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PARTE I: Delinear os conceitos acerca do Transpessoal.

1. O Inconsciente (Unbewuβte) com base em Schelling e Jung e a Categoria Transpessoal no Pensamento Poético e Filosófico em Língua Portuguesa.

1.3. A Função Transcendente e o Problema do Quinto Elemento.

A Função Transcendente em Jung está implicada no processo de individuação e da sincronicidade arquetípica na constelação dos seus conteúdos enquanto elementos da natureza da Psyché. Ao pensar no propósito das quatro funções psíquicas considerando a (fp) principal e a inferior temos: “A transformação posterior dessas quatro rodas corresponde ao processo de integração através da função transcendente. Esta une os opostos e, como mostra a alquimia, estes últimos são ordenados num quatérnio”72

.

Marie Luise von Franz ao dissertar sobre a Tipologia de Jung e «O papel da função inferior no desenvolvimento psíquico» diferencia a função transcendente da gestalten e enfatiza a diferença da fantasia para a imaginação activa:

A função transcendente é diferente do que geralmente se usa em gestalten ou quando se permite que as pessoas fantasiem livremente. Há aqui uma fantasia com a consciência do ego mantendo o seu ponto de vista. Essa actividade é conduzida pelo impulso de individuação. Quando esse impulso ainda é inconsciente, é simplesmente aquele elemento de constante insatisfação e inquietação que importuna as pessoas até que elas atingem um nível cada vez mais alto da vida. O principium individuationis é naturalmente essa função transcendente, mas, na psicologia de Jung, o indivíduo não se contenta em deixar que isso apenas o toque até dar o próximo passo; ele se volta directamente para o assunto e tenta dar-lhe uma forma apresentando-o através da imaginação activa. E isso, de certa forma, leva a uma evolução que transcende o problema das quatro funções; aí então constante batalha entre as quatro funções se acalma73.

Poderíamos afirmar que a função transcendente está no propósito do criar, da regência da quinta função psíquica, que desperta a imaginação, uma vez que une as quatro demais e as supera, na sua auto-transcendência. Importa ressaltar a função transcendente e a função inferior, como categorias que serão articuladas com o pensamento poético-filosófico dos autores aqui trabalhados. A Função Transcendente

72 Cf. Marie-Louise von Franz, James Hillman, A Tipologia de Jung, ed. Cultrix. São Paulo, p.93. 73 Cf. Idem. p.102-103.

implicada no processo de individuação e da sincronicidade arquetípica na integração pela síntese entre o consciente e o inconsciente. Ocorre a constelação dos seus conteúdos enquanto elementos da natureza da psique: “A personalidade total é indicada pelos quatro pontos cardeais, os quatro deuses, isto é, as quatro funções que dão a orientação do espaço psíquico, e também pelo círculo que engloba a totalidade.”74.

O problema do inconsciente remete para a categoria transpessoal ao contacto com o inconsciente profundo, que em última instância se apresenta como função transcendente: “Quero sublinhar apenas o fato de que se trata de uma mudança essencial. Dei o nome de função transcendente a esta mudança obtida através do confronto com o inconsciente. A singular capacidade de transformação da alma humana, que se exprime na função transcendente, (…).”75

Será que o sair da dimensão limitada da consciência do eu pessoal e confrontando com o desconhecido do inconsciente se poderá estabelecer o contacto com o universo mito-poiético? A vivência do impulso mítico (catábases, cosmogonias e metamorfoses) exprimirá a função transcendente da Mitologia (rito e mito) no testemunho da escrita da Poesia? O arquétipo da sombra, (Schatten), ou ao contrário a vivência do numinoso, no arquétipo do Selbst revelam narrativas de matrizes e estruturas que pertence à Mitopoiésis ou a Filomítia? Qual é a qualidade peculiar do registo manifesto pela vivência escrita ao considerar a poética, a arte de transmissão deste fenómeno?

O confrontar o inconsciente, (Unbewuβte) não somente no seu nível pessoal, mas também arquetípico, no caminho da individuação de tornar-se o si-mesmo, Verselbstung, seria comparado ao que Vicente Ferreira da Silva trata pela experiência do Ser na força trópica da fascinatio: “uma inexaurível Fonte de Atrações, uma instância mágico- transcendente (…). O Ser é o Sugestor, o Fascinator, aquilo cuja manifestação ou fulguração se dá como polo pulsional erótico e que traça ou des-vela as coisas ao fasciná- las”76

.

