AS DOBRAS DA HOMOSSEXUALIDADE
5. Preconceito sexual: religião versus ciência
5.6. A fragilidade da ciência e o poder da Igreja
A homossexualidade foi retirada da categoria das doenças mentais pelos órgãos internacionais de saúde mental, então, a partir disso, não teria mais razão para não aceitá-la como normal, uma variável da sexualidade como afirmam alguns autores. Entretanto, a ciência se mostra reticente de ter ações pró-ativas, em especial a psicologia, em relação às questões LGBTs, nesse vácuo, a religião sobrepõe com seus mandamentos, por exemplo, Levítico 19:20 (Bíblia sagrada, 1993), que diz: “se também um homem se deitar com outro homem, como se fosse mulher, ambos praticaram coisa abominável; serão mortos; o seu sangue cairá sobre eles”, sem que nada nessa afirmativa tenha sido alterada. Contraditoriamente, o senso comum que tanto crédito atribui à ciência, entretanto, quando se trata da homossexualidade, a pretere, e usa sem pudor, para justificar e alimentar seu preconceito, em particular, esse argumento do abominável por causa da aura do sagrado que envolve a Bíblia.
Embora os investigadores concordem com a ideia de que a homossexualidade não seja doença, não conseguem se desvencilhar do próprio preconceito, só em parte admite que os homossexuais tenham os mesmos direitos destinados aos heterossexuais. Magnan (2001) considera que a ciência cartesiana, mecanicista, tem ligeira coloração machista, e pode servir de pretexto para comportamentos sexistas. Esse pensamento é corroborado por Berman (1997) quando a autora diz que:
Com os governos no mundo todo se apoderando febrilmente de “ciência e tecnologia” para manter sua base de poder, as mulheres, as feministas e todos os outros do lado oposto à hegemonia devem compreender especificamente, em
detalhe, o que isso significa para nós. As cientistas feministas já aceitaram o
desafio e muitas escreveram convincentemente sobre o controle elitista e os abusos da ciência contemporânea. Mas só quando reconhecermos que tanto as práticas sociais como profissionais da ciência expressam a aceitação da
ideologia da classe social dominante, seremos capazes de determinar como responder. (p. 242)
Segundo Defert (cit. in Welzer-Lang, 2004), nas ciências sociais, bem como no senso comum, a análise prevalecente é heterocentrista. Hoje, na melhor das hipóteses, depois das lutas que deram visibilidade a homossexualidade e depois da homossexualização da Sida, ver se um “heterossexismo diferencialista”, uma forma liberal de aceitar como facto de que existem seres diferentes, os homossexuais, e por isso que, para ser progressista, nada mais normal do que conceder-lhes alguns direitos. Esse heterossexualismo diferencialista, por vezes, produz a “homofobia diferencialista” quando se admite que os homossexuais ou outros grupos específicos tenham qualidades coletivas e individuais, sensibilidade, gostos etc., diferentes dos homens e mulheres “normais” (Welzer-Lang, 2004).
Na visão de Gagnon (2006), é comum a crença, mesmo entre as pessoas que não são homofóbicas, de que a homossexualidade, deve ser causada por algum feito fundamental e singular que, certamente, deve residir na configuração biológica ou nas experiências mais primitivas do indivíduo, mas passível de ser isolado por meio das pesquisas científicas. Presume-se também que heterossexualidade seja produto da biologia normal ou da aprendizagem precoce da normalidade, que se tornará conhecida quando for descoberto o defeito que há nos homossexuais. Em virtude disso, Berman (1997) acrescenta que:
O preconceito “não consciente” também afeta muitas vezes a escolha dos problemas a serem investigados como, por exemplo, o grande número de estudos sobre supostas diferenças comportamentais inatas entre os sexos e as raças ou a configuração de experimentos pressupondo que a condição masculina é a norma. (pp. 244-245)
Então se pergunta pela neutralidade axiológica que, se espera, sejam inerentes nas pesquisas científicas. Essa neutralidade como modo de atuação absoluta é uma utopia, mas que deve ser, certamente, perseguida. Na opinião der Weber (1992), o pesquisador dever dizer escrupulosamente à sua própria consciência, a cada instante, quais são as escalas de valor que servem para medir a realidade e aquela da qual, obviamente, derivam o julgamento de valor. Há décadas que as feministas não param de denunciar o papel das instituições religiosas na perpetuação das normas, estereótipos e atitudes sociais que legitimam a desigualdade de género (Machado, Piccolo, Alves & Barros, 2010b). Atualmente, são os parlamentares brasileiros da Bancada Evangélica que, em
nome da preservação da família cristã, tem retardado sistematicamente a aprovação de quaisquer projetos de lei apresentados por defensores dos direitos sexuais (Machado et al., 2010a).
