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3 A EDUCAÇÃO EM TEMPO INTEGRAL: DO SÉCULO XIX AOS DIAS

5.2 A GESTÃO DO PROGRAMA “EDUCAÇÃO INTEGRAL” E AS INSTITUIÇÕES

Segundo o documento do programa, a ETI no município funciona na perspectiva das políticas públicas articuladas por meio das Secretarias de Políticas Sociais em parceria com outras instituições públicas, privadas, e organizações da sociedade civil (VITÓRIA, 2010).

Na concepção do Programa Educação em Tempo Integral, a educação para além da escola contempla e integra as atividades realizadas por outros espaços educativos, tais como: praças, planetário, parques públicos, escolas da ciência, bibliotecas, unidades de saúde, centros esportivos, ONGs, projetos sociais, Núcleos do Projeto Caminhando Juntos (CAJUNs), Núcleos Brincartes, eventos culturais, entre outros. Nesse sentido, potencializa os saberes e experiências das crianças, adolescentes e jovens, ampliando e aprimorando o conhecimento dos alunos atendidos, fomentando novas experiências e saberes para além do que é aprendido e oportunizado no campo restrito da instituição escolar (VITÓRIA, 2010, p. 23).

Para manter essa estrutura de articulação com outros setores, há uma organização do programa que faz com que as escolas realizem atividades em outros espaços da cidade, por meio de parcerias com diversos setores da sociedade civil. Em cada uma das 39 escolas inseridas no programa, há três profissionais que atuam em cada turno: o coordenador de ETI, o integrador social62 e o estagiário63. Sendo um integrador social e um estagiário em cada turno e um coordenador de ETI efetivo da rede municipal que permanece o dia todo, por 40 horas semanais. As escolas que têm o programa “Mais Educação64’ junto com o da PMV atendem em média a 100 alunos por dia, são cinquenta alunos em cada turno, enquanto as

62 De 2008 a 2010, o integrador social era contratado por meio de convênio com uma ONG e a partir de 2011 a

própria PMV, por meio de processo seletivo, é quem os contrata. O nome era educador social e passou a ser Integrador Social, quando a PMV passou a contratar, mas na prática a função é a mesma. Essas pessoas possuem como escolaridade mínima o ensino médio. Exige-se algum tipo de prática com a educação popular, não formal. Os integradores têm um salário de R$ 1065,00 e a carga horária de trabalho é de trinta horas semanais no mesmo turno escolar, ou seja, são seis horas diárias de trabalho. Esses profissionais são contratados por meio de processos seletivos e têm contrato de um ano com a PMV, podendo ser prorrogado por igual período.

63 Os estagiários são estudantes das licenciaturas que são contratados pela PMV para atuarem no programa.

Recebem um salário de R$ 565,00 e têm contrato de um ano com a PMV, também podendo ser prorrogado.

64 Desde 2008 o “Mais Educação” tem convidado escolas do município que apresentavam um baixo índice no

escolas que não têm o “Mais Educação” (somente o “Educação Integral”) atendem em média quarenta alunos por turno, ou seja, oitenta alunos no total.

Nesse caso, a tentativa em reduzir custos com a ETI assemelha-se à proposta do programa “Mais Educação”, pois não há uma previsão de professores graduados e efetivos para atuarem no programa da PMV, os profissionais que atuam possuem nível médio ou são estudantes de licenciatura, ou seja, trata-se de profissionais contratados por tempo determinado que podem não estar preparados para lidar com as dificuldades que os professores licenciados enfrentam no cotidiano escolar, tais como indisciplina dos alunos; dificuldades de aprendizagem; violência escolar; a infraestrutura das escolas, entre outras. E ainda que esses profissionais possam lidar bem com essas dificuldades, o fato de ser um trabalho por tempo determinado provoca a descontinuidade dos trabalhos realizados. É consensual no meio acadêmico que a formação e valorização dos professores interferem diretamente na qualidade de ensino.

No que tange ao uso de espaços extraescolares, cada escola inserida no programa tem direito ao transporte escolar durante o dia todo, no mínimo de um até três dias na semana, dependendo das necessidades de cada uma. A PMV possui um total de vinte ônibus e dois micro-ônibus somente para o programa “Educação Integral”. Nesse transporte escolar tem um acompanhante do motorista para auxiliar os alunos.

As parcerias entre a PMV e as instituições públicas e privadas são realizadas por meio de convênios65. Nesse caso, toda a equipe profissional é contratada pela PMV, a escola recebe as parcerias e tem o dever de planejar as atividades que serão realizadas durante a semana e de enviar à Secretaria de Educação o seu planejamento mensal.