74

Carl Gustav Jung, Estudos sobre a Psicologia Analítica, Psicologia do Inconsciente, O Eu e o Inconsciente, p.213, parágrafo 367. Cf. citação do original: Zwei Schriften über Analytische Psychologie, Zürich, Rascher Verlag, 1964: “Die Gesamtpersönlichkeit ist gekennzeichnet durch die vier Kardinalpunkte des Horizontes, die vier Götter, d.h. die vier Funktionen, welche die Orientierung im psychischen Raum ergeben, und durch den Kreis, der das Gabze zusammenschließt, p.245, parágrafo 367.

75

Cf. Carl Gustav Jung, Estudos sobre a Psicologia Analítica, Psicologia do Inconsciente, O Eu e o Inconsciente, p.209, parágrafo 360.

Na medida em que a consciência do eu se afasta da sua entidade pessoal, o eu e a persona Das Ich ünd Maske, entre as suas composições consteladas, de todas as máscaras vinculadas pelo ente, deixam de ter utilidade, ao permitirem-se aproximar do Ser na sua experiência transhumana ou transpessoal. Para Jung “a meta da individuação não é outra senão a de despojar o si-mesmo dos invólucros falsos da persona, assim como do poder sugestivo das imagens primordiais”77

. Contudo, é importante ressaltar que a persona tem uma função essencial para a estrutura arquetípica expressiva e um papel fundamental no processo de individuação, isto é, tornar-se o Si-mesmo.

Para esta investigação o Ser equivale ao arquétipo do Selbst (Si-mesmo), ou seja, antecede e supera toda e qualquer manifestação de imagens ou simples quimera, trata-se dos aspectos ontológicos que estão em profunda ligação com a imaginação. É a própria fonte pulsional da vida. Está além da influência do poder sugestivo primordial, porque é ele próprio a origem prototípica divina que elabora na poiesis o trans-teatro arquetípico dos deuses, deusas e demais arquétipos do supra-humano na superação do si-mesmo, em busca do ultra-ser. Jung sub-divide o processo de individuação em duas definições: “Podemos pois traduzir “individuação” como “tornar-se si-mesmo” (Verselbstung) ou “o realizar-se do si-mesmo” (Selbstverwirklichung)”78 que se estabelece na união dos quatro elementos com a quintessência que os une, naquilo que entendemos aqui pela categoria da essência da natureza de Eros.

O Ser no processo de individuação, sempre a superar e a actualizar a consciência do eu, (Ich), enquanto ente, no e para o limite e limiar da extremidade do inconsciente, Unbewuβte, no retorno pelo si-mesmo Selbst, retorna com outros de si, da sua experiência oceânica, ao novo horizonte de relação complementar com os elementos e atributos do mergulho na vivência das profundezas da psique: “A persona é sempre idêntica a uma atitude típica, em que domina uma das funções psicológicas: o pensar, o sentir, a intuição, etc. Tal unilateralidade condiciona uma repressão relativa das outras funções.”79

.

O Ser, ao aproximar-se da consciência pessoal, promove o ampliar da visão do horizonte trans-subjectivo da personalidade? Jung defende que haverá um ponto central divisor de águas do consciente, Bewβte, e o nível da psique inconsciente, Unbewuβte,

77

Carl Gustav Jung, Estudos sobre a Psicologia Analítica, Psicologia do Inconsciente, O Eu e o Inconsciente p.148, parágrafo 269.

78 Idem. 79 Ididem, p.288.

embora haja a retroalimentação substancial, vital e necessária entre ambos. Ora, se este eixo central se refere a algo relativo ao Selbst, em relação ao eu, Ich, centro do estado consciente, então qual é a derradeira permeabilidade que há entre os conteúdos simbólicos do estado mítico para a natureza da psique? Carl Gustav Jung através da sua teoria e modelo conceptual entre as categorias referidas ao «eu e o inconsciente» explicita-nos esta questão:

Se representarmos a consciência, com seu ego central, em oposição ao inconsciente, acrescentando a essa representação mental o processo de assimilação do inconsciente, poderemos imaginar tal assimilação como uma espécie de aproximação entre consciente e inconsciente. O centro da personalidade total não coincidirá mais com o eu, mas sim com um ponto situado entre o consciente e o inconsciente.80

O Ser na experiência de vida pelo eixo do consciente, Bewβte, e do inconsciente, Unbewuβte, ultrapassa a experiência do eu, (Ich), para o si-mesmo, (Selbst), e dele retorna com o autoconhecimento, na síntese dos conteúdos arquetípicos, para serem integrados na consciência do eu, (Ich), e assim o supera, através da consciência plena no e pelo Ultra-Ser, com a visão do além horizonte em sua trans-personalidade a caminho de um horizonte extremo, possibilitado por uma quinta função primordial da psique que é a união e conjunção das quatro demais, que o Ser inicialmente as sintetiza, e depois as ultrapassa, na e pela sua condição transcendente:

A personalidade total é indicada pelos quatro pontos cardeais, os quatro deuses, isto é, as quatro funções que dão a orientação do espaço psíquico, e também pelo círculo que engloba a totalidade. A subjugação dos quatro deuses que ameaçam esmagar o indivíduo, equivale a livrar-se da identificação com as quatro funções,81.

