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A grounded theory foi desenvolvida pelos sociólogos Barney G. Glaser e Anselm L. Strauss e sistematizada na obra The discovery of grounded theory (1967). Desde seu surgimento, essa metodologia qualitativa – que tem como pressuposto nodal a elaboração de esquemas teóricos “fundamentados” ou “enraizados” nos dados oriundos da pesquisa empírica – passou por inúmeros desdobramentos e se difundiu no âmbito das mais diversas disciplinas das ciências humanas e sociais.

De acordo com Charmaz (2009, p. 15), os métodos da grounded theory fornecem um conjunto de procedimentos sistemáticos, mas igualmente flexíveis, que norteiam o processo de teorização. Na grounded theory, as etapas de coleta e análise dos dados não são nitidamente separadas como no desenho da pesquisa “tradicional”, mas encontram-se interligadas por meio da elaboração de códigos e categorias que refletem as percepções do pesquisador sobre os dados (CHARMAZ, 2009). Neste ponto, essa metodologia aproxima-se das perspectivas epistemológicas que reconhecem não somente a atuação do pesquisador na produção dos dados, mas igualmente no processo de teorização.

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Na pesquisa de campo, acompanhei as audiências trabalhistas realizadas nas quatro Varas do Trabalho da cidade de Pelotas perfazendo o total de 155 audiências observadas durante quatro semanas.

Dentre os procedimentos da grounded theory, destaca-se a etapa de codificação que, em linhas gerais, pode ser dividida em três tipos: aberta, axial e seletiva ou teórica (FLICK, 2009). Entretanto, os tipos e as nomenclaturas da codificação podem variar de acordo com os autores, a exemplo de Charmaz (2009), que opta por classificá-los em: codificação inicial, codificação focalizada, codificação axial e codificação teórica. Em linhas gerais, o procedimento de codificação tem por finalidade tornar os dados obtidos em campo mais concisos para facilitar a comparação com outros segmentos de dados:

Como pesquisadores adeptos à teoria fundamentada, estudamos os nossos primeiros dados e começamos a separar, classificar e sintetizar esses dados por meio da codificação qualitativa. Codificar significa associar marcadores a segmentos de dados que representam aquilo de que se trata cada um dos segmentos. A codificação refina os dados, classifica-os e nos fornece um instrumento para que assim possamos estabelecer comparações com outros segmentos de dados (CHARMAZ, 2009, p. 16). Na codificação inicial, o pesquisador se dedica com afinco a refletir sobre os seus dados iniciais em busca de insights analíticos para retornar ao terreno empírico. Nessa fase, são elaborados os códigos iniciais, também chamados de códigos emergentes. Posteriormente, na codificação focalizada são utilizados “os códigos iniciais mais significativos ou frequentes para classificar, sintetizar, integrar e organizar grandes quantidades de dados” (CHARMAZ, 2009, p. 72). As etapas de codificação inicial e de codificação focalizada foram realizadas no decorrer da pesquisa de campo, o que se mostrou bastante pertinente frente ao grande volume de informações obtidas a partir da observação nas audiências trabalhistas. No mesmo sentido, destaca-se a relevância do trabalho de codificação ter sido empreendido de modo imediato à observação das interações in loco, o que minimizou o esmaecimento de minhas percepções sobre as mesmas.

A redação de memorandos, que contêm anotações detalhadas sobre os códigos, tem por objetivo instigar a elaboração de categorias analíticas que contribuem para elevar o nível de abstração ao tópico estudado. Na codificação axial, busca-se “definir as propriedades da categoria, as condições nas quais ela opera, as condições nas quais ela se modifica e a sua relação com outras categorias” (CHARMAZ, 2009, p. 250-251). O recurso ao “método comparativo constante” (GLASER; STRAUSS, 1967), que compreende o movimento de confrontação entre o universo empírico e os códigos e categorias analíticas elaboradas, ocorre até o momento em que se atinja o ponto de saturação das

categorias, ou seja, até que na pesquisa de campo não se vislumbre novas propriedades a serem integradas às categorias. No presente estudo, foram realizadas a codificação inicial e a codificação focalizada de modo concomitante ao trabalho de campo e, posteriormente, a codificação axial com o intuito de relacionar as categorias e subcategorias desenvolvidas e lhes conferir uma estrutura analítica compreensível e coerente, o que corresponde à etapa da codificação teórica.

Os procedimentos analíticos acima explicitados têm por objetivo final o desenvolvimento de uma “teoria substantiva” sobre o tópico específico investigado (GLASER; STRAUSS, 1967). Entretanto, mostra-se pertinente destacar a distinção entre a “teoria substantiva” e a “teoria formal” de acordo com o entendimento de Glaser e Strauss:

Por teoria substantiva entendemos aquela desenvolvida por uma área substantiva, ou empírica, da investigação sociológica, tal como as ações de enfermeiros, relações de raça, educação profissional, delinquência ou institutos de pesquisa. Por teoria formal, entendemos aquela desenvolvida para uma área formal, conceitual, da pesquisa sociológica, como estigma, comportamento desviante, organização formal, socialização, congruência de status, autoridade e poder, sistemas de recompensa, ou mobilidade social (GLASER; STRAUSS, 1967, p. 32 apud WERNECK, 2009, p. 71, grifos nossos).

