4. Palavras sobre a arte de trabalhar com palavras
4.2 A escrita: entre formas e conteúdos
4.2.2 A forma: reivindicando uma qualidade literária
Onde o otimismo teórico esbarra – e, às vezes, fracassa – a arte volta a ser necessária. O resultado, então, não poderia ser outro: o conhecimento transmuta-se em arte (LARROSA, 2019). Retomo as palavras de Larrosa (1994), de Silva (2004), e de Paraíso (2012) a fim de mostrar como, neste empreendimento autobiográfico, escrever não apenas pela retórica, mas também, e sobretudo, pela/com poética, é não somente possível e desejável, mas importante. Se recordação implica imaginação, se narrar é, fundamentalmente, inventar-se (LARROSA, 1994), e se escrever nossas experiências (ou sobre elas) requer que transformemos nossas palavras em material artístico (LARROSA, 2019), narrativas dotadas de poética são possíveis.Se o estilo12 de escrita na pesquisa educacional passou a ser pensado como um problema (SILVA, 2004), e se os modos de escrita podem articular-se às escolhas teórico-políticas de
11 São diversos os estudos (PASSEGGI, SOUZA, VINCENTINI, 2011; GASTAL, AVANZI, 2015; LIMA, GERALDI, GERALDI, 2015; NOVAIS, CÔCO, 2018; DELORY-MOMBERGER, 2018;) que falam sobre as potencialidades das pesquisas com narrativas (auto)biográficas na formação docente. Contudo, optei por não falar sobre as potencialidades da minha pesquisa em particular, pois parto do pressuposto, concordando com Larrosa (2019), de que o caráter pedagógico de um texto é um efeito de leitura, que depende das condições de leitura, que são sempre singulares. Portanto, prefiro não definir a priori as potencialidades dos meus escritos.
12 A noção de estilo [...] afasta-se totalmente de qualquer associação com a noção tradicional de estética, relacionada à obtenção do belo para efeitos de contemplação e fruição pessoal. [...] O estilo, na concepção deleuziana, está mais para desagradar que para agradar. Escreve-se, e escreve-se com estilo, para devir. [...] Trata- se de submeter a língua a uma tensão tal que permita acompanhar o movimento das multiplicidades, fluindo mais em ressonância com o fluxo da vida (SILVA, 2004).
quem escreve (LOURO, 2007; MAKNAMARA, 2020b), adotar um estilo próprio de escrita é desejável. E se a atividade poética, como invenção e multiplicação de sentidos, é um procedimento caro às pesquisas pós-críticas (PARAÍSO, 2012), então pesquisas poéticas com narrativas (auto)biográficas são importantes.
A experiência, não a verdade, é que dá sentido à escritura, dizem Larrosa e Kohan (2019).
Escrevemos para transformar o que sabemos e não para transmitir o já sabido (LARROSA, KOHAN, 2019). Assim, é importante se colocar na linguagem de maneira inédita, numa posição em que se está na linguagem e contra a linguagem, a fim de ampliar o campo do dizível (LARROSA, 2019). Além disso, a escrita pode bastar em si mesma, sendo esse “jogo de signos comandado menos por seu conteúdo significado do que pela própria natureza do significante”, e sempre “em vias de transgredir e de inverter a regularidade que ela aceita e com a qual se movimenta” (FOUCAULT, 2009, p. 268).
Ademais, muitas vezes o poder está em todas essas incitações que nos exigem falar – e escrever – “como está ordenado, segundo certos critérios de legitimidade”13 (LARROSA, 2019, p. 62). Contudo, diante da relação de poder, se abre todo um campo de respostas, reações, efeitos e invenções possíveis (DREYFUS; RABINOW, 1995). Isso porque no centro da relação de poder, “provocando-a” incessantemente, encontra-se a recalcitrância do querer e a intransitividade da liberdade (DREYFUS; RABINOW, 1995). Por isso, o caminho metodológico aqui proposto lida com o desejo não como falta, mas como afirmação, como atividade de produção, como transgressão, pois o desejo nos move (LEÓN, 2012). Lida com o desejo como potência, como alegria, pois “para desejar é necessário experimentar com sua própria potência”, e “desejar é construir um agenciamento, construir um conjunto” (PARAÍSO, 2009, p. 280). São tais as escolhas teórico-políticas que movem a minha escrita.
A partir de tais pressupostos e escolhas teórico-políticas, passo agora às formas que me inspiram a escrever. Inspiro-me em três formas-ideias: a escritura de uma vida (CORAZZA, 2010; GONÇALVES, 2013); a intertextualidade (LARROSA, 2019); e a literariedade (LARROSA, 2019). Sendo a escrita a matéria de toda autobiografia, o que nela deve nos encantar não é a vida que busca representar, mas uma vida que procura inventar-se na escrita,
13 Porque não há políticas da verdade que não sejam, ao mesmo tempo, políticas da língua. Dito de outro modo, “os aparatos de produção, legitimação e controle do conhecimento são, indistintamente, aparatos de produção, legitimação e controle de certas linguagens” (LARROSA, 2019a, p. 60).
