CAPÍTULO 2: Em busca da trajetória e das ações formativas dos formadores de professores:
2.4 A forma de tratamento e análise dos dados
Para realizarmos o movimento de análise dos dados coletados na pesquisa, partimos de dois pressupostos importantes: de que “este é o momento de fazer as mediações entre a teoria e a experiência vivida em campo, de dialogar com a teoria e com os dados, num movimento de vaivém que envolve rearranjos, recomposições, abstrações e que culmina em nova estruturação do real” (ANDRÉ, 1997, p. 106); e, ao mesmo tempo, de que “não há um momento de esgotamento da análise quando se trabalha com análise qualitativa, o que há é um momento em que é necessário recortar a forma de olhar e buscar a satisfação e o gozo das descobertas.” (SADALLA et al., 2005, p. 77).
Sendo assim, construímos nossa forma de olhar a partir de dois movimentos diferentes de análise: o primeiro representou uma tentativa de interpretação das informações coletadas em cada instrumento utilizado na pesquisa, e no segundo, todo o material foi trabalhado conjuntamente em um processo de triangulação dos dados.
2.4.1 Primeiro movimento de análise
Os dados coletados no questionário passaram por um processo de organização antes de serem analisados, conforme orientação proposta por Diehl e Tatim (2004). Inicialmente foi feita uma seleção deles que consistiu em verificar se houve alguma falha ou erro no seu preenchimento, bem como a presença de informações incompletas e/ou confusas.
Após essa verificação, realizamos uma classificação que se referiu à organização dos questionários em um arquivo separado por pastas, sendo uma para cada curso de licenciatura, além disso, elas também foram dispostas em ordem alfabética. Dentro destas, os questionários eram acrescentados respeitando-se a ordem de chegada deles. Outro dado importante é que a forma como foi feita a disposição facilitou o manuseio e a localização desses documentos nos períodos de recebimento e organização.
A etapa seguinte desse processo correspondeu à codificação dos questionários, momento em que lhes foi atribuído um número de 1 a 88. Todas as informações contidas nesse instrumento foram digitadas em uma planilha do Microsoft Excel 1997-2003, o que possibilitou um posterior agrupamento em tabelas dinâmicas, a realização de cruzamentos de dados e a construção de tabelas e gráficos utilizados nas análises desenvolvidas.
Dessa forma, a última etapa do processo que se configura, a representação, consistiu em uma forma de apresentar os dados, de modo a facilitar que fossem estabelecidas relações entre eles e destes com as hipóteses ou perguntas da pesquisa.
Devido à escassez de pesquisas em relação aos formadores de professores e especificamente, aos formadores de professores da UFU, os dados coletados no questionário nos permitiram realizar um estudo exploratório do perfil desses docentes ao apresentá-los quanto às suas identificações, formações acadêmicas e percursos profissionais.
Um processo diferente de análise foi utilizado para as entrevistas realizadas. Os depoimentos advindos delas totalizaram, aproximadamente, 345 páginas transcritas, sendo, em média, 19 para cada formador de professor. Esse material foi lido exaustivamente para que fossem selecionadas as verbalizações que nos permitissem compreender o percurso de formação dos docentes, as influências recebidas por eles nesse processo, o que pensam sobre suas formas de ensinar e aprender, quais são os saberes e os conhecimentos que utilizam em suas práticas e sobre o ser e o fazer desses profissionais.
Assim sendo, inicialmente os depoimentos foram divididos em temáticas, sendo estas agrupadas em três grandes blocos:
1º) A trajetória familiar dos formadores de professores da UFU, 2º) A trajetória acadêmica dos formadores de professores da UFU, 3º) A trajetória profissional dos formadores de professores da UFU.
Esses agrupamentos nos permitiram construir, a partir de suas histórias, a trajetória formativa dos participantes da pesquisa e verificar como estes se constituíram enquanto docentes e enquanto formadores, considerando que essa “construção depende da experiência pessoal, das teorias do seu conhecimento e das suas crenças e valores.” (SZYMANSKI, 2004, p. 75).
Nessa perspectiva, tivemos como objetivo interpretar os depoimentos dos participantes à luz de referenciais sobre a formação e os processos de aprendizagem docente, identidade, saberes e práticas de professores no Ensino Superior. Essa análise nos permitiu compreender suas concepções ao vinculá-las a outros conhecimentos, dando-lhes um significado mais amplo.
A última fase do nosso primeiro movimento de análise se refere aos dados coletados na observação da prática pedagógica em sala de aula e na análise documental. A opção de analisarmos conjuntamente esses dois instrumentos se justifica pelo fato de que estes nos permitiram conhecer sobre as ações formativas dos docentes junto aos seus alunos, tanto a
partir da realidade observada quanto dos aspectos que nortearam as concepções trabalhadas por esses profissionais com o seu público.
Assim, essa análise foi alicerçada nas temáticas que emergiram no contexto de aula que foram divididas em:
1) Os objetivos que orientam as ações do docente;
2) Os conteúdos que foram trabalhados durante as aulas: políticos, disciplinares, pedagógicos e humanos;
3) As práticas pedagógicas utilizadas pelo professor na formação de seus alunos; 4) A unidade teoria-prática na formação dos docentes.
É importante esclarecer que em todos os momentos da pesquisa utilizamos a análise documental para o alcance dos nossos objetivos e, ainda, que a forma de tratamento dos dados da observação e dos documentos não foi realizada sem considerar o contexto mais amplo onde estes foram produzidos, ou seja, na qual os formadores de professores e alunos faziam parte e, ainda, o contexto social no qual esse local está inserido.
2.4.2 Segundo movimento de análise
Neste segundo momento, realizamos a triangulação dos dados coletados durante a pesquisa que se caracteriza por permitir uma nova maneira de apresentação das informações apoiada em um referencial teórico e por se constituir em uma alternativa que possibilita uma abordagem bastante ampliada do fenômeno pesquisado.
Consideramos que a triangulação nos permitiu além de articular as três fontes de dados para atender realmente aos objetivos propostos, também compreender o formador de professores não somente em seus aspectos objetivos, mas também em sua subjetividade, na percepção dos motivos e sentidos pessoais influentes em suas ações, ajudando-nos a identificar como se articula suas trajetórias formativas para com seus alunos.