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2. SEÇÃO II – SEXUALIDADES, SABERES E PODERES

2.3. A heteronormatividade e a heterossexualidade compulsória

Por heternormatividade, entende-se a produção de práticas e códigos heterossexuais, sustentada pelo casamento monogâmico, amor romântico, fidelidade conjugal, constituição de família (esquema pai- mãe-filho (a) (s)). Na esteira das implicações da aludida palavra, tem-se o heterossexismo compulsório, sendo que, por esse último termo, entende-se o imperativo inquestionado e inquestionável por parte dos membros da sociedade com intuito de reforçar ou dar legitimidade às práticas heterossexuais.

(FOSTER, 2001).

A nosso ver, a heteronormatividade é uma ideologia constituída por saberes- poderes instituídos pela medicina, pela biologia, pela religião, pela política e pelo sistema jurídico, os quais determinam padrões de conduta e de forma de pensar. Essa ideologia institui padrões que devem ser seguidos por todos aqueles que fazem parte do mundo social. Para Miskolci (2012: 43), a heteronormatividade é “a ordem sexual do presente, constituída com base no modelo heterossexual, familiar e reprodutivo”. No entender de Borba (2015: 96) a heteronormatividade se constitui por uma miríade de “regras” e “normas” que estruturam e organizam a vida social, com base na concepção ontológica da heterossexualidade como sendo a sexualidade hegemônica. Nesse sentido, a heterossexualidade é vista como uma ordem social e discursiva que o estatuto de normatizar e reger a estrutura e a organização da vida social com base na matriz heteronormativa.

Segundo Seidman (2009) o conceito de matriz heteronormativa consiste em uma estrutura reguladora, rígida e inteligível que se constitui de mecanismos de poder coercitivos, como a repressão e a interdição. Esses mecanismos que fazem com que a heterossexualidade seja concebida como obrigatória na sociedade. Na visão de Butler (2003), a matriz heteronormativa é sistema constituído por um conjunto de pressões, expectativas e restrições sociais que, por meio de esquemas de inteligibilidade, impõe ideologicamente que o sexo e o gênero das pessoas devem ser nomeados de acordo com o seu sexo “biológico”. Nesta base, todos os seres humanos devem ser heterossexuais conforme o binarismo homem/mulher,

portanto, são pessoas que devem sentir atração sexual por pessoas do sexo e gênero opostos. Sobre isso, Lewis explica

A matriz heteronormativa é também uma matriz de inteligibilidade, uma maneira de entender, interpretar e reconhecer o mundo e as vidas. Ao não ser “inteligível” dentro das prescrições da matriz heteronormativa – ao não ser cisgênero e heterossexual, com práticas e performances heteronormativas – as pessoas não são reconhecidas como pessoas no sentido pleno (2017: 176, grifos da autora).

De igual modo, Warner (1983) reitera ao afirmar que é a noção de heteronormatividade que institui a heterossexualidade como única, legítima e natural expressão identitária e sexual reconhecida pelas sociedades heterossexistas. O heterossexismo é um conceito advindo da concepção sexista, biologizante e binarista. O binarismo é um conceito que, a priori, baseia-se na divisão binária do sexo, da sexualidade e do gênero, instituída pela concepção biologizante do sexo com base nas diferenças das genitálias que caracterizam os seres humanos, apenas, como homens ou mulheres. Aliado à lógica binarista e à noção de heteronormatividade, temos outro conceito importante: a heterossexualidade compulsória.

Em seu estudo, Lewis (2007:170) nos esclarece que o conceito de “heterossexualidade compulsória se desenvolveu, inicialmente, ao final dos anos de 1960 e início dos anos de 1970, por feministas lésbicas e ativistas do movimento para a liberação gay”. Tanto o feminismo quanto a liberação gay criticavam a heterossexualidade compulsória, a qual se tratava de um mecanismo de assujeitamento que produza, essencialmente, sujeitos heterossexuais. Esse assujeitamento se dá por meio da interpelação ideológica heteronormativa que transforma os indivíduos sociais sexuados em sujeitos heterossexuais.A heterossexualidade compulsória é um conceito cunhado em 1980 pela feminista Adrinne Rich ao realizar uma análise sobre a experiência lésbica visando constatar quais sentidos lhe são atribuídos no convívio social. Para tanto, a feminista utilizou como critério de análise uma escala que poderia identifica-los como sendo algo desviante, odioso ou indiferente.

Os resultados desse estudo apontam para o fato de que as mulheres, em geral, são convencidas de que o casamento e a orientação sexual e o desejo voltados para os homens são inevitáveis. Isto ocorre devido à interpelação ideológica do discurso romanesco heterossexual a que as mulheres são, constantemente, impingidas, desde a infância a fase adulta. A interpelação ideológica se dá pela leitura de livros de contos de fada, de romances literários, bem como pela repetição de imagens e discursos heteronormativos produzidos pelos meios de comunicação de massa.

