2. O F LUXO T ELEVISUAL
2.1. A GRADE DE PROGRAMAÇÃO TELEVISUAL
A grade é o produto central da televisão, haja vista a construção de uma estrutura de montagem e estratégias para circulação de ofertas que atendam a demanda em termos de espaço-tempo e qualidade de programação. Para efeito de apresentação do corpus, elaborou- se uma grade com as seguintes características: turno, emissora, horário, programa e gênero.
A grade, em si, é um “índice sugestivo”10 que aponta para produtos na prateleira a
serem consumidos em determinados horários para públicos diferentes, conforme o gosto cultural do telespectador. Uma vez em circulação, esses produtos são símbolos transmitidos em linguagem híbrida: “verbal-sonoro-visual” 11 que passam a povoar o imaginário e, a produzir sentidos possíveis.
9 Para o pensador russo Mikhail Bakhtin (apud Machado 2000:68), “gênero é uma força aglutinadora e
estabilizadora dentro de uma determinada linguagem, um certo modo de organizar idéias, meios e recursos expressivos, suficientemente estratificado numa cultura, de modo a garantir a comunicabilidade dos produtos e a continuidade dessa forma junto às comunidades futuras”.
10 “... o índice (...) escapa da referencialidade direta, enredando-se em uma malha de sugestões. (...) Também
sugere o caminho de um olhar fugaz que pousa sobre as coisas sem senti-las, num mundo coisificado de percepções entorpecidas pelo automatismo das repetições” (Santaella, 2001:307). A grade indica não apenas o horário seqüencial e o programa, mas sugere um ritual nos horários diurno, prime time e noturno para que o espectador organize a rotina de sua vida cotidiana, conforme queira consumir os produtos que se repetem em capítulos ou episódios.
11 “Entre os canais semióticos (...), a televisão é, sem dúvida, aquele que leva a multiplicidade ao limite de suas
possibilidades. Antes de tudo, porque a televisão, por sua própria constituição, é capaz de absorver para dentro de si quaisquer outras linguagens: rádio, teatro, cinema, apresentação musical, shows, publicidade, esportes,
50 Conforme Santaella (2001b: 388), a natureza da linguagem híbrida da televisão é, em si, feita de “absorções e misturas, em uma sintaxe que lhe é muito particular. Nela, o ritmo de montagem tende a se acelerar através da multiplicação dos cortes... São tantas as linguagens e, conseqüentemente, são tantos os gêneros que convivem na televisão que...” a programação exibida manifesta sua natureza econômica, haja vista sua estreita relação com o marketing, com a publicidade, com o consumo e com os objetivos estratégicos para a fidelidade de uma máxima audiência durante o máximo de tempo possível. Pois, fabricar demanda para manter o pico de audiência é uma das estratégias que caracteriza a acumulação flexível que “cria novos desejos e necessidades, explora a capacidade do trabalho e do desejo humanos, transforma espaços e acelera o ritmo da vida” (Harvey, 1992:307).
Diz Bustamante (1999:94) que o alardeado efeito de homogeneização da oferta entre as emissoras, deve-se ao fato de os concorrentes unirem-se em torno de programas menos contestados pela audiência e os exibirem para um mesmo público em um mesmo horário. Nesse sentido, para efeito da qualidade dos produtos, o objetivo estratégico dos enunciadores
é discutível, pois os cinco programas mais denunciados à CDHM, objeto de divulgação do 14º ranking da baixaria foram exibidos por duas emissoras, nos horários prime time e noturno, para um mesmo público: Big Brother Brasil 8, reality show da Rede Globo, às 22 horas; Duas Caras, novela da Rede Globo, às 20:55h; Programa do Jô, entrevista da Rede Globo, à 00:30h; Pânico na TV, humorístico da Rede TV, às 23:00h e Super Pop, auditório da Rede TV, às 21:50 horas.
Verifica-se que as faixas horárias (diurna – público infantil e jovem; prime time – público família; noturna – público adulto em geral) se constituem por um fluxo de imagens e sons ordenado e previamente definido que traduz uma ação estratégica de cada uma das emissoras, sugerindo “racionalidade financeira”, “orientação do consumo” e “reconhecimento” (Bustamante, ibidem).
Todas as grades atuam de forma a orientar o consumo dentro de uma temporalidade de faixas horárias, cujo fluxo de imagens é racionalmente direcionado para um determinado público: na faixa diurna, a maior parte dos programas se constitui de desenho animado e séries, ou seja, programas de baixo custo; a faixa prime time, horário nobre em que cada
jornalismo. Certamente, ao serem absorvidas dentro da linguagem específica que é a da televisão, essas linguagens passam por transformações, por vezes, bastante radicais” (Santaella, idem: 388).
e na televisão, s s s são is
51 emissora procura ofertar o que há de melhor para manter a fidelidade, está consagrada às novelas das 7, das 8 e minisséries, além das notícias dos telejornais, momento em que se reúne toda a família e em que se constatam picos de audiência. Nesse horário, os produtos têm preço elevado, haja vista que um capítulo de novela da Globo chega a custar R$1 milhão de reais, mas, simetricamente, o preço de uma inserção publicitária é também o mais alto. No horário noturno, os produtos como talk show e filme têm custo menor.
Enfim, é no fluxo de imagens e sons que cada emissora orienta o consumo, manifesta a sua identidade e inscreve a sua diferença. A Record, por exemplo, além de conduzir o seu público nos horários diurno e noturno, com o produto Igreja Universal do Reino de Deus - IURD, também imprime reconhecimento quando amplia o espaço e aluga horários nas emissoras Bandeirantes e Gazeta. É possível que esse “produto de fluxo ou de menor custo”, aliado a outros produtos como a novela ‘Caminhos do Coração’ e em seqüência a série ‘Os Mutantes’, como “produtos de estoque ou de alto custo” (Bustamante, idem: 95), possam ser os responsáveis pelo “crescimento da Record nos últimos anos, sustentado principalmente pelo telespectador mais pobre e mais jovem que consome pouco e atrai menos anunciante” (www.fndc.org.br – 17/06/2008).