11 A norte de Surat.
5.7 A forma urbana entre Dickinson e Laughton
A forma urbana de Bombaim no século XIX era definida por seis elementos principais organizadores do espaço da cidade: o Forte, a Esplanada, a Native Town, o acantonamento militar, as Mills Lands e Dock Lands e finalmente os subúrbios europeus.
O seu século XIX foi caracterizado por quatro desenvolvimentos urbanos inter-relacionados, três dos quais advêm das confrontações entre os representantes das duas culturas em 1857, durante a Primeira Guerra da Independência indiana.
O primeiro foi uma modificação drástica na estrutura da fortaleza e nas suas imediações mais próximas. Foram criadas duas zonas cultural e funcionalmente especializadas, uma colonial, primariamente militar e administrativa com a cidade que foi construída sobre as ruínas da fortaleza, e a segunda indiana, primariamente residencial, comercial e industrial. O Forte tinha uma ocupação preferencial por edificação adjacente às suas muralhas, com zonas étnicas distintas uma europeia e outra indiana. A rua de Church Gate, que cruzava de este a oeste a fortaleza, traçava o limite, entre os europeus a sul e os indianos a norte. O seu lado oeste era ocupado por edificação, enquanto que o seu lado este se encontrava mais liberto e pontuado por equipamentos civis e religiosos.
A Esplanada era a zona de protecção da fortaleza e não teve qualquer ocupação até aos finais do século XIX. A maior parte da Esplanada foi preservada e mantida como espaço público aberto e sem edificação, principalmente com fins de recreio (maidans). Foi dividida em três espaços, a Oval a sul, e duas secções triangulares a norte e a noroeste, inicialmente conhecidas como Esplanada e actualmente conhecidas como Azad Maidan e Cross Maidan.
Com a Native Town, pela primeira vez um assentamento urbano surgiu fora de portas da fortaleza sem estar baseado numa economia agrária, mas fundamentalmente ligado a uma economia de comércio. A Native Town era habitada por comunidades de Parsis, Bohras e Banianes que migraram do continente para Bombaim incentivados pelos ingleses para serem intermediários nos processos de comércio. O assentamento urbano que ficou conhecido como Native Town era morfologicamente distinto do tecido urbano de menor densidade existente no interior do Forte. Era ocupada essencialmente
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por edifícios com usos mistos de comércio no piso inferior e habitação nos pisos superiores, com a duplicação da cidade como lugar de comércio. A Native Town foi o início da urbanidade em Bombaim e rapidamente se expandiu na cidade pelos terrenos que foram sendo conquistados ao mar. O segundo e relacionado com o anterior, foi a existência duma efectiva segregação dos representantes das duas culturas, quer pelas muralhas da cidade enquanto existiram quer por uma distância espacial efectiva entre as comunidades.
A influência colonial (desde o século XVII até ao início do século XX) associada à Companhia Inglesa das Indias Orientais desenvolveu condições para uma fase de forma urbana identificada numa cidade portuária como Bombaim. Os territórios imediatamente adjacentes aos portos foram usados como mercados. Os seus componentes morfológicos incluíram edifícios usados para o comércio como alfândega, armazéns e escritórios, o que originou ao desenvolvimento de centros de comércio e zonamentos baseados nos princípios de comércio ocidentais.
Estes quatro elementos, fortaleza, Esplanada, Native Town e porto enquadram-se dentro do mesmo tipo de forma urbana e na sua mudança com a passagem do tempo. Esta forma urbana foi configurada em zonas concêntricas com origem na fortaleza (e posteriormente no Central Business District) onde se localizava o núcleo da vida da cidade, convergindo as ruas que davam acesso à fortaleza no mesmo lugar, o Bombay Green. A mobilidade e o fluxo migrante foram as principais causas deste tipo de ocupação. A mudança de morfologia urbana aconteceu no sentido centro-periferia, da fortaleza para o exterior.
O terceiro desenvolvimento urbano resultou na emergência dum assentamento urbano colonial resultante do início da produção industrial têxtil, como uma área cultural relativamente autosuficiente e independente, com a maioria dos seus requisitos autónomos. O modelo morfológico anterior representado por Dickinson no seu levantamento foi rompido pela chegada da industrialização a Bombaim em 1854 e o advento do assentamento urbano industrial já apontado por Laughton. As Mills Lands adjacentes às Dock Lands cresceram acompanhando as linhas ferroviárias que foram sendo construídas nos territórios disponíveis na metade ocidental da ilha de Bombaim e sem se sobreporem à matriz viária apontada pelos portugueses. O modelo de forma urbana teve em conta o crescimento dos assentamentos que a configuram ao longo das novas vias de comunicação (estradas e linhas ferroviárias) que
resultaram numa nova cidade industrial. Isto é, as indústrias e os lugares para habitação dos operários fabris (chawls) construídos pelos privados para alimentarem com mão-de-obra as fábricas têxteis ou as grandes franjas peri- urbanas de habitação informal (slums/bairros de lata) ocuparam linearmente as zonas marginais da linha ferroviária e as margens dos cursos de água. Os quarenta anos que separam os dois levantamentos de Dickinson e Laughton revelam duas cidades diversas em sucessivas e rápidas transformações. Em 1827, a população de Bombaim era de aproximadamente 230 mil habitantes. Em 1850, tinha atingido o meio milhão de pessoas e em 1865, o ano em que Laughton inicia o seu levantamento, a população ultrapassava os 816 mil habitantes.
