Foto 12 – Refeitório do regime semi-aberto da APAC ITAÚNA
1. A SACRALIDADE DA PESSOA, A FAMÍLIA E O DIREITO HUMANO
1.1. A SACRALIDADE DA PESSOA
1.1.2. A Generalização de Valores
Joas explica como acontece o processo de generalização de valores, salientando mais uma vez que se inspira em Talcott Parsons. No decorrer de sua obra, o sociólogo germânico apresenta a tese sobre generalização de valores, levando em conta que as experiências de violências e violações dos direitos e da sacralidade
também funcionam como catalisadores da internalização de valores. “A adesão a
valores pode remontar a experiências que enchem as pessoas de entusiasmo” (JOAS, op. cit., p. 105)
Porém, experiências entusiasmantes não são o único modo pelo qual pode se dar a adesão a valores. Experiências de impotência também nos marcam muito profundamente. Quando topamos com nossas limitações e vivenciamos quão pouco podemos mudar nosso destino ou o de outros ou quando radicalmente nos damos conta da finitude da nossa existência, por exemplo, em experiências de doença, incapacitação ou de morte inevitável, isso também transforma a nossa relação conosco mesmos e com o mundo, assim como os nosso valores. [...] A experiência da violência pode ser entusiástica para o agressor, mas provocar na vítima nada além de sentimento de impotência. [...] é de suma importância atentar para o fato de que a experiência de violência representa uma deturpação peculiar da experiência entusiástica de constituição de valor. (JOAS, op. cit., p. 105-106)
Desenvolvendo a ideia sobre as experiência com a violência como
impulsionadoras de adesão a valores, questiona se seria possível que “as próprias
experiências de violência podem ser transformadas de tal maneira que delas flua energia para uma adesão positiva a valores”? (JOAS, op. cit., p. 107). Para responder a esse questionamento, utiliza a gênese dos Direitos Humanos como hipótese de aplicação da tese:
Com referência à história dos direitos humanos e do valor dignidade humana universal, essa pergunta deve ser formulada de duas maneiras: que papel a experiência de violência desempenhou na história dos direitos humanos? Como é possível lograr a transformação de experiências de violência em adesão a valores, mas precisamente a valores do tipo universalista? (op. cit., p. 107)
Exclusivamente do sofrimento não surgem valores; é preciso que haja também a força para transformar a experiência de sofrimento em valores orientados para impedir que o sofrimento sob injustiça, privação de liberdade, violência leve à falta de esperança e ao desespero ou a espirais de violência que se erguem ciclicamente e das quais aparentemente não é mais possível sair. (op. cit., p. 112-113)
Partindo da ideia da gênese de valores também por experiências de violência, no final da obra, esclarece que o caminho para a universalização dos valores não pode ficar resumido ao uso da razão e ao intelecto, dissociado dos aspectos afetivos:
A generalização de valores não é, portanto, nem um consenso no sentido do discurso argumentativo racional nem uma simples decisão de coexistência pacífica apesar do dissenso axiológico insuperável. Uma vez mais evidencia-se que o resultado de uma comunicação exitosa referente a valores é maior ou menor que o resultado de um discurso racional: não chega a ser um consenso pleno, mas uma modificação recíproca dinâmica e um impulso para a renovação da respectiva tradição própria de cada qual. (JOAS, 2012, p. 259)
A trivialização do sofrimento humano nos nossos dias e a consequente indiferença com que encaramos o sofrimento dos outros – mesmo se a sua presença nos nossos sentidos é avassaladora – tem muitas causas. Entre elas, o impacto da sociedade de informação e comunicação – a repetição da visibilidade sem a visibilidade da repetição - e a aversão ao sofrimento induzida pela sua medicalização da vida. Contudo, em um nível mais profundo, a trivialização do sofrimento reside nas categorias que usamos para o classificar, sobretudo porque o sofrimento é, acima de tudo, uma desclassificação e desorganização do corpo. A tradição moderna ocidental, ao separar a alma do corpo, degradou este último ao concebê-lo constituído de carne humana. Em consequência, a conceitualização (e dignificação) do sofrimento humano passou a ser feita través de categorias abstratas, sejam elas filosóficas ou éticas, que desvalorizam a dimensão visceral do sofrimento, a sua marca visível de experiência vivida na carne. (SANTOS, 2013, p. 118-119)
Finaliza a sua obra aplicando o método de análise quanto à generalização de valores. Exemplifica o método com a análise do processo histórico que levou à construção da Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (1948) e demonstra que, diferente do tradicionalmente difundido, nem
foi o Holocausto o impulso fundamental e nem a contribuição norte-americana, mas sim uma culminação de fatores que já estavam presente antes mesmo da II Grande Guerra e que não surgiram apenas no Ocidente, configurando-se na multireferrencialidade necessária para o diálogo e agenda vindouros.
Joas (op. cit., p. 128-142) utiliza o exemplo da Guerra Civil e o fim da escravidão de negros nos Estados Unidos da América para esquematizar o que designa como a sua triangulação: valores, instituições e práticas. Estes três elementos juntos se mostram indispensáveis ao surgimento e manutenção de valores, quando nos diz que estes não devem “permanecer simples valores. Eles só viverão se forem defendidos argumentativamente enquanto valores, mas sobretudo se forem sustentados por instituições e corporificados em práticas.” (op. cit., p. 200)
Se considerarmos seriamente os obstáculos e as ameaças, veremos que, falando nos termos do meu triângulo composto de práticas, valores e instituições, a estabilização das conquistas alcançadas no processo de sacralização da pessoa só poderá ser bem sucedida se acontecerem três coisas. No campo das práticas, trata-se da sensibilização para as experiências de injustiça e violência e de sua articulação. No âmbito dos valores, trata-se da fundamentação argumentativa da pretensão de validade universal, que, no entanto – como se pretendeu mostrar aqui –, não será possível sem que seja permeada com narração. E, no plano das instituições, trata-se de codificações nacionais bem como globais permitindo que as pessoas de culturas bem diferentes se reportem aos mesmos direitos. Nenhum dos três âmbitos possui uma prioridade óbvia. No longo prazo, os direitos humanos e a sacralização da pessoa, só terão alguma chance se todos os três atuarem em conjunto: se os direitos humanos tiverem o suporte das instituições e da sociedade civil, forem defendidos argumentativamente e se encarnarem nas práticas da vida cotidiana. (JOAS, 2012, p. 275)
Antes de finalizar este tópico do trabalho, cabe explicar que a concepção de sacralidade da pessoa tem um cunho universalista em razão de que no seu conceito se considera o ser em sua individualidade, reconhecendo-o como sagrado, independente de quem seja. Por outro lado, a dignidade humana é aqui entendida, como um processo histórico e cultural, contextualizado, dependente de cada ordenamento jurídico e, por isto, não se concebe como um valor universal e sim relativo, no sentido de que “a noção de direito está estritamente relacionada ao sistema político, econômico, cultural, social e moral vigente em determinada sociedade” (PIOVESAN, 2013, p. 221). Sendo assim, toda vez que neste trabalho se transcrever o termo dignidade da pessoa humana ou dignidade humana entender-se-á que se trata de uma concepção cultural e relativa e, consequentemente, posterior ao sentido de sacralidade da pessoa.
1.2. A FAMÍLIA COMO BASE DA SOCIEDADE E A ESPECIAL PROTEÇÃO DO