• Nenhum resultado encontrado

A História como imagem do processo histórico

4. Cosme: o katakopos ativo

6.1 A História como imagem do processo histórico

Como já foi acentuado por diversas vezes no decorrer deste trabalho, a História como a conhecemos tem presença marcante no desenrolar do romance. A memória do narrador Biágio, por diversas vezes a insere na narrativa, ancorando as histórias da vida de sua família nos

acontecimentos históricos que os permearam. É possível reconhecer em toda a narrativa um período histórico determinado, que se desenvolve das guerras de sucessão às ameaças da restauração, permeado por inúmeros acontecimentos, que passam pela mudança da aristocracia para as cidades, o Iluminismo, e a perseguição da Igreja aos partidários das novas idéias, a Revolução Francesa e a derrota de Napoleão na Rússia. Todos esses acontecimentos são trazidos ao texto pela memória de Biágio e acabam por representar não só a História em si, mas o desenrolar do processo histórico.

Os pais aparecem como representantes de uma série de ideais e comportamentos sociais que soam como ultrapassados, e o melhor exemplo que se pode dar para justificar tal idéia é a peruca à Luis XIV, imagem que congrega sinteticamente todos os traços do comportamento do pai, representando desde os valores aristocráticos do Antigo Regime, simbolizado pelo Rei Sol, até o desencontro do comportamento do pai que usa a peruca muitos anos já passados da morte do rei. São representantes de um contexto sócio-histórico que está em vias de superação, fato que pode ser evidenciado pelo conhecimento da História propriamente dita e que também será elucidado no desenrolar do romance. A sociedade da segunda metade do século XVIII, que será o cenário inicial do romance, se mostra, pois, como uma sociedade em processo de mudança. Nas primeiras palavras não é possível saber qual o seu destino, qual será objeto da mudança, mas é possível perceber que os pais, os adultos, como foram caracterizados pelos elementos da

cronologia longa – exterior à narrativa -, são claros representantes da esfera que será substituída,

do ponto que já parece obsoleto para a nova geração e que precisa ser abandonado. Dotado de um sentimento de repulsa pelos costumes e imposições paternas, após uma série de proibições, punições e castigos, Cosme se revolta e sobe sobre as árvores para fugir do alcance dos pais. Nesse primeiro momento da narrativa, eles são reveladores da dissonância existente entre o comportamento dos pais e a dinâmica histórico-social, o que causará a revolta da criança.

Com o desenrolar da história, Cosme e seu processo de estabilização-curiosidade- aprendizado sobre as árvores tomam o primeiro plano da narrativa, alternando, posteriormente, os níveis de importância com a História. O mais importante a se notar nesse decorrer da narrativa é que, gradativamente, a partir da vida sobre as árvores, Cosme entra em contato com o elemento novo que estava circundando seu mundo e que viria para substituir o antigo; passo a passo, tudo será mostrado paralelamente à vida do barão, tudo o que pode ser reconhecido como a História dessa segunda metade do século XVIII até os primeiros anos do XIX. O contato de Cosme com o

conhecimento humano apresenta os traços da renovação ideológica que se apresenta como guia das renovações sócio-históricas. Na progressão de sua vida apresentam-se as novas idéias e o seu processo de surgimento e estabilização, que culminará com a chegada dos protestos nas vinhas e, posteriormente, com os episódios da guerra entre os austro-sardos e os franceses. Depois de um rápido encontro com Cosme, Napoleão marcha para a Rússia onde é derrotado, o barão tem um rápido encontro com outra figura histórica: o príncipe Andrei, da Rússia, e então o contínuo desenrolar da história se esfumaça, deixando apenas revelar seu ponto final, o tempo em que Biágio escreve as histórias da vida de seu irmão, momento em que pesa “[...] sobre a Europa a sombra da Restauração; todos os inovadores – jacobinos ou bonapartistas que fossem – derrotados; o absolutismo e os jesuítas retomaram o campo; os ideais de juventude, as Luzes, as esperanças do nosso décimo oitavo século, tudo é cinzas.” (CALVINO, 2004, p.250).100 Situação que revela que o processo de renovação do qual participara Cosme não será decisivo, será ele também alvo de um período de questionamento que levará a uma nova mudança. Mudança que por significar a retomada dos posicionamentos contra os quais se havia lutado, promoverá a sustenção do momento histórico sobre um período de incertezas. Assim, é possivel identificar no romance o desenrolar do processo histórico, pois a história mantém o seu suceder-se autônomo contiguamente ao desenvolvimento da narrativa.

Contra qualquer possiblidade de enxergar nessa presença da História traços de filiação ao romance histórico, tem-se um traço decisivo para a instauração desse processo descrito no campo da figuração imagética. Se todas as referências históricas poderiam ser tomadas para se justificar tal afirmação, uma das cateogrias do romance, em especial, acaba por conferir-lhe um ar de suspenção sobre a incerteza. Em O barão nas árvores, o espaço principal é Penúmbria uma região da península itálica, ponto determinado e preciso do mundo conhecido. Cosme sai de Penúmbria e vai para Olivabaixa, lá ele conhece uma família de espanhóis. Seu irmão, Biágio, vai para França, encontra Voltaire. O que dizer desse espaço? O escritor localiza sua história numa região espacial precisa, e com referência a outras regiões conhecidas, como Itália e França. Mas onde encontrar Penúmbria? “Penúmbria não existe mais. Olhando para o céu vazio, pergunto-me se terá existido algum dia”.101 (CALVINO, 2004, p.254). Se a localização espacial, “tem por

100 [...] sull’Europa l’ombra della Restaurazione; tutti i novatori – gicobini o bonapartisti che fossero – sconfiti;

l’assolutismo e i gesuiti rianno il campo; gli ideali della giovinezza, i lumi, le speranze del nostro secolo decimottavo, tutto è cenere. (CALVINO, 2006, p.300).

101

efeito produzir a impressão de que as narrativas colocam a ação nos lugares exatos onde ela

efetivamente ocorreu,” (Freitas, 1986, p.15) é possível dizer que a ação do romance efetivamente

ocorreu em Penúmbria, um lugar que não existe mais, assim como a personagem principal da história, e que pode nem sequer ter existido. Criando esse povoado imaginário de onde se dá o contato com os acontecimetnos históricos, o processo histórico se sustenta sobre a incerteza: se Penúmbria não existiu, a ação não pode efetivamente ter se desenrolado lá, então Cosme também não existiu, se Cosme não existiu como pode, seu irmão, o narrador, que só existe em função dele, a personagem, ter existido? Tudo é invenção, não é real. Mas como pode ser invenção se Penúmbria era tributária da república de Gênova? Se Cosme encontrou Napoleão e o exército francês? A História passou por Penúmbria, o que acontece a ela se Penúmbria não existiu? O que dela resta, pois, não são os fatos bem marcados que constituiram o seu desenrolar, mas a imagem de um constante processo de renovação e alteração. Somente a partir da recostituição de acontecimentos pontuais tem-se a formação de um contínuo, pois durante o desenrolar de uma vida ela se apresenta como um ponto de incerteza ao homem que se defronta com cada um de seus acontecimentos, apresentando-lhe obstáculos e complicações a que cada pessoa reage de um diverso modo.