2. O IMAGINÁRIO NAS REPRESENTAÇÕES DO FEMININO
2.3. A HETEROGENEIDADE NOS DISCURSOS FEMININOS
Apoiando-se no dialogismo bakhtiniano, que considera a palavra como “um fenômeno ideológico por excelência”, e na psicanálise lacaniana, que concebe o sujeito como clivado, dividido entre inconsciente e consciente, Authier-Revuz assegura que o discurso não se reduz a um dizer explícito, tendo-se em vista que é permanentemente pontuado pelo inconsciente. Para ela, todo discurso é heterogeneamente constituído:
Constitutivamente, no sujeito e no seu discurso está o Outro, [nele] reencontram-se as concepções do discurso, da ideologia e do inconsciente, que as teorias da enunciação não podem, sem riscos para a lingüística, esquecer (AUTHIER-REVUZ, 1990, p. 28).
Além dessa “heterogeneidade constitutiva” dos discursos, Authier-Revuz (1990) refere-se também à “heterogeneidade representada” que seriam as marcas do outro inscritas na seqüência do discurso: aspas, discurso direto, discurso indireto livre, ironias etc. O sujeito, na impossibilidade de fugir da heterogeneidade, característica do discurso, e na ilusão de ser a origem do que diz, situa o outro, demarca seu território da linguagem e deixa transparecer, através dessas marcas explícitas, sua presença, para circunscrever o próprio espaço. Elas também se manifestam em forma de rupturas, fraturas que intervêm no fio discursivo, pondo em confronto a identidade-alteridade do sujeito. Tais marcas articulam-se com a heterogeneidade característica da linguagem, não marcadas na superfície, mas presentes na interdiscursividade.
Heterogeneidade consistiria, portanto, na presença de outros sujeitos, marcados nos discursos, na multiplicidade de vozes que os atravessam, resultando em um texto ilusoriamente uno, homogêneo e despojado de conflitos.
Orlandi (1990, p. 40) faz uma crítica à concepção de heterogeneidade desenvolvida por Authier-Revuz, por julgar que ela não é representável, já que “é do escopo do interdiscurso”. Segundo ela, não se deslindam seus elementos através das marcas do discurso ou por seus componentes (a e b), eles só são recuperados “pelo jogo das diferentes formações discursivas”. Também pondera que a noção de heterogeneidade “não considera a natureza da relação entre diferentes”, muito embora faça alusão ao enunciável e não apenas ao gramatical e atribua a produção do sujeito à ilusão necessária e constitutiva do seu modo de enunciação. Ademais, “produz, no dizível, um recorte importante: não o que não se diz (o não-dito de Ducrot), mas o dizer do outro no um”.
Ainda que considere esses aspectos importantes, julga que são insuficientes para abranger certas questões, como, por exemplo, a do silêncio, “esquecida na noção de heterogeneidade”. Ressalta, então, o alcance metodológico da noção de paráfrase, que permite observar a relação entre diferentes sujeitos (tanto no interior da mesma formação discursiva, como entre formações discursivas diversas), tendo-se em vista que essa relação é atravessada por um jogo de evidências e efeitos, o que, contraditoriamente, implica a obscuridade dos limites dos sentidos e dos sujeitos.
[...] para dar conta da exterioridade que constitui o discurso, é preciso apreender as relações entre formações discursivas. Essas relações, representantes da relação com a exterioridade, se remetem ao interdiscurso, sendo este definido como o lugar de constituição dos sentidos, a verticalidade (do domínio da memória) do dizer, que retorna sob a forma do pré-construído, o já-dito. [...] (ORLANDI, 1990, p. 42).
São procedentes os posicionamentos de Orlandi, no entanto as noções de heterogeneidade e de paráfrase não se excluem, ao contrário, se complementam. Todo discurso atesta sua relação com outros e com o interdiscurso. As paráfrases, por serem formas diferentes de dizer o que outros disseram, trazem em si o dizer de outros e/ou o interdiscurso que as originou.
Tanto através dos dizeres dos outros inscritos nos discursos, como através das paráfrases, é possível sondar os vestígios de alteridade, apreender a relação entre as formações discursivas e as formações ideológicas, chegar aos interdiscursos e dar conta da exterioridade constitutiva dos discursos.
Na análise dos discursos femininos da revista Renovação, é nossa pretensão verificar a presença da heterogeneidade nos discursos e como ela se manifesta. Além da heterogeneidade constitutiva, evidenciada pela presença dos interdiscursos, como se evidencia a heterogeneidade representada? Percebe-se, nessa última, uma ação consciente, lúcida, uma intencionalidade ou não?