A Igreja sempre atualiza sobre a sodomia toda uma ideologia para condenar sua prática ou reprimir o desejo homoerótico, usando como marco histórico a destruição das cidades de Sodoma e Gomorra, o argumento religioso deduz que o termo “conhecer” citado em Gn. 19:5 indica que os homens dessas cidades queriam abusar sexualmente dos visitantes recém chegados na cidade que seriam varões (anjos) enviados por Deus. É desse incidente que deriva a palavra “sodomia” e seu significado, passou a ser usado para designar homossexualidade no contexto religioso. Entende-se por sodomia a relação anal-sexual entre homens adultos, e o mesmo tipo de relação do homem com criança ou menino, pederastia. A história da destruição dessas cidades como texto dogmático contra a homossexualidade é o primeiro, por exemplo, de um mito cuja interpretação reflete os preconceitos mutantes das sociedades que se sucedem (Pereira, 2009; Rodrigues, 2004; Teles, 2011).
O pastor protestante R. R. Soares (cit. in Pereira, 2004) afirma que, de acordo com a Bíblia, Deus fez o macho e a fêmea, e não um terceiro sexo, em razão disso, o homossexual deve ser punido com a morte, e que o Velho Testamento faz referência a rapazes escandalosos que foram mortos. O religioso para ilustrar a sua convicção, cita este exemplo: Imagine um fazendeiro que compra uma fazenda com cinquenta vacas para fazer uma criação. Suponha que ele compre cinco touros para cobrir as vacas. Na hora da sua função, o touro senta no chão e não quer cobrir nenhuma vaca, essa, por sua vez, também não deixa ser montada. Assim, você acaba matando o animal porque o queria para reprodução. Deus criou o sexo para procriação, além do prazer. Os homossexuais querem o sexo só para o prazer, a Bíblia faz referência a dez grupos de pessoas que não herdarão o reino de Deus, entre os quais estão os efeminados e os sodomitas.
As respostas a essas questões não diferencia muito os posicionamentos de católicos e protestantes. Dom Eugenio Sales (cit. in Pereira, 2004), arcebispo emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro, apresenta um posicionamento semelhante ao do pastor Soares (2003), evocando um trecho do Velho Testamento (Levítico 18:22; 20:13), que:
O texto sagrado não admite dúvidas: “o homem que se deita com outro homem como se fosse uma mulher ambos cometeram uma abominação, deverão morrer”(...), há diversas outras citações bíblicas na mesma orientação
doutrinária. Possuir a tendência ao homossexualismo não significa algo ofensivo a Deus e aos homens. O pecado está no ato livremente praticado. A ofensa ao Senhor está em ceder a esse impulso, pois não falta auxilio do Altíssimo a quem o procura, para observar a ordem moral por Ele estabelecida. (...) as pessoas homossexuais são chamadas à castidade. (p. 81)
O arcebispo Sales (cit. in Pereira, 2004) conclui afirmando que a mensagem transmitida por ele “é o ensinamento da Igreja, em nome de Cristo, transmitido aos seus fiéis e as pessoas de boa vontade” (p. 81). Pereira (2004) questiona: Mas se a homossexualidade manifesta é condenável, o que poderia ser dito a respeito dos pensamentos e sentimentos homossexuais? Em outras palavras, o que pode ser referido sobre os indivíduos que têm fantasias e impulsos sexuais tendentes à homossexualidade, mas que são mantidos ocultos?30 O que pensar sobre pessoas, inclusive cristãos, que tem suas vidas orientadas pelas leis bíblicas, cujos casamentos heterossexuais são normativamente satisfatórios, mas que se sentem incomodados por desejos homossexuais constantes que ameaçam à sua masculinidade ou feminilidade e que possam de repente “escorregarem” e tornarem-se visíveis a outros? No entender de Melman (2003), há a homossexualidade que pode se qualificar de “orgânica”, que obrigam à escolha de um parceiro portador de “órgão”, mas há também a homossexualidade que, visivelmente, é psíquica, se satisfaz com parceiros cuja virilidade é “psíquica”. Nesse segundo caso, por ser subjetiva, certamente, os sujeitos que a vivenciam não terão a necessidade de expressão ou de manifestação porque se satisfazem no campo da sublimação.
Entre as religiões que são mais flexíveis com indivíduos de identidade visivelmente homossexual, estão o Candomblé e o Espiritismo (Natividade & Oliveira, 2013). A Umbanda, religião heterodoxa brasileira, e o Candomblé, religião afro-brasileira, não têm nenhum preconceito em relação à homossexualidade, e não raro um rapaz ou uma menina que tenha dificuldade com os pais por conta de constantes acusações de maricas ou sapatão, foge de casa e procurarem abrigo nessas comunidades, sempre são aceitos, de facto, grande número de pais e mães-de-santo são homossexuais famosos e bem
30 Essa pergunta, de certo modo, é respondida por Gagnon (2006) com base na pesquisa de Kinsey et. al.,
pois ressalta que, embora muitos homens informassem ter tido algumas experiência homossexuais no começo e no fim da adolescência, a homossexualidade continua a ser, para eles, uma questão de pecado e anormalidade.
sucedidos. No Norte e Nordeste do Brasil, os terreiros de candomblés (onde se realizam os cultos afro-brasileiros) são vistos como “lugares de gays”, que servem como nicho ou “santuário” de gays jovens que tem problema com a família em relação à descoberta da sua sexualidade (Fry, 1982; Rodrigues, 2004).