80

Carl Gustav Jung, Estudos sobre a Psicologia Analítica, Psicologia do Inconsciente, O Eu e o Inconsciente, p.211, parágrafo 365.

81

Carl Gustav Jung, Estudos sobre a Psicologia Analítica, Psicologia do Inconsciente, O Eu e o Inconsciente, (p.213, parágrafo 367). Cf. Citação da edição original: “Die Gesamtpersönlichkeit ist gekennzeichnet durch die vier Kardinalpunkte des Horizontes, die vier Götter, d.h. die vier Funktionen, welche die Orientierung im psychischen Raum ergeben, und durch den Kreis, der das Gabze zusammenschließt. Die Überwindung der vier Götter, welche das Individuum zu erdrücken drohen, bedeutet die Befreiung von der Identität mit den vier Funktionen, (p.245, parágrafo 367).

A libertação da qualidade de consciência do eu, (Ich), para um nível de consciência mais vasto e profundo, isto é, do inconsciente, Unbewuβte, desde os tempos imemoriais era estabelecido por uma complexa Mitologia na profundidade da Psicologia das origens, onde a Psyché adquire a relativa valência de alma, não somente humana, mas teriomorficamente e antropomorficamente ligada a todos os reinos e elementos que a constituem, naquilo que caracteriza por uma sapiência iniciática cosmogónica que está nas raízes da cultura:

Todas as tribos e grupos primitivos que se organizam, de um modo ou de outro, têm seus ritos de iniciação, frequentemente muito desenvolvidos e que desempenham um papel importantíssimo em sua vida social e religiosa. As iniciações primitivas são nitidamente mistérios de transformação, de grande significado espiritual. Muitas vezes os iniciados são submetidos a tratamentos dolorosos, recebendo ao mesmo tempo os mistérios da tribo: de um lado sua hierarquia e de outro, o ensinamento cosmogónico e mítico. As iniciações se mantiveram em todas as culturas. Na Grécia, os antigos mistérios de Elêusis foram aparentemente preservados até o século VII da nossa era. Roma foi inundada por religiões de mistérios.82.

Será então, que o sucessivo confronto e assimilação, para com o inconsciente, à Função Transcendente, através das imagens eternas, arquetípicas, ou seja, transpessoais, possibilitará que o eu pessoal promova o autoconhecimento, a auto-superação no caminho pelo processo de individuação chegando-se à auto-transcendência? A Psyché face ao profundo do si-mesmo, Selbst, encontrará sentido e significado no Mithos pelas narrativas míticas ou escritas da poesia que revelem pela vivência interior a Arché, origem e princípio da natureza humana integrada na Physis enquanto Natureza da pluralidade do Cosmos?

82

Carl Gustav Jung, Estudos sobre a Psicologia Analítica, Psicologia do Inconsciente, O Eu e o Inconsciente, p.219-220, parágrafo 384. Cf. Citação da edição original: Zwei Schriften über Analytische Psychologie, Zürich, Rascher Verlag, 1964, p.253, parágrafo 384: “Alle einigermaßen organisierten primitiven Gruppen und Stämme haben ihre oft außerordentlich entwickelten Initiationen, welche in ihrem sozialen und religiösen Leben eine ungemein bedeutende Rolle spielen. (...). Die primitiven Initiationen sind offenkundig Verwandlungsmysterien von größter geistiger Bedeutung. Sehr oft werden die Initianden qualvollen Behandlungsmethoden unterworfen, und zugleich werden ihnen die Stammesmyterien mitgeteilt, die Gesetze und die Hierarchie des Stammes einerseits, andererseits kosmogonische und andere mythische Lehren. Die Initiationen haben sich bei allen Kulturvölkern erhalten. In Griechenland erhielten sich die uralten, eleusinischen Mysterien anscheinend bis ins 7. christliche Jahrhundert. Rom war überschwemmt mit Mysterienreligionen”.

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