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A “Galegalidade” versus “a República de Pilha-tinim”

4. NAS VEREDAS DA OPINIÃO, O JORNALISMO

4.3 Mundo da vida, relevâncias e tipificações no cotidiano

4.3.2 A “Galegalidade” versus “a República de Pilha-tinim”

Um dos temas relevantes do jornal é o afrontamento com a Europa, fruto do sentimento de revolta com o passado colonial, que emerge, como já mencionamos, como um acirrado anti-lusitanismo. Um dos termos mais utilizados no discurso presente no jornal O Povo, para referir pejorativamente os portugueses, é galego, que designa os indivíduos luzitanos de mais baixo nível cultural, sinônimo de rude, grosseiro. A palavra se presta às mais diversas

Juiz da Casinha N'elle se louvam.

Mui grave o Juiz recebe a Ostra e – papa-a, E os dois a olhar. – Refeição feita,

‘Tomae (lhes diz, em tom de Presidente) Cada um sua casca,

Salva de custas, E vão-se andando.’

Contae quanto hoje custa uma Demanda, E o qu'a muitas famílias depois fica; E vereis que o Juiz vos leva o bolo, E vós ficaes c'o saco, e c'os trebelhos.”

situações: Galegada, Imprensa Galegal e até mesmo um neologismo, galegalidade, junção de galego com legalidade, a bandeira dos favoráveis ao Império, palavra bastante utilizada para ironizar os atos do adversário. Na edição 16, em “Notícias Diversas”, O Povo escreve: “Neste momento somos informados por pessoa fidedigna que houveram [sic] na Galegalidade do Rio- Grande as mudanças seguintes [...]” (p. 66).

A criatividade para elencar adjetivos que denegrissem o Império e seus representantes era inversamente proporcional à escassez dos recursos para a guerra propriamente dita. Além de galego, encontramos nas páginas do periódico: tirano (um dos mais repetidos), monstro que engole vidas, déspota, canalha, opressor, sevo, inexorável, ingrato, desumano, fratricida, ignorante, satélite, imbecil, gente depravada, ladrão, sáfaro, degenerado, caduco, sanguessuga, hidrofóbico, infame, faccioso, sem-vergonha, patife, vil, mentiroso, larápio, sevandija, fantasma, capadócio, pedante, canibal, injusto, caudilho, mesquinho, saqueador, mercenário. Também podem ser referidos, em termos mais amenos, como bigodes ou realistas.

Um dos maiores adversários dos farrapos foi o presidente da Província de São Pedro, Antonio Elizeario de Miranda e Brito e este, por seu destaque, teve direito a um apelido particular, sendo repetidas vezes referido como o “Herói do Barro Vermelho”, em homenagem à importante derrota sofrida pelas tropas Imperiais, por ele comandadas em Rio Pardo, em 1836.

As ofensas aos ministros Bernardo Pereira de Vasconcellos, da Justiça, e Miguel Calmon du Pin, da Fazenda, também eram corriqueiras. Por ocasião da vinda do Ministro da Guerra, Sebastião do Rego Barros, a Rio- Grande, publica-se a homenagem de um leitor, em forma de soneto, ironizando suas qualificações ao posto ocupado no Ministério das Capacidades:

Cabo de paz, desonra da milícia Bestão de nome, de apelido Rego

Vais te entregar sem bóia ao fundo do pego, E aos certames de Marte sem perícia? O ofício de matar requer malícia, Muito estudo requer anos de emprego Tu que és num e noutro inerte e cego, Vais dar prova de orgulho e de estultícia

Filhos, netos de heróis às armas dados, São esses bravos que o rancor separa E tu, bisonho, entre tais soldados!!! Ó da Pátria infeliz desgraça amara! Que seus destinos sejam confiados A um pobre Capitão de meia cara!... (O Povo, n. 71, p. 303)

O discurso dos legalistas também tratou de desqualificar seus adversários, especialmente pelo descrédito às ações e autoridades oficiais da República, que era sempre tratadas como “Governo rebelde”. Em troca de cartas entre Saturnino de Souza e Oliveira, presidente da Província que substituiu Elizeario, e José Fernandes Barbosa, Chefe de Polícia de Pelotas, em novembro de 1839, o primeiro afirma que o segundo “está revestido de uma autoridade ilegal, servindo por nomeação de um governo rebelde” (O Povo, n. 123, p. 519). Os adjetivos também eram fartos, sendo os mais comuns farrapos, rebeldes, revoltosos, sediciosos, anarquistas, caudilhos.

Cabe ressaltar que o termo farrapos, quando citado no discurso do jornal analisado, não remete à mítica consagrada dos uniformes rasgados. As menções a esse adjetivo sugerem um tipo específico de posicionamento político naquele momento histórico, com conotação pejorativa. A única referência a essa expressão que poderia sugerir a mudança semântica do termo está em um artigo que louva o 20 de setembro e lembra das dificuldades naquele momento da luta: “Estávamos nus, descalços, verdadeiramente esfarrapados” (O Povo, n. 6, p. 23, grifo nosso). Porém, logo em seguida, afirma que essa situação não era boa ou honrosa: “Quem tivesse julgado de nós pelo estado de nudez em que nos achávamos, facilmente acreditaria que nosso Exército não tardaria a desamparar a bandeira da República” (O Povo, n. 6, p. 23). Flores (2002) destaca esse mesmo trecho do jornal e afirma que ele gerou “confusão entre historiadores apressados”:

Os revolucionários do 20 de setembro não queriam ser confundidos com proletários e esfarrapados, pois diziam-se proprietários. Ora, o articulista referiu-se à situação em que se encontravam após a derrota do Fanfa, em 4-10-1836, até receberem a adesão de Francisco Manoel Ribeiro, e não a um estado anterior ao 20 de setembro (FLORES, 2002, p. 380).

