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2. O Líbano Ausente

2.2 A guerra civil libanesa de 1975-91

2.2.1 A guerra civil é uma realidade a partir de 1975

Na ótica de Del Pino (1989) desde 1971 o Líbano foi o país mais castigado por Israel, sendo que em 1972 este fez sua primeira invasão de peso. Após intervenção da Organização das Nações Unidas, Israel se retira, mas deixa diversas obras de facilitação de entrada: postos de observação na fronteira, estradas niveladas, entre outros. Mas o fato é que Israel nunca se retirou completamente do Sul do Líbano, sempre alternando entre ações severas e frágeis (PINO, 1989). De modo que a partir de 1972, diante da indiferença de Beirute às incursões israelenses, a população do Sul do Líbano passa a organizar-se militarmente.

Em abril de 1973, segue Pino (1989), três importantes líderes palestinos da Al Fatah foram assassinados em Beirute por Israel, os palestinos enfrentaram o exército libanês acusando-o de anuência ao feito (PINO, 1989). O conflito rendeu

interferência da Liga Árabe, fechamento das fronteiras com a Síria, disparos de campos de refugiados contra Beirute em numerosos choques que duraram semanas. O autor é categórico em dizer que os problemas palestinos tiveram uma flagrante incidência na crise libanesa e na eclosão da guerra civil, particularmente após a guerra árabe-israelense de 1973. Posteriormente, em princípios de 1975, um grupo revoltoso de pescadores de Sidon (fortemente armados com apoio dos palestinos) enfrentou o exército libanês contra o monopólio da pesca no Sul concedido pelo governo a uma companhia norte-americana. Na carona da rebelião, os palestinos atacaram as praias do norte de Israel; a população não aceitou a entrada de pessoas de fora do sul do país; e velhas mazelas foram trazidas à tona tais como: a oposição dos plantadores de tabaco ao monopólio exercido pelo Regie dês Tabacs, a exposição de civis aos constantes ataques israelenses e a ausência de serviços públicos na região. O conflito mostrou aos cristãos que exerciam o poder no país que algo precisaria mudar rapidamente se quisessem que o Líbano coexistisse como nação, pois a população muçulmana do Sul estava fortemente armada, descontente e disposta a lutar. Esquerda e direita; muçulmanos e cristãos se atacavam mutuamente sobre a responsabilidade e omissão da questão do Sul e a ingerência dos palestinos no pleito. A crise confessional era latente, era preciso reformar o sistema, mas até quando pudesse protelar essa reforma, as lideranças o fariam. (PINO, 1989).

Em 13 de abril de 1975, durante a inauguração de uma igreja em um bairro cristão, a morte de um líder miliciano falangista (cristão) e a ocasional passagem de um ônibus de palestinos pelo local – que fora metralhado –, em represália os palestinos dinamitaram estabelecimentos de cristãos, foi o estopim para o início da segunda guerra civil libanesa. Este conflito armado entre cristãos e palestinos durou 72 horas e deixou 300 mortos. Não houve cessar fogo respeitado desde então, as milícias saiam às ruas, e os franco-atiradores passaram a ser uma figura cotidiana nas ruas para os civis. (PINO, 1989).

A partir daí a opinião pública do Líbano se divide entre aqueles que compreendem que a presença dos palestinos leva a represálias de Israel e os que compreendem que as represálias de Israel se devem aos planos expansionistas do país vizinho em chegar até o rio Litani. As duas situações (presença palestina e os

planos expansionistas israelenses) levaram o Líbano a perder o controle sobre a amplitude do seu território nacional, fato que aquecia ainda mais os debates dentro e fora da esfera pública institucionalizada.

Pino (1989) salienta que o Pacto Nacional de 1943 passa a ser discutido novamente, mas não revisto, o que leva a conflitos entre muçulmanos e cristãos também, além dos já ocorridos entre cristãos e palestinos. O autor continua dizendo que, entrementes, egípcios e israelenses sentam-se a discutir um acordo de separação de forças no Sinai, deixando palestinos e sírios descontentes e com sentimento de traição contra os egípcios (não recuperariam o Golan). As reações palestinas extrapolariam as fronteiras do Oriente Médio e passariam a atuar na Europa (com atentados terroristas), provocando por consequência ondas de violência no Líbano e levando a Síria a intervir abertamente com suas tropas dentro do território libanês. Com as incursões do exército sírio, a violência miliciana nas principais cidades do país, as ondas de violência provocadas pelos palestinos, o Líbano passou a ser ingovernável, e a guerra tomava contornos cada vez mais atrozes pela sua violência, particularmente contra civis (PINO, 1989).

