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REVISÃO DE LITERATURA

2.1 A globalização, a competitividade e a qualidade

Nas últimas décadas tem-se percebido um estado de profunda crise mundial, que para Capra (1997, p 19) trata-se de:

uma crise complexa, multidimensional, cujas facetas afetam todos os aspectos de nossa vida – a saúde e o modo de vida, a qualidade do meio ambiente e das relações sociais, da economia, tecnologia e política. É uma crise de dimensões intelectuais, morais e espirituais; uma crise de escala e premência sem precedentes em toda a história da humanidade.

O processo de globalização, a medida em que se desenvolve, intensifica e generaliza, modifica mais ou menos radicalmente realidades conhecidas e conceitos estabelecidos.

Ianni (1997, p. 225) comenta que:

Configurações geoistóricas que pareciam cristalizadas revelam-se problemáticas, insatisfatórias ou anacrônicas. De um momento para outro, torna-se difícil manter as noções de Primeiro, Segundo e Terceiro Mundos. Simultaneamente, reduzem-se as distâncias e as diferenças entre o Oriente e o Ocidente, tanto a nível do imaginário como das relações, processos e estruturas que neles predominam. [...] Debilitam-se as fronteiras reais e imaginárias que se haviam desenhado nas épocas do colonialismo e do imperialismo, como o liberalismo, o evolucionismo e o darwinismo social. A globalização realmente envolve transformações nos significados de noções de espaço e tempo, passado e presente, parte e todo, singular e universal. Tudo o que

parecia distante se torna próximo, ou mesmo presente; o que estava aqui, mudou de lugar, perdeu significados, pode ter-se tornado estranho ou anacrônico, tanto quanto novo ou surpreendente (IANNI, 1997).

Neste contexto da globalização da economia com a conseqüente abertura do mercado, surgem três fatores fundamentais e que afetam diretamente as indústrias: qualidade, produtividade e competitividade. (MASTROGIACOMO, 1998).

Para Siffert Filho & Faveret Filho (1998, p. 1):

[...] A competitividade de uma firma pode ser avaliada pela sua capacidade de ganhar e preservar market share. Para tal, faz-se necessário maximizar as economias de escala (operar no nível mínimo do custo médio), escopo (combinar na mesma planta produtiva mais de um produto e/ou serviço) e transação (redução dos custos de negociação).

Segundo Silva (1998, p. 1):

A empresa mais competitiva é aquela que consegue os seguintes objetivos: obter boa rentabilidade financeira global sobre o patrimônio; conquistar o universo dos mercados nacionais e internacionais disponíveis com produtos de boa qualidade nutricional consoante o interesse dos clientes aos produtos ofertados; e, custo de produção comparativo dentro do setor, realmente favorável.

Deste modo, a competição passou a ser vista como a força impulsora da economia, a “abordagem agressiva” tornou-se um ideal no mundo dos negócios, e esse comportamento combinou-se com a exploração dos recursos naturais a fim de criar padrões de consumo competitivo (CAPRA, 1997).

A indústria da alimentação está reagindo a esses desafios dentro dos padrões de concorrência de uma economia que se ajusta para a competitividade globalizada. Encontra-se num processo de ampla melhoria de produtividade induzida pelos fatores de mercado da integração econômica do Mercosul, mas, e principalmente pela estabilização da economia, que induz as empresas a se adequarem à prevalência do consumidor no mercado, obrigando a melhoria da qualidade dos produtos e a redução dos seus preços, o que coloca a ampla necessidade de melhoria de eficiência dos fatores trabalho e capital (SIFFERT FILHO & FAVERET FILHO, 1998).

De forma muito esquemática, pode-se destacar que além da clássica sucessão de padrões alimentares, os seguintes pontos têm contribuído para alterar significativamente o perfil da demanda da indústria de alimentos: envelhecimento da

população; redução do número de habitantes por domicílio; crescente intercâmbio cultural, através de viagens; crescente participação das mulheres no mercado de trabalho; e, intensificação da jornada de trabalho. Com tais alterações surgem novos pontos que devem ser considerados pela indústria de alimentos: o crescimento da procura por produtos saudáveis, dietéticos, de qualidade e convenientes; a diminuição do tamanho médio das famílias gera demanda por porções individuais e por alimentos semipreparados; especialmente na Europa e nos EUA, sociedades crescentemente multirraciais requerem maior diversificação da oferta de alimentos; e a crescente mobilidade dos consumidores exige plena disponibilidade de produtos, o que se traduz na redução da demanda por ingredientes para preparação em casa e na busca de refeições prontas para o consumo (SIFFERT FILHO & FAVERET FILHO, 1998).

Para Tronco (1997, p.103):

As empresas estão cada vez mais convictas que são necessárias mudanças na forma de trabalho e, principalmente, na mentalidade das pessoas. A qualidade precisa ser analisada como uma questão de sobrevivência das indústrias, que a cada dia enfrentam consumidores mais exigentes e concorrentes que desafiam novos mercados.

Segundo Feigenbaun (1997, p. 4):

Melhor qualidade, hoje, quer dizer um aumento de valor. Não é simplesmente eliminar o que não está dando certo, ou reduzir defeitos, como se usava no passado. A comunicação, através dessa nova língua da qualidade, e a melhoria dos processos são os principais fatores para o êxito das empresas líderes de mercado em lucratividade e crescimento, nessa nova economia global.