Analisaremos, agora, em algumas passagens dos discursos femininos da revista Renovação26, como a heterogeneidade se apresenta:
SD1. O feminismo que eu esposo, brasileiras, é aquelle que leva a mulher a intervir na sociedade, nesta hora sombria, afim de ajudar o homem a acertar com o verdadeiro caminho da vida. Conscias da excelsa missão dada por Deus à mulher – “ajudadora do homem”, desempenhemo-la com o feminismo sobranceiro,
26
Os discursos femininos da revista Renovação analisados serão identificados de agora em diante com o símbolo SD (segmento discursivo), sendo numerados de acordo com a ordem em que se apresentam.
diffundido a educação desde o lar, à função mais nobre e elevada que venhamos a exercer no seio da sociedade [...] Fóra do lar, exercendo qualquer outra função na atividade social, não se esqueça a mulher de que a sua função por excelência é educar. Assim, comprehendida a nossa missão, triumphante será. o nosso feminismo que não visa fazer frente ao homem, em quem reconhecemos o rei da creação, mas ajudá-lo, elevando-o até o fastígio da victória, onde pelas mãos femininas, será justamente coroado (PENÉPOLE, 1931, n. 12, p. 18).
No segmento acima, retirado da revista Renovação, observa-se um discurso atravessado por outros ou, melhor dizendo, constitutivamente heterogêneo, pois, embora em defesa de idéias feministas do início do século XX, como a própria autora confessa ao dizer “o feminismo que eu esposo”, nota-se, claramente, a interdiscursividade em reformulações parafrásticas que denotam o imaginário construído sobre a função e o papel social destinados à mulher na sociedade patriarcal: “excelsa missão dada por Deus à mulher”; “ajudar ao homem”; “sua função por excelência é educar”; “difundir educação desde o lar”; “é seu dever ajudar o homem”. Essa montagem discursiva, ao apelar para as redes de memória patriarcal e religiosa, põe em relevo uma filiação identificadora que vai gerar novos efeitos de sentido.
Ao espaço da atualidade (a reivindicação das mulheres por direitos que lhe são negados, o movimento feminista), articula-se o espaço da memória (a lembrança do espaço e do papel predestinados à mulher desde tempos imemoriais), provocando assim efeitos de sentidos diversos que tanto poderão dar ênfase à inter-relação desses “espaços discursivos temporais” 27 acatando-a, como poderão negá-la, rejeitando-a. A promessa de não abandonar o espaço do lar e de dar continuidade a sua “nobre missão” de “ajudar ao homem e educar”, mesmo atuando em outra esfera, pode ser interpretada ou como um aprisionamento a uma formação discursiva dominante, ou como um artifício para obter o efeito de sentido pretendido.
Há um contraponto entre dois pólos, um que tem o sentido de oposição ao estabelecido e outro de conciliação, podendo tratar-se de uma estratégia para que se harmonizem posições com o fito de conquistar concordância e adesão de interlocutores. Essa interpretação parece-nos admissível, pois o enunciador declara explicitamente “nosso feminismo não visa fazer frente ao homem em quem reconhecemos o rei da creação”. Talvez seja uma forma tática de persuadir os leitores e angariar adeptos à causa defendida, no caso as “brasileiras”, a quem o apelo é dirigido.
Percebe-se a formação dos sentidos a partir do que Orlandi (1994, p. 11) postula como “regiões de confronto”, que, segundo ela, se encontram em constante mudança. Há,
27
Lima (1999, p. 260), trabalha com essa nomenclatura, ao se referir aos espaços da atualidade e da memória.
nesse segmento discursivo, o confronto de posições: por um lado a da feminista que retira a mulher do espaço a ela reservado (o lar) para, também, intervir na sociedade (espaço do homem); por outro a ação do interdiscurso, advertindo-a da decantada “missão” feminina de ajudar o homem, de educar etc. Tal enfrentamento provoca um movimento de sentidos, reafirmando a hipótese da ocorrência de enunciados que se sobrepõem e apontam para a gestação de novos sentidos. Trata-se de uma estratégia que objetiva harmonizar posições e angariar simpatias à causa defendida.
Pêcheux (1988), ao falar sobre as formas-sujeito do discurso, nos dá indícios de “ação consciente” naquela que ele caracteriza como “mau-sujeito”, aquele que questiona, duvida, contesta, luta contra a evidência ideológica. “Em suma, o sujeito, “mau sujeito”, “mau espírito”, se contra-identifica com a FD que lhe é imposta pelo interdiscurso [...]” (Pêcheux, 1988, p. 215).
