2. A COMUNICAÇÃO DO PODER
2.4. A função do poder
O poder se distingue funcionalmente dos demais sistemas sociais por possuir um código específico, resolvendo as contingências que lhes são características e, assim, autorreferenciando-se. Possui, portanto, meios simbolicamente generalizados de reconhecimento, com uma orientação interna capaz de se aplicar a diversos casos, iguais ou semelhantes, com resultados também ou iguais ou semelhantes, mesmo havendo uma pluralidade de sistemas sociais da sociedade.148
Todos os sistemas utilizam desses mecanismos simbólicos para comunicação e, assim, resolver suas operações internas, com base na constante contingência apresentada, sejam mediante mecanismos de reconhecimento mútuo, formas de identificação social, que podem ser experimentáveis socialmente de modo a garantir uma expectativa social e, assim, reduzir os perigos de desapontamento. O código do poder (soberano/subalterno) envolve esses mecanismos simbolicamente generalizados, conforme a situação em que a comunicação do poder se apresenta em determinada sociedade.
146 LUHMANN, Niklas. Poder. p. 87.
147 WEBER, Max. Três tipos puros de poder legítimo. Disponível em <http://www.lusosofia.net/textos/weber_3_tipos_poder_morao.pdf>. Acesso em 30 de Out. de 2015.
Os símbolos e a linguagem se distinguem pelos mecanismos de força e de coesão, confluindo para uma diferenciação estável e verificável ao longo de uma relação de poder, modulando seus efeitos com variações determinadas pelo grau de liberdade das partes nessa relação de poder. Assim, o ato comportamental é indispensável para a leitura do código, variando seus símbolos (signos, texto, linguagem corporal, comportamento social, etc.) de acordo com as características de cada ato perpetrado, seja na geração ou mesmo da superação das expectativas sociais.
Mas os desapontamentos das expectativas também são contingências previstas, posto que o subalterno pode agir de modo totalmente diverso do pretendido pelo poderosos, frustrando-se suas expectativas cognitivas ou mesmo provocando uma ruptura nos paradigmas de evolução do sistema social. Uma revolução, por exemplo, pode seguir os pressupostos contrários às expectativas do poderoso (de se manter no poder) e desencadear uma luta armada capaz de inverter a hierarquia existente. O código, ainda assim, é preservado, mas suas contingências e expectativas do modo de agir apresentam um desapontamento contingencial, formulando novas complexidades a serem superadas.
Isso tornam as questões ainda mais complexas: pelo modo de agir, o poderoso ainda busca a possibilidade de outra codificação apta ao exercício do poder, sejam pelos regramentos internos (direito/não direito) ou pela capacidade de absorção da complexidade gerada pelo sistema como mecanismos de conversão de sentidos.
A codificação do direito ainda permite a observação de sua incidência em outros sistemas sociais, com maior difusão do código do poder em suas estruturas. As empresas, associações e organizações em geral, possuem em sua constituição os regramentos que direcionam os atos dos envolvidos, tanto patrões como empregados, líderes e associados, mediante expectativa de conduta descrita em seus atos constitutivos. Isso possibilita a sedimentação dessas expectativas mediante os papéis sociais adotados por cada um, fornecendo uma diretriz capaz de fornecer a todos um padrão médio de condutas e, portanto, garantir uma baixa expectativa de desapontamento.
Há, portanto, diversos níveis de complexidade e sistemas sociais que podem apresentar o código direito/não direito, soberano/subalterno, bem como diversas variáveis que estabelecem a diferenciação entre a adoção dos papéis sociais e a pessoa que os representa. Variam de acordo com o estrato social, a definição da organização, bem como as contingências previstas dentro do sistema, sobrepondo de tal forma os diversos sistemas sociais que a diferenciação funcional é a única forma observação desses sistemas.
Por conseguinte, o embate de forças existentes entre soberano e subalterno define quais serão as novas contingências surgidas, possibilitando assim as transformações sociais.
