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A forma sofisticada de escoamento do excedente: o caso dos empréstimos

3. A SAÍDA DE LUXEMBURG PARA O ESQUEMA DE REPRODUÇÃO AMPLIADA

3.5 A forma sofisticada de escoamento do excedente: o caso dos empréstimos

Depois de transformadas as economias naturais é condição para seu desenvolvimento a detenção de reservas internacionais, tais, devido sua função, tornam- se mecanismo de controle interestados. Este fluxo de reservas para o “desenvolvimento”, ocorre conforme Luxemburg (1970, Capítulo XXX), do centro para a periferia, porém, deixa interpretação de que o investimento nos novos Estados capitalistas, é feito às expensas do “gozo” nos Estados antigos, isto aconteceria, uma vez que a (m) não pode realizar-se de maneira viável nos Estados antigos, tendo tal ação que acontecer “as suas próprias custas”, nos Estados Novos. Fica a indagação: a (m) antiga realiza-se no estado novo, mas de onde provém o recurso monetário para a mesma realizar-se? Luxemburg (1970) responde: O próprio capitalista no Estado Antigo. O caso Inglês de escoamento do excedente é um bom exemplo de transações (empréstimos) internacionais, que aos olhos de Sismondi, conforme Luxemburg (1970), parecia um equívoco, porém:

[...] os ingleses construíram as ferrovias nos Estados Unidos com seu material. pagavam-nas com seu capital, privando-se do ”gozo” deste em sua localidade. Esse engano, porém, agradava tanto ao capital europeu que, apesar de todas as crises periódicas, em meados do oitavo decénio, a Bolsa de Londres sofreu uma verdadeira febre de empréstimos estrangeiros. De 1870 a 1875, concluíram-se em Londres acordos sobre empréstimos no valor de 260 milhões de libras esterlinas; a consequência imediata foi o rápido incremento da exportação de mercadorias inglesas a países estrangeiros; apesar do capital afluir em massa para esses países, transitoriamente eles faliram. No final do oitavo decénio, suspenderam total ou parcialmente o pagamento dos juros: a Turquia, o Egito, a Grécia, a Bolívia, Costa Rica, o Equador, Honduras, o México, o Paraguai, São Domingos, o Peru, o Uruguai, a Venezuela. Não obstante, no final do decénio seguinte repetiu-se a febre dos empréstimos públicos exteriores. (LUXEMBURG, 1970, p.371).

Assim, fica evidente enfoque interpretativo de Luxemburg quando comparada a Marx: este advoga manutenção sistêmica do capitalismo pela produção de (m), enquanto aquela, na realização da variável. Tal averiguação pode ser feita através da até agora observada “saída ao comércio internacional”, onde as transações interestados são apenas “ato de uma grande peça”, conforme a mesma:

A mais-valia realizada, que na Inglaterra ou Alemanha não pode ser capitalizada e permanece inativa, foi investida na Argentina, Austrália, Cabo ou Mesopotâmia em estradas de ferro, obras hidráulicas, minas etc. As máquinas, o material e tudo o mais vêm do capital do país de origem e são pagos com esse mesmo capital. Mas isso acontece também no próprio país, sob o domínio da produção capitalista: o capital tem que comprar seus elementos de produção, investir neles antes de poder atuar. É certo que, nesse caso, a utilização dos produtos fica no país, ao passo que no primeiro caso é cedida a estrangeiros. Mas o fim da produção capitalista não é desfrutar os produtos mas realizar mais-valia, acumulação. O capital inativo não tinha no próprio país possibilidade alguma de acumular-se, já que não existia demanda de produto adicional. Em troca, no estrangeiro, onde não se desenvolveu ainda uma produção capitalista, surge em camadas não-capitalistas uma nova demanda, ou é criada violentamente. (LUXEMBURG, 1970, p.373).

Apesar do empreendimento “escoamento do excedente” realizar-se com capital europeu (a mais-valia deste), seu retorno - a valorização de sua (m) - é bancado em última instância por agente externo a tal continente. A exemplificação deste processo é feita por Luxemburg (1970) através do caso egípcio, onde para melhor compreensão doi dividido em 3 fases:

1º fase) O empréstimo e consequente dívida. No que concerne o Egito, Mehemet Ali (estadista que transformou tal nação) através de recursos governamentais, desenvolve obras e estratégias produtivas para o país:

Iniciou o processo o capital francês, cujas pegadas foram prontamente seguidas pelo inglês; a luta de ambos tem um enorme papel em todas as revoltas internas do Egito durante os vinte anos seguintes. As operações do capital francês, que executou tanto a obra do Nilo, com sua inutilidade, como o canal de Suez, foram talvez os modelos mais peculiares da acumulação de capital europeu à custa de populações primitivas. Em nome das vantagens do canal, que o comércio europeu-asiático faria passar diante do nariz do Egito, o país se obrigou, em primeiro lugar, a fornecer o trabalho gratuito de 20.000 camponeses durante anos; em segundo lugar, a subscrever 70 milhões de marcos em ações da Companhia, que equivaliam a 40% do capital total. Esses 70 milhões foram a base da enorme dívida pública do Egito. Dívida que, vinte anos mais tarde, teve por consequência a ocupação militar do Egito pela Inglaterra. (LUXEMBURG, 1970, p.376).

2º fase) Alavancagem e insolvência da dívida:

Quem fornecia o capital para esses empreendimentos? Os empréstimos internacionais. Said Paxá subscreveu, um ano antes de sua morte (1863), o primeiro empréstimo, de 68 milhões nominais de marcos, que, deduzidos os descontos, comissões etc., reduziu-se a 50 milhões de

marcos. Legou a Ismail essa dívida e o contrato do canal de Suez, que em última instância fazia pesar sobre o Egito uma carga de 340 milhões de marcos. Em 1864, realizou-se o primeiro empréstimo de Ismail: 114 milhões nominais a 1%, mas que na realidade era de 97 milhões a 8,25%. Esse empréstimo foi gasto em um ano.

