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A fratura da representação e o limiar da Modernidade

Capítulo III – A constituição antropológica do pensamento moderno

3.2 A fratura da representação e o limiar da Modernidade

Percorrendo os domínios empíricos relativos à riqueza, à natureza e à linguagem, tais como apareciam nos saberes do final do séc. XVIII e tendo por referência paradigmática as obras de A. Smith para a primeira, as de A. L. Jussieu, J.B. Lamarck, F. Vicq d’Azyr para a segunda, e a de W. Jones para a terceira142, Foucault

identifica “um desnível ínfimo [décalage infime], mas absolutamente fundamental” (MC, 328/251), dito também um “desenlace essencial” (décrochage essentiel in: MC, 308/237 [tradução alterada143]), os quais prefiguram, sem levar cabo inteiramente, a

142 Cf. MC, Parte II, Capítulo 7, seções II (“A medida do trabalho”), III (“A organização dos seres”), IV

(“A flexão das palavras”), br.: p. 303-325; fr.: p. 233-249.

143 O uso quase técnico do termo décrocher e décrochage por Foucault em MC coloca dificuldades de

tradução devido à imensa polissemia do termo, explorada pelo filósofo. Nossa opção por “desenlace” tenta captar tanto o sentido temporal de “desfecho” (que é a opção de Salma T. Muchail), quanto o sentido estrutural de “desengate”, “desengancho”, “destacamento”, “desvinculação” – sendo este sentido o mais determinante, quando se observa as ocorrências da palavra no texto. Desenlace designa ao mesmo tempo “desfecho” e “desfazer o enlace”, o vínculo.

transformação epistêmica radical que faz bascular todo o pensamento ocidental. Com a reformulação interna dos princípios organizadores de cada um dos respectivos “espaços de empiricidade”, verifica-se uma transformação no estatuto clássico da

representação no tocante à sua relação consigo mesma, ou mais precisamente, com o

seu conteúdo: “a representação perdeu o poder de criar, a partir de si mesma, no seu desdobramento próprio e pelo jogo que a reduplica sobre si, os liames que podem unir seus diversos elementos” (MC, 328/251). É abalada toda aquela capacidade auto- referencial da representação, que permitia a ela representar seu conteúdo e assim a si mesma, ordenando-se até se tornar conhecimento.

A perda da autossuficiência epistemológica e cognitiva da representação corresponde aqui à interposição de um novo âmbito, invisível e heterogêneo em todo caso, não representativo , no seio mesmo do plano representativo. Este novo

âmbito exerce um papel estratégico, no sentido de recombinar as empiricidades anteriores em torno de um novo princípio ordenador e explicativo. A atividade laboriosa dos homens, a organização interna dos viventes, as leis puramente gramaticais da linguagem designam assim estes elementos subtraídos ao domínio do visível representado, que permitem, não obstante, compor as formas visíveis dos seres – a estrutura dos viventes, o valor das riquezas, a sintaxe das palavras. Sem nos atermos aos detalhes da exposição e à validade da interpretação para cada um dos casos, a eloquência de um exemplo é aqui conveniente para que nos acerquemos da nova positividade do saber.

No domínio da economia setecentista, a obra de Adam Smith parece subordinada às mesmas constrições epistemológicas que pesavam sobre Turgot, Cantillon, Quesnay, Condillac, entre os quais já se encontrava a noção de trabalho enquanto função de análise das riquezas permutáveis. Mas ao estabelecer o trabalho como “uma unidade de medida irredutível, insuperável e absoluta” do valor de troca dos objetos (MC, 305/235), Smith separa terminantemente o valor de troca e o valor de uso, o desejo/necessidade e o trabalho; separa assim, instâncias que apareciam antes

imediatamente entrelaçadas e mutuamente convertíveis – representações em continuidade uma com a outra –, contexto no qual a necessidade servia de referência (representado) para o valor expresso pelo trabalho, e este valor, de signo (representante) da necessidade. O “desenlace essencial” que acontece na obra de Smith, distanciando-o

de seus predecessores, é a distinção entre “a razão da troca [a necessidade e o desejo] e a medida do permutável [que passa a ser o trabalho], a natureza do que é trocado [valor de uso] e as unidades que permitem sua decomposição [valor contabilizado em unidades de tempo de trabalho]” (MC, 308/237).

