3. A RESSIGNIFICAÇÃO DA POBREZA NO CONTEXTO DE EMERGÊNCIA DOS NOVOS MEDIADORES
3.3 A funcionalidade dos estudos sobre a pobreza no Brasil
93 Para Azevedo e Burlady (2010), a pobreza, ou a forma de quantificar a pobreza, tem sido tratada apenas como de base econômica, não conseguindo fornecer dados reais e válidos para compreensão da realidade.
A análise pautada nos dados econômicos não leva em consideração outras nuances da condição de pobreza, como habitação digna, educação de qualidade, saneamento, acesso a cultura, sendo limitada a condição do pobre em ter abertura a um nível de consumo básico, que é verificado a partir da renda média, não significando que de maneira prática essa renda garanta a sobrevivência em níveis aceitáveis.
É nesse sentido que as autoras acima citadas propõem o estudo da realidade da pobreza no Brasil a partir de aspectos multidimensionais15. Deve- se observar as particularidades de cada povo sendo que o sentido de pobreza difere de um espaço para outro, ou seja, o não acesso a certos produtos na cidade por pessoas carentes podem classificá-las como pobres, mas esse mesmo parâmetro não pode ser utilizado no campo.
No campo as relações sociais são diferentes e o camponês que possui um modo de vida próprio, mesmo não tendo acesso a compra de determinados produtos tem a capacidade de satisfazer suas necessidades, a partir da sua auto-reprodução.
Para Azevedo e Burlady esse tipo de postura frente à pobreza gera disparidades no atendimento da mesma. As principais críticas nesse sentido caíram sobre as intervenções específicas, pontuais e de curto prazo, focalizadas nos pobres visando alívio imediato da pobreza em detrimento de um sistema de defesa e garantia de direitos universais ou de políticas que conjugam ações focais e universais de médio e longo prazo. (IBID, p. 203)
Com base em estudos da pobreza via renda (econômico), a partir da década de 1990, tem-se a focalização desta nas políticas e programas de governo (políticas de cunho pontual, setorial). Contraditoriamente, o social
15
A abordagem multidimensional da pobreza diz respeito a questões mais amplas, ou seja, a análise da pobreza dentro de seus vários aspectos: econômicos, sociais e culturais.
94 sofre restrições nesse período devido aos ajustes da política neoliberal, a questão da pobreza é deslocada do todo e tratada isoladamente.
É nesse ponto que a análise da pobreza em dados apenas econômicos mascara realidades e aponta para soluções imediatistas de cunho assistencialista. A pobreza real, em um sentido significativo, pode ser mais intensa do que aparenta quando avaliada apenas com base na renda.
Para Virginia Fontes (2010) é na década de 1990 no Brasil que a miséria passa a ser re-nomeada ou ressignificada. Deixa-se de discutir os problemas geradores das desigualdades sociais e passa-se a discutir pobreza, sendo que essa mudança atende a anseios mais ambiciosos para o capital no período, de difusão da ineficiência do Estado (política neoliberal) e a entrada do setor privado, na mercantilização de serviços, como também organizações da sociedade civil, principalmente as ONGs. As ONGs fincam suas bases de ações nos espaços mais miseráveis, e buscam o atendimento de forma setorial da pobreza via políticas públicas.