Portanto, fica claro que as organizações que desejam trabalhar nesses mercados globais, com sucesso, precisam alinhar seu programa de qualidade, voltando seus objetivos para os clientes, para melhorar sua qualidade. O produto precisa ter qualidade, do projeto até os serviços.

Na verdade, hoje a necessidade de inovações, evidencia-se em todos os processos, políticas, ferramentas e métodos de gestão das empresas. Neste sentido Pires (2000) enfatiza que todas as empresas deveriam nortear seus esforços em três princípios fundamentais da Gestão da Qualidade:

- Princípio 1 - A Gestão da Qualidade deve ser distintiva, pois qualidade não é apenas “satisfação do cliente”. Qualidade é fazer algo pelo cliente que os concorrentes não conseguem fazer. É dar ao cliente um motivo muito forte para que o mesmo seja o NOSSO cliente;

- Princípio 2 - A Gestão da Qualidade deve ser endógena, pois é um processo em que a empresa precisa estar pronta para criar novas soluções para os problemas particulares ao seu caso, ou seja, criar internamente a solução para os problemas da empresa;

- Princípio 3 – A Gestão da Qualidade deve ser sistêmica, assim, todas as decisões tomadas na empresa, bem como as ferramentas e os métodos utilizados, devem estar integrados sob a forma de um sistema de gestão. Na visão sistêmica a empresa possui a capacidade de identificar prioridades e concentrar esforços no ponto de maior alavancagem, trazendo um maior e melhor resultado para a empresa.

Além disso, “cada vez mais os consumidores estão conscientes de seus direitos e exigem produtos de qualidade superior. Daí hoje se pode dizer que a qualidade está diretamente ligada à satisfação do consumidor” (SANTOS, 1996, p.18).

Assim, o que vai definir o sucesso ou o fracasso de uma empresa, daqui para frente, é justamente a sua capacidade de encantar o consumidor e não apenas serví-lo bem. A verdade é que as empresas devem considerar os consumidores como a fonte de suas existências, pois sem eles não há produtos, empresas e nem empregos. (ARRUDA, 2002b).

Para Paladini (1995, p. 13):

Se é verdade que a qualidade começa e termina no cliente, também é verdade que a qualidade é projetada, desenvolvida e gerada no processo. E isto independe do tipo de produto que estamos falando – se bens tangíveis, métodos ou serviços.

Diante deste contexto, Nicolau et al. (2001, p.102) comentam que:

As diferenças nos padrões de qualidade apresentados pelas diferentes categorias de estabelecimentos produtores de alimentos, podem ser reduzidos com as propostas, mandatórias ou não, de utilização de sistemas de qualidade baseados nas Boas Práticas de Manufatura e Padrões de Procedimentos Operacionais de Sanitização.

Assim, a nova realidade do mercado hoje exige que as empresas dispensem o máximo de atenção quanto ao controle de qualidade de seus produtos.

Neste sentido, Paladini (1995, p. 75) comenta que tradicionalmente o controle de qualidade é definido “como uma atividade típica de fiscalização, na qual se busca descobrir defeitos nas linhas de produção e, se possível, punir culpados”. O mesmo autor enfatiza a alteração deste conceito quando considera que:

na verdade, controlar significa confrontar uma atividade planejada com aquela realizada efetivamente. Evidenciando assim, o conceito de controle de produção, que faz exatamente este tipo de acompanhamento. A colocação do controle de qualidade na rota da qualidade total torna-se definitiva quando se passa a utilizar, como referencial básico para o planejamento da qualidade, as exigências do consumidor. Assim, o controle de qualidade determina até que ponto ele está sendo efetivamente atendido.

Almeida (2000, p. 6) acrescenta que o controle de qualidade consiste em “técnicas e atividades operacionais usadas para atender aos requisitos para a qualidade”.

No setor de alimentos, Mendes (1998) destaca que as funções básicas do controle de qualidade estão resumidas em: avaliar processos; detectar os riscos; implantar soluções viáveis e zelar para que estas sejam permanentes.

Hajdenwurcel (2000) ressalta a importância de que se tenha um programa eficiente e seguro de controle de qualidade, para permitir a obtenção de resultados confiáveis em indústrias de alimentos.

A maioria dos programas de controle de qualidade usados na produção de alimentos até os anos 80 empregava uma combinação de métodos tradicionais de inspeção por amostragem, investigação e testes do produto final. Por serem um controle passivo, não permitiam a adoção imediata de medidas corretivas durante o processo (ALMEIDA, 2001; ABDALLAH, 1997).

Atualmente, esta abordagem tradicional de controle de qualidade tem sido substituída pela garantia de qualidade. Dentro deste novo enfoque há um controle dinâmico em pontos considerados críticos, identificando perigos (biológicos, físicos ou químicos), podendo-se intervir no resultado final a ser obtido numa linha de produção, bem como atuar preventivamente, buscando-se assegurar a inocuidade e qualidade dos alimentos (KUAYE, apud MENDES, 1998; ALMEIDA, 2001).

No próximo item apresentam-se de maneira genérica os principais sistemas da qualidade utilizados pela indústria de alimentos que garantem além da qualidade a seguridade de seus produtos.