A troca comercial, fenômeno econômico desde sempre constitutivo da “empiricidade” recoberta pela análise de riquezas e a fisiocracia, sofria assim uma torção, pela qual desejos e necessidades não mais fundariam os valores e as equivalências de riquezas que a circulação comercial pressupõe: “As riquezas são sempre elementos representativos que funcionam: mas o que representam finalmente não é mais o objeto do desejo, é o trabalho” (MC, 305/235), isto é,

“(...) um princípio de ordem que é irredutível à análise da representação: (...) o esforço e o tempo, essa jornada que, ao mesmo tempo talha e gasta [découpe et use] a vida de um homem. A equivalência dos objetos do desejo não é mais estabelecida por intermédio de outros objetos e de outros desejos, mas por uma passagem ao que lhes é radicalmente heterogêneo; se há uma ordem nas riquezas, se isto pode comprar aquilo, se o ouro vale duas vezes mais que a prata, não é mais porque os homens têm desejos comparáveis; não é porque através de seu corpo eles experimentam a mesma fome ou porque o coração de todos obedece às mesmas seduções [prestiges]; é porque todos eles são submetidos ao tempo, ao esforço, à fadiga e, indo ao extremo, à própria morte. Os homens trocam porque experimentam necessidades e desejos [des besoins et des désirs]; mas podem trocar e ordenar essas trocas porque são submetidos ao tempo e à grande fatalidade exterior. Quanto à fecundidade desse trabalho, não é ela devida tanto à habilidade pessoal ou ao cálculo dos interesses; funda-se em condições, também estas, exteriores à sua representação: progresso da indústria, aumento da divisão de tarefas, acúmulo de capitais, divisão do trabalho produtivo e do trabalho não produtivo. Vê-se de que maneira a reflexão sobre as riquezas começa, com Adam Smith, a extravasar o espaço que lhe era designado na idade clássica; era então alojada no interior da “ideologia” — da análise da representação; doravante, ela se refere, como que de viés, a dois domínios que escapam, tanto um quanto o outro, às formas e às leis da decomposição das ideias: de um lado, ela desponta já para uma antropologia que põe em questão a essência do homem (sua finitude, sua relação com o tempo, a iminência da morte) e o objeto no qual ele investe as jornadas de seu tempo e de seu esforço sem poder nele reconhecer o objeto de sua necessidade imediata; e, de outro, indica, ainda no vazio, a possibilidade de uma economia política que não mais teria por objeto a troca das riquezas (e o jogo das representações que a cria), mas sua produçãoreal: formas do trabalho e do capital. Compreende-se como, entre essas positividades recentemente formadas — uma antropologia que fala de um homem tornado estranho a si mesmo e uma economia que fala de mecanismos exteriores à consciência humana — a Ideologia ou a Análise das representações se reduzirá, em breve, a ser não mais que uma psicologia, ao mesmo tempo em que, diante dela, contra ela e dominando-a bem logo do alto de si mesma, se abre a dimensão de uma história possível. A partir de Smith, o tempo da economia não será mais aquele, cíclico, dos empobrecimentos e dos enriquecimentos; também não será o crescimento linear das políticas hábeis que, aumentando sempre ligeiramente as espécies em circulação, aceleram a produção mais rapidamente do que elevam os preços; será o tempo interior de uma organização que cresce segundo sua própria necessidade e se desenvolve

segundo leis autóctones — o tempo do capital e do regime de produção.” (MC, 308-310/237-238)

O que se passa na economia das últimas décadas do séc. XVIII é uma fratura na representação. Com a laceração do “espaço de empiricidade” – no caso, o domínio representacional de objetos permutáveis porque portadores de valores, portadores de valores porque desejáveis –, é desfeita a unidade entre a permutabilidade da riqueza e a desejabilidade do objeto, ambas qualidades que se movem na representação. Na obra de Smith, essa fratura já começa a projetar luz sobre o ponto-cego do saber clássico – neste lugar heterogêneo à representação, destinado a marcar os saberes do século seguinte: o trabalho enquanto o fundamento “invisível” do valor das riquezas (logo, da sua troca). Mas este é sintoma de uma reconfiguração geral na ordem dos saberes: em primeiro lugar, lá onde havia, em retrospecto, o trabalho como um elemento secundário e instrumental em relação à necessidade e ao desejo, surge a dinâmica própria de uma economia política (das “formas de trabalho e do capital”); por sua vez, o outro polo da representação fraturada – o das representações da necessidade e do desejo – destaca-se, ou se entranha, cada vez mais, no interior daquilo que em breve se consolidará como psicologia144; por fim, a emergência do trabalho no campo da economia política reflete um movimento epidêmico que faz nascer, tanto na filosofia quanto nas ciências, e justamente neste espaço anterior, heterogêneo e condicionante em relação à representação, uma antropologia da finitude humana, que com Smith já começa a ser declinada na direção dos mecanismos exteriores à consciência (gesto que trará efeitos bem conhecidos no pensamento vindouro, atinentes ao tema socialista e marxista da “alienação”).

