3 A FUNÇÃO E O PAPEL DO DIRETOR NO CONTEXTO ESCOLAR
3.2 CARACTERIZAÇÃO DA FUNÇÃO DO DIRETOR POR ELE MESMO
3.2.5 A gestão (com) partilhada: Conselho Escolar, APM, comunidade
Ao situar a função do diretor na estrutura funcional dos regimentos das escolas e orientações do CEE/PR, tem-se, no Conselho Escolar, a instância de maior poder dentro da escola. O Conselho “é o órgão colegiado de natureza consultiva, deliberativa e fiscal, com o objetivo de estabelecer o Projeto Político Pedagógico da escola”.109 Esse grau de importância e de superioridade do Conselho Escolar é também confirmado por alguns diretores: “Hoje o Conselho Escolar é praticamente autonomia dentro da escola, praticamente todas as decisões que são tomadas são passadas por esse Conselho, porque é a parte que rege a escola”. Nessas escolas, percebeu-se que há um projeto na escola, mesmo que não totalmente produzido e assumido por todo o grupo de trabalhadores da escola.
Para outro diretor, o Conselho é importante, mas não representa esse órgão máximo “(...) nem tudo é passado pelo Conselho Escolar, às vezes tem que ser tomada uma decisão rápida que o Conselho nem fica sabendo. Eu vejo que está faltando alguma coisa para se trabalhar...”. Reconhecer que está faltando algo sem, de fato, saber o que é, demonstra a falta de compreensão do que representa o Conselho Escolar e de que forma deve ser sua participação e decisão na escola.
Por outro lado, os diretores confirmam a presença dos membros da Associação de Pais e Mestres - APM e do Conselho Escolar em ações da escola. Porém, especificam que a participação se realiza quase que exclusivamente nas questões financeiras. Antes da fala dos diretores, cabe salientar, que as escolas para estarem aptas a receber os recursos financeiros de programas como Dinheiro Direto na Escola (do governo federal), assim como e Módulo Biblioteca e Fundo Rotativo (do governo do estado do PR) precisam estar com a APM e Conselho Escolar, devidamente regulamentados. Tal exigência, assentada nas questões do financiamento, é uma das razões que garante a presença desses órgãos na escola.
Nós decidimos com a APM e o Conselho Escolar, a não ser coisas pequenas do dia-a- dia, material de limpeza alguma coisa assim, então isso nós temos autonomia para fazer, fora disso, se quisermos comprar um outro objeto, uma televisão, um vídeo, nós só compramos quando há essa determinação. Reunimos o grupo e definimos: Vamos comprar ou não vamos comprar!
109 PARANÁ. CEE. Deliberação nº 016/99, de 12/11/99. Delibera sobre o Regimento Escolar. CEE,
Participar desse nível de decisões não deixa de ser um caminho possível para democratizar as relações da escola. Ocorre que, formas de participação, como esta, desarticulada de um projeto maior, garantem a legitimação das políticas de “partilhamento” do financiamento do ensino. Com as falas de diretores, como a que segue, pode-se confirmar a configuração desse papel legitimador desempenhado pelos membros da APM.
A gente procura soluções por exemplo, com a APM, fazemos algumas promoções, nós temos a cantina da escola. (...) A gente busca fazer um jantar, festa junina. Então com esses meios e mais o Fundo Rotativo, que é da Fundepar, a gente vai tentando cada vez deixar melhor [a escola].
Dessa forma, vai se efetivando a política “mercadológica” para a educação, onde cada escola precisa buscar “soluções” para tornar-se “melhor”, ou seja, tornar-se mais competitiva. E, no final, o sistema vai premiar as escolas mais competitivas através de avaliações como o Prêmio Nacional de Gestão escolar, Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica e outros.
No que tange à participação dos membros do Conselho Escolar nas questões pedagógicas da escola, ela só acontece se convocada e, ainda, para dar parecer final, não para participar do processo de elaboração e definição de projetos educativos. Veja o que diz um diretor: “Se o problema disciplinar não é muito grande, nós resolvemos com a orientação e o professor; se não resolve, aí chamamos os pais do aluno. O Conselho Escolar só é convocado para decidir expulsões de alunos”.
