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Nos últimos tempos, o movimento em favor da gestão democrática da educação e, da escola, particularmente, traduziu-se na consagração de tal princípio na legislação, na implementação de políticas públicas e também em ações concretas por todo o país.

Essas conquistas, no plano legal, foram empreendidas no panorama de lutas de diversos setores da sociedade, especialmente os educadores, em prol da ampliação dos espaços democráticos de participação. Nesse sentido, muitos foram os avanços, sendo o maior deles a Consagração do princípio da gestão democrática da educação na CF/88, com reflexos na LDBEN nº 9.394/96 e nos Planos Nacionais da Educação.

Antes de refletirmos sobre a concepção das pessoas sobre a gestão escolar democrática, cabe a reflexão: Para que a gestão escolar democrática na escola pública? Na tentativa de chegar a um bom termo na resposta, primeiramente enfatizamos que a democracia, segundo Bobbio (2000) é uma forma de contrapor ao governo autocrático se, especialmente a considerarmos como um conjunto de regras que estabelecem quem está autorizado a tomar as decisões e com quais procedimentos. Isso porque, para que as decisões tomadas por um grupo sejam aceitas, é preciso que sejam escolhidas com base em regras e, a regra fundamental da democracia é a da maioria daqueles a quem compete tomar a decisão.

Meirieu (2005, p. 27) colabora na reflexão afirmando que “[...] escolher a democracia é não se dar o direito de escolher qualquer escola, mas escolher a Escola cujos princípios levam justamente ao advento e à renovação da democracia”. Nesse sentido, no plano político, significa que a instituição escolar representa a própria existência da polis, a construção do espaço onde os indivíduos e os grupos possam reconhecer-se como parceiros de uma aventura comum.

Buscaremos uma articulação entre essas premissas e o que os diretores de escola, docentes e órgãos colegiados concebem sobre a gestão escolar democrática, tentando verificar até que ponto a escola tem promovido espaços de discussão com base nesse modelo.

Inicialmente pudemos verificar que a grande maioria dos envolvidos na pesquisa concebe a gestão escolar democrática como aquela que possibilita a participação de todos nas decisões de ordem administrativa e pedagógica. Significa que a gestão democrática se impõe atualmente como ideário aceito por todos como a forma normal de se organizar a escola, com a devida participação de toda a comunidade escolar. Mas a ideia por mais

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194 tranquilizadora que seja para toda a comunidade escolar, é de tal modo inconsistente na prática e deveria, portanto, deixar inquietos aqueles que acreditam nessa possibilidade.

Bobbio (2000) nos ajuda a entender que na sociedade complexa como a atual, a forma de democracia direta é praticamente impossível, pois deve responder às exigências de reunir todos nas decisões e, ao mesmo tempo, responder as demandas da maioria. Nessas condições, adverte o autor que o correto é buscar a direção adequada entre a democracia direta e a democracia representativa.

Constatamos que entre os entrevistados não houve quem admitisse a gestão compartilhada alimentada pela hierarquização, mesmo porque é condição necessária da democracia que ela seja pluralista, que permita uma maior distribuição do poder, ao contrário do poder autoritário, cuja principal intenção é a manutenção do poder nas mãos de poucos.

Foram pouquíssimos os que admitiram uma gestão compartilhada com a participação de representantes da comunidade. A nosso ver a participação da comunidade nas instituições públicas representaria um ganho, na medida em que as relações entre comunidade e escola levariam em consideração as especificidades e singularidades do contexto histórico e social de cada uma delas, podendo assim contribuir para as necessidades dessas. Essa participação

“[...] constitui um mecanismo que tem como finalidade não apenas a garantia da democratização do acesso e da permanência com vistas à universalização da educação, mas também a propagação de estratégias democratizantes e participativas que valorizem e reconheçam a importância da diversidade política, social e cultural na vida local, regional ou nacional. (LUIZ; RISCAL e RIBEIRO, 2013, p.23) É, portanto, a participação da comunidade um elemento fundamental para que se possa pensar, estruturar e pesar os objetivos da escola.

A gestão democrática representativa, por meio do Conselho escolar e APM foi opção de uma pequena parcela de profissionais da escola. É de se verificar que a democracia e, em particular, a gestão democrática da educação tornam-se um cobiçado produto que reina no pensamento das pessoas como algo perfeito, onde todos participam - que no caso seria a democracia direta, de acordo com Bobbio (2000). Como um processo representativo, ainda não se instaura como um possível modelo de organizar a escola democraticamente.