Não se trata de um fenômeno isolado, mas de uma mutação de conjunto – desenlace dos paradigmas até então vigentes e, sobretudo, da transparência do Discurso clássico da Representação. As abordagens acerca da natureza viva e da linguagem seguem vias análogas145, revelando uma mesma abertura de uma dimensão “interior”,

144 Sobre esta dissociação: “Se, para a experiência dos homens — ao nível do que se vai incessantemente

chamar de psicologia — o que eles trocam é o que lhes é ‘indispensável, cômodo ou agradável’, para o economista, o que circula sob a forma de coisas é trabalho” (MC, 308/237).

145 Saberes da natureza viva: “O ‘grande quadro da história natural’ é como que fraturado e aberto em

uma dimensão invisível, mas essencial – a da organização da natureza e da rede diferenciada de funções (reprodução, alimentação, circulação, respiração) que ela determina. O princípio mesmo da taxonomia clássica, a saber, a superposição da linguagem e da natureza no elemento homogêneo do discurso representativo, entra em crise as coisas e os seres se fecham em sua lei interior de desenvolvimento, em sua organização interna, distinta doravante daquela da linguagem ou do discurso. [tradução nossa]”

“invisível”, “espessa”, “volumosa” e “profunda”, que escapa ao poder da representação

– fundando-o, porém146. O desnível da representação para com ela mesma, o surgimento de um “princípio interno, irredutível ao jogo recíproco das representações” (MC, 311/239) e a subsequente cisão entre a análise de representações e seu respectivo fundamento são precisamente os fatores que propiciam as primeiras condições para a transição da análise de riquezas e da fisiocracia para a economia política, da história natural para a biologia, da gramática geral para filologia. As ciências nascentes na aurora do século XIX apenas desabrocham a tendência aqui despontada – daí também a condição-limite (le seuil) representada por estes autores e este momento (1775-1795)147.

As mutações constatadas nas diversas tentativas científicas exploradas precedentemente podem “agora ser assinalad[as] na unidade que funda suas formas

diversas” – o “acontecimento subterrâneo” (événement d'en dessous - MC, 327/251) de uma escolha original realizada na obra de Kant. Pois é em relação a determinadas opções ontológicas estabelecidas pela filosofia crítico-transcendental que as modificações atestadas no plano dos saberes empíricos ganham não exatamente sua “fundamentação teórica” (não é este o nível de investigação da arqueologia), mas sua condição de possibilidade histórico-epistêmica.

O que está em jogo, no nascimento da epistémē moderna – e em última instância, o que acontece a todo o tempo em toda forma de saber, ainda que implicitamente – é a decisão sobre o “modo de ser comum às coisas e ao conhecimento”

(MC, 330/252-253), isto é, trata-se do evento singular que a cada vez diferencia e articula linguagem e mundo(e que aarqueologia não faz senão mostrar).

(SABOT, 2006, p. 244-245). A importância de Lamarck seria menos opor seu transformismo ao fixismo de Cuvier, do que romper o espaço taxonômico, opondo ao paradigma da classificação, o da organização (acompanhado pela contraposição vida x morte, correlativa àquela entre organizado e não-organizado).

Saberes da linguagem: a relação entre articulação e designação é modificada, a partir dos “sistemas de

flexão” das línguas; com ele aparece toda uma dimensão interior, histórica e formal das línguas, e por isso, não subserviente à representação, na medida em que agora a constituição gramatical afeta os elementos representativos da língua (sons, sílabas, raízes) como que de fora da própria dimensão da representação e do pensamento. A análise comparativa das línguas visa menos reconstituir um núcleo original (mítico como Babel ou arcaico como o “grito” pré-histórico), que atestasse o vínculo desde sempre indissolúvel da linguagem com a representação, e mais mostrar seu sistema interno de modificações formais e gramaticais, ao mesmo tempo, como marca da sua identidade específica e elemento comum às diversas línguas. Cf. SABOT, 2006, p. 80-84.

