Para que as cidades possam ser sustentáveis deve-se contar com uma conjuntura nacional, pois a viabilidade das ações e estratégias depende da integração de planos e projetos de ordem governamental, que proponham modelos aplicáveis com ferramentas que promovam a resolutividade dos entraves analisados, e assim constituam avanços no desenvolvimento urbano.
A declaração das cidades criada na ECO 92, traz em pauta a autonomia das cidades, comunidades e áreas metropolitanas, salientado a importância da mesmas na tomada de decisão, gerenciando seus recursos, implemendo estratégias de desenvolvimento em suas localidades. O documento Resultado da Consulta Nacional Brasileira (2002), aborda uma revisão da implantação da Agenda 21 brasileira, enfatizando o princípio da Agenda - entender a sociedade para então compreeender uma cidade -, uma vez que o conceito de sociedade introduz muitas complexidades para um processo de gestão sustentável. Conforme a Agenda 21 Nacional (2002, p. 88):
é necessário uma profunda reformulação no desenho das políticas públicas de intervenção no território e nas áreas urbanas, para conferir importância estratégica ao planejamento do desenvolvimento regional, que deve ser o eixo estruturador das políticas voltadas para a transformação das cidades brasileiras em cidades sustentáveis
Faz-se necessária a intensificação da ação dos gestores públicos, com investimentos em infraestrutura, planejamento eficiente, para sanar problemas como déficit no sistema de saneamento básico, moradias adequadas destino correto dos resíduos sólidos e entre outros. Conforme Silva (2013), a falta de saneamento básico não é um problema recente, prinicpalmente no países de desenvolvimento tardiamente, ou seja, não ocorreu um planejamento ajustado a crescente urbanização, em que a população fosse alocada em áreas planejadas e favoráveis a moradia, com infraestutura e serviços adequados.
Surgem agendas especificas no âmbito cidades sustentáveis que trazem estratégias que possam ser aplicadas e assim, oportunizar mais equidade socioambiental para a sociedade.
No contexto da Agenda 21, as cidades sustentáveis devem ser pensadas conjuntamente com órgão públicos, como as secretarias municipais apoiados por diagnósticos e planos
situacionais locais, afim de que estes possam auxiliar na construção de estratégias cabíveis e passiveis de resolutividade. É de competência de os órgãos públicos receberem e avaliarem os diagnósticos e de acordo com as prioridades, fazer os encaminhamentos cabíveis. É de sua competência desenvolver estratégias de gestão a fim de que as reivindicações sejam adequadamente atendidas e resolvidas.
O município é compreendido como um espaço territorial político dentro de um estado ou unidade federativa, sendo administrado por orgão público (prefeitura). O muncípio é a menor unidade territorial brasileira com governo próprio, sendo formada por um distrito sede, onde se localiza a cidade que recebe o mesmo nome do município (PINTO, 2003). Os municípios são regidos por uma lei orgânica, estabelecida na Constituição Brasileira de 1988, e consta no Artigo 30 do capitulo IV, estabelecendo regras e procedimentos para criação dos municípios, conforme a tabela 2.
Tabela 2 — Competências do Município I Legislar sobre assuntos de interesse local;
II Suplementar a legislação federal e a estadual no que couber;
III Instituir e arrecadar os tributos de sua competência, bem como aplicar suas rendas, sem prejuízo da obrigatoriedade de prestar contas e publicar balancetes nos prazos fixados em lei;
IV Criar, organizar e suprimir Distritos, observada a legislação estadual;
V Organizar e prestar, diretamente ou sob regime de concessão ou permissão, os serviços públicos de interesse local, incluído o de transporte coletivo, que tem caráter essencial;
VI Manter, com a cooperação técnica e financeira da União e do Estado, programas de educação infantil e de ensino fundamental;
VII Prestar, com a cooperação técnica e financeira da União e do Estado, serviços de atendimento à saúde da população;
VIII Promover, no que couber, adequado ordenamento territorial, mediante planejamento e controle do uso, do parcelamento e da ocupação do solo urbano;
IX Promover a proteção do patrimônio histórico-cultural local, observada a legislação e a ação fiscalizadora federal e estadual.
Fonte: Constituição Federativa do Brasil (1988, p. 33)
É uma obrigação legal de todos os municípios brasileiros com mais de 20 mil habitantes dotar-se de um Plano Diretor, conforme a lei federal de n.º 10.257 de 2001, mais comumente chamada de Estatuto da Cidade, criada para regulamentar os artigos 182 e 183 da Constituição Federal que tratam da política de desenvolvimento urbano e da função social da propriedade.
O Estatuto da Cidade é uma tentativa de democratizar a gestão das cidades brasileiras através de instrumentos de gestão, dentre os quais podemos destacar o Plano Diretor. A aplicação destes instrumentos de gestão trazidos pelo Estatuto da Cidade tem como objetivo a efetivação dos princípios constitucionais de participação popular ou gestão democrática da
cidade e da garantia da função social da propriedade que se constitui na proposição de uma nova interpretação para o princípio individualista do Código Civil, entre outros princípios.
O Plano Diretor define a destinação das diversas áreas do território municipal, tendo em consideração seu entorno e especificidades, já o Plano Plurianual Municipal contém as ações prioritárias do governo municipal para o prazo de quatro anos, enquanto a Agenda 21 define um Plano Local de Desenvolvimento Sustentável, com ações de curto, médio e longo prazos para um determinado território, seja ele o município, um conjunto de municípios ou uma bacia hidrográfica, dentre outros.
