SÉCULO XX Autores brasileiros:
1.14 A HETERONORMATIVIDADE E A CISNORMATIVIDADE
Analisando pela ótica de Margaret Mead, a nossa sociedade foi, de fato, criadora de inúmeras chaves para se normatizar e normalizar a sexualidade dos sujeitos, a criação da
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homossexualidade que já existia sem ser denominada desde que a humanidade habita a terra, foi inventada no século XIX pelos discursos científicos, como forma de normatizar os corpos dentro de uma lógica heterossexual e nesse sentido a heteronormatividade ganha espaço como um forte marcador de limites da sexualidade dos sujeitos e esses discursos se estendem para o âmbito do direito, religião e de forma ampla pela sociedade ocidental, e uma única forma desses indivíduos serem reinseridos no meio social, seria através de uma aceitação de cura para sua dita ―anormalidade‖
É novamente no campo feminista que surge uma fundamental discussão através de Adrienne Rich (2010) sobre a heteronormatividade, que analisa e propõe a ideia da heterossexualidade como uma instituição política capaz de retirar o poder das mulheres, portanto, ela tece pertinente crítica a uma ideologia que ela chama de ―heterocentricidade‖, que inclusive é alimentada até mesmo por feministas, que promoveram dentro do próprio movimento, seja na teoria ou na prática, a exclusão das mulheres lésbicas e essa falta de sororidade29 acabou por legitimar inúmeras violências cotidianas contra elas.
A autora reflete sobre o boom que ganharam as discussões lésbicas no feminismo com a produção textual surgida entre as mulheres lésbicas brancas e também das mulheres negras e demais raças, sendo que estas visualizaram em suas análises a duplicidade da opressão que sofriam, não só por serem lésbicas como também por serem de cor. Nesse sentido, a reflexão Adrienne Rich nos leva a pensar dentro da perspectiva desta tese como não só o movimento feminista apagou as mulheres de cor e lésbicas, como também negligenciou as mulheres trans no geral e, em especial, as trans de cor.
Das contundentes críticas proferidas ao feminismo, Adrienne Rich acredita que é no interior deste movimento que há a possibilidade de se discutir e eliminar os discursos excludentes e principalmente atacar o sucessivo reforço que a sociedade faz de destinar e manter a heterossexualidade para as mulheres, o que consequentemente acaba por manter e
29―La sororidad es la alianza feminista entre las mujeres. Sororidad (del latín soror, sororis, hermana, e -idad,
relativo a, calidad de; en francés, sororité, en italiano sororitá, en español, sororidad y soridad, en inglés, sisterhood); enuncia los principios ético-políticos de paridad, ausencia de jerarquía patriarcal, y relación paritaria entre mujeres. Términos relativos: sororal, sórica, sororario, en sororidad. Se asemeja al affidamento enunciado por el Colectivo de la Librería de Mujeres de Milán, al propiciar la confianza y el apoyo entre las mujeres. La sororidad es una dimensión ética, política y práctica del feminismo contemporáneo. Es una experiencia subjetiva de las mujeres que conduce a la búsqueda de relaciones positivas y a la alianza existencial y política cuerpo a cuerpo, subjetividad a subjetividad con otras mujeres, para contribuir a la eliminación social de todas las formas de opresión y al apoyo mutuo para lograr el poderío genérico de todas y el empoderamiento vital de cada mujer. La sororidad es la conciencia crítica sobre la misoginia, sus fundamentos, prejuicios y estigmas, y es el esfuerzo personal y colectivo de desmontarla en la subjetividad, las mentalidades y la cultura, de manera paralela a la transformación solidaria de las relaciones con las mujeres, las prácticas sociales y las normas jurídico políticas.‖ (RÍOS, 2012, p. 543).
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legitimar um direito masculino sobre elas, logo se faz mister romper dentro da dinâmica feminista com essa heterossexualidade ―nata‖ imposta as mulheres.