A nova cidade aglutinou-se e o sprawl urbano aconteceu nas proximidades das linhas de caminho-de-ferro e das grandes vias que se cruzaram com as estradas rurais abertas pelos portugueses sem todavia se sobreporem as estas, nem as utilizarem como matriz para implantação no território. Prova disso, é o facto do desenho viário no levantamento de Dickinson e do desenho da linha ferroviária no levantamento de Laugton não se sobreporem. Inclusivamente a Western Railway atravessa zonas aterrada da Great Breach e da Back Bay que não existiam como solo edificável aquando dos assentamentos rurais dos portugueses. Esta conclusão parece-me instrumental para a sustentação da resposta ao problema levantado na introdução desta dissertação.
Porventura poderão ter existido no cruzamento dos sistemas viários algumas intersecções das redes que tenham funcionado como nodos numa estrutura urbana geradores de novas centralidades, mas o grande responsável pela existência duma mancha de cidade industrial que gerou/alavancou a grande metrópole asiática dos séculos XX e XIX foi a rede de linhas ferroviárias que ocupou o território livre da ilha e o “negativo” da rede viária portuguesa. Um desses pontos nodais foi certamente o assentamento urbano de Girgão, localizado no cerne da viragem a norte da Western Railway e na vizinhança próxima da Native Town, o qual apresenta um tecido urbano característico de assentamento rural no levantamento de Dickinson enquanto que no levantamento de Laughton e após a abertura da Western Railway era já a “village of mills”, um assentamento urbano com tecido densificado de cidade (ver figuras 19 e 28) industrial onde pontificavam chawls e alguns edifícios
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públicos. Igualmente o assentamento urbano de Chowpatty seria condicionado na sua forma urbana ao ser dividido em dois pela passagem da linha de caminho-de-ferro.
Figura 27 – folha de levantamento de Laughton, Girgão
Concluindo os últimos parágrafos, depois da linha ferroviária atravessar a “terra de ninguém” nada ficaria na mesma… inclusivamente em 1853, a linha de caminho-de-ferro chamada de Great Indian Peninsula Railway é inaugurada e um ano depois, a primeira fábrica de fiação de algodão movida por máquina a vapor, a Bombay Spinning and Weaving Company.
Absolutamente instrumental para estas últimas afirmações foi a comparação entre a informação disponibilizada por Dickinson e Laughton.
Este quarto desenvolvimento urbano de introdução da tecnologia metropolitana na cidade indiana e na sua vizinhança imediata foi por isso essencial na definição da forma e partido urbano de Bombaim. Esta tecnologia incluía o caminho-de-ferro, a electricidade, o abastecimento de águas, o saneamento e um sistema viário que permitia a circulação de transporte automóvel que foi sendo introduzido selectivamente, sendo dada prioridade a áreas específicas da cidade. O desenho da rede viária privilegiou sempre o sentido norte-sul da ilha de Bombaim, em detrimento do sentido este-oeste.
As terras agrícolas foram privilegiadas para o desenvolvimento dos assentamentos urbanos em Bombaim, embora a falta de penetração dos valores urbanos na vida rural tenham originado alguma permanência duma vida em pequenas aldeias. O acantonamento militar de Colaba, o subúrbio europeu de Malabar Hill ou ainda assentamentos urbanos como Mazagão, Walkheswar, Worli, Mahim ou Sião formaram múltiplos núcleos urbanos que se organizaram em torno de outros tantos centros, uma vez que a cidade de Bombaim se organizou por conurbação com origem num centro definido sem acontecer descentralização, mas pelo contrário aglutinação dos seus diversos assentamentos urbanos.
O parâmetro geral de ocupação do território da cidade pela população permaneceu contrastante entre a parte norte da ilha de Bombaim e a parte sul, entre a metade predominantemente rural e a metade urbana. A população começou a ocupar a parte norte da ilha, mas a sua densidade populacional permaneceu relativamente baixa. As primeiras fases do processo de explosão urbana para a ilha de Salsete, foram igualmente um novo elemento nos parâmetros de ocupação espacial urbana desenhados por ingleses e indianos em Bombaim no final do século XIX. A explosão urbana da cidade, embora tenha sido gradual e lenta, trouxe progressivamente reflexos na ocupação do território e novos comportamentos socio-culturais e económicos para a vida urbana.
Assim, a forma urbana de Bombaim foi resultado de ambientes urbanos duais com justaposição de elementos tradicionais e modernos em modos dicotómicos. Uma cidade indiana, encerrada numa cidade colonial e subsequentemente rodeada por uma cidade industrial.
Capítulo 6: Formas Urbanas e Arquitectónicas da Bombaim do séc. XIX
Capítulo 6