Observa-se que a existência do Conselho Escolar e da APM não tem garantido uma gestão democrática da escola. Ocorre que tem permanecido nas mãos do diretor todo o processo de organização do Conselho e da APM, assim como a responsabilidade de convocar e de propor a pauta para reunião. O nível de participação desse órgão, segundo a classificação de Bordenave (1994:30-33) se mantém num grau de consulta obrigatória chegando ao máximo ao grau de recomendação de propostas. Dessa forma, os órgãos colegiados da escola se traduzem em órgãos legitimadores de ações e não de propositores de um projeto, de um programa de desenvolvimento para a escola.
A participação dos trabalhadores da escola no tocante às questões pedagógicas ou disciplinares, não é muito diferente. “Reunimos a Orientação e a Supervisão e passamos as informações, a partir dali é que nós tomamos a decisão de conversarmos com os professores
da possibilidade e viabilidade do projeto”. As decisões são tomadas a partir de “informações”, que podem ser entendidas como determinações que chegam até a escola e, a partir daí, são programados as ações da escola.
O diretor reconhece a importância e a necessidade da participação da comunidade: “hoje você tem que trazer a participação de toda a Comunidade Escolar para a parte de dentro das áreas de competência da escola”. Ou ainda: “Uma escola não consegue viver sem a relação pais – família - escola, porque, na verdade, a gente lida com essas crianças, e essas crianças têm família (...)”. Mas, além da dificuldade de compreender, de fato, como se processaria essa participação da comunidade, o diretor esbarra no primeiro ato, que é o chamamento da comunidade. Assim o diretor denuncia:
A política hoje da atual Secretaria [SEED/PR] é a gestão compartilhada. Ela é um pouco complicada, é difícil, por exemplo, além de contar com a grande dificuldade de obter a participação [dos pais] nos programas, projetos e problemas da escola, o aluno também tem uma certa resistência em trazer o pai e a mãe. E você sabe que isso é complicado (...) Então nesse sentido eu ainda acho que eu estou deixando a desejar. Eu acho que não é função só minha (...).
A constatação da dificuldade de exercer mais essa função de articulador da comunidade se justifica, segundo o diretor, tanto pela falta de uma cultura de participação: “eu acho que não é função só minha...”, como pela prática incongruente da SEED e NRE: “então já está difícil você trazer a família para a escola, e eles [SEED/NRE] então colocam que a família não precisa vir para a escola para fazer a matrícula, e depois faz toda essa campanha em cima da mídia, dizendo que a família tem que vir para a escola, tem que participar (...)”. Veja que o diretor desconsidera a sua influência no chamamento da comunidade e na construção de uma cultura participativa.
Em muitos momentos, o diretor consegue perceber a intencionalidade que segue os programas como, por exemplo, o caso da gestão compartilhada:
eu vejo que o estado quer realmente que a escola seja responsabilidade da comunidade e da direção da escola. (...) Ele está querendo jogar a responsabilidade em cima de nós. Ele está construindo um caminho para que as comunidades consigam achar uma solução, para que ele possa falar: Eu montei uma boa escola. As coisas estão funcionando bem porque nós impusemos essas coisas. As decisões estão vindo de cima por isso, então, eles impõem as coisas para que você consiga achar um caminho para que ele se livre da responsabilidade e falar assim: Não fui eu! Eu dei a autonomia para eles fazerem as coisas, eles estão pegando direitinho, agora vou ficar sem essa responsabilidade.
Insistentemente é denunciada, pelos diretores, a existência de outros interesses que acompanham a preocupação do estado com a gestão: “eles (SEED/NRE) estão batendo muito em cima desta parte de Gestão Escolar, onde quer que o diretor passe a ser um gestor de um instituto de ensino, que ele ache todas as soluções (...)”.
Esses momentos de clareza e de entendimento de sua função e o seu papel em relação aos programas e propostas do Estado acabam ficando obscurecidos pela falta de forças, ou seja, pela falta de espaço, de conhecimento e de diálogo para construir e firmar novas formas de condução dessas ações denunciadas. Construir novas formas de conduzir a gestão da escola podendo, quem sabe, utilizar-se até dos mesmos programas que chegam até a escola, porém circunscrevendo-os numa dimensão política diferenciada. Redimensionando ou rompendo, quando necessário, para atender a um processo de democratização da educação.
3.3 CARACTERIZAÇÃO DA FUNÇÃO DO DIRETOR PELOS TRABALHADORES DA