Adrienne Rich também atribui o apagamento das mulheres lésbicas na história, a sumária exclusão e violência sofrida por elas nos discursos científicos, por isso, informa que optou pelo termo,
existência lésbica e continuum lésbico porque o termo lesbianismo tem alcance limitado e clínico. Existência lésbica sugere tanto o fato da presença histórica de lésbicas quanto da nossa criação contínua do significado dessa mesma existência. Entende que o termo continuum lésbico possa incluir um conjunto ao longo da vida de cada mulher e através da história de experiências de identificação da mulher, não simplesmente o fato de que uma mulher tivesse alguma vez tido ou conscientemente tivesse desejado uma experiência sexual genital com outra mulher [...] A existência lésbica inclui tanto a ruptura de um tabu quanto a rejeição de um modo compulsório de vida. É também um ataque direto e indireto ao direito masculino de ter acesso às mulheres. Mas é muito mais do que isso, de fato, embora possamos começar a percebê-la como uma forma de exprimir uma recusa ao patriarcado, um ato de resistência. Ela inclui, certamente, isolamento, ódio pessoal, colapso, alcoolismo, suicídio e violência entre mulheres. Ao nosso próprio risco, romantizamos o que significa amar e agir contra a corrente sob a ameaça de pesadas penalidades. E a existência lésbica tem sido vivida (diferentemente, digamos, da existência judaica e católica) sem acesso a qualquer conhecimento de tradição, continuidade e esteio social. (RICH, 2010, p. 35-36).
A autora tem toda razão ao externar a necessidade de se romper com a palavra lesbianismo que é carregada de patologia assim como homossexualismo, travestismo, transexualismo e hermafroditismo, comumente usados nos livros de Medicina Legal como forma de conceituar tais identidades, orientações sexuais e intersexualidade. Os sufixos ismos, que delegam a essas pessoas um estigma de patologização.
Adrienne Rich que analisa pelo seu lugar de fala, enquanto mulher lésbica mostra que historicamente a lesbianidade foi associada como o feminino da homossexualidade masculina, e por esse motivo se gerou um apagamento ainda maior na existência dessa orientação sexual, que é agravado pelo fato das mulheres já serem excluídas desde que se escreve a história da humanidade e com o reforço dos discursos científicos sobre a sua inferioridade com relação aos homens, se agrava ainda mais quando essa mulher se reconhece enquanto lésbica carregando fortemente os estigmas, que delegam a elas a exclusão e violências no âmbito familiar e fora dele, desigualdade ainda maior no mercado de trabalho com relação aos homossexuais masculinos e também a experiência da maternidade, que não pode ser comparada com a experiência masculina dos homossexuais.
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Outra questão não menos importante levantada pela autora, enquanto mentira dos discursos disseminados, é de que a orientação sexual das mulheres se voltem para a lesbianidade pelo fato de terem tido alguma decepção amorosa, ódio dos homens e loucura. Essa questão será levantada na segunda parte, quando analiso a questão lésbica nos livros de Medicina Legal e aqui já adianto um trecho do que encontrei na edição de 2011.
Homossexualismo feminino - também chamado de safismo, lesbianismo ou tribadismo. É muito mais comum do que se pensa. Vai desde os ciúmes
perseguidores até a prática de atos libidinosos. Existem como na inversão masculina, graus variados que vão desde os tipos masculinizados (feições, hábitos, disfarces e maneiras de se portar) até os tipos femininos, delicados e ternos, nos quais jamais se poderia pensar numa inversão sexual. Também se distingue em ativas e passivas. Começa essa inversão muitas vezes em colégios, internatos, presídios, conventos e até nos prostíbulos, pelas amizades estreitas e continuadas. Não é raro encontrar-se uma lésbica, com filhos assumindo uma dupla personalidade, muitas vezes sem nenhuma aparência. A promiscuidade, o receio da gravidez, as decepções com os homens, os maus-tratos dos maridos, a educação moderna, a nova literatura, o comportamento masculino na atualidade, aproximando-se do unissexo, e a solidão podem ser considerados, entre outros, como elementos da gênese dessa anomalia. A chamada emancipação da mulher através dos
princípios definidos pelos movimentos feministas e o exagero da liberdade que se apregoa têm determinado, sem dúvida, o aumento assustador do safismo. (FRANÇA, 2011, p. 275- 276). (Grifos meus). Com essa citação em pleno século XXI, podemos perceber o quanto os discursos excludentes sobre as orientações sexuais já despatologizadas continuam sendo abordadas nesses livros de forma preconceituosa e o mais grave, de como esses livros são acessados por alunos do curso de direito e Medicina, duas profissões com grande prestígio e que regem hierarquicamente nossa sociedade.
