“(…) emergir perspectivas inovadoras de flexibilização, reorganização e adaptação do currículo, potencia novas soluções em termos de (re)organização pedagógica dos agrupamentos internos de alunos e respectivas equipas docentes, gera novas lógicas na distribuição e afectação dos recursos humanos.”
Verdasca, 2010: 31
Antes de se falar propriamente do Projeto Fénix convém primeiramente perceber em que consistiu o Programa Mais Sucesso Escolar (PMSE),lançado pelo Ministério da Educação no ano de 2009, considerando que um implica a existência do outro.
De acordo com os relatórios publicados pela Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE)26, Portugal foi um dos países que mais progrediu desde 2000, no entanto, as taxas de retenção em Portugal continuavam a ser das mais altas nos países europeus que pertencem à OCDE.
Perante este cenário, a própria OCDE (2008) recomendara que uma das formas de combater as taxas de retenção sistematicamente elevadas passaria pela alteração dos incentivos às escolas e o encorajamento a abordagens alternativas.
No entanto, já em 2005, o XVII Governo Constitucional tentara modificar este quadro negativo que teimava em prolongar-se na história da educação portuguesa, publicando o Despacho Normativo nº 50/2005, D.R. nº 215, Série I, de 2005-11-09, que promovia os Planos de Recuperação, de Acompanhamento e de Desenvolvimento para alunos. Com efeito, exigia-se, deste modo, a instituição obrigatória de atividades pedagógicas de reforço de aprendizagens a elaborar pelas escolas para responder às necessidades dos alunos, melhorando as aprendizagens e reduzindo o insucesso e o abandono escolar.
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Ver os relatórios:
OCDE (2008). Panorama da Educação 2007 – Indicadores OCDE. Brasil: Editora Moderna;
OCDE (2014) – Perspetivas das Políticas de Educação – Portugal – em
http://www.dgeec.mec.pt/np4/np4/254/%7B$clientServletPath%7D/?newsId=426&fileName=PRT_profile_ FINAL_PT_20141110_rev.pdf
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Desde então, seguiu-se uma sequência de medidas políticas para reduzir o abandono escolar precoce e elevar o nível de escolaridade completo da população e as qualificações da força de trabalho. Em 2007, foram criados o Sistema Nacional de Qualificação e o respetivo Quadro Nacional de Qualificação, trazendo maior transparência dentro do sistema de ensino. No ano seguinte, 2008, Portugal lançou uma grande reforma na gestão das escolas com a publicação do decreto-lei nº 75/2008, reforçando as lideranças das escolas no cargo de diretor e a autonomia das mesmas pela celebração de contratos.
Aproveitando este reforço da autonomia concedida, duas escolas27 refletiram sobre a realidade organizacional estabelecida pelo Ministério da Educação e perceberam que a tradicional gramática escolar podia ser alterada e ajustada às necessidades dos alunos.
Então, dentro deste quadro da autonomia de gestão pedagógica de que dispunham, estas duas escolas apresentaram dois projetos de intervenção com vista à conceção e ao desenvolvimento de estratégias diferenciadas no combate ao insucesso e ao abandono escolares e à melhoria dos resultados escolares dos seus alunos. Tendo, para tal, mobilizado diferentes recursos e estratégias pedagógicas, que permitiram uma reorganização dos tempos e dos espaços de aprendizagem.
Os projetos destas escolas inspiraram-se essencialmente em dois modelos de intervenção (designados por tipologias): a TurmaMais (Fialho & Salgueiro, 2011; Verdasca, 2008, 2010; Verdasca & Cruz, 2006), e a Fénix (Alves & Moreira, 2011; Azevedo & Alves, 2010; Martins, 2009; Moreira, 2009). Ambos os modelos exigem alterações na esfera organizacional, na composição de grupos de alunos em função de critérios de dimensão e homogeneidade, e na autonomização da escola em relação ao Ministério da Educação.