[...] No caso do programa municipal, toda a equipe profissional é contratada pela PMV. A escola recebe as parcerias, nós que contratamos. Para frequentar os espaços, fazemos um sistema de rotatividade, por exemplo, a escola que frequentou um determinado espaço público, no ano que vem a prioridade é de uma que não frequentou. No final do ano se reúne todo mundo (equipe da ETI da SEME e das escolas) e discutimos essa questão (COORDENADOR GERAL).

65 Convênios são acordos celebrados entre os órgãos públicos e outras instituições, públicas ou privadas, para a

Quanto às instituições parceiras do programa, as tabelas 11 e 12 identificam as atividades realizadas pelas escolas inseridas no programa “Educação Integral” em cada uma dessas instituições públicas e privadas, respectivamente.

Tabela 11 – Identificação das Instituições públicas parceiras da PMV

Instituição/ Espaço Identificação

Secretarias de: Assistência Social;

Saúde; Meio Ambiente;

Cidadania e Direitos Humanos; Esporte; Cultura; Transporte

Essas Secretarias se articulam com a SEME para o oferecimento de espaços físicos a serem utilizados na ETI, algumas oferecem atividades culturais e esportivas, cessão de monitores que atuam nesses espaços auxiliando as crianças. Além disso, existe a articulação com os CRAS e os Conselhos Tutelares (Secretaria de Assistência Social) para o atendimento aos alunos inseridos no programa, entre outras.

Planetário de Vitória Mantido por meio de uma parceria entre a Secretaria de Educação e a UFES, é um ambiente em que as pessoas podem conhecer os planetas, as constelações, os movimentos de translação e rotação e as lendas que envolvem o universo.

Polo Americano Batista Esse espaço foi comprado pela PMV de um antigo colégio privado. As escolas desenvolvem atividades esportivas e culturais.

Polo Pé-de-Moleque Até 2010 era denominado Polo de Lutas. É um local da PMV, que tem articulação com a Caixa Econômica Federal para o desenvolvimento de atividades de ginástica para as crianças do município.

Escola da Ciência, História e Biologia

É um museu que une natureza e cultura para divulgar a identidade capixaba, por meio de uma abordagem interdisciplinar entre ciência, biologia e história.

Praça da Ciência, É uma praça que conta com vários equipamentos relacionados à conhecimentos científicos, sobretudo da ciência e da física.

Polo Tancredão É um complexo esportivo para a prática de diversos esportes e lazer, vinculado à Secretaria de Esportes da PMV.

Escola da Ciência – Física Administrada pela Secretaria Municipal de Educação, a Escola da Ciência - Física ocupa um prédio histórico, tombado pelo Conselho Estadual de Cultura, no Parque Moscoso. A sua proposta é popularizar a física, abordando conceitos ligados à eletricidade, à óptica e à mecânica.

Corpo de Bombeiros É uma parceria entre a PMV e o governo estadual. No projeto “Bombeiros do Futuro” um grupo de até 150 crianças da ETI frequentam o quartel dos bombeiros e ali realizam diversas oficinas, com a equipe dos Bombeiros, relacionadas a primeiros socorros, combate a incêndios, noção de cidadania, disciplina, entre outros. Parques Pedra da Cebola e

Moscoso; Praça dos Namorados; Horto de Maruípe; Praças situadas próximo às escolas.

Esses espaços são utilizados, em geral, para o desenvolvimento de atividades esportivas da ETI, sobretudo por escolas que se situam mais próximas a esses locais.

Fonte: Elaborada pela autora a partir de informações do coordenador geral do programa, dos coordenadores de ETI nas escolas e do sítio da PMV.

Tabela 12 – Identificação das Instituições privadas parceiras da PMV

Instituição Identificação e função na ETI do município

Clube Álvares Cabral O Clube foi fundado em 06 de julho de 1902, com foro e sede na cidade de Vitória, capital do Estado do Espírito Santo, é uma associação civil sem fins lucrativos. Sua finalidade é desenvolver práticas desportivas formais e informais no estado. A sua parceria com a PMV é exclusiva para a cessão de seus espaços para a prática de atividades esportivas pelos alunos da ETI do município.

Clube Ítalo Brasileiro O Clube, fundado em 13 de maio de 1968, é uma associação civil, sem fins lucrativos, constituída por meio de Títulos Nominativos. A sua parceria com a PMV é exclusiva para a cessão de seus espaços para a prática de atividades esportivas pelos alunos da ETI do município.