Atribuir todas as causas à incompetência genérica do Estado brasileiro permitia ressaltar o novo foco – gerenciar de maneira privada, concorrencial e lucrativa políticas públicas voltadas para a maioria da população. Incompetência e ineficácia também imputadas aos funcionários públicos, acusados de deformações por estarem distantes da concorrência no mercado de trabalho. (IBID, p. 273)
Os discursos criavam demandas que teriam que ser assumidas, não mais pelo Estado. Nesse ponto o combate à pobreza pós 1990 renderá possibilidades a instituições supranacionais, ONGs (e demais organizações). O tema da desigualdade começava a travestir-se de pobreza. A miséria foi apresentada sob um formato de grande impacto emocional e cultural, de base mobilizadora e filantrópica (doações). Tal formato, apresentado como efetivação da ética e da moral, ajustava-se à religiosidade católica através da campanha Natal Sem Fome. (IBID, p. 274/275)
Ao longo dos anos 1990, a pobreza seria alçada à grande urgência genérica no Brasil, essencializada e reificada – quantificavam-se os pobres,
95 mas esquecia-se da produção social de expropriados, disponíveis para qualquer atividade remunerada mercantilmente. (IBID, p. 276)
Empreende-se um verdadeiro levante contra qualquer forma de contestação das estruturas sociais, subjugando qualquer forma de pensar e de organizar-se ao novo paradigma, que vê a pobreza a partir de quantificações e não como produto de profundas desigualdades na sociedade brasileira (e mundial).
Desse modo, a partir de 1990 (no Brasil), podemos observar diferentes políticas de atendimento a questões especificas relativas à pobreza. Surgem programas como o Programa de Geração de Renda (Proger) de 1995, o Proger Rural, o Programa Nacional de Apoio a Agricultura Familiar (Pronaf), o Programa de Crédito para a Reforma Agrária (Procera), o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) em 1996, o Programa de Combate a Pobreza Rural (PCPR).
Este último, o PCPR, implantado visando o alívio à pobreza no meio rural (Poverty Alleviation Program), tem como principal financiador o Banco Mundial, e apresenta como principais medidas atender os pobres do campo atingidos pelos desdobramentos do ajuste estrutural. (LISBOA, 2007). Desse modo, territorializam-se diversos programas no espaço agrário, com vistas ao desenvolvimento.
Em 2001, após a aprovação pelo Congresso Nacional do Fundo de Combate e Erradicação da Pobreza são lançados importantes programas federais de transferência de renda, por três diferentes ministérios: Bolsa Escola, do Ministério da Educação; Bolsa Alimentação, do Ministério da Saúde; Auxílio Gás, do Ministério de Minas e Energia. (AZEVEDO E BURLADY, 2010, p. 205)
No ano de 2003, o destaque é a unificação dos programas de transferência de renda federais no Programa Bolsa Família, o que viabilizou sua expansão nacional para alcançar todas as famílias abaixo da linha de pobreza estabelecida. No atual governo da presidenta Dilma Rousseff, a
96 política de combate à pobreza inclui o Bolsa Família e outros programas recebe o nome de Brasil Sem Fome, sendo esse o slogan deste governo.
Recentemente (19 de fevereiro de 2013) tendo a perspectiva da superação da “miséria” no Brasil, via políticas de transferência de renda a Presidenta Dilma Rousseff, anunciou complementação no programa bolsa família na ordem dos R$ 773 milhões de reais (para o ano de 2013), que segundo a Presidenta, com essa medida o Brasil atinge a marca de 22 milhões de brasileiros fora da extrema pobreza, sendo que estes passarão a ter uma renda per capita de R$ 70,00 reais, quesito suficiente na concepção da mandatária do país (e instituições supranacionais) para a saída desta parcela da população da pobreza extrema16. (Portal Brasil, 2013)
Esse complemento na renda visa às famílias que mesmo atendidas pelo programa Bolsa Família ainda continuam abaixo da linha da pobreza, ou seja, vivem com renda per capita inferior a 70,00 reais (Ibid). Vemos assim, uma política de transferência de renda assumir o papel de uma política estruturante, o imediato substituindo as lutas sociais por trabalho, os números validam uma realidade de progresso, quando na verdade temos um processo de extrema desigualdade no país.
Observa-se que as formas de intervenção relativas à superação da pobreza, buscam atender as famílias com políticas fragmentadas para cada carência, tem-se uma forma de intervenção e todas giram em torno da transferência de renda para que os “pobres” possam consumir determinados bens. Porém, por si só a presença destes programas não é suficiente para afirmar que existe uma estratégia política de combate à miséria que abarque de forma integrada estas intervenções em função de objetivos mais amplos.