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Levantamento da situação atual

5.4 – A GESTÃO INTEGRADA / COPARTILHADA DO PEGM

5.4.1 – Fundamentos da Integração Homem/Natureza nas Áreas Naturais Protegidas de Rondônia

Os estudos dos ecologistas e ambientalistas-preservacionistas do final do século XIX até 1960 realizados, sobretudo, por cientistas naturais e com predomínio do enfoque biologizante marcado pela modelagem dos ecossistemas, propunham que os parques e as áreas protegidas não deveriam existir a interferência humana e buscavam encontrar no mundo selvagem – a wilderness – a “salvação da humanidade”.

DIEGUES (2000) destaca um outro aliado da visão preservacionista: “a ocupação da Biologia da Conservação que associa a ciência à gestão e manejo das áreas naturais” (32).

Contudo, a implantação de áreas protegidas da Ásia, África e América Latina, mormente na década de 70, conforme relata Diegues (op. cit.), encontra fortes resistências das comunidades tradicionais e locais à expulsão dos mesmos das áreas protegidas. Os estudos realizados a partir da década de 80 começaram a analisar os impactos sociais, ecológicos e culturais sobre as regiões de floresta tropical e as causas do insucesso da gestão dessas áreas.

Contrapondo-se ao enfoque da ecologia política através de suas vertentes – economia neoliberal e ecologia de mercado -, a ecologia do desenvolvimento que surgiu na primeira década de 70, visando atender as necessidades de superação da miséria e da contaminação ambiental com a denominação de ecodesenvolvimento foi definido por SACHS (1975) como:

“(...) um processo criativo de transformação do meio, com ajuda de técnicas ecologicamente prudentes, concebidas em função das potencialidades deste meio, impedindo o desperdício inconsiderado dos recursos e cuidando para que estes sejam empregados na satisfação das necessidades reais de todos os membros da sociedade, dada a diversidade dos meios naturais e contextos culturais. Promover o ecodesenvolvimento é, no essencial ajudar as populações

envolvidas a se organizar, a se educar, para que elas repensem seus problemas, identifiquem suas necessidades e os recursos potenciais para receber e realizar um futuro digno de ser vivido, conforme os postulados de justiça social e prudência ecológica”. (33)

Vinculada à ecologia do desenvolvimento patrocinada pela ONU destacam- se as propostas do etnodesenvolvimento que segundo VIEIRA & BREDARIOL (1998) “tem um caráter ligado à preservação e sistematização do conhecimento sobre culturas e modos de vida” das populações tradicionais e em especial das comunidades indígenas. (34)

DIEGUES (2000) destaca que “os modelos de ciência para a conservação têm sido marcados pelo reducionismo metodológico tanto entre as ciências materiais quanto entre as sociais” (paradigma cartesiano ou positivista/racionalista). No enfoque positivista os cientistas consideram que estão separados da realidade e por isso são objetivos. O reducionismo positivista fragmenta a realidade em partes para reordena-los, posteriormente, como generalizações ou leis.

Segundo BENTON (1994) citado por DIEGUES, o reducionismo biológico parte do princípio de que os aspectos da vida humana podem ser explicados por fatores biológicos. Na visão reducionista biológica a sociedade humana é vista como parte da natureza mais ampla, ao passo que no enfoque sociológico a natureza se transforma em representações simbólicas. (35)

Em meados da década de 80 teve início um novo movimento ambientalista no Brasil que surgiu no bojo do processo de redemocratização: o denominado

ecologismo social que, como relata DIEGUES (op. cit.),

“...luta por manter o acesso aos recursos naturais de seus territórios, valoriza o extrativismo e os sistemas de produção baseados em tecnologias alternativas”. (36)