Nesta sequência, no ano letivo de 2008/09, o Ministério da Educação lança o PMSE, que tem como objetivo apoiar o desenvolvimento de projetos de prevenção e combate ao insucesso escolar no ensino básico, mais especificamente as três tipologias de intervenção: a TurmaMais (Fialho & Salgueiro, 2011; Verdasca, 2008, 2010; Verdasca & Cruz, 2006), a Fénix (Alves& Moreira, 2011; Azevedo & Alves, 2010; Martins, 2009; Moreira, 2009) ou a Híbrida (DGIDC, 2010, 2012).
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Escola Secundária com 3º Ciclo Rainha Santa Isabel, em Estremoz com o Projeto Turma Mais e o Agrupamento de Escolas de Campo Aberto, em Beiriz, com o Projeto Fénix.
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Esta última surge de um conjunto mais pequeno de escolas que apresentou projetos independentes igualmente alinhados com as ideias matriciais do PMSE, mas que devido à sua diversidade foram integrados numa terceira tipologia designada por Híbrida.
Os agrupamentos e as escolas cujos projetos foram selecionados assinaram um contrato-programa com o Ministério da Educação, para quatro anos letivos, no qual se encontravam especificados os apoios e os recursos concedidos, bem como as metas e as obrigações definidas para cada escola.
Estes contratos reconheciam às escolas competências no âmbito da flexibilização curricular, da organização pedagógica e da gestão de recursos humanos. No entanto, estas comprometiam-se a atingir taxas de sucesso específicas à sua realidade, mediante um pacote de crédito horário, atribuído anualmente, por forma a sustentar as medidas implementadas. A continuidade das escolas no projeto dependia do cumprimento dessas taxas de sucesso contratualizadas.28
As experiências de trabalho destas escolas foram consideradas como boas práticas e acabaram por inspirar a decisão da tutela de generalizar e difundir essas mesmas práticas junto de outras escolas.
Segundo o Ministério da Educação (2009), para o lançamento de programas como o PMSE parte-se do pressuposto de que, para se conseguirem encontrar respostas eficazes para o combate ao insucesso escolar é necessário mobilizar a escola e os professores no desenho de estratégias pedagógicas adequadas aos diferentes contextos educativos.
Do ponto de vista de Verdasca (2011: 34), o PMSE apresentava-se deste modo como uma “medida de apoio às escolas e professores na organização do seu trabalho e no uso da sua autonomia para desenhar soluções e estratégias pedagógicas no combate ao insucesso e abandono escolares”. Ainda de acordo com o mesmo autor é possível resumir os propósitos do PMSE em quatro pontos fundamentais:
O enfoque na melhoria das aprendizagens e dos resultados escolares dos alunos sem quebra de exigência, a partir do reconhecimento e valorização dos projetos desenvolvidos autonomamente por algumas escolas.
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Ver relatório “Relatório de Avaliação do Programa Mais Sucesso Escolar” de 2012 em URL:
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A promoção da diferenciação pedagógica enquanto aposta na prevenção do insucesso escolar ao nível do ensino básico.
A promoção do trabalho colaborativo e valorização da interação com centros de investigação e universidades.
O reconhecimento das escolas enquanto organizações especializadas, com tecnoestrutura própria e uma forte componente de conhecimento, pelo que lhes são reconhecidas competências no âmbito da flexibilização curricular, organização pedagógica e gestão de recursos humanos, numa lógica de prestação de contas inteligente. (Hopkins, 2007).