Entende-se que, ao se contra-identificar com a FD presente no interdiscurso, o “mau-sujeito” manifesta uma atitude consciente que implica o reconhecimento da ação da ideologia, reagindo a seus imperativos, desde que a questiona, a argüi, a ela se contrapõe, apresenta posicionamentos, argumenta, enfim usa de estratégias discursivas que comprovam a presença de um “querer dizer” e a consciência do que diz. Vejamos como isso se dá:
SD2. Entre os muitos preconceitos de que está cheio o mundo, um há que diz ser as mulheres de inteligência apoucada, fraca e sem coragem. Quem conhece então a psicologia feminina verifica que a mulher tem capacidade igual à do homem. Todas as profissões lhe são acessíveis, embora nem todas lhe sejam convenientes. O que se dá com a intelligência, também se dá com a coragem. Fácil é a demonstração desta verdade. Os fatos ocorrem-nos ás dezenas (VLASHA, Renovação,1931, n. 10, p. 9).
Nesse segmento, por exemplo, a heterogeneidade se manifesta através da presença de duas formações discursivas distintas: uma, dominante, que denuncia o preconceito de “serem as mulheres de inteligência apoucada, fraca e sem coragem”. Outra, a dos conhecedores da psicologia feminina na qual a autora se inclui, considera que “a mulher tem capacidade igual a do homem” e defende que “todas as profissões lhe são acessíveis”. Ao engajar-se a essa última formação discursiva, o sujeito do discurso tenta distanciar-se da FD predominante a ela contrapondo-se. Observa-se, nesse caso, o uso consciente de uma estratégia discursiva, ao tentar distanciar-se e desqualificar o discurso corrente e apresentar outro, que também é o seu, caracterizando-se, assim, como “mau sujeito”, por se contra- identificar com a FD imposta pelo interdiscurso.
Logo em seguida, entretanto, se evidencia a ação do inconsciente. Um ato falho, um deslize que leva o discurso a cair novamente em lugar comum, ao apresentar uma formação discursiva, de origem patriarcal, que limita a função das mulheres, por considerá-las de constituição física frágil e pouco ânimo e, socialmente, incapazes para iniciativas de maior alcance ou para exercer profissões que exigissem maior esforço e empenho: “embora nem todas lhe sejam convenientes”.
O exemplo dado confirma que o inconsciente, vez por outra, aflora e se revela através da linguagem, que escapa e está sujeita a equívocos, falhas, deslizes. O deslizamento, as rupturas na cadeia significante (a linguagem) são a presença material desse sujeito do inconsciente.
Assevera Mariani que Pêcheux, ao colocar a unidade do sujeito em questão, recorre à psicanálise, procurando diferenciar o sujeito enquanto efeito do inconsciente (“je”), representado pelo significante, e o sujeito que ilusoriamente se julga como unidade (“moi”ou ego-imaginário). A cada falha, a cada lapso cometido, que denunciam sua divisão inconsciente, o sujeito se reconstrói como se fosse uno, deixando vestígios na linguagem. Segundo ela...
Considera-se, então como enunciação a presença do sujeito do inconsciente no discurso “consciente”, ou seja, o deslizamento, as rupturas na cadeia significante são a presença material desse sujeito do inconsciente. Trata-se de algo fugaz, não previsível, não controlado e que de algum modo mostra para o sujeito (moi) a sua falta e incompletude do simbólico (MARIANI, 2003, p. 69).
No segmento abaixo, ao referir-se aos diversos discursos que circulam sobre as feministas, a heterogeneidade mostra-se a descoberto, muito embora não se usem aspas para indicar quem os profere. No entanto, são utilizados outros recursos no relato, em especial, o discurso indireto e a ironia:
SD3. [...] as feministas são descritas como criaturas à parte, na sociedade, mulheres pouco amáveis, rígidas, chegando às raias da grosseria, absorventes, autoritárias, incompatíveis com os misteres de esposa e mãe, desumanisadas, portanto. Outros, os anti-feministas desvirtuam as mais nobres aspirações femininas, desmerecem as suas realizações mais bellas e originaes, dando, a cada sonho novo da mulher, intenção mais ou menos duvidosa. Ainda há os que (e estes são meus amigos) feministas por penetração mental, recebem os nossos emprehendimentos entre surprezos e enthusiasmados, incentivam-nos, ajudam-nos, como quem incentiva e ajuda a descoberta de algum novo habitante sideral, cuja finalidade ainda não se conseguiu explicar. Os que comprehendem a mulher intelligente, culta, útil á pátria e á família, são tão raros que não podem formar uma classe á parte. Constituem as excepções. Os do primeiro grupo, os medíocres, não nos fazem mossa. Nós, as
feministas, já não perdemos tempo em combatel-os. Ao contrário, ridiculamente, seus prosélytos nos combatem, a qualquer propósito, no lar, que desertam, na rua onde fazem o lar, na aula, que desvirtuam, na contínua obsessão de embrutecer e afastar da vida social e patriótica a mulher que lhes deu a vida. Só os últimos nos interessam - os que nos auxiliam, por inspiração, sem nos entenderem, os que nos comprehendem e collaboram comnosco na evolução social (MARIA RITA, Renovação,1931, n. 11, p.1).