O ecologismo social defende a idéia de que a conservação deve contar com a participação das comunidades tradicionais nos processos de planejamento e de gestão ambiental. Uma vertente desta concepção é o enfoque ecossocialismo/marxismo que segundo VIEIRA (1998) caracteriza-se por apresentar “... diferentes linhas de desenvolvimento teórico compreendendo a crítica do entendimento da natureza como mercadoria, a proposta do ‘conceito de forças

produtivas da natureza’, a análise da oposição entre o culturalismo e o naturalismo e a ‘afirmação de uma nova relação entre o homem e a natureza’ baseada em três idéias principais, a saber:

“a) – o homem produz o meio que o cerca e é, ao mesmo tempo, seu produto;

b) – a natureza é sempre histórica e a história é sempre natural;

c) – a coletividade e não o indivíduo se relaciona com a natureza”. (37)

No que se refere ao manejo alguns autores como MEFFE e CARROL (1994) e ainda, CASES (1995) concebem as áreas protegidas como partes integrantes do ecossistema mais amplo, sendo influenciado por diversos fatores (econômicos, sociais e culturais) externos aos seus limites. Nesta perspectiva a gestão da UC’s passa a depender dos seguintes fatores: a) tratar os componentes do sistema no qual as UC’s estão inseridas em suas interligações; b) as comunidades vizinhas devem ser consideradas como partes integrantes dos sistema; c) obter o apoio e participação da sociedade em geral e das populações vizinhas; e d) integrar o plano e demais planos de desenvolvimento ao planejamento regional.

A análise desta integração, em nível estadual, permite constatar a existência de numerosas tensões, conflitos e contradições existentes na área de influência do PEGM e da qual participam diretamente os municípios de Nova Mamoré, Buritis, Campo Novo e Guajará Mirim. Tais fatos na atualidade, refletem os diferentes aspectos do processo mais amplo e multidimensional das transformações que ocorreram e continuam a acontecer no Estado e na região Amazônica, mormente no

continuum existente entre o eixo desenvolvimentista e o eixo conservacionista do

Estado.

Partindo do eixo da BR-364 onde foram implantados pelo INCRA, a partir da década de 70, os PIC’s e PAD’s nos municípios de Ouro Preto do Oeste, Jarú e Ariquemes (e aqui neste último, onde continuam a ocorrer, desde a década de 60, atividades de mineração e garimpo) a expansão acelerada espontânea e dirigida vem atingindo na segunda metade da década de 90, no sentido leste-oeste áreas ocupadas por populações tradicionais (indígenas, seringueiros, castanheiros,

ribeirinhos, etc) sob a égide das políticas públicas federais e financiadas pelo Banco Mundial, conforme a análise realizada nos capítulos anteriores.

Dest’arte, duas contradições básicas podem ser delineadas neste contexto: a primeira, as atividades preexistentes desenvolvidas pelas populações tradicionais antes da criação dos projetos de assentamento e implementação dos grandes programas especiais, que eram consideradas como “entraves” ao desenvolvimento da região; a segunda, a institucionalização das áreas protegidas (identificação, demarcação e proteção das terras indígenas) e das áreas de conservação (as Unidades de Conservação) encontrou a resistência das populações autóctones (nativas), notadamente, das populações que já ocupavam as áreas das unidades de conservação de uso direto.

Os estudos realizados para diagnosticar e caracterizar o PEGM constataram que ao longo da década de 90, numerosas invasões, desmatamentos, retirada de toras de madeira, abertura de trilhas e estradas clandestinas etc, ocorreram nas reservas extrativistas, da área do PEGM e áreas protegidas (terras indígenas) localizadas na vizinhança do parque.

No que pese ter a interferência humana atingido, apenas, 1% de área total do PEGM, as pressões que se verificam nos municípios de Campo Novo e Buritis através das atividades econômicas de pecuária, madeireira, agrícola e de mineração (garimpo) são preocupantes, tendo em vista, as constantes invasões e desmatamentos promovidos pelos empresários da área madeireira e pelos colonos recém-chegados e especuladores de terras. Some-se a esse fator, a criação e implantação de novos projetos de assentamento realizados recentemente pelo INCRA, na área.

5.4.2 – PROPOSTA DE GESTÃO AMBIENTAL DE UNIDADE DE CONSERVAÇÃO –