Pela teoria dos sistemas, esses campos semânticos aparecem de forma mais claros, dotando cada interação dos papéis sociais com as expectativas do agir e, regulamentados pelo código, cada sistema social vai interagir de acordo com suas premissas, selecionando os meios simbólicos cada vez mais específicos para definição do agir. Consequentemente, a redução dos códigos, em cada um dos sistemas sociais, permite sua diferenciação. Ao poder, cabe a possibilidade de pontuar cada uma das operações dentro do sistema, demonstrando quais são as comunicações que possuem algum tipo de identificação apta a gerar efeitos complexos.
Em sociedades mais arcaicas, a redução dos símbolos não permite uma diferenciação clara do uso do poder organizado com demais formas do poder, não havendo distinção funcional entre as atribuições. Assim, nessas sociedades, o poderoso cumula não apenas a função de dirigir a sociedade, mas também de servir como alicerce místico para regulamentação da sociedade.
As sociedades contemporâneas, entretanto, apresentam maior complexidade com relação aos meios de comunicação e meios de comunicação em massa, pois permitem a difusão de uma alta complexidade sistêmica, com diversas referências multifacetadas, que devem ser reduzidas para manter coerência e estabilidade dentro das estruturas sociais. Tal redução permite pontuar as atuações do poder: regulam as expectativas e as contingências sociais, formulando as questões que devem ser resolvidas dentro de um âmbito institucional organizado ou, ainda, tão somente pelo papel social que o indivíduo representa (poder pessoal).
Para isso, o poder deve também superar a dupla contingência inerente aos sistemas sociais, garantindo assim as superações das expectativas tanto do soberano quanto subalterno.
Mas a codificação do poder não pode ser analisada separadamente dos demais fatores sociais: o que leva a existência do poder como forma de comunicação é a possibilidade da redução dessa complexidade por intermédio de outras codificações. Luhmann denomina a existência de uma segunda codificação (dupla codificação) necessária para observação do poder149. O poder, portanto, passa por uma segunda forma de exteriorização para regulamentar o agir social, mediante adoção de novos códigos capazes de estabilizar as
expectativas de conduta. O direito é uma das formas pelas quais o poder institucional-organizado se exterioriza.
Assim, para o direito penal, há prescrição de condutas típicas e antijurídicas capazes de definir um tipo penal específico para cada caso, sedimentando as expectativas de posse, propriedade, vida. Do mesmo modo, o direito constitucional visa sedimentar essas expectativas mínimas com um caráter mais genérico e, assim, dirigir as condutas e expectativas referentes aos papéis sociais adotados pelos políticos, organizando estruturalmente os poderes da federação, suas atribuições e competências, enquanto o direito civil visa garantir as expectativas do agir no âmbito das relações negociais que envolvam o patrimônio e a transmissão de bens.
Luhmann chama esses mecanismos de generalização de expectativas comportamentais150, que podem variar de uma expectativa social, uma expectativa temporal e uma expectativa prática do modo de agir151.
Valores abstratos tendem a se tornar mais indefinidos, na medida em que se busca uma sedimentação dos sentidos atribuídos à determinada expectativa. Para isso, a codificação do poder busca nas bases jurídicas uma maior amplitude de normas – principalmente nos países com matriz civil law, que determinam a existência de um regramento escrito – definindo quais operações devem ser de competência para o Estado e quais são as diretrizes a serem observadas pela sociedade.
Conquanto se observa a redução desses sentidos, a dimensão temporal possui uma função de diferenciar quais são os apontamentos necessários para o direito e, a dimensão social, quais são as necessidades de apontamentos e resolução de conflitos que a política deve se ocupar (política como resultado da diferenciação Público/Administração).
