2 DO ANALÓGICO AO DIGITAL: AS REGULAÇÕES DO ESTADO E
2.3 A TV digital
2.3.5 A ginga brasileira no conversor
O CPqD já atuava nas pesquisas da TV Digital desde 1999. O decreto que criou o SBTVD, em 2003, determinava que o Grupo Gestor poderia dispor do apoio técnico e administrativo, entre outros, da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e do CPqD (ANATEL, 2003). A ANATEL, portanto, administrou os novos trabalhos para a escolha do sistema a ser implantado no Brasil, com a ajuda do CPqD, que coordenava o grupo formado por membros do governo, organizações e produtores de comunicação, universidades e fabricantes de eletroeletrônicos (BUENO, 2010). Uma das pesquisas desenvolvidas pelos cientistas brasileiros foi o desenvolvimento da camada de software posicionada entre plataforma de hardware e sistema operacional, o middleware Ginga, que obrigatoriamente seria instalado nos conversores que usassem o sistema nipo-brasileiro. O Ginga ganhou este nome em homenagem à diversidade cultural brasileira, segundo o site oficial do
middleware:
O nome Ginga foi escolhido em reconhecimento à cultura, arte e contínua luta por liberdade e igualdade do povo brasileiro. Essa mesma luta esteve presente no processo de desenvolvimento do Ginga, tanto nos vários anos de trabalho árduo na PUC-Rio e na UFPB, quanto recentemente, quando foram rompidas várias barreiras para torná-lo a única inovação brasileira a compor o Sistema Nipo-Brasileiro de TV Digital. [...] Ginga é uma especificação aberta, de fácil aprendizagem e livre de royalties, permitindo que todos os brasileiros produzam conteúdo interativo, o que dará novo impulso às TVs comunitárias e à produção de conteúdo pelas grandes emissoras. As extensões do Ginga, no entanto, são regidas por regras próprias (S/data. S/p. Grifos do autor, no site).
Pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e Universidade Federal da Paraíba empenharam-se no desenvolvimento
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da tecnologia de software livre para o meddleware, ou seja, com código aberto e livre de royalties, como afirma a citação. Era possível contribuir para seu desenvolvimento acessando a Comunidade Ginga, no site oficial. Os pesquisadores acreditavam que com a tecnologia que seria adotada no conversor teríamos um sistema de televisão digital flexível, onde as caixas de conversão ofereceriam acesso a diversos tipos de tecnologia de ponta, ou a outras que ofereceriam serviços básicos, de acordo com as possibilidades de compra do consumidor, segundo André Barbosa Filho:
A inovação brasileira proposta no middleware do sistema de televisão digital permitirá que programas produzidos no Brasil “conversem” com os demais padrões, assim como os programas produzidos nos outros padrões poderão “rodar” no SBTVD-T. Esta importante inovação brasileira é inédita. Até o surgimento do Ginga não havia interoperabilidade entre os padrões existentes no mundo, principalmente no que se refere a aplicativos que se utilizam de linguagens HTML, NCL e Java (BARBOSA FILHO, 2007, p. 21).
O Decreto nº. 4.091, de 26 de novembro de 2003, também previa o aceso econômico a todos os consumidores de televisão. O sistema japonês adotado pelo Brasil previa o conversor para o sinal digital nos aparelhos analógicos de televisão com preços nada competitivos, e o Brasil se apropriou do desenvolvimento da tecnologia para “conversar” com o software da TV digital e o hardware na tentativa de baixar os custos e ainda assim não conseguiu. De todo o trabalho e o fervilhar científico em pesquisa de materiais e desenvolvimento, investimentos nas pesquisas e capacidade para desenvolver tecnologia brasileira, o Ginga e o aperfeiçoamento da tecnologia MPEG-2 para MPEG-4 e da velocidade de 30fps para 60fps, foram as únicas inovações que emplacaram no SBTVD-T, que com estas tecnologias inseridas se transformaria em Sistema Brasileiro de Televisão Digital Terrestre brasileiro (SBTVD-Tb),como veremos. Mesmo com toda a boa vontade científica, o sistema seria implantado com reservas, decorrentes da condição econômica do comprador e o modelo de conversor comprado, com menos ou mais atrativos.
Em 2006, mais uma vez por meio de um decreto, o de nº 5.820, de 29 de junho daquele ano, foi criado o Sistema Brasileiro de Televisão Terrestre (SBTVD-T), também conhecido como ISDB-Tb (Integrated Services Digital Broadcasting Terrestrial ou Serviço Integrado de Transmissão Digital Terrestre brasileiro): padrão de transmissão de TV Digital terrestre desenvolvido em laboratórios de pesquisa das universidades brasileiras acima citadas, acrescentando tecnologias na utilização do
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sistema japonês ISDB-T como base.Porém, apesar de toda a tecnologia de ponta para captar e finalizar informação audiovisual ter se aprimorado e inovado de forma abrupta, de ter se espalhado pelo mundo, apesar de as pesquisas conseguirem atingir o nível tal de compressão de dados de alta definição (som e imagem) capaz de ser compatível com a transmissão em um canal de 6MHz, trafegando com até 4 ou 8 canais no modelo final (TOME,2008 apud RODRIGUES, 2008), com estúdios construídos para produzir em alta qualidade, maquiagens desenvolvidas para os atores, técnicos aperfeiçoando-se para o mercado (SOUTO MAIOR, 2006) ou descartados pela indústria na mudança de tecnologia, para que tudo isso fosse possível ser assistido pelo homem comum, do lugar mais longínquo do país ou mesmo um habitante de metrópole, com qualidade inigualável, como prevê o Decreto nº. 4.901, de dezembro de 2003, fazia-se necessária uma conversão de sinais, adquirir um aparelho, naquele momento, condição para que todos os usuários de televisão digital no país, agora passando a ser obrigatória e que não têm acesso a TV por cabo passassem a ter acesso às inovações prometidas pelo governo. Tudo pronto, porém mais um produto, além dos televisores e antenas, seria obrigatório ao mercado do telespectador: o conversor.
O conversor de dados analógicos para digital foi um dos itens que trouxeram dúvidas à escolha do sistema japonês que, como vimos, parecia precipitada. O conversor do sistema europeu era mais acessível ao consumidor brasileiro, mas ele estava fora de cogitação na disputa entre as radiodifusoras, poderosas, e as teles. O sistema americano não necessita de conversor, mas não tinha entrado na disputa. Os televisores vendidos no mercado brasileiro eram analógicos. Mesmo os de alta definição (HDTV), não tinham sistema algum para transmissão digital. No nosso caso, havia os acordos com as indústrias de eletrônicos para a fabricação e barateamento dos componentes e equipamentos. Várias empresas faziam parte do consórcio de pesquisas para os conversores e para o sistema adotado, na tentativa de produzir simultaneamente, mas não conseguiam cobrir o mercado (RODRIGUES, 2008). O sistema foi adotado sem que o mercado e a indústria estivessem preparados totalmente, também os produtores, os criadores da informação audiovisual, que “fabricavam” o produto final, aquele que seria exibido pela TV Digital. Neste momento, os ambientes de pesquisa brasileiro já não participavam das decisões e as regulações apontavam para novos eventos no país.
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