Seguindo ainda com Verdasca (2010), o PMSE parte também do pressuposto de que existem implicações organizacionais que produzem um impacto direto e imediato nas condições escolares de ensino e aprendizagem:
desenvolvimento de dinâmicas organizativas flexíveis no que respeita ao (re)agrupamento e (re)distribuição de alunos;
menor heterogeneidade dos grupos e respetivos níveis e ritmos de aprendizagem através da distribuição dos alunos por diferentes grupos com base no seu estado situacional;
gestão direcionada e focalizada do crédito horário ao acompanhamento e apoio direto a alunos, de acordo com as suas diferentes necessidades e capacidades;
criação de equipas docentes responsáveis pelo acompanhamento de cortes de alunos ao longo de um ciclo de estudos;
aumento da autonomia organizacional da escola na flexibilização curricular e organização pedagógica, na distribuição dos alunos e dos docentes e na afetação de outros recursos;
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maior intercomunicabilidade, implicação e corresponsabilização da comunidade escolar;
constituição e dinamização de uma ‘rede de escolas programa mais sucesso’ prevendo-se a sua estreita cooperação com os centros de investigação das universidades.
Em suma, o PMSE surge no âmbito de um conjunto vasto de políticas educativas no sentido de melhorar a qualidade do ensino e de aumentar o sucesso escolar. Nesta perspetiva, insinuaram-se propostas de intervenção com os pressupostos de respeitar os vários ritmos dos alunos, ajudar os alunos a superar as suas dificuldades e a qualificar as aprendizagens.
De entre as diferentes propostas de intervenção apresentadas, o projeto Fénix apresenta-se como um modelo que pressupõe que cada aluno possa ter oportunidades que permitam elevar o seu potencial de sucesso e sobre o qual se falará mais em pormenor nos tópicos seguintes.
A génese do Projeto Fénix
No que concerne à tipologia Fénix, o projeto tem a sua génese no Agrupamento de Escolas de Campo Aberto, em Beiriz, concelho da Póvoa de Varzim.
Segundo o relatório de avaliação do PMSE de 2012, inicialmente, o Projeto Fénix pretendeu combater o elevado abandono escolar no 3º ciclo, sobretudo através do acesso a cursos técnico-profissionais com saída profissional, e com estabelecimento de parcerias com indústrias locais e comércio para fomentar a empregabilidade dos alunos após a conclusão do ciclo.
Depois do problema do abandono escolar no 3º ciclo estar parcialmente solucionado, a equipa docente do Agrupamento focou-se na melhoria do desempenho académico e no combate ao insucesso escolar, sobretudo no 1º ciclo, devido à constatação de um problema de qualidade das aprendizagens que se reproduzia em elevadas taxas de retenção no 2º ano de escolaridade, bem como na transição entre anos e ciclos sem a devida preparação e sem um conjunto de aprendizagens devidamente consolidadas.
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Este problema iniciava-se já no 1º ciclo, tornando-se cumulativo ao longo dos diferentes ciclos, sendo cada vez mais difícil de quebrar o padrão. Assim, e de acordo com Alves & Moreira (2011), no ano letivo de 2006/2007 este agrupamento entrou num período de reflexão procurando identificar as razões de tal insucesso e encontrar medidas mais assertivas na promoção do sucesso.
Desta forma, repensaram as estratégias e a organização dos grupos de trabalho, bem como os tempos de aprendizagem, investindo num ensino mais individualizado, a partir dos conhecimentos reais dos alunos, e sempre com a preocupação de que o essencial do currículo fosse efetivamente lecionado e apreendido.
Nesse ano todos os alunos, do segundo ano de escolaridade, que revelaram um desfasamento significativo ao nível dos conhecimentos de Português e da Matemática saíam da sala de aula e eram acompanhados por um outro professor que, em articulação com o professor titular, iniciava em pequeno grupo um processo de ensino que respeitasse a diversidade dos ritmos de aprendizagem; enquanto isso, o professor titular de turma lecionava estas áreas curriculares ao restante grupo.
No final do ano letivo, perante os resultados positivos obtidos, comprova-se com sucesso esta nova forma de organização pedagógica e o Agrupamento decide alargar o campo de intervenção aos alunos dos 2.º e 3.º ciclos, onde são criadas uma ou duas turmas por ano de escolaridade, denominadas “turmas Fénix”, que integram alunos identificados como tendo elevada probabilidade de insucesso escolar. As restantes turmas do ano são compostas por alunos com menos dificuldades (Alves & Moreira, 2011; Azevedo & Alves, 2010; Martins, 2009; Moreira, 2009).