Na medida em que o poder pode ser observado nas estruturas organizacionais do Estado, cresce ainda mais a possibilidade de que as reduções da complexidade se transpareçam de modo cada vez mais exacerbado: a submissão de matérias de cunho eminentemente moral à redução de uma norma jurídica aumenta cada vez mais o número de
150 LUHMANN, Niklas. Sociologia do direito I. p. 109-110.
151 Luhmann define a dimensão temporal como sendo resultado das expectativas cognitivas e as expectativas normativas em um determinado segmento temporal, havendo a normatização e a previa expectativa de conduta a ser perpetrada em um determinado lapso temporal. Pela dimensão social, há sedimentação de expectativas de condutas apoiadas em consensos formulados por terceiros. Por fim, a dimensão prática se refere à atribuição de sentidos idênticos e observáveis externamente, demonstrando as relações interpessoais e as expectativas que podem ser atribuídas em determinada operação. Cf. LUHMANN, Niklas. Sociologia do direito I. p. 109.
leis de determinado país, sem que essa estrutura normativa efetivamente possa resultar em um real estado de agir da população. Esse caso pode ser facilmente observado no aspecto interno brasileiro, cujo maior número de leis [penais] buscam reduzir a complexidade para um modo positivo de agir da população, sem que haja uma contrapartida da observância dessas normas no âmbito social152.
Para essa dupla contingência (e sua segunda codificação), permanece a possibilidade de aumento da transposição da comunicação em seus diversos níveis, sob a possibilidade de transmutações sociais e conversão de sentidos entre os diversos códigos que podem ocorrer153.
O direito, a política e o poder154, possuem uma predisposição para acoplamento estruturais, pela sensibilidade derivadas das decisões decorrentes de cada um desses sistemas sociais, ou seja, cada um dos atos, de qualquer um dos sistemas, pode ocasionar irritações que o ambiente deve absorver. Os atos políticos, mormente a possibilidade de produção de novas normas, geram constante atualização do direito, modificando a identificação ora perpetrada. Do mesmo modo, os atos jurídicos, em especial as decisões proferidas em desfavor da administração, geram irritações que devem ser resolvidas por intermédio dos ajustes fiscais e de fluxo de caixa necessários para a resolução de determinada decisão. O poder, portanto, necessita desses mecanismos de codificação para se exteriorizar.
Em uma observação acerca das condutas tanto de subalternos quanto poderosos, Luhmann ainda aponta a existência do agir do subalterno independente da conduta do poderoso, em uma leitura predisposta a uma ordem que nem ao menos necessitou ser emanada para ser cumprida155. Desse modo, as estruturas do poder ainda podem se verificar mesmo sem a pessoa do poderoso, bastando tão somente a existência de uma figura representativa de seu papel dentro de uma organização. O poder perpassa por uma dupla significação dos
152 O direito penal fornece um excelente exemplo da tentativa do estado em reduzir as complexidades e regular o interesse de agir dos indivíduos, prescrevendo normas penais incriminadores como forma de coibir determinada conduta. No entanto, o excesso de normas e regramentos permite o aumento da complexidade justamente pela população não seguir determinadas normas de conduta. Isso gera o impasse: ou a punição em massa por condutas irrelevantes ou a reformulação das estruturas do direito com base em sentidos conceituais mais claros e nítidos. LUISI, Luiz. Os princípios constitucionais penais. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris Editor, 1991, p. 26.
153 LUHMANN, Niklas. Poder. p. 30.
154 A lei comunica-se com os espaços de poder da sociedade, ultrapassando o próprio Estado. [...] A lei possui uma relação direta com o poder, ao mesmo tempo que uma certa neutralidade, o que fornece sua especialidade. O poder político, seja de origem democrática, seja totalitário, é sempre presente na gênese da lei. O conteúdo da lei é sempre político. Contudo, uma vez vigente a lei, o poder não pode alterá-la, sendo obrigada a cumpri-la. ROCHA, Leonel Severo. Epistemologia jurídica e democracia. p., 121.
símbolos: uma constância temporal relativamente independente dos meios simbolicamente generalizados produz os mesmos efeitos que podem ser observados com o agir do poderoso. Os símbolos se mantém e o subalterno age da maneira que o poder (organizado ou pessoal) indicaria como solução.
Mas o poder político ainda apresenta uma tautologia bem definida pois, conquanto as formulações jurídicas se baseiam em uma soberania interna de auto-regulamentação, a soberania fundamenta-se, em último caso, no poder popular fornecido ao Estado que permite o poder decisório das políticas públicas aos representantes legalmente estabelecidos por intermédio das regras jurídicas de validação de suas competências156.
