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2 PESSIMISMO: A CONDIÇÃO DO AUTOCONHECIMENTO

2.1 NÃO OTIMISMO: A ESSÊNCIA DO PENSAMENTO

2.1.1 A Fundamentação Orgânica da Relatividade Moral

No prefácio à segunda edição da obra magna, o pensamento único declara-se participante no mundo que descreve, “esse é o curso deste mundo de carências e necessidades”402, e ratifica ao leitor a complexidade da tarefa, “o empenho pela verdade é demasiado excêntrico para esperar que todos, muitos ou alguns tomem parte dele”403, e, também, o seu empenho nela – “minha estrela guia foi de modo sério a verdade [ernstlich

401 Idem, MVR I, 2015, p.417

402 SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como vontade e como representação. 1º Tomo. Tradução, apresentação, notas e índices de Jair Barboza. 2ª ed. São Paulo: Editora Unesp, 2015, p. XXXIV. 403 Idem, MVR I, 2015, p.XXXIV.

die Wahrheit]”404. A importância da verdade se realiza nas quatro considerações componentes do pensamento, mas em uma delas seu crédito é singular.

O ponto de vista físico, mesmo proporcionando uma visão adequada da condição humana, necessita de uma visão metafísica para ser dotado de sentido e, propriamente, guiar à significação do mundo, “pois apenas no ponto de vista moral é que nosso consolo pode ser encontrado, já que aqui as profundezas de nosso próprio íntimo são apresentadas”405. A consideração moral e metafísica, além de apresentar-se na condição de cuidado na comunicação ao leitor fornecendo consolação, realiza uma função primordial no desenvolvimento dos escritos ao instituir valor moral ao pensamento: “que o mundo tenha apenas um significado físico e nenhum significado moral [keine moralische Bedeutung habe] constitui o maior [der grösste], o mais pernicioso [verderblichste], o erro fundamental [der fundamentale Irrtum], a própria perversidade do modo de pensar [die eigentlich Perversität der Gesinnung]”406. Esta alegação agrava a suspeita de uma contradição ao contrastar a relatividade do julgamento moral, de um lado, e a existência de uma perversidade não relativa, de outro. Acrescido a esse agravamento, a alegação torna necessária e indispensável a relação entre significação moral e conhecimento, conferindo estatuto de ato moral ao pensamento.

Na segunda consideração do mundo enquanto vontade está declarado que “a última parte de nossa consideração anuncia-se como a mais séria de todas [ernsteste]”407, podendo, mesmo, ser chamada filosofia prática [praktische Philosophie]408 mesmo que com ressalvas. A esta parte compete a pergunta pelo sentido da valoração moral, sua relação com o otimismo e seu pertencimento, ou não, à organicidade e coesão do pensamento. Essa consideração, intitulada “alcançando o conhecimento de si, afirmação e [und] negação da vontade”, mantém uma relação entre “valor da existência”, “otimismo” e “autoconhecimento” ao desenvolvê-las na segunda e última consideração, do mundo enquanto vontade. Nela, o pensamento se mantém fiel à natureza de sua obra, propondo-se a “tarefa de elevar à distinção abstrata e filosófica o significado propriamente ético da conduta humana indicado na vida pelas palavras bom [gut] e mau

404 Idem, MVR I, 2015, p.XXXVII.

405 SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como vontade e representação. Tomo II. Complementos. Livros III-IV. Vol. 2. Traduzido por Eduardo Ribeiro da Fonseca. Curitiba: Ed. UFPR, 2014, p. 318. 406 SCHOPENHAUER, Arthur. Sobre a Ética. Trad. de Flamarion Caldeira Ramos. São Paulo: Hedra, 2012,

p. 39. [§109].