Notamos que a gestão democrática considerada como um discurso foi opção de uma reduzidíssima parcela de professores e não foi considerada por professores coordenadores e diretores de escola. Isso significa que os que estão na liderança tendem a assumir a defesa da democracia enquanto possibilidade, como forma de sensibilizar os demais

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195 componentes da escola a essa prática. A esse respeito apontamos a opinião de Luiz, Riscal e Ribeiro (2013, p. 24), “[...] o sucesso da democracia como produto social acabou por contaminar todas as esferas sociais e, hoje, dificilmente se aceita que um diretor de escola ou autoridade educacional afirme que não adota a democracia como prática em sua escola”.

Por sua vez, verificamos que 73% dos docentes, 70.6% dos professores coordenadores e 84.6% dos diretores consideraram que a escola não deve aderir a princípios administrativos da empresa capitalista, devido às instituições escolares possuir características próprias, diferentes das existentes nas empresas. Essa metodologia que se sustenta pela hierarquia, verticalização e por critérios de competitividade, eficiência, padronização, racionalização e produtividade, de fato, são incompatíveis com as práticas que se pretendam democráticas.

Ademais, uma proporção pequena dos entrevistados afirma que essa metodologia já se faz presente, porque se perseguem metas, há a competitividade, o planejamento e os prazos. Os que são favoráveis se utilizam da argumentação de que é o meio para que as metas educacionais sejam atingidas, e com isso a escola passe a ser valorizada pela comunidade, já que ultimamente escola respeitada é aquela que tem bons índices nas avaliações externas.

Há ainda aqueles que concordam com a metodologia, a exemplo do que aponta um diretor de escola:

[...] Concordo plenamente! Quando se fala em gestão, nós temos que procurar o que há de mais moderno [...] A escola está defasada no conhecimento, ela precisa caminhar mais rápido para se atingir os objetivos. A empresa privada, ela oferece cursos, constantemente, já há muito tempo, não é? O que ocorre entre a empresa privada e a escola é que, a produção na escola é mais demorada, mas nem por isso tem que ser deixada de lado [...] A palavra chave do administrador atualmente é a inovação. Essa inovação não tem que ser total, mas ela tem que ser procurada [...] (D 3, entrevista,2014).

O excerto acima, apontando o conteúdo da gestão escolar assimilado ao modelo de organização capitalista revela que ainda se faz presente o resultado de situação historicamente determinada pelo modo de produção, que tornou o sistema escolar cada vez mais burocratizado, sendo esse um obstáculo à democratização da gestão e a razão da incapacidade de realizar uma educação comprometida com o efetivo bem viver dos educandos e com sua contribuição para uma sociedade mais humana.

Constatamos que 82.35% dos professores coordenadores e 69.2% dos diretores de escola afirmam que a gestão escolar democrática efetivamente ocorre na escola. Aqui chegamos a uma polêmica sobre esse posicionamento e os depoimentos que se apresentaram

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196 ao longo da pesquisa. Tais depoimentos defendem que são poucos os pais representantes que comparecem na escola e que são vários os obstáculos para que se constituam relações democráticas no espaço escolar, como a falta de conscientização e de comprometimento.

O discurso recorrente foi o de que a instauração de um sólido processo democrático demanda tempo de amadurecimento. É nesse sentido a colocação de uma diretora de escola “[...] é um processo que começa na equipe gestora, você tem que conscientizar a todos do que é uma democracia dentro de uma escola e as responsabilidades que a gente tem. E a partir disso, a gente vai ver com os professores e com os alunos. E sempre cobrando o retorno [...] (D 12).

Podemos questionar, nesse caso, de que indicadores os profissionais se utilizaram para afirmar que a gestão democrática ocorre efetivamente no espaço escolar?

Será que se pensou na maneira como são organizadas as reuniões de pais, sua frequência e seus objetos de trabalho? Ou ainda, a escola está transmitindo eficazmente os saberes necessários para que os alunos consigam “ler o mundo” e agir lucidamente tendo consciência dos desafios? A escola contribui eficazmente para que todos os alunos entendam a diferença entre âmbito privado e o espaço público? Os alunos aprendem a suspender a violência para que possam participar como cidadãos das discussões realizadas na escola? E a missão de emancipação, do desenvolvimento do espírito crítico, permite aos alunos pensarem por si mesmos e livrarem-se de toda forma de domínio? A escola tem formado cidadãos solidários uns com os outros?

Acreditamos que nenhuma dessas questões foi considerada pelos profissionais ao emitirem suas opiniões acerca da efetividade da gestão democrática na escola pública.

Nesse sentido, finalizamos as discussões concluindo que entre a previsibilidade e a efetividade da gestão democrática há um longo caminho a ser percorrido. Entendemos que efetivamente ela não ocorre nas nossas escolas, se levarmos em conta a definição mínima da democracia, apresentada por Bobbio (2000) como aquela entendida como um conjunto de regras e procedimentos para a formação de decisões coletivas, em que está prevista e facilitada à participação mais ampla possível dos interessados.

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