica o aumento de casos de toxicodependência. Há pais que não têm as competências básicas, apesar de possuírem altruísmo e amor pelos filhos - nesses casos, o Estado deve agir

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como pais de substituição, mas os pais ainda são relativamente melhores e podem tornar-se mais competentes e produtivos nas suas funções.

Considerando as conclusões de um estudo realizado em Portugal por Figueiredo et al. (2001), as experiências de maus-tratos, negligência e abuso sexual, durante a infância e a adolescência, são relatadas por um elevado número de indivíduos na idade adulta. Com frequência, as vítimas de abuso físico são igualmente vítimas de abuso sexual. O abuso é mais corrente antes do que depois do início da adolescência, tanto no que se refere ao abuso físico como no que se refere ao abuso sexual. Tomamos conhecimento, em maior número, de vítimas de abuso (físico ou sexual) de mulheres do que de homens. Os abusadores sexuais das c/j podem acontecer dentro ou fora da família. Os maus-tratos físicos ocorrem em maior número no seio familiar. Podem ocorrer abusos com ou se sem sequelas, sendo que o abuso com sequelas é menos frequente depois dos treze anos de idade. Figueiredo et al. (2001), concluem que é elevado (73.2%), o predomínio de história de abuso na infância ou adolescência dos pais portugueses (n=932).

Os investigadores britânicos Martin e Jackson (2002), concluíram que o acolhimento institucional acontece devido a circunstâncias familiares e não por “culpa” das c/j, pois estas são vítimas de abuso/negligência/rejeição e apresentam baixa autoestima. Advêm de famílias altamente desfavorecidas que vivem em comunidades carenciadas.

Hartley (2002), no campo de ação de um estudo concebido nos EUA, expõe que nem sempre a violência doméstica coocorre com os maus-tratos infantis e negligência. A coocorrência de violência doméstica e maus-tratos infantis estão relacionados com situações socioeconómicas frágeis, agregados familiares de grandes dimensões, presença de doença mental, presença de fatores de stress e consumo de substâncias dos cuidadores. Este autor conclui que as c/j do sexo masculino apresentam maior risco de serem abusadas fisicamente. A negligência infantil existe num quadro familiar onde ocorrem ou coocorrem as seguintes características: desemprego; famílias monoparentais; famílias numerosas; cuidadores que abusam de substâncias; depressão materna ou outras doenças mentais crónicas; antecedentes criminais dos pais. O abuso físico infantil existe num quadro familiar onde ocorrem ou coocorrem as seguintes características: cuidadores que abusam de substâncias; famílias monoparentais. Os agressores podem exercer poder e controlo substancial sobre as suas vítimas para evitar a divulgação do abuso e podem tender a isolar

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socialmente as vítimas. Hartley (2002) sublinha que a violência conjugal pode afetar negativamente a qualidade de comportamentos parentais da mulher uma vez que existem múltiplas vulnerabilidades.

Segundo o autor britânico Corby (2003), o apoio às famílias é a melhor forma de proteger as crianças através de uma intervenção precoce. Existe a necessidade de proteger as crianças do abuso dentro da família sem prejudicar a família. É necessário responder com maior ênfase no apoio à família e na prestação de garantias às crianças. Os riscos infantis devem ser avaliados capazmente pelos interventores sociais. Uma grande quantidade de abusos infantis ainda não é respondida de forma eficaz pelas agências estatais.

Para o investigador americano Hammond (2003), os maus-tratos infantis constituem um grave problema de saúde pública que levam à presença de doenças nos adultos e podem ser prevenidos através de intervenções precoces que promovam as competências parentais e não devem se tolerados nos diferentes contextos sociais.