407 Idem, MVR I, 2015, p.313. [§35]. 408 Idem, MVR I, 2015, p.313.

[böse]” e, em concordância com o propósito do pensamento único, “demonstrando-o como integrante de nosso pensamento capital e tornando-o perfeitamente compreensível”409. Esta demonstração torna-se possível pela análise da “significação autêntica”410 dos dois conceitos, e, “com isso, o leitor não ficará envolto numa confusa ilusão”411. Para dar caminho ao verdadeiro, a experiência da leitura deve conduzir à compreensão do pensamento.

De acordo com a base fundamental, o organismo se manifesta em capacidade de recepção para, a partir da sensibilidade, manter ou mudar a sensação do atual estado. Enquanto no humano os sentidos fornecem informações sensoriais na composição da realidade, a instância fundamental conhece apenas a dor e estabelece nesta relação o destino do movimento. O eu cognoscente se realiza na sua funcionalidade, reunir as percepções dos órgãos dos sentidos num foco, e, a partir disso, a sensação do estado funda o ponto de relação com o mundo. Assim, a experiência acontece na relatividade do mundo na percepção singular do organismo.

A manifestação do organismo humano, em seu grau de conhecimento e complexidade do sistema nervoso central, não se emancipa da sua base fundamental, ainda que dela haja um esforço do eu cognoscente para se distanciar, “por mais variadas que sejam as formas [...] [da] felicidade e [...] infelicidade [...][,] o que o leva a perseguir uma e fugir da outra; contudo, a base material de tudo isso é o prazer corporal ou a dor”412, sendo que, com isso, o desenvolvimento do intelecto sofistica as aparências sem interferir no seu estofo, cada ser vivo partilha com os demais a mesma condição de existência, a relatividade.

Pela investigação da natureza, torna-se perceptível que “certo grau bem baixo de sofrimento encontra-se nos animais menos complexos, os infusórios e radiados: mesmo nos insetos a capacidade de sentir e sofrer é ainda limitada”413, porém existente; “com o sistema nervoso completo dos vertebrados é que a referida capacidade aparece em grau elevado e cada vez mais quanto mais a inteligência se desenvolve”414. A capacidade de conhecer se converte, proporcionalmente, em capacidade de sofrer e o humano se

409 Idem, MVR I, 2015, p.417. 410 Idem, MVR I, 2015, p.417. 411 Idem, MVR I, 2015, p.417.

412 SCHOPENHAUER, Arthur. Sobre a Ética. Trad. de Flamarion Caldeira Ramos. São Paulo: Hedra, 2012, p. 150. [§153].

413 Idem, MVR I, 2015, p.359. [§56]. 414 Idem, MVR I, 2015, p.359. [§18].

distancia dos demais animais; tal “diferença deve ser vista somente como consequência da presença de conceitos abstratos na consciência”415. Enquanto a experiência dos demais animais se desenvolve no presente, o humano, “em virtude do conhecimento in abstracto, abrange, ao lado do presente efetivo e próximo, ainda o passado inteiro e o futuro, junto com o vasto reino das possibilidades”416, multiplicando com objetos e desejos o sofrimento.

A capacidade de sentir, na qualidade do sofrer, determina a relação com o mundo independente da consciência. A relação reside em nível fundamental, mas pode ser reconhecida na expressão de conceitos, dentro eles, aqueles responsáveis pela investigação da significação do agir moral. Bom [gut] é “essencialmente relativo e indica a adequação de um objeto com algum esforço determinado da vontade [Angemessenheit eines Objekt zu ir gendeiner bestimmten Bestrebung des Willens]”417, pela sofisticação do intelecto humano, e dela surge a inauguração do passado e do futuro simultâneos ao presente, a relação se expressa em referência à temporalidades. O presente agradável [Angenehm] reside na “satisfação imediata e momentânea da vontade em cada caso”418, e na “satisfação apenas mediata da vontade em relação ao futuro, [...] o útil [Nützliche]”419. A experiência do eu cognoscente se relaciona com o mundo em conceitos. A singularidade do organismo é resguardada na sensação, “algo pode ser bom para uma pessoa embora seja exatamente o contrário para outra”420. Sendo o organismo fatigável e suscetível a diferentes sensações e sentimentos na relação com o mundo, objetos não são absolutamente bons; a base fundamental determina o estado atual do organismo enquanto referência da valoração. Dormir quando tem sono, comer quando faminto. Os objetos são bons conforme o potencial para satisfazer necessidades presentes ou futuras. A valoração é relativa entre organismo e instantes, relatividade é a relação do organismo com a sua circunstância.

