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3 PROTEÇÃO JURÍDICA E SOCIAL AO IDOSO

3.4 A garantia de direitos ao idoso na saúde e redes de apoio

A CF de 1988 elencou a saúde como direito fundamental, assegurando no art. 196 que

a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas

que visem à redução do risco de doenças e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário

às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação (BRASIL, 1988). Em 1990, foi

instituída a Lei Orgânica da Saúde n. 8.080/90, determinando a criação do Sistema Único de

Saúde (SUS) (CARVALHO e SANTOS, 1995).

O direito à saúde passa pelo acesso universal e equânime aos serviços e ações de

promoção, proteção e recuperação da saúde, com garantia da integralidade da atenção,

considerando as diferentes realidades e necessidades de saúde da população (BRASIL, 1988).

Tais preceitos constitucionais encontram-se reafirmados na Lei nº 8.142, de 28 de dezembro de

1990, que dispôs sobre a participação da comunidade na gestão do Sistema Único de Saúde e

sobre as transferências intergovernamentais de recursos financeiros na área de saúde e as

Normas Operacionais Básicas (NOB), editadas em 1991, 1993 e 1996, que, por sua vez,

regulamentam e definem as estratégias e os movimentos táticos que orientam a

operacionalidade do Sistema (CARVALHO e SANTOS, 1995; DE OLIVEIRA FERNANDES

e SOARES, 2012; WILLIG et al., 2012).

Em concordância com asseverado em linhas pretéritas, o número crescente de idosos

ocasionou em problemas de ordem social, econômica e de saúde, os quais exigiram

determinações legais e políticas públicas capazes de oferecer suporte ao processo de

envelhecimento no Brasil, buscando atender às necessidades desse estrato populacional (DE

JESUS MARTINS et al., 2007; GERLACK et al., 2010; WILLIG et al., 2012).

Em virtude desse crescente número de pessoas idosas, em 1994 foi estabelecida a

Política Nacional do Idoso (PNI), a qual assegura os direitos sociais à pessoa idosa, bem como

reafirmando o direito à saúde nos diversos níveis de atendimento do SUS (BRASIL, 1994;

CARVALHO e SANTOS, 1995; FONSECA et al., 2012). A PNI objetiva a criação de

condições favoráveis para alcançar a longevidade com qualidade de vida compreendida como

a necessidade de prover cuidados específicos para esse segmento populacional, alicerçados em

estratégias que acrescentam saúde aos indivíduos que têm o privilégio da longevidade (WILLIG

et al., 2012).

Posteriormente, em 1999, foi implantada a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa

(PNSPI) pela Portaria 1.395/1999 do Ministério da Saúde (MS) e em 2006 foi readequada pela

portaria 528/GM que busca garantir a atenção adequada e digna para a população idosa

brasileira, visando sua integração (BRASIL, 1994; DE OLIVEIRA FERNANDES e SOARES,

2012; WILLIG et al., 2012). Nessa política estão definidas as diretrizes norteadoras de todas as

ações no setor de saúde e indicadas as responsabilidades institucionais para o alcance da

proposta compreendendo a definição e/ou readequação de anos, programas, projetos e

atividades do setor da saúde, direta ou indiretamente relacionados com seu objeto (DE

OLIVEIRA FERNANDES e SOARES, 2012).

Os principais avanços da PNSPI, regulamentada em 2006, consistem na incorporação

do conceito de envelhecimento ativo, preconizado pela Organização Mundial da Saúde, na

desmistificação da velhice, na valorização da participação dos idosos na vida social e

intergeracional (WILLIG et al., 2012).

A PNSPI fundamenta a ação do setor saúde na atenção integral à população idosa e

em processo de envelhecimento, conforme determinam a Lei Orgânica de Saúde, assegurando

os direitos dos idosos e buscando criar condições para a promoção da autonomia, integração e

participação dos idosos na sociedade. Cabendo ao setor saúde prover o acesso dos idosos aos

serviços e às ações voltadas à promoção, proteção e recuperação da saúde (DE JESUS

MARTINS, 2007).

Além disso, a PNSPI, em conjunto com SUS, traçaram diretrizes com propósito de

garantir o dever de cuidado ao idoso, a saber: atenção integrada à saúde da pessoa idosa;

formação e educação permanente dos profissionais de saúde; divulgação e informação sobre a

PNSPI para profissionais de saúde, gestores e usuários do SUS; apoio ao desenvolvimento de

estudos e pesquisas; elaboração do plano integrado de ações de proteção à pessoa idosa

SUAS-SUS, dentre outras ações (DE OLIVEIRA FERNANDES e SOARES, 2012; VERAS, 2012;

WILLIG et al., 2012).

Diante do que foi exposto, no tocante inúmeros documentos legais de garantia ao Idoso

nas diversas esferas (jurídica, social e saúde), constata-se que os direitos ao idoso, em especial

o dever de cuidado, para serem concretizadas necessitam da construção e efetivação das redes

sociais (PAVARINI et al., 2005; GERLACK et al., 2010; SANTOS, 2010; DE OLIVEIRA

A rede social, apoio social ou rede de apoio social pode ser entendida como aquilo

com que o sujeito interage, tudo que faz parte da rede relacional dos indivíduos, ou qualquer

informação e/ou auxílio material oferecidos por grupos e/ou pessoas, com os quais se têm

contatos sistemáticos e que resultam em efeitos emocionais e/ou comportamentais positivos

(DE SOUZA et al., 2008).

As redes de apoio social ao idoso fracionam em duas ordens. A primeira ordem são as

redes formais, que estão relacionadas às políticas públicas à população idosa, agregando os

serviços de atenção básica à saúde, instituições jurídicas (Poder Judiciário, Ministério Público

e Defensoria Pública) e órgãos da assistência social (BRASIL, 1994; FEDERAL, 2003; DE

OLIVEIRA FERNANDES e SOARES, 2012; WILLIG et al., 2012). A segunda ordem são as

redes informais, que são os familiares e os amigos, caracterizados pela “espontaneidade e

reciprocidade”, que auxiliam o idoso a manter os vínculos e proporcionam bem-estar (VIEGAS

e DE BARROS; DE SOUZA et al., 2008; DE ALMEIDA et al., 2011; VERAS, 2012).

Assim sendo, é indiscutível que as redes formais e informais são indispensáveis para

proteção e apoio na garantia dos direitos dos idosos previstos por lei. Diante disso, é premente

a reflexão sobre o uso das tecnologias, considerando-as como possibilidade de relacionar e

integrar os múltiplos saberes, fazeres e os seres humanos, cujas partes se apresentam

compartimentadas, desarticuladas, separadas, fracionadas (BAGGIO et al., 2010).

Em virtude dessa evidência, torna-se imperioso analisar se os agentes das redes

formais conhecem o “dever de cuidado” preconizado no Estatuto do Idoso e caso os agentes

sejam conhecedores de tal obrigação, como os mesmos atuam para materialização desse dever.