Por meio da injunção à heterossexualidade compulsória, as mulheres são aprisionadas psicologicamente e agem de modo a se ajustarem ou a se enquadrarem ao modelo de sexualidade prescrita. De acordo com a feminista, a injunção à heterossexualidade compulsória também se aplica aos homens, porém de modo diferente em relação às mulheres. Em se tratando do público masculino, a heterossexualidade compulsória se dá por meio da ocultação ou do “mascaramento” de sua sexualidade, sobretudo se ela for uma sexualidade não normativa. A maioria dos homossexuais “ocultam” ou “mascaram” sua homossexualidade como uma forma estratégica de evitar que sejam vitimas de atos homofóbicos.

Nesse sentido, a homofobia pode ser considerada uma forma de expressão da heterossexualidade compulsória. Com isso, a heterossexualidade compulsória se apresenta como uma estratégia heteronormativa que induz a inserção de sujeitos não heterossexuais para que vivam sua sexualidade em anonimato, em segredo, no privado, enfim, no “armário gay”. A heterossexualidade compulsória é uma imposição coercitiva para que todos os seres humanos sejam ou que pareçam ser essencialmente, heterossexuais. A heterossexualidade compulsória é a exigência para que todos os sujeitos sejam heterossexuais para que sejam “reconhecidos” e “aceitos” nas sociedades ocidentais heteronormativas.

Importante dizer que há uma diferença entre a heterossexualidade compulsória e a heteronormatividade, embora eles sejam completamente inter- relacionados e dialogam entre si paralelamente. No século XIX, a heteronormatividade era concebida praticamente como se fosse a forma teórica da prática da heterossexualidade compulsória. Assim, esses dois termos eram concebidos como sinônimos, pois o que os interessaram é a normatização de todos os indivíduos com a finalidade de homogeneizar suas subjetividades e suas identidades sexuais e suas identidades de gênero com base na

heteronormatividade. Com isso, todos os seres humanos, heterossexuais ou não, passaria a se ver, a se comportar e a viver como se fossem heterossexuais, não havendo a possibilidade de expressão de nenhuma outra sexualidade não heterossexual.

Modernamente, o conceito de heteronormatividade implica em uma nova ordem social e política por meio da qual se exige todos, heterossexuais e homossexuais, organizem suas vidas a partir do “modelo” de vida heterossexual. Nesta nova acepção, considera-se que os indivíduos não-heterossexuais podem ser “reconhecidos” “aceitos” e vistos como “coerentes”, no mundo social, desde que se identifiquem com a heterossexualidade como “modelo” de vida. Segundo Pino (2007:160), tanto a heteronormatividade, bem como a heterossexualidade compulsória, podem ser entendidas como uma “obrigação social de se relacionar amorosa e sexualmente com pessoas do sexo oposto”. Portanto, os indivíduos que não seguem ou desviam da norma heterossexista passam a ser vistos como “anormais”, “desviantes”, “subversivos” e “não naturais”.

Nesse sentido, a homossexualidade passa a ser a orientação sexual “desviante” e/ou “subversiva”, uma vez que é aquela que vai de encontro à heteronormatividade. Britzman (1996:79) compreende a heteronormatividade como “uma obsessão com a sexualidade normalizante, através de discursos que descrevem a situação homossexual como desviante”. Para Miskolci (2012: 15), a heteronormatividade seria “a ordem sexual do presente, na qual todo mundo é criado para ser heterossexual, ou – mesmo que não venha a se relacionar com pessoas do sexo oposto – para que adote o modelo da heterossexualidade em sua vida”. Em nosso entendimento a heteronormatividade é o mecanismo de poder ideológico que funciona como um “dispositivo da sexualidade”. É o dispositivo da sexualidade que produz, historicamente e discursivamente, tanto a heterossexualidade quanto a homossexualidade.

De acordo com Katz (1996: 23), a invenção histórica da heterossexualidade vincula-se a história americana da homossexualidade. Katz (1996: 23-24) presume, no início dos anos 1980, que os termos heterossexualidade e homossexualidade são construções histórico-discursivas que dizem respeito a diferentes formas de dominar, pensar, avaliar e organizar socialmente os sexos e seus prazeres. De certo modo, Katz (1996) coaduna com ideia de Foucault (2009e) de historicizar a heterossexualidade assim como o filósofo francês o fez em relação à

homossexualidade ou à sexualidade de modo geral. Para Katz (1996), tratar a heterossexualidade como uma invenção histórica do século XIX é uma forma de contestar o pensamento essencialista acerca de uma sexualidade eterna, única e normalizadora. No entender do autor, “a heterossexualidade é tão antiga quanto à procriação e a luxúria de Adão e Eva, eterna como o sexo e a diferença entre os sexos daqueles primeiros seres humanos” (KATZ, 1996:25). Segundo Katz (1996:24), o surgimento tanto do heterossexual quanto do homossexual está dialeticamente relacionado à história da homossexualidade.

2.4. A homossexualidade e o sujeito homossexual – invenções do século