PARTE CINCO
195 Nossa contribuição à presente obra consiste em avaliar: a) as conquistas
e retrocessos dos trabalhadores no Congresso Nacional nos últimos anos; b) a atual correlação de forças entre capital e trabalho no Parlamento; c) principais demandas da classe trabalhadora em tramitação, bem como as proposições mais precarizantes apresentadas pelo empresariado.
O DISCuRSO EM DEFESA DA FlEXIBIlIzAçãO DOS DIREITOS TRABAlhISTAS, ADOTADO POR FhC, AINDA SE ENCONTRA PRESENTE EM SETORES
CONSIDERávEIS DO PARlAMENTO
Além das mudanças radicais que o mundo do trabalho vem apresen-tando nas últimas décadas, os trabalhadores e o movimento sindical foram (e ainda são) vítimas de tentativas de supressão de direitos considerados plena-mente consagrados há tempos.
Apesar de algumas conquistas legislativas importantes, obtidas nos últi-mos dez anos, o perfil ideológico de amplos setores presentes no Parlamento é francamente contrário aos interesses dos trabalhadores.
Há por parte da grande mídia uma campanha permanente de ataque aos movimentos populares, e em especial às entidades sindicais, que encontra eco no Parlamento. Um exemplo lamentável foi a capa da revista britânica The Economist (bastião do neoliberalismo mundial) de julho de 20111, demoni-zando os sindicatos, em especial os do setor público.
A
gendA em diScuSSão no196
ProJeTos P
O mecanismo apresentado pelos defensores do cerceamento dos direitos trabalhistas no Parlamento brasileiro reside na apresentação de um falso dile-ma: o binômio defesa dos direitos trabalhistas, e, em consequência, o suposto aumento do desemprego versus a flexibilização e supressão dos direitos traba-lhistas, que trariam o desenvolvimento econômico, o aumento da competitivi-dade e a geração de empregos.
Tal “dilema” é resultado de mentiras repetidas à exaustão, como diversos autores demonstraram na presente obra. A empresa, para ser eficiente, não precisa necessariamente da redução dos direitos trabalhistas e de amplos po-deres para oprimir o trabalhador do modo que bem entender. A flexibilização laboral não visa permitir que as empresas possam contratar mais trabalha-dores. Tampouco a adequada tutela dos direitos trabalhistas prejudicaria o desenvolvimento econômico da empresa e do Brasil.
O que vimos nos últimos anos em nosso país é exatamente o contrário.
Por exemplo: a política de aumentos reais do salário mínimo serviu para in-crementar o consumo das famílias e, por conseguinte, acelerar o desempenho da economia gerando mais empregos. E foi principalmente a força do mercado consumidor interno que permitiu ao Brasil sair da grave crise internacional de 2008 de modo muito mais rápido e menos doloroso do que os países que adotavam à época o receituário neoliberal.
Não há qualquer estudo que demonstre a correlação entre flexibilização de direitos laborais e aumento no número de postos de trabalho. O exemplo histórico de países como a Argentina e a Espanha, que implementaram re-formas em sua legislação trabalhista nos anos 1990, com ênfase no trabalho temporário, é evidência do contrário. Tais países instituíram em seus ordena-mentos jurídicos diversas formas de precarização das condições de trabalho e redução dos seus custos; seus resultados foram um incremento radical da rotatividade de mão de obra e uma substituição da modalidade contratual de tempo indeterminado pela temporária. Tais medidas fracassaram e a taxa de desemprego manteve-se num patamar altíssimo.
A utilização de tais sofismas e mentiras na análise do mundo do traba-lho, como fez Fernando Henrique Cardoso (FHC) em seus dois mandatos (e como parte considerável do Congresso Nacional ainda defende), traz em seu bojo o risco de retrocesso nos avanços democráticos e republicanos e compro-va o caráter nefasto do projeto neoliberal (que ainda encontra eco em setores conservadores de nossa sociedade, apesar dos trágicos resultados que trouxe para a América Latina nos anos 1990, agora sentidos pela Europa).