Assim, durante o ano letivo 2007/2008 este modelo passa a funcionar ao nível dos 2º e 3º ciclos e é definida a tipologia Fénix, em Conselho Pedagógico de 17 de Junho de 200829.
A convite da então Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, o Projeto Fénix da escola de Beiriz é apresentado à tutela, em abril de 2009, que após várias outras reuniões de trabalho levou o ministério a lançar o Edital “Mais Sucesso Escolar”30
.
29 Informação recolhida da dissertação de doutoramento da Dr.ª Luisa Tavares Moreira, “Projeto Fénix-
Sentidos de um projeto emergente na constituição do sucesso escolar”, UCP, Porto, 2014.
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Tal como refere Maria de Lurdes Rodrigues na sua obra A escola Pública pode fazer a diferença:
“No final de 2009, aprovou-se o Projeto Mais Sucesso Escolar, respondendo às expectativas de algumas escolas que desenvolviam, autonomamente, Projetos de combate ao insucesso e ao abandono, designadamente, o Projeto Fénix (…). O objetivo era generalizar a utilização de estratégias pedagógicas, estimular as escolas a procurar as soluções para os seus problemas, fazendo em uso inteligente e eficaz dos recursos de tempo de trabalho dos professores.”
(Rodrigues, 2010:181)
Comprovada a eficácia desta dinâmica organizacional e por iniciativa do Ministério da Educação, a partir do ano 2009/2010 implementa-se o Projeto Fénix a nível nacional no âmbito do PMSE, da Direção Geral de Educação (DGE), regulamentando-se no Despacho nº 100/2010 de 5 de janeiro a monitorização e operacionalização do PMSE através de uma comissão de acompanhamento.
De acordo com este despacho, esta comissão de acompanhamento do Programa pretendia assegurar:
(i) o cumprimento do contrato celebrado entre os agrupamentos/escolas não agrupadas e as respetivas direções regionais de educação;
(ii) o acompanhamento técnico e pedagógico dos agrupamentos/escolas não agrupadas envolvidos no Programa;
(iii) a articulação entre os agrupamentos/escolas não agrupadas e a instituição de ensino superior escolhida para proceder ao acompanhamento científico em função do respetivo modelo de tipologia.
A equipa de acompanhamento científico referida no mesmo despacho, envolvia as três instituições de ensino superior nomeadas para cada uma das tipologias do Programa Mais Sucesso Escolar, nomeadamente: Projeto Turma Mais - Universidade de Évora, Projeto Fénix – Universidade Católica Portuguesa e tipologia Híbrida – Instituto de Educação da Universidade de Lisboa.
No âmbito do acompanhamento científico, salienta-se que foi protocolado com a DGIDC e as instituições de ensino superior a elaboração de um relatório anual de monitorização (Alves, 2010; Fialho, Sebastião, & Salgueiro, 2010; Instituto da Educação da Universidade de Lisboa, 2010), e foram realizados, em articulação com a comissão de
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acompanhamento da respetiva tipologia, encontros regionais, sessões de trabalho e seminários para troca de experiências, discussão de boas práticas, reflexão, reformulação de estratégias e planificação de atividades.
Resumindo, o Projeto Fénix tem como principais metas a diminuição do insucesso e do abandono escolar e foi concebido de forma a concretizar o desígnio da escola ser para todos, encarando de frente o problema da equidade e da inclusão educativa.
Este modelo conceptual baseia-se no princípio fundamental de que as escolas inclusivas devem reconhecer e responder às diversas dificuldades dos seus alunos, de forma a assegurar uma educação de qualidade para todos.
Assim, a dinâmica deste projeto está alicerçada na manipulação das condições educativas organizacionais que exigem formas de coordenação e operacionalização muito próprias e que se aprofundarão no tópico seguinte.
3- A dinâmica de participação no Projeto Fénix - coordenação e