Cabe destacar, também, que a expressão farrapos, sempre que aparece no jornal O Povo, está ligada à fala de um legalista em relação a um republicano rio-grandense, como, por exemplo, na seguinte anedota:

Balandronada

Aonde estão estes ladrões destes Farrapos? Porque não aparecem agora? Para que fogem covardes? Ah, cães, guardai-vos que vos parto. Assim gritava em altas vozes na Praça da Matriz de Rio Pardo no dia que ali entrou o Moringue da asa quebrada, quando veio roubar a banda de música, e as fazendas do Sarracin, um proseador legalista, de bigode avulo (sic) e retorcido, montado no seu Pangaré, e de lança enristada, qual outro D. Quixote investido aos Moinhos de Vento.

Uma Senhora Republicana que casualmente se achava na janela, ouvindo e vendo tais despropósitos e balandronadas, aventurou-se a dizer-lhe, com muita presença de espírito: “– O Senhor está enganado, aqui não se acha a quem procura; se queria brigar com os Farrapos, como diz, escusava vir tão longe procurá-los, havendo tantos bem perto da Capital” [...] (O Povo, n. 136, p. 576, grifos nossos).

Flores corrobora a determinação das palavras farrapo ou farroupilha como apelido político dos liberais exaltados, significando revolucionários que pretendiam a federação:

Este apelido político já era antigo, pois em 1831 circulavam no Rio de Janeiro os jornais intitulados Jurujuba dos Farroupilhas e Matraca dos Farroupilhas. Antes da Revolução, o deputado Domingos José de Almeida, em carta de 30/5/1835, à sua esposa, referiu que não podia sair de casa para fazer visitas porque, à noite, a sua casa, em Porto Alegre, se enchia de farrapos. O jornal A Sentinela da Liberdade, de 14/10/1834, criticou a existência do partidos dos farrapos em Porto Alegre. Portanto o nome farrapo não foi usado porque os combatentes andavam esfarrapados, pois é anterior à revolução e também porque todos os seus líderes e comandantes eram abonados estancieiros e oficiais do Exército ou da Guarda Nacional (FLORES, 2004, p. 27, grifos no original).

A leitura do jornal O Povo dá a entender que os comandantes da revolução não gostariam de ser conhecidos por farrapos pelo motivo de andarem esfarrapados, dada a necessidade de manter a moral e a disciplina nas tropas, e a honra da nova Nação que surgia. Os sacrifícios em nome da guerra eram louvados, é claro, mas era preciso manter o bom nome do Exército rio-grandense, até mesmo pela questão do recrutamento. Muitos são

os textos burocráticos que encaminham pedidos de compra de insumos para as linhas de combate e a aquisição de fazendas se faz presente em diversas ocasiões. Além disso, da leitura do jornal é possível perceber que as denominações mais agradáveis eram: republicano rio-grandense, patrício, cidadão, continentino. Ressaltamos que o termo gaúcho, naquela época, tinha sentido pejorativo, sinônimo de caudilho, vagabundo dos campos: “derrubados os Vice-Reis, ficavam os caudilhos, os ambiciosos, os gaúchos, homens todos que tinham pelejado por prazer” (O Povo, n. 29, p. 16).

O tom jocoso também acompanhava as digressões dos legalistas. Em transcrição de trecho do Sete de Abril, que defendia a unidade do Império, o texto inicia usando a palavra caudilho para referir um rio-grandense. Em nota de rodapé, O Povo comenta: “Notaremos de passagem que a palavra Caudilho não se acha no Dicionário da Língua que falamos” (n. 51, p. 208). Mais adiante, desqualifica a República Rio-Grandense, utilizando o jocoso apelido Republiqueta de Pilha-tinim. No comentário, após a transcrição do trecho do Sete, a redação republicana comenta: “Que quer dizer Pilha-tinim na vossa fraseologia gaiata? Ladroeira; não é isto!” (O Povo, n. 51, p. 209).

O discurso que analisamos é exemplar no que diz respeito à relatividade social do real. Schutz explicou essa relatividade através do exemplo do homem de negócios e do monge tibetano. Em nosso caso, a realidade cotidiana, vivida pelos republicanos rio-grandenses e pelos legalistas, não configura universos tão diferentes, mas, mesmo assim, os dois grupos atribuem sentidos completamente diversos aos mesmos fatos. Como vimos na teoria schutziana, a interação entre províncias de significado não se dá sem conflitos, desentendimentos ou falhas de comunicação, tanto no plano individual quanto no coletivo. Isso acontece no contato com o estrangeiro, onde a posição natural perante o mundo é questionada e provocada à reflexão, como acontece no caso do nosso objeto, que apresenta um acirrado confronto político. Esse tipo de encontro pressupõe o eminente contato entre diferentes, de forma que o dissenso e o desentendimento sempre estão presentes. Nesse caso, a forma como um grupo se vê (suas auto-tipificações) entram em choque com as heterotipificações de outrem. Isso porque a atitude natural de um grupo é tida como óbvia, auto-explicável e compreensível para qualquer um. Outros

exemplos do confronto de heterotipificações podem ser encontrados n’O Povo, e um dos mais eminentes é que a questão da legalidade.