Para Birman (1995, 1997), os cultos afro-brasileiros, ao dissociar género de sexo biológico, abrem um campo de receptividade em torno do feminino que possibilita a expressão legítima de várias formas de homossexualidade. Os adés (jovens homossexuais) são prestigiados no culto em vista da estética e do carácter lúdico das suas performances femininas. O candomblé reconhece uma segmentação interna do feminino, em oposição ao masculino, rigidamente demarcado. Ainda para essa autora, a masculinidade é plenamente excluída da possessão. Dado que, a incorporação implica perda da masculinidade, e assim, se estabelece o domínio do feminino de modo mais amplo e flexível, pelo exercício desse ritual por homens, num continuum que abarca diferentes atores sociais. Enfim, a ideia de género é fundada em uma cosmologia originária da tradição africana, cujo mundo sobrenatural, universo dos orixás, é concebido como fundamentalmente feminino, em oposição ao mundo real, associado ao trabalho e às obrigações sob o domínio do masculino (Birman, 1997). O santo do seguidor das religiões afro-brasileiras é independente não só do seu sexo anatômico, mas também da sua sexualidade, i.e., da sua preferência por parceiros do mesmo sexo ou do sexo oposto. Orixás retratam a personalidade e não a sexualidade do fiel, portanto, homossexuais ou heterossexuais podem ter orixás feminino ou masculino como seu mentor espiritual (Natividade & Oliveira, 2013; Segato, 1985).
O espiritismo é outro segmento religioso que demonstra tolerância à homossexualidade, tem como referência O Livro dos Espíritos, assinado com o pseudônimo de Allan Kardec, há pouco mais de um século, cujo eixo principal é a crença na reencarnação. Os espiritualistas kardecistas consideram o espiritismo como ciência, filosofia e religião (Rodrigues, 2004). No livro Vida e Sexo, de Francisco Cândido Xavier (1970) - conhecido no Brasil e no mundo como o médium Chico Xavier -, ditado pelo espírito de Emmanuel, diz:
A homossexualidade [...] definindo-se no conjunto de suas características, por tendências da criatura para a comunhão afetiva com uma outra criatura do mesmo sexo, não encontra explicação fundamental nos estudos psicológicos que tratam do assunto em bases materialistas, mas é perfeitamente compreensível, à luz da reencarnação. [...]. O Espírito passa por fileira imensa de reencarnação,
[...] ora com imposição de feminilidade, ora em condições masculinidade, o que sedimenta o fenômeno da bissexualidade, mais ou menos pronunciado, em quase todas as criaturas. O homem e a mulher serão, desse modo, de maneira respectiva, acentuadamente masculino ou acentuadamente feminina, sem especificação psicológica absoluta. A face disso, a individualidade em trânsito, da experiência feminina para a masculina ou vice-versa, ao envergar o casulo físico demonstrará fatalmente os traços da feminilidade em que terá estagiado por muitos séculos, em que pese ao corpo de formação masculina que o segregue, verificando-se análogo processo com referência à mulher nas mesmas circunstâncias. (p. 41)
Embora o espiritismo trate de modo tolerante à homossexualidade, no entanto dá a entender que a homossexualidade é um estágio que resultará, depois de vários processos de reencarnação, em um indivíduo heterossexual, então estar subjacente nos seus princípios uma certa ideologia heteronormativa, uma vez que a homossexualidade é tida como um processo ou “em trânsito” para se chegar, finalmente, à heterossexualidade.
Desde a década de 1990, a mídia vem noticiando a criação de “igrejas gays” no país (Natividade & Oliveira, 2013). O acesso dos homossexuais se expande, atualmente, em São Paulo e no Rio de Janeiro, foram identificadas nove congregações evangélicas e um grupo católico que se destacam por não conceber a homossexualidade com a ideia de pecado, e por não prescrever que fiéis homossexuais devem se tornar heterossexuais. Entre as igrejas cristãs de vertente evangélica que se denominam de inclusivas, a Igreja Universal do Reino de Deus se destaca em um conjunto maior de comunidades religiosas pelo maior “acolhimento” a homossexuais entre seus fiéis (Natividade & Oliveira, 2013). Contudo, a defesa dessa atitude não deve ser entendida como tolerância, mas da perceção de que os homossexuais são alvo de cuidado pastoral (Fernandes, 1998). Esses dados, segundo Natividade e Oliveira (2013, p. 41), “sugerem que, a despeito de uma ênfase no discurso de acolhida, permanece a ideia de que práticas divergentes da norma heterossexual são pecaminosas”.