A observação de segunda ordem, ainda nos permite visualizar toda comunicação institucional do poder, descentralizado e relativamente independente dos comandos oficiais que transparecem na política.
O Brasil apresenta ainda a diferenciação entre executivo e legislativo. Enquanto a administração busca a realização de atos positivos ou mesmo de abstenção popular como forma de regulamentação das expectativas populacionais (seja por intermédio da necessidade de manutenção da ordem pública e da representação da soberania interna e externa), o legislativo ainda apresenta, no interior de sua organização, a utilização de mecanismos simbólicos do poder, no diálogo igualitário entre as duas organizações. Ou seja, o executivo não detém o poder absoluto das regras procedimentais e tampouco pode ser o último poder [dentro da estrutura da federação] a proferir alguma ordem. Ao contrário, o executivo frequentemente é compelido a praticar atos de prestação jurisdicional à população para garantia de direitos individuais ou coletivos.
Em uma análise do contexto brasileiro, ainda é permitido observar o poder executivo como o que menor detém qualquer tipo de poder dentro de uma organização interna, posto que necessita do aval do Congresso Nacional [Público] para ajuste de suas contas e ainda agir em conformidade com a constituição da república para que seus atos não sejam declarados nulos. As contingências previstas desses atos são inegáveis: uma constante medida de força com a adequação dos atos com a população e um constante embate de forças com os ajustes fiscais e econômicos para viabilizar as decisões da Administração.
Isso ainda gera uma separação bem nítida entre a formalidade e a informalidade do poder, estrutura e cadeia de ação dentro de uma determinada organização.
Conquanto o poder pode se organizar estruturalmente, esse necessita de papeis bem definidos para que o poder possa observar a si mesmo como sistema, em uma operação de reflexividade157, que permite o escalonamento do poder de agir158. Pelo escalonamento (cadeia de agir), A detém o poder sobre B, que detém o poder sobre C e, assim, sucessivamente, dentro de uma escala hierárquica. Para que esse escalonamento seja viável, o poder deve possuir pretensões de generalidades, aplicando-se a si mesmo a teoria dos sistemas, identificando as diferenciações funcionais existentes dentro de cada um dos níveis de poder apresentados.
Determina o grau de interatividade que se pode aferir dentro de uma escala hierárquica e, consequentemente, a diferenciação dos papéis atribuídos a cada um dos integrantes dessa cadeia de ação, possibilitando, ainda, que essa hierarquia seja invertida. Em organizações empresariais essa inversão de papéis (poderoso/subalterno) é mais difícil de ser encontrada. No entanto, em organizações políticas há possibilidade da reflexividade na cadeia de ações.
Conquanto a estrutura permite a hierarquização do poder mediante um escalonamento de condutas do agir, nas organizações políticas, nem sempre a hierarquia é a fonte principal do exercício do poder, havendo possibilidade de uma sobreposição desses papéis e a inversão da figura do poderoso com a figura do subalterno. Assim, oposição pode possuir mais poder do que o governo, um parlamentar pode possuir mais poder do que a organização (partido) que ele próprio representa, etc.
Isso ainda reforça a divisão estrutural das três formas de poder “puros e legítimos” descrita por Max Weber, que define a possibilidade do poder carismático se sobrepor ao poder legal, ou mesmo o poder legal se sobrepor ao poder tradicional ou vice-versa. Em Luhmann, essa temática ainda ganha novos contornos pela possibilidade da conversão de sentidos e a desestruturação das organizações políticas como fonte do exercício primário da política.
Em suma, o poder possui a função de regular a contingência, em seus mais diversos graus de desdobramento, fornecendo os códigos específicos para identificação dos sistemas sociais e observação de como as decisões podem causar irritações nos mais diversos sistemas sociais que compõem o ambiente da política, estabilizando as expectativas e produzindo decisões relativamente vinculadas.
157 LUHMANN, Niklas. Poder. p. 34.