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A função social do escritor para Osman Lins

Scriptor 26 ), como podemos perceber também no trecho dos Cahiers de Paul

2. As frontes da guerra

2.2. Autores (in)diferentes

2.2.2. A função social do escritor para Osman Lins

Esse compromisso do escritor com o social sem abrir mão dos valores estéticos é também característico de Osman Lins. Embora o pernambucano

tenha citado Paul Valéry, em Guerra sem testemunhas, diretamente no que diz respeito ao rigoroso trabalho de composição da obra, o ato de elaborar uma linguagem dentro da linguagem - não há nenhuma referência explícita sobre a postura política do poeta francês - podemos ver em Osman essa preocupação em tratar assuntos do seu tempo, na ficção, no ensaio, no ensaio ficção e na ficção ensaio, tamanho hibridismo e dança de gêneros.

A citação de Eupalinos, “A maior liberdade nasce do maior rigor.” (GST, p.92), por exemplo, é significativa tanto no que diz respeito ao trato com a linguagem, como também com o compromisso social do escritor. Ela também pode ser interpretada como a necessidade de, diante de um contexto de rigor, como a ditadura militar brasileira, contexto em que o ensaio foi produzido, através do trabalho apurado com a linguagem dar maior liberdade ao escritor. O embate com regras excessivas exige maior criatividade, maior exploração com a linguagem pra driblar a censura, o que revela a potencialidade da obra como atuante silenciosa e insistente num contexto não favorável. Por tentar abafar a voz dos escritores que subvertem a ordem, a censura acaba por fazer uma homenagem ao escritor, aquele que pelas sutilezas da linguagem expõe o osso do mundo. (GST, p.189).

Numa coletânea de ensaios sobre os Anos 70, ainda sob a

tempestade organizada por Adauto Novaes (2005)94 vemos ‘o testemunho, escrito por intelectuais-personagens da década no 'calor da hora', sobre a cultura produzida nos ‘anos de chumbo no Brasil’ e Avalovara de Osman Lins está listado entre um destes testemunhos, como escritor que explora os acontecimentos em sua raiz.

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É consenso da crítica a postura de Osman Lins como pensador de seu tempo. A temática das relações do escritor com a obra e com a sociedade aparece no livro Guerra sem testemunhas em vários capítulos. Apresentaremos aqui os trechos que mostram como o pensamento osmaniano está diretamente relacionado à ética das recusas, segundo a atuação do escritor para Paul Valéry, na linha dos grandes indiferentes, como também a crítica que Osman faz aos escritores que se deixam levar pelo conceito de indiferença vulgar, e não estabelecem na obra, “móbile de fenômenos estéticos e sociais” (GST,p.44), o vínculo essencial com o mundo: “Uma obra é expressão global de nosso espírito numa determinada época: ela não pode ser falha em alguns dos seus aspectos fundamentais e bem sucedida em outros.” (idem, p.62)

O conceito de obra literária para Osman na voz dos narradores de

Guerra sem testemunha está ligado ao texto escrito com empreendimento,

com o “indispensável sentido de composição” (GST, p.48) sendo o valor estético um fator tido como maleável, existente nas obras-primas, e de que ele não abre mão. Para eles, o valor estético pode até estar ausente em outros textos literários, desde que a obra seja concebida como plano, inventividade com eixo. Embora não diferencie obra literária de obra não literária pelo valor estético o autor não abre mão da estética em sua ética enquanto escritor. A elaboração do plano da obra não é suficiente, é preciso realizá-la, e isso só é possível quando o escritor atinge a fase de harmonia entre a consciência do fazer artístico e a concepção de mundo.

É considerada como a virtude do escritor, ‘poupar suas forças’ visando seu empreendimento, o que requer um espírito seletivo alerta. Osman nos remete à ética das recusas de Paul Valéry, quando afirma: “Urge, por outro lado, criar em seu espírito um núcleo invulnerável, onde a obra haverá de prosseguir, dia a dia, alheia a quaisquer vicissitudes. (...) Tudo isto, por certo, atingirá o autor, inoculando-se na obra: nada, se ele franqueou determinado estágio perante o mundo e a palavra, virá desviar ou perturbar sua concepção.” (GST,p.27)

A questão de Osman não é em relação à recusa às vicissitudes do mundo que atrapalham o ato do escritor no momento da solidão de sua composição, mas quando a composição, a obra, apresenta explicitamente a recusa ao mundo como fuga do contexto histórico no qual foi elaborada. Osman faz uma crítica à opção de alguns escritores pela literatura de escape, fundamentados na dupla significação da literatura como fuga e engajamento. Na voz dos narradores W M o ensaísta afirma:

“Inclusive a responsabilidade invocada e exigida pela chamada literatura engagée nem sempre escapa de se transformar em válvula de escape, fuga ao verdadeiro empenho que é o escritor com o mundo. Pode ser, o alistamento – não dizemos que é sempre, e sim que pode ser – tão inoperante e escapista quanto um filme das Produções Walt Disney.” (GST, p.51).