No prisma dos autores norte americanos Slack et al. (2004), as características relacionadas com uma parentalidade marcada por dificuldades socioeconómicas (desemprego; falta de afeto; punições físicas; muito tempo perante a televisão) são indicadores de negligência infantil. A maioria dos pais pobres não negligência seus filhos mas outros sim. A pobreza, apenas por si, não explica a existência de negligência pois é relevante a natureza e a qualidade da prestação dos cuidados prestados. Nos EUA, o CAPTA (Child Abuse Prevention and Treatment Act)18 define quatro formas de maus tratos: 1. abuso emocional; 2. negligência (física, educacional,) emocional; 3. abuso físico; 4. abuso sexual. Os agregados familiares mais pobres são mais propensos a negligenciar as c/j, mas as intervenções precoces junto das famílias reduzem a incidência de abuso infantil, sendo que a negligência pode coocorrer com outras formas de maus-tratos. O tempo que as c/j passam a ver televisão pode estar relacionando com interações familiares menos frequentes, com obesidade, menor desempenho escolar, comportamentos agressivos, deficit de atenção, hiperatividade e negligência/abandono. Estes autores referem que certos indicadores de pobreza podem estar associados com o risco de negligência física infantil e é preciso explorar a forma como os vários aspetos da pobreza se relacionam com as múltiplas configurações de

18 Cf. Slack, K. S. et al. (2004). Understanding the Risks of Child Neglect: An Exploration of Poverty and Parenting Characteristics. Sage Publications & American Professional Society on the Abuse of Children, pp. 395– 408. United Kingdom.

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maus-tratos. As estratégias de prevenção da negligência infantil devem atender às necessidades materiais das famílias específicas.

De acordo com o estudo de autoria do canadiano Ungar (2004), os jovens que ingressam em acolhimento são de alto risco, marginalizados pela pobreza, estigma social, pelas suas características pessoais e físicas, etnia ou desempenho escolar. A remoção das c/j de suas casas para evitar a sua exposição ao risco não aumenta o seu bem-estar nem promove o apego aos prestadores de cuidados. É referido que quando os ambientes domésticos são caóticos, os jovens vão procurar apoio em adultos significativos com os quais se identificam, mas os jovens também podem assumir os comportamentos negativos dos seus pais para ganhar um status igual ao deles.

De acordo com um estudo australiano, realizado por Cashmore et al. (2007), as c/j são institucionalizadas devido a problemas relacionados com a incapacidade educativa dos pais, negligência, situações de doença, em que se inclui a doença mental, abuso de substâncias (álcool e droga), abuso sexual e pobreza.

Em conformidade com o estudo elaborado nos EUA por Staudt (2007), as c/j oriundas de famílias com carência socioeconómica e multidesafiadas podem-se envolver menos nos acompanhamentos psicoterapêuticos. As crianças maltratadas são clientes mais comuns nestes acompanhamentos mas são necessárias estratégias para os envolver, tal como as suas famílias. Devem ser feitos esforços para que os acompanhamentos não sejam apreendidos pelos indivíduos como coercivos ou intrusivos.

Tendo em consideração uma investigação sueca liderada Vinnerljung e Sallnäs (2008), o acolhimento institucional acontece, sobretudo, devido a maus-tratos e problemas comportamentais, com relevo para os adolescentes masculinos.

A pesquisa na Austrália, levada a cabo por Raymond e Heseltine (2008), transmite que as c/j que são acolhidas são vítimas de traumas e de maus-tratos que os conduzem à institucionalização.

No âmbito da pesquisa comandada por Jones (2008), nos Estados Unidos, apreendemos que entre as c/j que ingressam em acolhimento institucional se verifica trauma emocional (abuso e perda), o rompimento de laços familiares e comunitários e

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A investigação canadiana concretizada por Marquis et al. (2008), refere que o abuso e a negligência ocorrem dentro de sistemas familiares complexos que apresentam diversos fatores de risco. Os cuidadores abusam de substâncias e existe violência doméstica.

Para Griffith et al. (2009), num trabalho de investigação sobre a realidade americana, as raparigas apresentam, de forma crescente, delinquência e comportamento antissocial. Muitas vezes, esses jovens exibem um alto grau de psicopatologia e problemas de comportamento.

Os pesquisadores Forrester et al. (2009), ajudam a traçar a situação sobre esta temática na Inglaterra e no Pais de Gales, dizendo que tem que haver uma concentração no que acontece antes de entrarem em acolhimento, pois a grande maioria das crianças sofreram abusos ou negligência, e a maioria dos pais tem problemas de drogas ou álcool ou doença mental. Altas proporções de c/j são vítimas de violência doméstica e estas não são as famílias que se envolvem facilmente com os serviços.