O discurso da flexibilização dos direitos sociais se utiliza dos impactos das tecnologias mais recentes para justificar a manutenção de altas taxas de
PARTE CINCO
197
ProJeTos Para o Brasil
desemprego, com a existência de um grande número de obreiros trabalhando de modo precário. Por meio da flexibilização dos direitos trabalhistas, dimi-nuindo o caráter tutelar do sistema protetivo laboral, o Brasil e diversos países latino-americanos e europeus realizaram nos anos 1990 alterações precarizan-tes na legislação, sob o argumento da necessidade de adequação da economia local aos ditames da globalização.
Parte das reformas trabalhistas defendidas por FHC se baseavam na eli-minação da proteção do Estado no campo laboral, de modo a permitir que a lógica do salve-se quem puder imperasse. O lamentável projeto de FHC de al-teração do art. 618 da CLT (PL nº 5.483/2001 – negociado sobre o legislado), que tanto repugnou a sociedade civil organizada, é exemplo de tal atitude.
Felizmente, o ex-presidente Lula enviou ao Congresso Nacional, logo nos pri-meiros meses de seu mandato, Mensagem visando sua retirada.
Tais propostas neoliberais de enfraquecimento do Estado se esquecem de que a “grande descoberta do direito na modernidade, enquanto função so-cial, é a existência da lei como limite que se impõe à vontade; como gramática do vínculo social” (Warat, 1994, p. 102-103). Com a supremacia do discurso neoliberal, o mercado pretende ser o fundamento de todas as relações sociais.
O atual estágio do capitalismo internacional exige contudo uma postura ética nacional, e uma atitude corajosa do Estado, de modo a garantir as conquistas da modernidade:
Enquanto a modernidade ganha novas qualificações e novas dimensões, com a crescente mundialização da economia, agudizando tendências que se en-contravam em seu interior, desde os seus primórdios, a exclusão constitui uma ameaça real e direta à modernidade, destruindo um de seus espaços essenciais, o da igualdade. Na superação das tendências de exclusão reside, portanto, a possibilidade de redefinição de modernidade, o que demanda, paradoxalmente, uma maior efetivação do Estado-nação.
CONQuISTAS E RETROCESSOS DOS TRABAlhADORES NO CONgRESSO NACIONAl NOS úlTIMOS ANOS2
Paradoxalmente, e para estupefação e indignação dos comentaristas eco-nômicos da grande mídia, foram exatamente medidas contrárias ao projeto neoliberal que permitiram ao Brasil durante os governos Lula e Dilma crescer (e ao mesmo tempo distribuir renda e diminuir a desigualdade) mesmo em
2. Agradeço a oportunidade que recebi da bancada do PT na Câmara dos Deputados para atuar de 2002 a 2008 como assessor para direito do trabalho e direito constitucional. Tal aprendizado foi de bastante valia na elaboração do presente artigo.
198
ProJeTos P
um contexto internacional negativo. Como exemplo de tais medidas destaco:
a) Política contínua e permanente de aumentos reais ao salário-mínimo, que foi em parte responsável por avanços na negociação coletiva de várias categorias;
b) Programas sociais robustos, como o Bolsa-Família, que diminuíram a miséria e aumentaram o consumo;
c) Mecanismos de acesso dos setores mais carentes da população ao en-sino superior, tanto público como privado, como as cotas sociais, o ProUni e a criação de dezenas de novas universidades federais.
A situação vivenciada por boa parte dos trabalhadores brasileiros é mui-to melhor hoje, após os dois mandamui-tos do governo Lula e parte do governo Dilma, do que no governo FHC.
No entanto, no plano legislativo os avanços do direito do trabalho foram tímidos, e persistem diversas ameaças aos direitos dos trabalhadores tramitan-do no Congresso Nacional.
A principal causa de tal situação reside no fato de o número de deputa-dos empresários, que já era bastante elevado na legislatura anterior, ter se tor-nado ainda maior, como destacou o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP):
a bancada empresarial passou de 219 na legislatura 2007-2010 para 273 integrantes na legislatura 2011-1014 (246 deputados e 27 senadores).