146 Para uma síntese, cf. § 1 do tópico “Ideologia e Crítica” (MC, 326s/250s). Os termos entre aspas,

utilizados diferentes vezes por Foucault para caracterizar esta nova dimensão do saber, distinta da representação, salientam uma nova espacialidade do saber: à profundidade e espessura do trabalho, do organismo vivo e da historicidade das línguas, se contrapõe a planura do quadro clássico.

147 O período entre os anos 1775-1825 corresponde à cronologia estabelecida por Foucault para o

processo de passagem da epistémē clássica para a moderna; Foucault escande o período em duas fases, com uma transição entre elas (1795-1800).

No limiar da nossa modernidade, isso se traduz na repentina problematização

do nexo da “representação” com aquilo que nela é dado – seu conteúdo, sua

referência, enfim, o ser cujo sentido ela deveria mostrar clara e evidentemente. Este novo problema desestabiliza os alicerces da epistémē clássica e sua linguagem pretensamente transparente, responsável por atar inextricavelmente o ser das coisas na Representação (MC, 332s/253s). Cria-se então uma situação tal que todo o espaço clássico da Ordem está prestes a se romper: o “ser mesmo do que é representado vai agora cair fora da própria representação [L’être même de ce qui est représenté va tomber maintenant hors de la représentation elle-même.]” (MC, 330/253), instaurando a partir daí um constante “desnível do ser em relação à representação” (MC, 337/258).

Kant executa como que o golpe final, refundindo a terminologia tradicional da Representação nos moldes desta problematização nova. A ordem representativa é rompida a partir de um duplo movimento performado por sua obra: ao fazer adentrar a finitude de um sujeito transcendental no dispositivo do conhecimento, delimita-se simultaneamente um âmbito absolutamente externo e inacessível ao conhecimento humano finito.

Como vimos em detalhe148, a crítica kantiana parte do problema acerca das condições de possibilidade do conhecimento e dos seus respectivos limites de jure, procurando assim estabelecer o que se pode afinal conhecer legitimamente. A resposta de Kant depende da demonstração de um fundamento a priori da síntese das representações, o que é feito a partir de uma análise, não das representações elas mesmas, mas das faculdades ou capacidades fundamentais do sujeito (analítica transcendental). Num nível mais imediato, a simples formulação da questão acerca da possibilidade de juízos sintéticos a priori produz, em retrospecto, dois efeitos sobre o modo de ser do conhecimento: primeiramente, desloca o pensamento filosófico para uma instância estruturalmente anterior às representações, a partir da qual elas podem em geral ser dadas e sintetizadas; em segundo lugar, indicando estas condições a priori, Kant procura fundar a possibilidade de uma síntese universal e necessária das representações – logo, de uma síntese não contingente e, sobretudo, não fundada no conteúdo da experiência. É disso que trata uma filosofia transcendental e a noção de sujeito que a ela compete: da condição a priori de possibilidade da síntese das representações.

Do ponto de vista crítico, o que se torna metafisicamente dogmático é justamente aquele pressuposto ontológico clássico149, segundo o qual natureza e representação encontram-se em imediata e inextricável continuidade; não é mais legítimo pressupor uma identidade entre as representações e as coisas, pois a verdade não requer apenas a análise e ordenamento das representações. Primeiramente, porque as representações não se fundam exclusivamente no seu próprio conteúdo – há toda uma atividade sintética estruturalmente anterior à experiência pela qual os conteúdos dados nas representações sensíveis tomam forma e podem ser conhecidos. Em segundo lugar e inversamente, há todo um âmbito de representações subjetivas, potencialmente ilusórias: “coisas do pensamento” que representamos apenas abstratamente, representações desprovidas de sentido e conteúdo, sem referência a uma realidade externa determinada no espaço e no tempo – tais representações não constituem, em si mesmas, conhecimento e podem se tornar, quando hipostasiadas, fonte de enganos.