Em paralelo à ingovernabilidade do país (os líderes na presidência e parlamento – cristãos e muçulmanos – além de tudo divergiam em ações militares principalmente no que tange a ataques aos campos de refugiados palestinos), os líderes religiosos passam a discutir as causas do conflito e o Pacto Nacional de 1943. A Síria interpretou esta discussão como uma possível divisão do país em dois territórios e disse não admitir isso. Israel ao seu turno entendeu a declaração síria como ameaça de invasão ao país vizinho e disse que não iria assistir à divisão libanesa e à invasão síria de braços cruzados. As intenções dos dois vizinhos do Líbano em aproveitar-se da sua fragilidade e invadi-lo eram evidentes e com o desenrolar dos fatos mostrou-se ser apenas uma questão de tempo.

Em 1976 a intervenção militar síria iniciou, e em 1978 e em 1982 Israel invade o Líbano, ambos com a intenção declarada de desarmar a Revolução palestina, mas na prática isso não se verificava, pois tanto palestinos como libaneses, civis e milicianos eram vítimas de ataques de ambos os exércitos dos países vizinhos (PINO, 1989), porque em 1978 Israel invade o Líbano, entra em Beirute e toma parte do Sul do país, da mesma forma que na quinta guerra palestino-israelense de 1982.

“No Líbano, Deus guerreou contra Yahve e a Falange contra todos” (PINO, 1989 p.

118). Mas o conflito não parou por aí, segundo o mesmo autor: “A partir de 1977 combateram sírios contra palestinos e progressistas, palestinos e progressistas contra cristãos, progressistas entre si, cristãos entre si, sírios contra cristãos e finalmente israelenses contra todos”. (PINO, 1989 p. 118). Foi o período mais dramático do conflito.

À guisa de resumo, Wenger e Danney (1990) apontam os seguintes fatos como os mais marcantes do conflito:

- Início da Guerra (1975-1976): ocorre uma série de incidentes envolvendo o governo libanês;

- Intervenção Síria (1976): culminando com ataques entre sírios e cristãos;

- Guerra entre Israel e Palestinos (1978-81): Israel invade o Líbano, e chega até Beirute, matando civis palestinos e libaneses com a intenção de atacar a OLP;

- Resistência Libanesa à invasão israelense (1982-1985): Líbano reage à invasão israelense e à intervenção dos fuzileiros navais americanos. A embaixada americana é atacada em Beirute em 1983;

- Guerra nos campos de refugiados (1985-1988); e - Crise presidencial (1988).

Com tantos mortos, batalhas, atores envolvidos, interesses em jogo e após mais de dez anos de conflito, já não se pode dizer se houve algum vitorioso, mas certamente o povo libanês foi o maior perdedor. Um elevado número de mortos de todos as facções envolvidas, a presença permanente síria e israelense no país e uma situação política e social em frangalhos é o quadro que se apresentava do país quando a guerra começa a se amainar. Mas ainda havia muita diferença interna a ser sanada, os refugiados a serem controlados e os vizinhos a se retirarem: o caminho para o fim completo da guerra era ainda longo em 1988.

Assim, viver na diáspora libanesa significa também assistir a ausência de uma guerra exterior, mas viver essa mesma guerra por meio da família envolvida no país

ausente. Configura-se assim um sentimento árabe e nacional , e até libanês, devido as intervenções indiretas e diretas dos europeus, Israel e Síria. De modo que a identidade libanesa representa uma âncora imaginária específica frente a um país em plena fragmentação. Desta forma, se inverte a ideia de Hall de que o pós-colonialismo se constrói com identidades fragmentadas como imagens de convivência em diversidade, mas aqui surge uma imagem homogênea sem correspondência na realidade vivida fragmentada para promover a des-colonização.