e que desta vida inventada possa saltar signos que eventualmente nos toquem (CORAZZA, 2010; GONÇALVES, 2013). Assim, a escritura14 - não mais a escrita como uma escrita profissional – de uma vida se aproxima mais de uma “seleção, recolhimento, e revalorização de resíduos difusos, excertos, cortes, hiatos, esgarçamentos miúdos, imagens inacabadas” (CORAZZA, 2010, p. 7-8). Segundo Corazza (2010, p. 7-8), “a natureza dessa escritura é feita com lembranças fragmentárias de linguagem que pululam [...] Coletamos, portanto: traços biográficos, que são aqueles que, em uma vida, nos ‘encantam tanto quanto uma fotografia’”. Primeiro, uma escritura fragmentária, para escrever traços biográficos. Por sua vez, a intertextualidade diz respeito à coexistência de vários discursos num único espaço textual (LARROSA, 2019). Partindo do pressuposto de que um texto é feito de escrituras múltiplas, oriundas de várias culturas, sendo, portanto, plural (BARTHES, 2004), me apoio na escrita de algo como um gênero híbrido e excêntrico: uma forma de expressão que mistura estilos e formas existentes15, que “infringe a lei da forma linguística unitária”, e que constitui “um tipo de arte em que cada um dos elementos permanece como que descentrado por sua relação com os demais” (LARROSA, 2019, p. 148). A escolha pela intertextualidade se relaciona com a noção de heterogeneidade discursiva, uma vez que o discurso não é a manifestação de um sujeito que pensa, mas um conjunto em que podem ser determinadas a dispersão do sujeito e sua descontinuidade em relação a si mesmo (FISHER, 2001). Assim, a intertextualidade é, também, interdiscursividade, e esta permite que aflorem as contradições, as diferenças, os apagamentos, permite deixar aflorar a heterogeneidade que subjaz a todo discurso (FISHER, 2001). Segundo, uma escritura dotada de inter(textualidade/discursividade).
Seguindo os rastros do desejo, cheguei à literatura. Chegando lá, soube que “todo texto escrito tem o potencial de ser ou de não ser literatura, segundo seja recebido, digamos, como espetáculo ou, digamos, como mensagem” (GENETTE, 1966, p. 146). Assim, compreendi que o caráter literário de um texto, a sua “literariedade”, é uma qualidade que se pode reivindicar acerca de qualquer objeto de escrita, pois “todo texto pode ser lido como um texto literário se atentarmos para a sua forma linguística, a sua literariedade, a sua retórica” (LARROSA, 2019, p. 161). Escolhi a linguagem literária pois ela não intenta ser um tipo de linguagem “arrogante e
14 Roland Barthes (1987) propõe o uso do termo escritura para designar todo discurso em que as palavras não são usadas como instrumentos, mas postas em evidência (encenadas, teatralizadas) como significantes. Para o autor, a escritura se encontra em toda parte onde as palavras têm sabor.
15 Ao misturar estilos e formas, oscila entre a narrativa a lírica, e o drama, entre a prosa e a poesia, entre a filosofia e a literatura, por exemplo (LARROSA, 2019, p. 148).
dominadora que pretende iluminar e esclarecer, explicar, dar conta das coisas, dizer tudo” (LARROSA, 2019, p. 94), mas que sabe respeitar o indizível, conservando-o como o misterioso inexprimível. A escolhi, ainda, porque fazer a escritura de uma vida requer que escrevamos uma linguagem da experiência, que é sempre uma linguagem que parte do ponto de vista da paixão (LARROSA, 2019a). Pois a experiência exige outra linguagem transpassada pela paixão, “capaz de enunciar singularmente o singular, de incorporar a incerteza” (LARROSA, 2019a, p. 69). Por fim, uma escritura dotada de “literariedade”.
As ideias supracitadas consistem em inspirações para a minha escrita. Contudo, como é próprio das pesquisas pós-críticas, em nossas investigações temos que ser não apenas rigorosos/as, mas também inventivos/as (PARAÍSO, 2012, p. 43). Por isso, decidi, inspirado nas formas-ideias acima, nomear e operar com uma forma própria de escrita. O faço porque desejo sentir que “as palavras que uso têm a ver comigo, que as posso sentir como próprias, que são palavras que me dizem” (LARROSA, 2019a, p. 70); porque escrever uma vida só tem sentido com “palavras que posso chamar de minhas, ou seja, palavras que não sejam independentes de mim” (LARROSA, 2019a, p. 71). Esta forma própria é uma escrita mesmo com tons disso e daquilo, uma escrita que nem mesmo sabe o que é, mas que se move a partir do desejo. E se move a partir do desejo porque, ao tomar a palavra, não o faço porque sei, mas porque quero, desejo e amo; não a tomo porque sei o que quero dizer, mas porque sei o que quero: dizer (LARROSA, 2019). Por se mover a partir do desejo, tal escrita busca ser outras coisas, sempre, sem parar; busca devir. Ao se mover, faz com que o caminho mesmo seja esse lugar sem lugar em que pode estar. Uma escrita viva, porque em constante risco de ser desalojada pelas correntes. Uma escrita alongada, que vive entre os sedimentos, qual fauna intersticial. Uma escrita viva, porque a linguagem não produz apenas o que lhe é solicitado (VIVIAN, 2015). Uma escrita viva, porque eivada por essa vontade de transgredir e de ser, tão insistentemente, aquilo que me atravessa e me constitui, e nada que não seja isso. Uma escritura de vida intersticial16.