2.1 A natureza humana
2.1.3 A função epistêmica do sujeito substancial
Descartes é considerado o fundador da filosofia moderna porque descobre no interior do ser humano o princípio ordenador (estruturador) do conhecimento. Com Descartes, a
assentir, ou seja, aceitá-la. De forma semelhante, a união substancial (entre mente e corpo) requer uma causa não só exterior, mas superior ao homem, a fim de que possa ser concebida.
razão subjetiva, ou melhor, a subjetividade erige-se em princípio da verdadeira filosofia. Pode-se dizer que a metafísica cartesiana representa, neste sentido, a marcha (démarche) da própria razão em busca de si mesma. O processo de instauração do Cogito impõe a Descartes, dupla exigência: a) epistemológica – é necessário estabelecer os princípios e critérios de validação do conhecimento, determinar as condições sob as quais a verdade é possível, ou seja, estabelecer os seus princípios/fundamentos metafísicos. Porém, assevera Descartes, o problema do conhecimento não pode ser equacionado sem antes considerarmos a causa primeira, a origem de todas as coisas; b) ontológica – a razão finita é incapaz de validar-se a si mesma, por isso, recorre à razão infinita. Nesse sentido, as provas acerca da existência e da veracidade de Deus visam restabelecer a confiabilidade da razão. O ser infinito precede o ser finito na ordem do ser, mas o ser finito precede o infinito na
ordem do conhecer. Pode-se dizer, portanto, que assim como o pensar implica o existir, assim também o ser finito implica o ser infinito, de modo que se Deus não existisse nenhum conhecimento seria possível332.
Cumpre observar que somente quando o pensamento volta-se sobre si mesmo é que o pensar e o ser se identificam (se equivalem), ou seja, tal identidade ontológica é válida apenas para o Cogito. O pensamento tem o poder de representar as essências das outras coisas, entretanto, tais essências não podem ser (do ponto de vista ontológico) idênticas ao pensamento. O pensamento é distinto das coisas pensadas uma vez que a sua natureza não depende das representações; ao contrário, as representações é que são determinadas ou dadas no e pelo pensamento. Embora em sua atividade epistêmica, o sujeito pensante pressupõe a existência de uma relação de semelhança entre ser e pensar (uma similaridade entre a coisa representada e a representação) permanece a diferença ontológica. Se pela capacidade representativa da razão determinamos o conteúdo de nosso conhecimento333, entretanto, é pelas coisas representadas que estabelecemos uma relação de correspondência entre o pensamento e o seu objeto. A validação do conhecimento depende da correlação existente entre aquilo que está na mente e o que está fora dela e não o contrário. Se a razão tem acesso às essências das coisas é porque possui uma capacidade representacional. Daí
332Méditations, AT IX-1, 56.
333Cumpre observar que, mais tarde o filósofo alemão Kant, em sua obra Crítica da razão pura (1781) retoma
e aprofunda as implicações epistemológicas dessa tese cartesiana, diferenciando noumenon (a coisa em si) de fenômeno (o que aparece ao sujeito racional).
dizer que tudo o que é possível conhecer é dado pela realidade objetiva da idéia ou pela representação da coisa. Desse modo, o que não pode ser representado também não pode ser conhecido. Contudo, o filósofo não nega a presença ou a existência de qualidades sensíveis nas coisas; o que pretende negar é que tais qualidades possam constituir objeto de conhecimento.
Como se vê, há uma diferença entre o modo como a mente conhece a si mesma e o modo como ela conhece as outras coisas. O conhecimento que o sujeito pensante pode possuir de si mesmo concerne ao seu ser, à natureza de suas capacidades mentais. Assim, enquanto o conhecimento do “eu” se dá mediante a intuição de um princípio, por isso, é não-representativo (não-correspondencial), o conhecimento das coisas é sempre representativo e correspondencial. As verdades metafísicas são indubitáveis porque são dadas pelo exercício do entendimento puro, ao passo que, as verdades científicas, embora indubitáveis, são limitas e parciais, visto que dependem não só do entendimento, mas do auxílio da imaginação e dos sentidos.
A indubitabilidade do Cogito – a impossibilidade de duvidar da própria existência ou da existência de seu próprio pensamento faz ver a Descartes que há um reduto que permanece indevassável (imune) ao ataque da dúvida. É a própria dúvida que ao voltar-se contra si mesma se converte em certeza; da impossibilidade de duvidar que duvido, segue- se que quando duvido estou pensando334. É nesse instante que se dá a emergência da consciência subjetiva, constitui-se (ou institui-se) a subjetividade.