[...]

Em 1874, tentou-se um empréstimo de 1 bilhão a 9%, mas só produziu 68 milhões. Os valores egípcios cotavam-se a 54% de seu valor nominal. E a dívida pública havia aumentado desde a morte de Said Paxá, em treze anos, de 3.293.000 libras esterlinas para 94.110.000 libras esterlinas, isto é, cerca de 2 bilhões de marcos.5 A bancarrota aproximava-se. [...]

À primeira vista, essas operações constituem o cúmulo da insensatez. Um empréstimo substituía rapidamente outro; os juros dos empréstimos antigos eram pagos com novos empréstimos, e os pedidos gigantescos feitos ao capital industrial inglês e francês pagavam-se com capital tomado por empréstimo na Inglaterra e na França. Na realidade, o capital europeu, enquanto a Europa movia a cabeça e se assombrava com a insensata prodigalidade de Ismail, fazia no Egito fantásticos negócios, sem precedente, negócios que eram para o capital uma edição moderna das vacas gordas da Bíblia. (LUXEMBURG, 1970, p.379/380).

3º fase) Pagamento do montante através da penhora de propriedades ou renegociação da dívida. O felá egípcio e suas propriedades foram à fonte, para ressarcimento dos recursos emprestados. Este agente pagou com seu trabalho (o esgotamento de sua vida nas obras de infraestrutura) e propriedade, quando desprovido da segurança que seu antigo modo de produção sustentava e, insolvente perante as novas exigências do modo de produção capitalista, viu-se obrigado a penhorar suas propriedades: força de trabalho, bens e terreno, este último, tomado em grande escala, foi utilizado para a monocultura de exportação (LUXEMBURG, 1970, p.380/381):

Os juros tinham que ser pagos de uma maneira ou outra. De onde vinham os meios para isso? Sua fonte tinha que ser o Egito, e essa fonte era o felá egípcio, a economia camponesa. Esta fornecia, em última instância, os elementos mais importantes dos grandiosos empreendimentos capitalistas.

[...]

Em 1878, os Tshifliks, isto é, os terrenos da família do vice-rei, numa extensão de 451.000 acres, transformaram-se em património do Estado e hipotecaram-se aos capitalistas europeus para responder à dívida pública, e igualmente as propriedades de Daira, o património privado do quediva, situadas, em sua maior parte, no alto Egito, abrangendo 85.131 acres, sendo que mais tarde foram vendidas a um consórcio. Uma grande parte das propriedades territoriais restantes passou às mãos de sociedades capitalistas, particularmente à Companhia do canal. As propriedades das mesquitas e escolas foram hipotecadas pela Inglaterra para fazer frente aos gastos da ocupação. Um levante militar do exército egípcio, a quem o controle europeu fazia passar fome, enquanto os

funcionários europeus recebiam altos salários, e uma revolta popular provocada em Alexandria, deram o pretexto desejado para o golpe decisivo. Em 1882, forças militares inglesas entraram no Egito para submetê-lo. Assim coroou-se a grandiosa manobra do capital no Egito, e a liquidação da economia agrária egípcia pelo capital inglês. Viu-se assim que a transação, que parecia absurda entre o capital financeiro e o capital industrial europeus, cujos pedidos eram pagos com aquele capital, cobrindo-se os juros de um empréstimo com o capital de outros, tinha em sua base uma relação muito racional e "sã" do ponto de vista da circulação do capital. Desaparecidos os intermediários que mascaravam a operação, nota-se que a economia camponesa egípcia foi absorvida em grande escala pelo capital europeu; enormes áreas, incontáveis operários e uma quantidade enorme de produtos do trabalho pagos ao Estado em forma de impostos transformaram-se, na realidade, em acumulação de capital europeu (LUXEMBURG, 1970, p.381-383).

Nestas duas últimas seções discorreu-se sobre posição inovadora em Luxemburg (1970) na elucidação do capitalismo, esta, pela lógica da contínua acumulação primitiva, ação pautada na necessidade de valorização do excedente. Para este contexto, ator importante foi o militarismo, que conforme a pensadora, contribui de maneira direta e indireta para a valorização e acumulação do capital; formas de corroboração deste ator: a) garante por meio da força as condições para a acumulação e valorização do capital; b) sendo fonte de demanda para a (m) excedente, contribui para o movimento em “a”. Tal fonte de demanda tem como intermediário o Estado, canalizador via atribuições fiscais, da (m) operária, conforme Luxemburg (1970):

O militarismo tem uma função determinada na história do capital. Acompanha todas as fases históricas da acumulação. No período da chamada "acumulação primitiva", isto é, no começo do capitalismo europeu, o militarismo desempenhou um papel determinante na conquista do Novo Mundo e dos países produtores de especiarias como a Índia, mais tarde, serviu para conquistar as colônias modernas, para destruir as organizações sociais primitivas, para apropriar-se de seus meios de produção, para impor o comércio de mercadorias em países cuja estrutura social é um obstáculo para a economia de mercado, para proletarizar violentamente os indígenas e impor o trabalho assalariado nas colónias. Ajudou a criar e ampliar esferas de interesses do capital europeu em territórios não-europeus e extorquir concessões de estradas de ferro em países atrasados e a defender os direitos do capital europeu nos empréstimos internacionais.

[...]

O militarismo tem ainda outra função importante. De um ponto de vista puramente econômico, ele é para o capital um meio privilegiado de realizar a mais-valia; em outras palavras, é um campo de acumulação. (LUXEMBURG, 1970, p.399).