Enquanto a teoria substantiva constitui uma teorização que permanece vinculada ao terreno empírico investigado, a teoria formal fornece uma compreensão teórica sobre um tópico ou um processo social mais amplo que abrange um conjunto de teorias substantivas. Para Charmaz (2009, p. 242), a teoria substantiva não visa atingir a priori “o nível geral abstraído das realidades empíricas”, visto que essa generalidade “procede do exame minucioso de numerosas particularidades e, após a elaboração da teoria substantiva, deve incluir a análise e a conceitualização dos resultados de múltiplos estudos para construir uma teoria formal”. Observa-se a sistematização do processo da teoria fundamentada na figura a seguir55:

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Destaca-se que esta sistematização não constitui um modelo único, sendo possível encontrar distintas concepções sobre o processo da pesquisa na teoria fundamentada. Além disso, esse esquema pode variar de acordo com os interesses do pesquisador e os objetivos da investigação.

Figura 2: O processo da teoria fundamentada (CHARMAZ, 2009, p. 26)

Os conceitos de sensibilização e as perspectivas disciplinares encontram-se localizados nas primeiras etapas do processo de pesquisa, tendo em vista que “oferecem as ideias iniciais a serem buscadas e sensibilizam o pesquisador para a realização de determinados tipos de perguntas sobre o seu tópico específico” (CHARMAZ, 2009, p. 34). No mesmo sentido, acrescenta-se o papel da trajetória do pesquisador – mais especificamente de seu interesse por determinadas temáticas e sua afinidade com certas perspectivas epistemológicas, etc. – no desenvolvimento da pesquisa. Em outras palavras, compartilha-se do entendimento no qual “não existe produção de conhecimento independente do sujeito conhecedor, assumindo- se que o investigador deve incorporar e assumir na sua produção científica a sua própria subjetividade” (FERNANDES; MAIA, 2002, p. 50). Essas reflexões iniciais,

aliadas aos conceitos de sensibilização, convergiram na emergência do problema de pesquisa e das questões iniciais que nortearam a escolha do método da observação para a realização da pesquisa de campo.

O método da observação em audiências trabalhistas mostrou-se mais afinado com o problema e com os objetivos da pesquisa, tendo em vista que nessa fase processual seria possível ter acesso às competências postas em prática pelos distintos atores sociais na composição dos “casos”. Da mesma forma, seria possível observar para além das falas – ou seja, a produção dos repertórios argumentativos – os silêncios, os gestos e as expressões corporais que compõe o rico manancial das interações sociais. Ainda que se caracterize como uma das inúmeras etapas do litígio trabalhista – assim como a observação é um dos seus múltiplos métodos aplicáveis – a audiência é um dos mais importantes momentos processuais, pois é durante a sua realização que o julgador tem a oportunidade de conhecer melhor os fatos que originaram a controvérsia, assim como os autores e réus da ação podem exteriorizar de maneira oficial – em momento e local apropriados – a situação de conflitualidade que vivenciam.

Para a realização da pesquisa de campo, conforme salientado na introdução, partiu-se dos seguintes questionamentos: na coordenação das ações que reguladas pelas normas e procedimentos jurídico-trabalhistas coexistiria – em nuances e graus diversos – uma dimensão moral relacionada às relações de trabalho e a distintas noções de direito? De modo complementar, pode-se identificar uma competência moral que se expressa nos argumentos dos atores sociais envolvidos em um litígio trabalhista, mais especificamente, no momento da audiência trabalhista?

A partir do diálogo com os conceitos de sensibilização, buscou-se observar nas audiências trabalhistas a mobilização de justificações e de outros repertórios de

accounts com o objetivo de vislumbrar em que medida e de que maneira essa

competência moral se fazia presente nessa situação de disputa. Além disso, buscou- se explicitar as competências e os constrangimentos, objetivos e subjetivos, que pesam na mobilização dos recursos críticos dos atores sociais. Assim, as especificidades dessa situação de disputa – pré-agenciada pela dinâmica normativa e o universo de práticas próprias da Justiça e do Direito do Trabalho – demandaram um enfoque atento a esse universo (de modo mais geral) e aos ajustes locais que se operavam nas distintas Varas.

Para Vidich e Lyman (2006, p. 50), o processo de pesquisa “exige tanto o ato de observar quanto o de comunicar a análise dessas observações aos outros”. Os autores acrescentam que a tarefa de comunicar a experiência de campo constitui um ato de “reconstrução ex post facto” que “nunca pode ser descrito em sua totalidade, porque essas „histórias do campo‟ são, por si só, parte de um processo social em andamento que em sua experiência dia a dia, minuto a minuto, desafia a recapitulação” (VIDICH; LYMAN, 2006, p. 50). Neste sentido, na seção seguinte, que cede lugar à escrita mais próxima da narrativa, busca-se (re)traçar a experiência da observação nas audiências trabalhistas a fim de aclarar a elaboração dos códigos e das categorias que resultaram na teoria substantiva dos modos de coordenação da ação dos atores sociais que atuam em um litígio trabalhista, que será apresentada de modo mais detalhado no capítulo 6.