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4 DO PERCURSO METODOLÓGICO

4.3 A Genealogia como análise do exercício do poder

Foucault não elaborou nenhuma sistematização teórica acerca do poder. O que o autor empreendeu foram análises, em sua maioria histórico-filosóficas, sobre o seu funcionamento. Contudo, Foucault possibilitou ferramentas para analisar o poder por meio de uma filosofia analítica (CASTRO, 2004).

Em termos genealógicos, é importante pensar o poder não como objeto, uma coisa ou um bem. Faz-se mister, ainda, reconhecer que não há, na teoria foucaultiana, aqueles que estão em posse do poder – os dominantes – e, de outro lado, os submetidos a ele – os dominados - . Antes, é necessário compreender o poder como uma prática social, construída historicamente. Logo, deve-se apreendê-lo em suas diferentes formas, em suas transformações. O poder é, assim, algo que se exerce, que funciona em rede; o poder envolve táticas, estratégias, manobras (FOUCAULT, 2011).

Para Foucault (1980), ao se tentar construir uma teoria sobre o poder, será necessário que este seja sempre descrito como algo que emerge num lugar e tempo dados; a partir deste ponto é que se poderá deduzir e reconstruir sua gênese – sempre em termos de relações. As especificidades da relação de poder são apresentadas pelo autor como relações entre sujeitos como modos que atuam sobre as suas ações, e, por conseguinte, não atuam diretamente sobre eles. Foucault falará que o termo “conduta” será o que melhor permite captar tal especificidade. O exercício do poder consiste em administrar condutas. (FOUCAULT, 2003).

Foucault (2004b) destaca cinco precauções metodológicas para uma análise genealógica do poder. A primeira delas versa acerca de captar o poder nas suas extremidades: “Não se trata de analisar as formas regulamentares e legítimas do poder em seu centro [...]. Trata-se,

ao contrário, de captar o poder em suas extremidades, em suas ramificações, lá onde se torna capilar; [...]” (FOUCAULT, 2004b, p.182). A segunda precaução será abordá-lo “[...] onde sua intenção [...] está completamente investida em práticas reais e efetivas; [...] onde ele se relaciona com aquilo que podemos chamar de objeto;” [...]” (FOUCAULT, 2004b, p.182), o poder deve ser estudado “onde ele se implanta e produz efeitos reais (...) seria preciso procurar estudar os corpos constituídos como sujeitos pelos efeitos do poder” (FOUCAULT, 2004b, p.183).

A terceira precaução metodológica será não tomar o poder como um fenômeno homogêneo de um indivíduo sobre outros, de um dominante sobre os dominados, de uma classe sobre outra. Logo, o poder “[...] não é algo que se possa dividir entre aqueles que possuem e o detêm exclusivamente e aqueles que lhe são submetidos [...]. O poder funciona e se exerce em rede (FOUCAULT, 2004b, p.183)”. Por sua vez, a quarta precaução será de cuidar para que a análise do poder não seja uma dedução partindo-se do centro; deve-se, ao contrário, fazer uma análise ascendente do poder:

[...] partir dos mecanismos infinitesimais que têm uma história, um caminho, técnicas e

táticas e depois examinar como estes

mecanismos de poder foram e ainda são investidos, colonizados, utilizados, subjugados, transformados, deslocados, desdobrados, etc., por mecanismos cada vez mais gerais e por formas de dominação global. Não é a dominação global que se pluraliza e repercute até embaixo. (FOUCAULT, 2004b, p.184).

A quinta e última precaução metodológica apontada por Foucault versa sobre o saber como instrumento de poder. De acordo com o autor, não é na ideologia que o poder é alicerçado - é muito mais e ao mesmo tempo muito menos que isso: “São instrumentos reais de formação e de acumulação do saber: métodos de observação, técnicas de registros, procedimentos de inquérito e de pesquisa, aparelhos de verificação” (FOUCAULT, 2004b, p.186). Prontamente, tem-se que o poder gera saber que circula e acaba por manter o próprio poder – “aparelhos de saber que não são construções ideológicas”

(FOUCAULT, 2004b, p.186). Assim, ao recapitular as cinco precauções metodológicas, dirá Foucault (2004b, p.186):

Em vez de orientar a pesquisa sobre o poder no sentido do edifício jurídico da soberania, dos aparelhos de Estado e das ideologias que o

acompanham, deve-se orientá-la para a

dominação, os operadores materiais, as formas de sujeição, os usos e as conexões da sujeição pelos sistemas locais e os dispositivos estratégicos. [...] É preciso estudá-lo a partir das técnicas e táticas de dominação.

Foucault reconhece que o poder, em suas táticas de dominação, não tem apenas um papel repressivo (negativo); ele também tem outro lado, o produtivo (positivo). Se, por um lado, o poder exclui, reprime, recalca, censura, mascara, esconde, por outro, “de fato, o poder produz; ele produz real; produz domínios de objetos e rituais de verdade” (FOUCAULT, 2011, p.161).

Por fim, outras notas para a análise do poder, a partir de Michel Foucault, são indicadas por Revel (2002), a qual propõe a exigência de se fixar e observar certos pontos importantes, ao menos cinco: (1) pensar o poder a partir das diferenciações que permitem agir sobre as ações dos outros; esse é o efeito da condição de emergência e das relações de poder (diferenças no quadro legal/jurídico quanto a status e privilégios, diferenças econômicas na apropriação de riquezas, diferenças de lugares nos processos produtivos, diferenças culturais e linguísticas, diferenças de especialização e de competência); (2) Ater-se ao objetivo das relações de poder sobre as ações dos outros (manutenção de privilégios, acumulação de benefícios, exercícios de determinada função); (3) averiguar as modalidades instrumentais do poder (as armas, os discursos, os mecanismos de controle, as disparidades econômicas, os sistemas de vigilância e fiscalização); (4) observar as formas de institucionalização do poder (os sistemas complexos, tais como o Estado, as estruturas jurídicas, os fenômenos habituais, os locais específicos dotados de regulamentos e uma hierarquia específica); (5) observar o nível de racionalização com base em determinados indicadores, tais como os que apontam a eficácia dos instrumentos, a certeza de resultado, os custos econômicos e políticos.

Será foco de uma análise genealógica do poder as diferentes modalidades de seu exercício sobre os sujeitos – individuais ou coletivos. As condutas humanas estão em foco e a este poder de agir sobre a vida das pessoas é que Foucault chamará de biopoder.