O estado volitivo, marcado pelo interesse individual, estabelece o julgamento moral relativo em duas acepções: em linguagem subjetiva, em relação aos próprios interesses, bons são “aqueles humanos favoráveis aos nossos fins almejados, que os

415 Idem, MVR I, 2015, p.99. [§16]. 416 Idem, MVR I, 2015, p.99. [§16]. 417 Idem, MVR I, 2015, p.418.

418 SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como vontade e como representação. 1º Tomo. Tradução, apresentação, notas e índices de Jair Barboza. 2ª ed. São Paulo: Editora Unesp, 2015, p.418.

419 Idem, MVR I, 2015, p.418. 420 Idem, MVR I, 2015, p.418.

fomentam e lhe são simpáticos”421, e em linguagem objetiva, “aqueles cujo caráter os leva em geral a não obstarem os esforços da vontade alheia”422. A interação com o mundo se dá não apenas na possibilidade de satisfação no bom, mas, assumida a natureza de recepção para a dor, as satisfações e prazeres existem em relação ao corpo e à vontade: “quando discutimos sobre seres não cognoscentes, o conceito oposto é expresso pela palavra mal [schlecht], mais rara e abstratamente pela palavra ruim [übel], que portanto indica algo não favorável ao esforço da vontade em cada caso”423, a instância fundamental é a base da sensação e da moralidade.

Mesmo que termos possam ser aplicados objetivamente, como no caso de ‘bom’, a relatividade permanece a condição de cada organismo, as sensações e o conhecimento são privados, o percurso de pensamentos encadeados ocorre na relação da experiência sentida, não partilhada ou comunicável. O isolamento no princípio de individuação impede um conhecimento que não seja próprio; ainda que cada organismo exista no tempo, cada presente existe na relação com e para a consciência. Cada testemunho se refere ao próprio corpo e às condições temporais a que está submetido. O intelecto inaugura tempo e espaço instaurando o presente e o aqui, e ambos, coincidindo no eu, estabelecem o distanciamento.

O pensamento único, ao declarar relativo o julgamento moral, não incorre em contradição, pois “o mundo é minha representação”, primeira afirmação da obra magna, contém a relatividade do mundo como ponto de partida do conhecer e da existência. Contudo, tal constatação não dissolve o problema da falsidade e perniciosidade do otimismo. Para resguardar a coerência proposta, o pensamento não deve estabelecer parâmetros de análise diferentes para o otimismo e para a realidade descrita. Deve, se possível, identificar no otimismo um parâmetro inconsistente com o que descreve.

A realização do pensamento depende, necessariamente, de ocasionar no leitor o estado de autoconhecimento, e, para isso, utiliza-se de argumentações e justificações com objetivo de expor raciocínios falsos. Então, um posicionamento falso deve obrigatoriamente estar em oposição aos elementos que constituem o pensamento; quão mais fundamentalmente distinto ao posicionamento falso, tanto mais se confirma a oposição. O otimismo, porém, não se apresenta enquanto afirmação indiferente ao seu

421 Idem, MVR I, 2015, p.419. 422 Idem, MVR I, 2015, p.419. 423 Idem, MVR I, 2015, p.418.

sentido, ao contrário, se estabelece enquanto afirmação verdadeira sobre a natureza do mundo e a condição humana. Ao destinar-se verdadeiro, e declarar o otimismo falso, o pensamento deve ser não-otimismo, mas permanece em aberto se o otimismo é, de fato, falso e pernicioso, e se o pensamento único pode ser pessimismo.

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