Ou seja, a representação se encontra agora escorada entre duas instâncias que com ela não se confundem: de um lado, a forma e inteligibilidade do fenômeno (ou a síntese dos conteúdos da experiência) dependem de condições a priori, que não são elas mesmas representações; de outro, para além do conhecimento e do fenômeno, é possível conceber uma coisa em si, um ser inacessível cuja representação só pode ser, com efeito, abstrata. De um lado, uma interioridade que revolve e dá forma ao conteúdo representacional; de outro, uma alteridade absoluta, incognoscível – dupla faceta daquilo que Foucault apontava como a diferença constitutiva entre “o ser mesmo do que é representado” e “a própria representação”. Tanto o transcendental quanto a coisa em si são inexperienciáveis – o primeiro nem representação é, mas sim condição da síntese entre as mesmas; e o segundo não é conhecimento, mas simples “coisa do pensamento”, representação separada do ser das coisas que nos são, conforme nossa finitude, acessíveis. A finitude do sujeito do conhecimento é precisamente o dispositivo que ocasiona esta reconfiguração de conjunto, abrindo um vão entre mera representabilidade de objetos e o conhecimento propriamente dito, entre ser e representação.

É por isso também que agora, lá onde a epistémē clássica sobrepunha e anulava a diferença entre representação e significação, esta última surge, de maneira independente, como um dos mais instigantes problemas da modernidade, que põe em

149 Cf. acima p. 154-155.

questão a relação do signo com o significado150. No caso de Kant, como mostramos anteriormente151, os processos de doação de sentido e significação não são senão índices da possibilidade de síntese e requisito básico para a constituição do conhecimento. A síntese universal, por sua vez, não é senão índice de uma correlação transcendental entre sujeito e objeto (a síntese a posteriori, enfim, de uma correlação empírica entre sujeito e objeto).

O que aos poucos se desenha nos saberes empíricos do final do séc. XIX e na filosofia crítico-transcendental, é um dos vértices fundamentais do quadrilátero no qual se assenta epistemologicamente a possibilidade do saber na modernidade: o “liame das

positividades com a finitude” (MC, 463/346).

A emergência simultânea de “um tema transcendental e campos empíricos novos” (MC, 335/256) corresponde, negativamente, à falência da capacidade de a representação fundar a si mesma no movimento analítico-ordenador de auto- representação, bem como à privação de uma metafísica do infinito que antes permitia aos homens conhecerem. Positivamente, trata-se tanto da intrusão, nos saberes empíricos, de um âmbito espesso, invisível e extra-representativo, onde o homem se apresenta como ser finito submetido à sua condição de ser vivente, trabalhador ou falante; quanto da emergência crítica do sujeito transcendental e as diversas cisões kantianas (fenômeno e coisa em si; empírico e transcendental; mera representação e conhecimento sintético a priori).

Estas novas positividades não exibem senão esta fratura da representação e a progressiva interposição, entre representação e ser, do crivo incontornável da finitude. A finitude aparece então como o novo fundamento de possibilidade da síntese das representações, isto é, de tudo aquilo que se presta ao conhecimento – e por isso o pensamento cada vez mais toma como tarefa geral a realização de uma “analítica da

finitude”. Tendo em vista a diversidade de projetos filosóficos e científicos que se

sucedem, esta finitude fundamental pode ser alicerçada tanto subjetiva quanto objetivamente – pode ser da ordem da consciência ou da ordem das coisas mesmas, de uma razão pura ou de um objeto empírico, mas em ambos os casos ela vai desempenhar esta função transcendental de síntese.

150 Para a razão pela qual a filosofia clássica não tornara a significação um problema epistemológico,

como os modernos, cf. MC, 90-91/80.

Kant é ao mesmo tempo ponto de origem e entrecruzamento da finitude do homem-objeto e da finitude do homem-sujeito, na modernidade. Como tentamos mostrar minuciosamente, o filósofo soube delimitar com cautela a antropologia empírica e a subjetividade transcendental entre si e, na Antropologia Pragmática, as articulou de maneira singular152, a partir de uma correlação fundamental entre verdade e

liberdade, repetida na trama concreta do homem empírico, buscando de maneira mais ou menos precária fundá-la. A partir da grade geral de possibilidades abertas pela filosofia kantiana, é possível compreender como outros empreendimentos do pensamento, das mais diversas estirpes, buscaram do lado da finitude empírica ou da coisa em si – em suma, do lado do objeto mesmo – a condição de possibilidade da síntese de representações, isto é, o fundamento transcendental da experiência. Ambas as

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