CAPÍTULO II – O ASSOCIATIVISMO CULTURAL COMO CONTEXTO
2.5. A heterogeneidade e as dissonâncias culturais
A abordagem de Bernard Lahire relativamente à heterogeneidade cultural e focada na importância do comportamento intra-individual, não exclui, por completo, a existência de desigualdades sociais decorrentes de capitais culturais diferentes. O autor propõe que
... alterando a nossa escala de observação, seremos capazes de ter uma imagem mais elástica do mundo social. Isso começaria por considerar que as diferenças internas no leque de comportamentos e de gostos de cada indivíduo (variações intra-individuais: a mesma pessoa faz isto e aquilo, gosta disto mas também gosta daquilo, gosta disto porém detesta aquilo, etc.) antes de voltar às diferenças entre classes sociais (variações inter-classistas) de forma a que possamos ter uma representação do mundo social sem negligenciar as singularidades individuais e evitar caricaturar culturalmente os grupos sociais (Lahire, 2008: 167-168).
A produção das variações intra-individuais do comportamento cultural podem ser lidas pela exposição do indivíduo a influências socializadoras heterogéneas, nomeadamente, segundo o efeito de uma trajetória social ascendente ou descendente ou pela mobilidade profissional; o efeito de uma rede de relações culturais diversificadas; o efeito de fazer parte de um casal relativamente heterogâmico do ponto de vista cultural; o efeito de interiorização de preferências na escola que não sejam as mesmas que transmitidas em casa; o efeito de pressões contraditórias experienciadas pelos jovens na escola (entre os grupos de pares, escola e família); o efeito de influências de socialização contraditórias decorrentes de autoridades culturais rivais (família, escola, televisão, imprensa, etc.); o efeito de influências culturais no seio familiar, etc. (Lahire, 2008: 174). Estas influências sociais levam-nos a percecionar a existência de perfis culturais dissonantes, em que o conflito entre grupos e instituições sociais moldam diferentes maneiras de produzir gostos e de determinar consumos, ou seja, moldando as práticas culturais.
No seguimento desta perspetiva, outros autores debruçaram-se sobre a questão, nomeadamente Eijck (1999), Christin (2010) e Peterson e Kern (1996), tentando compreender como é que as pessoas se distribuem pelos diferentes gostos e estilos musicais e que razões estão por detrás dessas escolhas. Embora a questão dos níveis culturais já tenha sido abordada, este subcapítulo pretende analisar de que forma os gostos, e as razões por detrás da formação dos mesmos, podem inverter, ou não, a hierarquização da cultura e as desigualdades de acesso à cultura, consideradas, não raras vezes, à priori.
O comportamento em relação às práticas culturais e ao posicionamento dos indivíduos nos gostos ditos “próprios de cada classe” tem-se tornado cada vez mais imprevisível. Segundo um estudo levado a cabo por Eijck (1999: 309-328), realizado a partir de uma amostra de 1.163 indivíduos holandeses, os padrões culturais de consumo não estão claramente organizados entre alta cultura, por um lado, e cultura popular/baixa, por outro. O autor refere que, por força da expansão da educação, a influência da herança sociocultural da família tem perdido importância. Esta expansão levou, principalmente, à mobilidade social reproduzindo impactos na participação cultural e no posicionamento dos indivíduos nos níveis de cultura. Através desta pesquisa, o autor afirma que, sobretudo entre os inquiridos com maiores habilitações, há uma tendência para a diminuição do interesse na alta cultura. Porém, Eijck refere, citando Connor (1997), se partirmos do princípio que a perda de interesse num domínio poderá levar ao ganho de interesse por outro,
Este efeito provavelmente explica por é que o aumento dos níveis médios de educação não levou ao aumento correspondente no interesse pela cultura erudita, mas sim a uma reavaliação de certas formas de cultura popular, que parecem estar a ganhar legitimidade (Eijck, 1999: 325).
Desta forma, neste novo grupo de pessoas que tiveram acesso a educação e, por isso, independentemente do grupo social de origem, são hoje denominadas por novas classes médias, há uma propensão para apreciarem quer a alta cultura como a cultura popular, fazendo com que desenvolvam padrões de consumo heterogéneo. Esta heterogeneidade levará, tendencialmente, a estilos de vida mais omnívoros e diversificados ao nível do individual (Eijck, 1999: 326).
Uma questão que foi levantada em relação aos gostos, particularmente partindo do pressuposto que são socialmente construídos, era se ao serem estudados países com tradições culturais, artísticas e históricas muito distintas, a distribuição por gostos ou por níveis de cultura seria igualmente distinta. No sentido de responder a essa dúvida, Christin (2010) analisou dados relativos aos gostos musicais em França e nos Estados Unidos da América, partindo de duas
teorias, a hipótese de distinção, em que autores franceses defendem que indivíduos com gostos “elevados” (ou de alta cultura) evitam a cultura popular; e a hipótese omnívora, desenvolvida por sociólogos americanos, que afirmam que segundo as suas informações, os inquiridos mais “intelectuais” têm uma atitude face aos gostos mais tolerante e omnívora. Embora tenham sido conduzidos estudos anteriores que afirmem a existência de cada uma dessas realidades em cada país, os dados analisados pela autora concluíram que tanto em França como nos EUA os indivíduos com maiores níveis de educação têm gostos mais omnívoros, levando a acreditar que essas diferenças detetadas em estudos anteriores tenham surgido de gerações passadas e de construções de modelos de análise muito distintas (Christin, 2010: 2-29).
Por último, Peterson e Kern (1996), com base num anterior artigo de Peterson e Simkus (1992), compararam resultados dos inquéritos de 1982 e 1992 e testaram a hipótese da alteração do gosto. Confirmaram que os intelectuais são mais omnívoros que os outros e que se têm tornado cada vez mais omnívoros ao longo do tempo. “Acreditando que esta mudança se deve a políticas de grupos de status, influenciadas por mudanças na estrutura social, de valores e na dinâmica do mundo da arte e por conflitos geracionais” (Peterson e Kern, 1996: 900).