Uma multiplicidade de vozes está aí representada: a da “sociedade”, que descreve as feministas como mulheres “incompatíveis com os misteres de esposa e de mãe”; a dos “anti-feministas”, que atribuem “intenção mais ou menos duvidosas” a seus sonhos desmerecendo suas realizações; a dos “feministas por penetração mental”, que as “auxiliam, por inspiração,” mesmo sem as entender; e finalmente os que as “compreendem” e com elas “colaboram”.
Além dessas vozes aludidas, há a do próprio sujeito do discurso, que emerge e se faz distinguir das demais pelo uso da primeira pessoa do plural, o nós, e pelo tom de sarcasmo e ironia que utiliza tanto ao caracterizar as diferentes vozes sociais a que faz referência, como ao tecer comentários ao que elas dizem. Para tanto, separa-as em dois grupos distintos: o primeiro formado pelas vozes dissonantes, ou seja, o dos considerados “medíocres”, que criticam as feministas e procuram depreciar seus feitos, ao qual revida através de estratégia ardilosa que denota descaso, menosprezo; o segundo grupo, constituído pelas vozes dos que as apóiam, ajudam-nas ou as compreendem, “as exceções”, pelo qual manifesta interesse, embora se verifique em suas palavras certa dose de ironia..
Ao falar sobre a ironia, Maingueneau (1997, p. 99) adverte-nos:
[...] é um gesto dirigido a um destinatário, não uma atividade lúdica, desinteressada. A maior parte dos analistas prefere vê-la como um gesto agressivo; outros [...], como um gesto neutro e até mesmo uma atitude defensiva, destinada a desmontar certas sanções ligadas às normas da instituição da linguagem.
Assim como Maingueneau, julgamos que a ironia também pode ser interpretada como atitude defensiva em relação aos adversários. É o que percebemos nessa passagem do SD3:
Os do primeiro grupo, os medíocres, não nos fazem mossa. Nós, as feministas, já não perdemos tempo em combatel-os. Ao contrário, ridiculamente, seus prosélytos nos combatem, a qualquer propósito, no lar, que desertam, na rua onde fazem o lar, na aula, que desvirtuam, na contínua obsessão de embrutecer e afastar da vida social e patriótica a mulher que lhes deu a vida (Maria Rita, Renovação, 1931, n. 11, p. 3).
Outro recurso utilizado pelo sujeito do discurso é o uso do “nós” que transmite a idéia de conjunto de pessoas, de coletividade. Na verdade, o enunciador utiliza uma voz coletiva em que a sua se inclui: a das feministas, que formam um grupo com afinidade de interesses e objetivos.
Bakhtin (1988) diferencia as atividades mentais do “eu” e do “nós”. Segundo ele,”a diferenciação ideológica, o crescimento do grau de consciência são diretamente proporcionais à firmeza e à estabilidade da orientação social. Quanto mais forte, mais bem organizada e diferenciada for a coletividade no interior da qual o indivíduo se orienta, mais distinto e complexo será seu mundo interior”. Sem dúvida, as feministas, ao se organizarem em grupos, em coletividades, se fortaleceram e se distinguiram ideologicamente de outros grupos sociais, aumentando, assim, seu grau de consciência e, portanto, aparelhando-se interiormente para uma possível luta.
O uso do nós dá idéia de posições partilhadas, de ações coletivas, de objetivos comuns, enfim se dá a mudança do sujeito indivíduo para o “sujeito político”. Adotando-se esse entendimento, é possível asseverar que a autora do segmento discursivo acima, utilizando-se do termo nós ao dirigir-se às mulheres, em especial às feministas, busca, através dessa referência pertencente à esfera de um espaço público partilhado, a positivação política de seu discurso.
A positivação política pode ser entendida como a eficácia coletiva do que apresenta, ou seja, o compartilhamento de idéias e proposições que se impõem como evidências, levando os indivíduos a assumirem-nas como se fossem próprias. Nota-se que a enunciadora fala em nome das feministas, incluindo-se entre elas, constituindo, assim, um novo lugar social.