Entretanto, a certeza de minha existência, diz Descartes, impõe a necessidade de saber o que sou335. Se o pensar constitui a minha natureza é porque a razão me permite assegurar que a consciência de mim mesmo é anterior e independente das coisas que ainda não conheço336. Isto significa dizer que para conhecer-se a si mesma, a res cogitans não necessita do corpo. Por isso, o sujeito pensante é, para Descartes, uma substância completa,
334Principes, AT IX-2, 29.
335Méditations, AT IX-1, 21, 26. O pensamento não é apenas um ato do entendimento, mas dos sentidos, da
memória e da imaginação. Pensar é apreender uma idéia pelo entendimento, saber que algo é. Conhecer entretanto, implica saber o que algo é, qual a sua essência. Daí a necessidade irrefreável de saber do ponto de vista metafísico, o que sou, qual é a minha natureza.
336Méditations, AT IX-1, 21-22; Principia, AT VIII, 228-29. Nessa passagem, Descartes afirma a
capaz de existir sem o corpo. Ou seja, a mente (o espírito)337 é mais fácil de ser conhecida que o próprio corpo338; pela intuição o Cogito é conhecido em toda a sua plenitude, ou seja, a razão percebe através de um único ato de pensamento a existência e a essência de uma realidade que é completa em si mesma. É o acesso privilegiado ao seu próprio ser (enquanto algo certo e indubitável) que possibilita ao sujeito pensante conhecer-se independentemente dos outros seres. A consciência de si é, portanto, do ponto de vista epistemológico, anterior a toda consciência possível; ou seja, a certeza do Cogito é a condição de possibilidade de todo conhecimento. Assim, a res cogitans (a mente) passa a ser o sujeito de atribuição dos enunciados cognitivos; é referida e designada como sujeito dos atos cognitivos.
Por outro lado, se o sujeito não é consciente de todos os seus atos mentais, disso não se segue que ele não pensa. A autoconsciência (a percepção de ser sujeito de seus atos de pensamento) não resulta de um processo espontâneo da razão; ao contrário, é necessário empreender uma luta contra nossa tendência natural (habitual) de pensar, de não refletir metafisicamente. Trata-se, conforme dissemos, de “afastar” a mente do corpo (abducere
mentem a sensibus), de pensar somente com a razão, o que requer a meditação metafísica, a fim de poder conduzir o pensamento por si só em direção à verdade. A subjetividade em sua dimensão epistêmica é constituída mediante um processo de descoberta da razão, o que implica a libertação da mente da influência dos sentidos e da tradição. O surgimento da consciência subjetiva só se dá após um longo e exigente esforço investigativo e metódico da razão. A distância epistêmica que aparta inicialmente o sujeito pensante da consciência de seus atos deixa de existir na medida em que se dá a descoberta da primeira verdade; por isso, saber que penso é o mesmo que pensar. Nesse processo, Descartes encontra, portanto, aquilo que de algum modo já possuía. É pela via analítica, isto é, pelo processo demonstrativo que prova como os efeitos dependem das causas que Descartes conduz a razão à descoberta do fundamento absoluto, a fim de fundar todo conhecimento.
337Méditations, Abregé, AT IX-1, 9. Nas Quintas Respostas, AT VII, 356, Descartes emprega o termo espírito
(mens) com o sentido de alma (anima), a fim de evitar a ambigüidade introduzida pela Escolástica.
338Principes, AT IX-2, 11. “Se, por exemplo, me persuado de que há uma terra, por a tocar ou ver, por razão
ainda mais forte devo estar persuadido de que o meu pensamento é ou existe, porque pode suceder que eu pense tocar a terra, embora não haja talvez nenhuma terra no mundo, e que não seja possível que eu, isto é, a minha alma, nada seja enquanto ela tem este pensamento”. Ver Discours, AT VI, 33; Méditations, AT IX-1, 26; Secondes Réponses, AT IX-1, 126; Principes, AT IX-2, 29; Correspondance, Carta a Mersenne, julho de 1641, AT III, 394.
Se do ponto de vista epistêmico, o sujeito se diz autônomo, é porque é capaz de conhecer por si mesmo a verdade. Ora, a determinação metafísica a que está submetido o sujeito epistêmico impede-o de ser determinado por outras instâncias. As relações com os outros sujeitos não são constitutivas de seu ser, uma vez que não têm o poder de mudar (ou de alterar) a sua natureza ou essência. É pela meditação metafísica que o sujeito adquire consciência de sua natureza. A subjetividade resulta de um inquérito metafísico, do qual depende a percepção dos atos de pensamento, assim como a percepção da natureza do sujeito desses atos. Ser sujeito, portanto, é ser consciente, saber-se pensante.
