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2. Estudos eleitorais

2.5. A geografia eleitoral no contexto nacional

Elaborar uma revisão de literatura sobre geografia eleitoral como modelo explicativo das decisões de voto, no contexto nacional, não é por certo uma tarefa fácil pela simples razão de que as fontes são escassas. De facto, o número de registos é manifestamente restrito. Em Portugal, os estudos do comportamento eleitoral e das atitudes políticas são relativamente recentes, datando em grande parte do período posterior à democratização de 1974, se bem que existam também alguns estudos anteriores (Jalali, 2003).

Quanto à Geografia Eleitoral nacional, viveu o seu período de maior fulgor quando Jorge Gaspar se evidenciou no final dos anos setenta e início dos oitenta, publicando uma série de trabalhos com base em dados agregados. A sua obra contribuiu para proporcionar algumas noções inestimáveis sobre o comportamento eleitoral dos portugueses (Jalali, 2003). Entretanto, após esse período. as contribuições neste domínio têm sido meramente pontuais

Provavelmente, o primeiro estudo de inegável interesse e principalmente pelo seu pioneirismo no contexto nacional, é da autoria de Gaspar J. e Vitorino N. (1976). Aliás, nesta obra, sobressai o seguinte comentário por parte dos autores “Como em muitos outros domínios de investigação científica, o estudo dos fenómenos eleitorais é praticamente desconhecido entre nós, tanto na abordagem sociológica, como na política, na geográfica e salvo raríssimas excepções (Piteira Santos, 1962), mesmo na histórica”. Efectivamente, trata-se de um estudo exaustivo sobre os resultados das primeiras eleições após o 25 de Abril de 1974, onde a distribuição espacial do voto enquadra aspectos fundamentais do comportamento eleitoral. Este, relaciona-se com as posições das unidades do espaço geográfico e confronta- se com os factores de natureza socioeconómica.

Figura 1.2 - Provavelmente, estas duas colectâneas de artigos serão duas das mais emblemáticas publicações no contexto da Geografia Eleitoral nacional.

Posteriormente, Gaspar J. (1983a,1983b,1983c,1984a,1984b,1985,1986,1987) e Gaspar J. e André I. (1990a, 1990b), foram autores de um conjunto de artigos nos quais abordam diversos temas no âmbito da Geografia Eleitoral: o comportamento dos eleitores no período compreendido entre 1975 e 1987; o voto rural em Portugal; a geografia e a sociologia do abstencionismo em Portugal; o comportamento eleitoral urbano nas eleições legislativas; o voto e as condições sociais e económicas; as clivagens políticas nacionais e regionais; a distribuição espacial do voto e da abstenção; a evolução regional e nacional do voto, e da abstenção.

O estudo do comportamento de voto através de análises ecológicas é feito relacionando dados agregados sobre unidades geográficas, com indicadores recolhidos pelas instituições nacionais estatísticas (Lobo, 2007). Os estudos de geografia eleitoral de Jorge Gaspar e Isabel André foram pioneiros a esse nível e constituíram a base para novos trabalhos. Contudo, a este tipo de estudos são apontados duas limitações: uma é a chamada falácia ecológica que consiste em assumir que relações que se detectam entre grupos são válidas para os indivíduos desses grupos. Muitas vezes, essa correlação não é sustentada a nível individual, pois existem variadas combinações a nível individual que podem produzir o mesmo valor agregado; a outra limitação está relacionada com o facto de que esses estudos serem excessivamente dependentes dos indicadores recolhidos pelo Instituto Nacional de Estatística, por exemplo (Lobo, 2007).

Segundo a mesma autora, os investigadores do comportamento eleitoral, estão restringidos a correlacionarem os dados agregados sobre o comportamento de voto, com os dados disponíveis sobre a unidade geográfica em questão. Estes, podem ser reduzidos e são indicadores sociológicos objectivos (género, idade, educação, rendimento, ocupação profissional). Atendendo ao fato de que o comportamento de voto varia bastante de eleição para eleição, e que, pelo contrário, os factores sociológicos variam pouco, é evidente que este modelo

apresenta lacunas na explicação tanto das escolhas eleitorais como da mudança eleitoral.

Aparte deste conjunto de trabalhos marcantes no contexto a Geografia Eleitoral nacional, poucas tem sido as incursões neste domínio até ao presente ao contrário, do que se passa com estudos eleitorais em que a abordagem é feita recorrendo a outros modelos explicativos das decisões do voto. Talvez algumas das explicações para tal coincidam com a seguinte opinião: "Em Portugal, a existência de uma menor extensão territorial e demarcação histórico-geográfica entre regiões contribui para justificar a menor enfâse na aplicação da geografia eleitoral ao estudo das decisões de voto…”, (Espírito Santo, 2006). Apesar da reduzida dimensão territorial, os cerca de noventa mil quilómetros quadrados caracterizam- se por serem palco de uma heterogeneidade patente a diversos níveis, o que por si só, é aliciante e constitui um factor motivador para o desenvolvimento de estudos onde a dimensão espacial represente um foco importante.

Apesar de tudo, estamos certos que ao aceitarmos definir a geografia eleitoral como sendo a análise da interacção entre o espaço, o lugar e os processos eleitorais, através do estudo dos padrões de voto, das influências geográficas nas eleições, da geografia da representação e conjugando com novos desenvolvimentos ao nível metodológico (como a introdução dos Sistemas de Informação Geográfica por exemplo), será possível entrar em novos domínios no que respeita à análise de dados eleitorais no contexto nacional.

Ocasionalmente, é possível encontrar tentativas de incursões no domínio dos dados eleitorais através da utilização de processos e metodologias pouco usuais neste contexto, como será por certo a utilização de métodos hierárquicos, dos Self Organizing-Map (SOM) e da econometria espacial, (Caleiro e Guerreiro, 2005; Caleiro, 2008; Vieira e Lobo, 1999; Vairinhos e Galindo, 2004).