Parque Botânico da Vale; Museu da Vale

São espaços que pertencem à Companhia Vale do Rio Doce e que são cedidos às escolas da PMV para visitação dos alunos. Serviço de Engajamento

Comunitário (SECRI)

Entidade civil, filantrópica de direito privado, sem fins econômicos. Realiza trabalhos sociais junto às famílias economicamente desfavorecidas das comunidades dos Bairros de São Benedito, Bairro da Penha, Itararé, Bonfim, Consolação, Floresta e Engenharia. As ações desenvolvidas têm o objetivo de contribuir para a promoção social das famílias, com especial atenção às crianças, adolescentes e jovens. A sua parceria com a PMV é para a cessão de espaços. Escola superior de Ciências da

Santa Casa de Misericórdia de Vitória (EMESCAN)

Essa faculdade privada realiza a formação, principalmente para os Oficineiros do “Mais Educação” e da “Escola Aberta”, na área de Direitos Humanos, de gênero, de violência contra mulher.

Núcleo Espírita “Irmão Maurício” É uma instituição espírita vinculada à Federação Espírita do Estado do Espírito Santo e à “Cruzada dos Militares Espíritas”. O convenio com a PMV é somente para a utilização de espaço físico.

Fonte: Elaborada pela autora a partir dos sítios dessas instituições e de informações do coordenador geral do programa.

Essas são as principais instituições e espaços citados que têm convênio com a PMV ou que são espaços próprios da Prefeitura. Isso não impede que as escolas estabeleçam outras parcerias por conta própria, com instituições do seu entorno, como por exemplo, verificamos uma escola que tem parceria com uma faculdade privada do seu entorno para a utilização do seu espaço físico na prática de atividades esportivas, conforme afirma o coordenador geral.

Em relação ao convênio com instituições religiosas afirma-se que a PMV não possui parcerias com essas instituições no ensino fundamental e que essa parceria ocorre na educação infantil. A instituição religiosa “Núcleo Espírita Irmão Maurício” tem parceria com a PMV somente para a utilização do seu espaço por uma escola próxima a ela, ressalta o coordenador geral, que ainda afirma que as instituições religiosas não se envolvem no âmbito pedagógico:

No ensino fundamental não se envolvem. Na educação infantil elas se envolvem mais, já conosco (no ensino fundamental) não, é mais para a questão do espaço físico, não tem interferência no pedagógico não. Convênio com instituição religiosa a gente só tem com o “Núcleo Espírita Irmão Maurício”, mas é somente para a utilização de espaço físico. E nesse caso é só para uma escola, que é lá no morro, muito pequena e não tem espaço físico nenhum (COORDENADOR GERAL).

As parcerias com instituições religiosas no âmbito da educação infantil foram analisadas por uma pesquisa do PPGE/UFES em que a autora salienta que:

A famigerada parceria entre a prefeitura e a ONG ADRA denunciava regularmente as inúmeras lacunas desse Programa, evidenciadas no decorrer da pesquisa no Brincarte de Resistência. No entendimento dos funcionários, não havia consenso em quase nada, quando ocorria da Secretaria de educação dar algum tipo de coordenada o posicionamento da ONG em muitas situações era outro. Desta forma, instalavam-se os conflitos considerando que múltiplas questões estavam aí imbricadas. [...] É evidente a dificuldade para alcançar tal propósito sem parâmetros de qualidade para a oferta da educação integral no Brincarte. Ao nos depararmos com a realidade que as crianças vivenciam nos CMEIS era visível a situação de desigualdade em inúmeros aspectos, desde a infraestrutura, recursos materiais didáticos e profissionais, tais como a formação e planos de cargos e salários diferenciados (SANTOS, 2012, p. 125).

Santos (2012) ressalta que a própria PMV constatou diversas irregularidades na gestão dos “Brincartes” por essa instituição religiosa pesquisada (ADRA), tanto que Núcleo de Resistência (local em que ocorria a ETI e que foi pesquisado por essa autora) passou a ser gerido pela PMV, que não renovou o convênio com aquela instituição religiosa. Segundo a autora “ao assumir a gestão do Brincarte de Resistência, a Secretaria de Educação o faz pelas condições precárias da oferta desse atendimento, pelos limites, dificuldades e deficiências que a consolidação desse modelo acenava em relação à falta de qualidade dessa educação” (SANTOS, 2012, p. 146). Isso evidencia que as políticas públicas devem ser realizadas com recursos financeiros, materiais e humanos suficientes, sem a tentativa de reduzir custos, pois a maior parte dessas parcerias com instituições privadas, seja no âmbito religioso ou não, tem o

objetivo de diminuir e/ou economizar o que o poder público chama de “gasto” com a educação, mas que nós preferimos chamar de “investimento”.

Realizar tal estratégia na educação é, em geral, inviabilizar a possibilidade de se efetivar uma educação que de fato seja integral e que forme cidadãos críticos e conscientes dos seus direitos e deveres, que é a função precípua da educação.