O trabalho de investigação, concretizado em Portugal e desenvolvido por Bastos e Machado (2009), aclara que os domínios da habitação e da integração social são aqueles em que as c/j são mais carenciadas. As crianças incluídas em famílias grandes ou com composições incomuns estão particularmente em risco. A privação das crianças é particularmente afetada por questões relacionadas com a educação, saúde, habitação e integração social.

O estudo realizado nos EUA por Hagaman et al. (2010), concluiu que a maior parte das famílias das c/j que ingressam em acolhimento têm baixas possibilidades socioeconómicas. Genericamente estas c/j, antes de serem admitidos, já experimentaram abuso ou negligência e instabilidade familiar; passaram por diversas casas e inserem-se num meio escolar e social carenciado.

Uma pesquisa feita na Escócia por McClung e Gayle (2010), indica que o tipo de colocação, os motivos conducentes ao acolhimento e a idade à data de acolhimento, se revelam determinantes para o sucesso escolar. O meio de origem tem um papel importante na realização educacional das crianças que sofreram desvantagens iniciais. Existem fatores socioeconómicos de risco, que são associados com as ruturas familiares e de admissão nos cuidados que levam ao insucesso escolar.

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Para a investigadora australiana Bessell (2011), as crianças que foram afastadas dos seus pais para serem acolhidas, sofreram negligência, trauma ou abuso e, às vezes, as três coisas em sobreposição.

Os investigadores americanos Olmstead et al. (2011), apuraram que as c/j em acolhimento demonstram várias fragilidades – falta de apoio social e financeiro; problemas de saúde mental; progenitores com abuso de substâncias ou reclusos.

A partir do ponto de vista do pesquisador americano Robinson et al. (2012), relativamente às c/j que ingressam em acolhimento, fazem-se sentir os efeitos do risco familiar (maternidade adolescente ou solteira, baixa escolaridade materna, a instabilidade residencial). O aumento dos rendimentos do agregado familiar é associado com a diminuição dos problemas emocionais e comportamentais das c/j.

Da análise dos pesquisadores britânicos Welbourne e Leeson (2012), as c/j que entram em acolhimento apresentam uma história familiar de violência e de abuso (multidesafiadas), sendo que sofreram negligência, stress ou disfunção familiar antes entrarem no sistema de cuidados (maus-tratos significativos) e muitos mantêm memórias vivas desse tempo. A experiência de pré-acolhimento e as dificuldades familiares em curso podem contribuir para a persistência de realizações baixas. Na entrada para o acolhimento, mais de metade das crianças manifesta dificuldades escolares específicas, incluindo atitudes, comportamentos ou problemas motivacionais e insucesso escolar. Têm altos níveis de distúrbios psicológicos que afetavam o humor, o comportamento e a capacidade relacional e significativos problemas de atenção, interação social, ansiedade e agressividade. Uma proporção alta está atrás do grau apropriado para a sua idade e muitos estão no intervalo clínico para um ou mais problemas emocionais e comportamentais. O abuso emocional e a negligência são traumáticos, muitas vezes crónicos e apontam para dificuldades cognitivas e de desenvolvimento, incluindo a resolução de problemas e competências emocionais. A exposição ao trauma é ligada à baixa escolaridade. Muitos entram nos cuidados depois de experiências traumáticas, sendo provenientes de famílias stressadas socioeconomicamente e encaram o acolhimento como sendo, ele próprio, muitas vezes traumático. A negligência precoce e a subestimação pode levar à extinção de caminhos neuronais que sustentam o desenvolvimento da linguagem e o desenvolvimento cognitivo-comportamental e sócio

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emocional. A depressão materna é um fator de risco para a realização educacional, bem como para o ajustamento social.

A criança maltratada surge, enquanto fenómeno, predominantemente em cenários de exclusão e de desagregação social em que aparece facilitada a continuidade do ciclo de pobreza e de outras adversidades.