Ora, se a prova de que existo enquanto sujeito epistêmico é o fato de pensar, então a natureza do sujeito epistêmico se revela enquanto faculdade de pensar339; sua identidade é dada no e pelo pensamento; todos os atos cognitivos são sempre realizados por um sujeito epistêmico (por uma sustância pensante). E se pensar implica a posse de si para depois apossar-se do mundo, então é a experiência metafísica do pensamento que funda a racionalidade do sujeito e a possibilidade das ciências. Em outros termos, a certeza do enunciado Cogito ergo sum, o conhecimento da natureza metafísica do sujeito é dado pelo entendimento puro.
O atributo principal de uma substância é aquilo que define a sua natureza, seja ela material ou espiritual. Assim, o pensamento (o único atributo que me pertence), não pode ser subtraído de mim; ou seja, o pensamento constitui a minha natureza (identidade) enquanto me percebo sujeito dos meus atos de pensamento (ou de consciência). É a substância pensante (a res cogitans) que define a identidade ou unidade do sujeito epistêmico; tal sujeito é sempre idêntico a si mesmo na diversidade (ou multiplicidade) de seus atos. Daí que todo ato de pensamento ou de consciência supõe o sujeito desse ato, assim como, o pensamento supõe alguém que pensa. Por isso, ser sujeito significa ser consciente de seus atos de pensamento. À percepção clara e distinta de minha natureza corresponde a consciência de que sou uma realidade distinta dos outros seres. Disso decorre que o “eu” subsiste ao longo de sua existência enquanto sujeito que pensa.
Porém, a substância pensante difere de seu atributo essencial (do pensamento) na medida em que é aquilo que sustenta o atributo e seus modos. A substancialidade da mente define-se pela identidade e pela imaterialidade (natureza espiritual) de suas propriedades. A
subjetividade, porém, descreve um movimento que vai do interior para o exterior, de dentro para fora; da reclusão metafísica do sujeito à abertura ontológica.
Cabe, pois, perguntar: como posso saber se (durante a minha existência) permaneço idêntico a mim mesmo? Para Descartes, é a memória intelectual340 (ao invés da memória corporal) que preserva as evidências passadas, de modo que eu sei que sou e o que sou durante todo tempo de minha existência. Ou seja, a memória intelectual me assegura de que sou o mesmo sujeito que agora existe e de que se lembra de existir. A evidência atual encontra na evidência passada não a sua garantia, mas a certeza de que o sujeito subsiste ao longo de sua existência. Do fato de que todo pensamento é sempre o pensamento de alguém, assim também, a memória é sempre a memória de alguém. É necessário que exista um sujeito substancial, alguém que tenha a posse e a consciência de si para poder conhecer o que é distinto de si; deste modo fica demonstrado para Descartes que a interioridade da consciência precede o conhecimento do mundo exterior341.
É mediante a razão que o homem pode conhecer a sua natureza (a imperfeição e a finitude) de seu ser, assim como a sua própria faculdade de conhecer ou de representar as coisas. Ou seja, é pela capacidade representacional da razão que o sujeito pensante conhece; pode dizer o que são as coisas e porque não podem ser de outro modo. A capacidade de conhecer revela-se perfeita em sua natureza; ou melhor, a razão não possui nenhuma deficiência (nem carência) quando considerada em seus próprios poderes ou faculdades. O poder do entendimento é em si mesmo perfeito na medida em que é capaz de conhecer tudo o que está dentro de seus limites epistêmicos342. Ora, se a razão é perfeita em
340Entretien avec Burman, AT V, 150.
341HUSSERL, E. Meditaciones cartesianas. Madrid: Tecnos, 1986. Embora nesta obra o autor se proponha
pensar à maneira cartesiana, seu objetivo é superar os limites da metafísica cartesiana. A objeção de Husserl contra Descartes consiste em mostrar que o autor das Meditações metafísicas não pode afirmar o Cogito enquanto fundamento primeiro (ou realidade primeira na ordem do conhecimento) porque toda consciência é sempre “consciência de”. Ora, isto significa dizer que todo ato de consciência implica intencionalidade (direcionalidade), ou seja, exterioridade. Em outras palavras, a experiência do Cogito não é possível sem a experiência do mundo exterior. Descartes, entretanto, parece ter respondido a esta objeção ao distinguir o conteúdo do pensamento da “coisa que pensa”. Ou seja, é a recusa da substancialidade do sujeito que impede Husserl, assim como Locke, Hume, Kant entre outros, de concordar com Descartes.