Do mesmo modo que a literatura engajada pode não ter realmente ligação com o mundo, contestar o real, criticar os governos opressores, o texto que trabalha a forma pela exploração da linguagem apresenta o

interesse pelo contexto histórico, essencial para sua produção, pela negação aparente. Enfrentar o mundo é a maior prova que o escritor enfrenta porque ele se mostra como uma “sombra ardente” (GST, p.51) a qual só aos poucos pode ser observada com risco de não cegar. Recusa que “muitas vezes assume aspectos de adesão a bens mais importantes que os bens imediatos.” (idem)

Para W M dependendo da evolução do autor, ele vai ‘fechar seu espírito diante do mundo sensível’, ou vai sorvê-lo com apetite. (GST, p.52). Os escritores que optam pelo segundo caminho são os que enfrentam o real e não simplesmente o descrevem, pela subversão do real eles introduzem em sua obra o mundo sensível sem que ele a estorvem, “sem que nos apercebamos de sua presença voraz e dominadora.” (GST, p.57). A marca da verdadeira literatura não é a mímese do real, mas a “tensão entre frase e significado, a vibrante e interminável oscilação entre o texto e o mundo” (GST, p.61).

Comprometido com outra espécie de realidade, a que foi transfigurada no texto por meio da intimidade que o escritor tem com a língua, o autor escreve como quem conquista territórios. Daí a importância de citar Ortega y Gasset e sua volta à etimologia da palavra autor, como aquele que aumenta. O escritor é aquele que aumenta a realidade através do trabalho apurado com a linguagem, por meio do elogio da forma literária, compromisso estético e social.

Aos que insistem em associar a solidão do escritor, o isolamento essencial no ato da escrita, ao desinteresse pelo contexto social WM é

contundente: “A solidão do escritor, em seu quarto fechado, é aparente. Ele está, na verdade, ligado aos homens, sejam ou não seus leitores, por vias bem mais fortes que a vizinhança material” (GST, p.146).

Segundo os narradores, o ato de recolher-se numa ética das recusas para, pelo trabalho apurado com a linguagem, ampliar o real, não é o grande empecilho para a atuação do escritor na sociedade. A liberdade do escritor nem mesmo é cerceada totalmente pelas mãos da censura. Para o escritor WM, em debate com os censores, segundo a narração do seu parceiro geométrico, é a ‘indiferença que os cerca’, (GST,190), mortal para o autor. ‘O conluio da indiferença em relação ao escritor e ao livro no Brasil’ (p.192). A palavra ‘indiferença’ aqui é usada no seu sentido dicionarizado para expor o descaso de alguns editores no trato com a publicação e divulgação de um livro quando este não atinge as grandes massas e, consequentemente os rendimentos financeiros desejados.

No capítulo X, O escritor e a sociedade, o narrador WM diante do fato de estar o ensaio em fase de conclusão e ter uma visão mais esclarecida de sua obra, se despede do parceiro e assume em vários trechos o peso do pronome ‘eu’: “Empreendo afinal, a redação desse capítulo, o último (...)” (GST,p.193). [...] E mais uma vez o narrador associa a condição do escritor no mundo contemporâneo a implicações éticas e estéticas (idem, p.194). Além disso, afirma que essa relação – segundo Sartre, outro leme em seu ensaio, umas das epígrafes que sustentam o ensaio de Osman Lins – compõe o sentido de literatura como “negatividade, ou seja com a dúvida, a recusa, a crítica e a contestação” (GST, p.196)

Diante de um mundo que desconsidera a literatura em sua especificidade, como entretenimento, similar à indústria cultural, mundo “onde os valores não são enredados e subvertidos devido apenas à ingenuidade ou à ignorância, e sim a um processo global de mistificação, sem paralelo na História – e imposto, como um sistema, por todos os meios disponíveis” (GST, p.199) – o espaço da literatura e do escritor se resguarda no campo da resistência. Essa resistência é feita por recusas, certo afastamento das solicitações contemporâneas, a busca de mídias que são sucesso de público, ou a publicação indeterminada de livros que não consideram a concepção de obra e mundo:

“Ciente de que uma certa margem de degredo lhe é indispensável, faz assim mesmo o que está em seu poder para ultrapassar os círculos da recusa e para que o mundo, sem voz, não pereça. Ele tem a consciência e a responsabilidade de ser.” (GST, p.203).

Ultrapassar os círculos da recusa é a concepção defendida aqui pelos autores (in)diferentes. Aqueles que fazem uso da técnica, do elogio da forma, exploram a linguagem sem o formalismo oco, escritores como Paul Valéry e Osman, nas palavras de Sartre – que “restabelecem a linguagem em sua dignidade.” (GST,p.205) - e de Lukács “para quem uma decidida modificação de forma nunca é uma questão puramente formal”.(GST, p. 209)

A busca do ornato, o trabalho com a lugúgem literária e suas virtualidades está ligada ao social: “Cabe aos escritores, aos defensores da linguagem, empreender conscientemente e sem tibieza, tanto por motivos

estéticos quanto por razões éticas, o regresso ao mundo”(GST,p.213). A consciência da função social do escritor não significa ação política, partidária: “Com a obra literária, e por nenhum outro meio, é que realmente age o escritor: sua ação é seu livro.” (GST, p.219) “Do ponto de vista social, portanto, sem que isto signifique desinteresse do escritor em relação ao destino dos homens e dos povos, será um servidor na medida em que servir, com o máximo empenho e a maior dignidade possível, à literatura.” (GST. p.220) Servir, mostrar a que veio.