A lei orgânica é importância para reger os municípios, uma vez que cada município brasileiro pode determinar a suas próprias leis, contando que não violem a Constituição Federal e as leis estaduais, dado que existe uma hierarquia de comando. O Plano Diretor é outra ferramenta que auxilia no planejamento da área urbana e rural do município. Segundo Villaça (1999), o Plano Diretor parte de um diagnóstico da realidade local (econômica, social, ambiental, política e administrativa), da cidade, município ou região, que tem como objetivo apresentar um conjunto de propostas que possam auxiliar o desenvolvimento do território como parcelamento do solo urbano e rural, infraentrutura, saneamento básico. A partir do diagnóstico é possível criar proposições a curto, médio e longo prazo na resolutividade dos entraves observados, mediante a aprovação municipal.
Portanto, pode-se dizer que o Plano Diretor é um instrumento básico da política do expansionismo urbano, objetivando e induzindo um desenvolvimento mais sustentável, sendo um instrumento de indubitável importância. Para tanto, se considera 3 fatores a) a legalidade; b)a abrangência; c) a obrigatoriedade (ESTATUTO DA CIDADE, 2008, p. 29). O estatuto da cidade mantém a competência das três esferas de poder (federal, estadual e municipal), cabendo, portanto, o município legislar as questões urbanas e rurais.
Segundo Ribeiro (2005, p.63), “as cidades são classificadas em pequena, médias, grandes ou metrópoles, de acordo com a quantidade de pessoas que nela vivem”. No que compete as cidades médias, não pode ser levado em consideração apenas o processo demográfico pois este não dá conta da realidade como um todo, ou seja, não considera as especificidades de cada cidade. Recomenda-se fazer uma avaliação coerente para definir cidades médias, analisando suas funções e dinâmicas de infraestrutura, relações interurbanas e os indicadores de qualidade de vida. Com o intuito de estabelecer/definir o porte das cidades, no decorrer das décadas surgiram estudos que classificam o tamanho de acordo com suas características e estruturas. Os autores Andrade e Lodder nos anos 70 (1979, p.35) e Agenda 21 (2002) definem as cidades médias como “centros e aglomerados que possuam população urbana
entre 50 mil e 250 mil habitantes”. Já o IBGE, a ONU, Andrade e Serra (2000, p. 6) definem cidades médias aquelas acima de 100 mil habitantes.
Devido a este embate surge na Agência do Senado, em 2009, um projeto (Projeto de Lei do Senado- PLS - 316/09) segund o qual, compete ao Estatuto da Cidade classificar e categorizar o porte das cidades, utilizando-se do tamanho da população, densidade demográfica e da composição do Produto Interno Bruto (PIB) do muncípio. Esta nova reclassificação dos municípios caberia o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que partiria de novos critérios de análise e não avaliaria apenas a demografia.
Portanto, as cidades de médio porte se configurariam como aquelas com população entre 50 mil habitantes e 100 mil habitantes, ou ainda, quando com densidade demográfica superior a 80 habitantes por quilometro quadrado. Este projeto entrou em votação e está arquivado desde 2015, aguardando uma nova votação do Senado Federal. Considerando a variação na definição de cidades médias, deve-se levar em conta seus processos históricos de formação e expansão. Segundo Amorim Filho (1982, p. 83) “surge a inevitabilidade de se estabelecer os limiares máximos e mínimos entre as cidades para se chegar ao estabelecimento dos níveis hierárquicos.” Ainda segundo Amorin Filho e Rigotti (2003, p. 24) “devem concentrar-se muito mais no limite inferior dos centros emergentes ou cidades locais, pois é este que marca a passagem das pequenas para as médias cidades”. Portanto, considerando que cada cidade tem suas especificidades e singularidades, elas devem ser pensadas, planejadas e monitoradas na relação com sua territorialização e regionalização.
Frente ao crescimento econômico e à expansão das cidades médias, as discussões acerca de problemas relacionados a saneamento básico e habitação e uso ineficiente de recursos ganham proeminência , uma vez que, “as cidades cresceram e tornaram-se estruturas complexas de administrar, que quase não nos lembramos que elas existiam em primeiro lugar, e acima de tudo, para satisfazer as necessidades humanas e sociais das comunidades” (ROGERS, 2008, p. 8).
[...] As cidades brasileiras cresceram desordenadamente; possuem carência de recursos e serviços públicos; as redes de infraestrutura se encontram obsoletas, bem como os espaços urbanos; existem sérias agressões ao meio ambiente e aponta para a necessidade de mudança no processo decisório com integração de variáveis sociais, ambientais, de desenvolvimento econômico e de qualidade do ambiente urbano, bem como o fortalecimento das estruturas institucionais e a melhoria de mecanismos que facilitem a participação popular no processo decisório (ROSSETO, 2003, p. 50).
Em relação às cidades de médio porte observou-se a dificuldade de se chegar um consenso sobre sua categorização, uma vez que ocorrem divergências por parte dos autores
quanto a indicadores que categorizam seu porte. Segundo Melo (2008), tal fato decorre da falta de estudos sobre a dinamicidades do processso urbano no Brasil.