342Méditations, AT IX-1, 47-48: “[...] pois a luz natural nos ensina que o conhecimento do entendimento deve
sempre preceder a determinação da vontade. E é neste mau uso do livre arbítrio que se encontra a privação que constitui a forma do erro. A privação, digo, encontra-se na operação na medida em que procede de mim; mas ela não se acha no poder que recebi de Deus, nem mesmo na operação na medida em que ela depende dele. Pois não tenho nenhum motivo de me lastimar pelo fato de que Deus não me deu uma inteligência mais capaz, ou uma luz natural maior do que aquela que dele recebi, posto que, com efeito, é próprio do
seu poder, é porque Deus que é seu autor é perfeito. Entretanto, da perfeição da capacidade da razão não se segue a perfeição de nosso conhecimento. Ou melhor, o nosso conhecimento é perfeito em relação àquilo que conhecemos, mas é imperfeito em relação àquilo que falta conhecer.
Nesse sentido, o Cogito é percebido como noção primitiva visto que o seu ser é conhecido independentemente das outras substâncias. Se o conhecimento de mim mesmo (de minha mente) não pressupõe343 nem a existência de meu corpo, nem a existência de nenhum outro corpo e de nenhuma outra mente, então a prioridade epistêmica do Cogito está assegurada. Em outras palavras, o “eu” não é constituído por nenhum outro “eu”, a não ser pelo Outro absoluto (o soberano criador).
A intuição é o modo pelo qual conhecemos a nossa natureza. A dúvida que levou Descartes a revogar suas opiniões não pode, contudo, abalar a confiança na intuição intelectual, dado que todo pensamento pressupõe um sujeito que pensa. Ou melhor, a evidência da intuição revela-se irresistível, à medida que inclina a vontade ao assentimento. Daí que recusar a evidência racional implica recusar a própria razão; resistir à evidência da razão implica empregar de modo incorreto o poder da vontade. Seja como for, temos sempre o poder de decidir pela falsidade mesmo quando percebemos a verdade. A intuição é um poder que pertence à razão e o conhecimento que dela deriva é imediato e indubitável. Se é pela introspecção (pela via interior) que Descartes pretende alcançar a certeza metafísica de sua existência, então, a intuição do Cogito é imediata, por isso, não necessita de raciocínio para ser aceito ou afirmado.
Enquanto noção primitiva (originária e fundante), o Cogito não depende de nenhuma outra idéia para ser conhecido. Nesse sentido, diz-se que a consciência do sujeito
metafísico (substancial)344 é imediata e não representacional, porque não se faz mediante
entendimento finito não compreender um infinidade de coisas e próprio de um entendimento criado o ser finito [...]”.
343Se a mente é uma substância imaterial, então ela é determinada por propriedades imateriais; portanto, é não
só independente, como também impassível frente às determinações do mundo físico, da cultura e da sociedade. Ou seja, a sua natureza é imutável, sempre idêntica a si mesmo, ou insuscetível à mudança. Nesse sentido, o sujeito cartesiano é metafísico, ahistórico (intemporal).
344 Dizer que o sujeito pensante é um sujeito substancial, significa dizer que sua essência é irredutível aos
modos de seu pensamento. A subjetividade para Descartes é a revelação da natureza individual (subjetiva) e universal (objetiva) do pensamento. O caráter privado da mente nos diz que para todo pensamento há sempre um sujeito que pensa, ou seja, que não é possível pensar sem uma “coisa que pensa”. Não se trata, portanto, de um sujeito lógico-gramatical (ordenador ou enunciador de juízos), mas de uma realidade anterior e
um ato de representação. O sujeito pensante concebe (apreende) pela intuição intelectual a essência e a existência de seu ser345, adquire mediante um só ato intuitivo toda a consciência de que precisa. A autoconsciência surge, portanto, como conquista individual, fruto do esforço meditativo do pensamento puro. Em outras palavras, não é possível a consciência sem o pensamento metafísico, assim como não é possível o pensamento metafísico sem a consciência de pensar. Ora, se não temos acesso à substância pensante senão pelo pensamento, é porque a consciência de si é sempre uma consciência mediada pelo pensamento.
A instauração do Cogito mostra, portanto, a identidade entre o ato de pensar e o conteúdo desse pensamento; o sujeito substancial subsiste na multiplicidade de seus atos, porque a substância pensante continua a existir nos modos de seus atributos. Assim, a independência da mente em relação ao corpo mostra para Descartes, a imaterialidade da mente, assim como a função epistêmica do sujeito pensante. A unidade operacional da razão pressupõe a identidade substancial do sujeito. Em outras palavras, a realidade objetiva da idéia do sujeito pensante coincide com a sua realidade formal. Não se pode aplicar para o caso do Cogito o princípio de correspondência que é aplicado aos demais casos para se aferir a relação entre sujeito e objeto do pensamento. O Cogito não é uma idéia representativa à maneira das idéias que temos dos corpos externos ou de Deus. Ao contrário, a idéia que tenho do “eu” é percebida imediatamente pela razão pura.