Retorno a Adrienne Rich com a necessidade de expor a sua definição de continuum lésbico, como um conceito que busque evidenciar o cotidiano lésbico enquanto mulheres, que sofrem opressões já comuns as mulheres heterossexuais, porém duplicadas pelo fato de serem lésbicas. Nesse sentido, sugere que diferentes campos como o da história, da política e da economia precisam dar conta em responder como a heterossexualidade se mantém, de como a história da resistência das mulheres tem sido ignorada, invisibilizada e apagada.
Através da análise dos livros de Medicina Legal, o que vemos de discurso da ciência em geral, da área jurídica e da religião nas sociedades contemporâneas, não difere de discursos de outrora, onde repetem a norma regulatória que supõe um ―alinhamento (entre sexo-gênero-sexualidade) dá sustentação ao processo de heteronormatividade, ou seja, à produção e à reiteração compulsória da norma heterossexual‖. (LOURO, 2009, p. 90).
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Mas heteronormatividade compulsória não caminha solitária no processo de normatização, pois como denuncia Bagagli (2017) a cisnormatividade compulsória também precisa ser questionada e combatida.
Pudemos concluir que nem todas as heterossexualidades e homossexualidades são as mesmas, o que implica dizer, frente aos relatos que analisamos, que nem toda sexualidade é cisgênera, ou seja, nem toda sexualidade centra-se em parceiros e cônjuges cisgêneros e suas respectivas corporeidades para ―fazer sentido‖ ou simplesmente para existir. Diante os relatos de pessoas trans, que possuem tanto um teor descritivo de suas vivências quanto crítico e analítico das normas sociais, podemos compreender que não apenas a heterossexualidade é compulsória, mas também é a cisgeneridade, assim como a norma não ser apenas heterossexual, ela também é cisgênera. Neste processo, podemos observar como o imbricamento de questões de gênero e sexualidade – no que diz respeito à analítica das normas heterossexuais e cisgêneras - não é óbvio quando tratamos de vivências transgêneras, tendo em vista que os estudos feministas e de gênero ainda parecem tratar estas duas questões de maneira ainda estanque, num desdobramento entre sexualidade e gênero que ainda produz pontos cegos na teoria – ora desconsiderando as não heterossexualidades a partir de corporeidades trans, ora presumindo as não- cisgeneridades a partir de vieses cissexistas (que conjugam tanto a compulsoriedade como a deslegitimação da identidade heterossexual a partir de uma posição trans). (P. 2)
A autora também alerta para a não visualização do campo feminista envolvendo as complexidades de gênero e sexualidade que se torna perigoso, no sentido de legitimar que a população trans esteja enquadrada nas normas binárias, onde a identidade de gênero esteja para a orientação sexual oposta, cooperando para o estranhamento e não aceitação das mulheres trans lésbicas, os homens trans gays e tantas outras possibilidades.
A problematização do conceito de cisnormatividade pelo feminismo trans denuncia a normalização e normatização através da genitália como sendo definidora não só da identidade de gênero, como também da orientação sexual, pois
A heteronormatividade presume a cisnormatividade, na sua legitimação dos relacionamentos heterossexuais. Isso é: pressupõe também a inexistência ou a marginalização de pessoas trans – pressupõe também a possibilidade de ―curar‖ pessoas trans, pra que se reconheçam dentro da identidade que lhes foi assignada pelo estado [...] E se trata, também, de heteronormatividade quando mulheres trans lésbicas são lidas enquanto ―homens heterossexuais que se vestem de mulher‖. Quando se nega às mulheres que amam e se relacionam com mulheres trans o reconhecimento de que estão se relacionando com uma mulher – negando que se trata de um relacionamento entre mulheres – pressupõe-se a heterossexualidade como um destino determinado pelos corpos ali envolvidos. A heteronormatividade se amarra, aqui, com o cissexismo – pelo pressuposto de que nossas genitálias ocupam um caráter central na definição de quem somos – de modo a pressupor que
79 nossas orientações afetivas se definem pela genitália. (CABRAL, 2017, p. 4).