Dos 219 empresários, 137 foram reeleitos, o que demonstra ser uma bancada experiente;
Os empresários compõem 45% do Congresso Nacional, e separada-mente, 47.95% da câmara e 33.33% do Senado;
Diversos outros parlamentares integram a bancada empresarial, sem ser empresários (facilmente identificados a partir dos seus doadores de cam-panha);
a bancada sindical, que era de somente 61 congressistas (54 deputados e 7 senadores) teve um tímido aumento na legislatura 2011-2014: 68 parla-mentares (62 deputados e 6 senadores).
retrocessos nos direitos dos trabalhadores
Para demonstrar o vigor com que a direita vem tentando precarizar os direitos dos trabalhadores no Congresso Nacional, apresentarei alguns dos exemplos mais preocupantes:
Terceirização. O PL 4.330, do deputado Sandro Mabel (PMDB-GO), representa uma terrível e profunda reforma trabalhista precarizante, e consi-dero que o combate a tal proposição deva ser prioridade do movimento
sindi-PARTE CINCO
199
ProJeTos Para o Brasil
cal. Na Comissão Especial criada na câmara dos deputados, a ampla maioria patronal dos componentes de tal Comissão aprovou substitutivo que permite a terceirização em quaisquer atividades das empresas (mesmo em atividades-fim), com a criação de empresas somente com um CNPJ e sem trabalhadores.
Tal proposição permite também a quarteirização e a quinterização, e não pre-vê igualdade de direitos entre contratados diretamente e terceirizados, e sua aprovação consistiria em grave ataque aos direitos trabalhistas e ao movimento sindical. O PL, flagrantemente inconstitucional, atualmente se encontra na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, com parecer apresentado pelo relator Arthur Maia (SDD-BA), ainda pior que a proposição original. Considero que a terceirização desenfreada e ilegal defendida pelo PL 4.330 traz inúmeros prejuízos não somente aos trabalhadores e aos sindicatos, mas também a toda sociedade, conforme já analisado em detalhes em capítulo da presente obra.
Jurisdição voluntária na Justiça do Trabalho. No ano de 2011, a Co-missão de Trabalho, Administração e Serviço Público (CTASP) da Câmara dos Deputados tornou-se um difícil campo de batalha para os trabalhadores. O então presidente de tal Comissão, deputado Silvio Costa (PSC-PE), amparado por diversos deputados conservadores, tentou (e em vários casos conseguiu) aprovar projetos precarizantes. Além da aprovação na CTASP do PL 4.330, sobre a terceirização, outro sério atentado aos direitos trabalhistas consistiu na suposta aprovação do PL 1.153, de 2011. Tal PL altera a CLT, ampliando as possibilidades dos empregadores de liquidarem suas pendências trabalhistas sem o cumprimento de suas responsabilidades legais e constitucionais. Se-gundo a proposta, em casos de litígios, a Justiça do Trabalho pode homologar acordos extrajudiciais, sem oitiva de testemunhas e sem produção de provas.
E, uma vez confirmado pelo juiz, o acordo tem força de título executivo judi-cial. Ou seja, na prática impede que o trabalhador entre com ação na justiça contra o empregador. No que foi somente uma simulação, o deputado Silvio Costa impediu a discussão da proposição, e o PL foi aprovado em um mero simulacro de votação. A matéria encontra-se hoje sob análise da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados. O PL faz parte de um pacote de projetos visando inviabilizar a atuação da Justiça do Trabalho e impedir os trabalhadores de ajuizarem reclamatórias trabalhistas. Silvio Costa, ex-presidente da CTASP, disse expressamente em agosto de 2011: “Repito que, por mim, acabaríamos com a Justiça do Trabalho”3.
3. Disponível em: <http://www.dci.com.br/Novas-regras-nas-relacoes-entre-o-capital-e-o-trabalho-5-388377.html>.