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A história conhecida da cidadania grega e romana

2 A DEMOCRACIA PARTICIPATIVA E SUA CONCREÇÃO POR MEIO DA

2.4 História da cidadania

2.4.2 A história conhecida da cidadania grega e romana

Passos adiante da pré-história da cidadania, faz buscar em Atenas, nos séculos V e IV a. C. e em Roma, do século III a.C. até o primeiro século desta era

Cristã, os novelos de ideias que lançam o alicerce para o modelo de cidadania dos dias atuais.

Segundo Cortina (2005, p. 34), a cidadania clássica grega e a romana geram duas tradições conceituais: uma que é política, oriunda da ideia grega de política e outra que é jurídica, nascida do civis latino. No primeiro caso, pensar a vida política do cidadão como participante da comunidade, como membro ativo dela, remonta a experiência ateniense, embora este modelo tivesse limites rígidos para este exercício: “Para Aristóteles, o status de cidadania estava limitado aos autênticos participantes nas deliberações e no exercício do poder”, dita Barbalet (1989, p.13). Dela se excluíam as crianças, as mulheres, os imigrantes e os escravos, indivíduos que permaneciam à margem da vida pública, embora participassem da sociedade com sua força de trabalho e com seus bens.

Necessário frisar que as cidades-estado são porções territoriais e políticas bem distintas do que se entende por cidade modernamente. Nascem do agrupamento de camponeses que ocupam glebas de terra e as cultivam individualmente, contudo fazem dessa união comunitária a força de defesa dos seus espaços.

De modo geral, podemos dizer que as cidades-estado formavam associações de proprietários privados de terra. Só tinha acesso à terra, no entanto, quem fosse membro da comunidade. As cidades-estado foram o resultado do fechamento, gradual e ao longo de vários séculos, de territórios agrícolas específicos, cujos habitantes se estruturaram, progressivamente, como comunidades, excluindo os estrangeiros e defendendo coletivamente suas planícies cultivadas da agressão externa. (GUARINELLO, 2013, p. 32).

O indivíduo era estreitamente ligado à comunidade, porque só podia existir dentro dela, embora fosse proprietário de bens que garantiam sua subsistência, não podia isolar-se, sob o risco de perdê-los. Para resolver os conflitos surgidos, não havia um poder instituído, superior, como leciona Guarinello (2013), as soluções haviam de ser encontradas comunitariamente, através de instrumentos públicos, acessíveis aos proprietários. Estabelece-se a origem do que chamamos política, no sentido de ser o instrumento de decisões coletivas, o que mais adiante se organizará em poderes do Estado e diminuirá, ou quase irá retirar a participação do indivíduo nas decisões para a comunidade.

A formação destas cidades-estado congrega a ideia de junção em torno de um ancestral comum, num grupo de famílias originárias, contudo não se pode pensar neste modelo como único, a identidade comunitária foi formando-se também a partir de populações distintas em etnias, mas que por fatores externos necessitavam se agrupar. As explicações para essa permeabilidade podem ser várias, como o agrupamento de artesãos, a incorporação de indivíduos estrangeiros e a conformação de pessoas que vinham de diversos lugares em povoamentos que iam surgindo ao longo da costa do Mediterrâneo, além de haver a possibilidade de se conferir essa cidadania também para homenagear ou para retribuir trabalho prestado à comunidade, como até hoje se costuma fazer (Guarinello, 2013, p. 32).

O modelo mais próximo de uma democracia pura foi realmente o de Atenas, embora excludente, como já ressaltado, por retirar a possibilidade de ser cidadão dos escravos, estrangeiros e das mulheres, manteve-se por quase dois séculos e independia de classe social. Diferente de outras cidades-estado, onde vigorou por vezes uma aristocracia marcada pelo poderio econômico-militar e que para manter-se como comunidade enfrentavam conflitos internos pela participação nas decisões e pela repartição das riquezas comunitárias.

Essa participação política nas cidades-estado, em quaisquer delas, não necessitava de intermediadores, era direta, cada cidadão representava um voto, a sua vontade. Todavia, os conflitos entre ricos e pobres, principalmente pela redistribuição de terras e riquezas oriundas das guerras, terminaram por quebrar os pactos comunitários e formaram pequenas cidades, sem capacidade de defesa ante os inimigos externos. Ao invés de uma união pensada para o exercício de uma cidadania conjunta, as cidades-estado se dispersaram e foram conquistadas pelos grandes impérios.

A esta ruptura do pacto comunitário correspondia, por outro lado, uma crescente fraqueza das cidades-estado para enfrentar seus inimigos externos. Fragmentadas, fechadas pelo caráter exclusivista de sua cidadania, as cidades-estado não conseguiram fundir-se em comunidades mais amplas. [...] Instabilidade interna e fraqueza externa foram as causas do fim da cidade-estado clássica. A formação de grandes impérios pode ser vista, desse modo, como consequência da fragilidade e da instabilidade das cidades-estado como forma de organização social. (GUARINELLO, 2013, p.

42).

O Império Romano, a partir do século II a. C., lidera as cidades-estado, formando uma aliança militar poderosa onde, apesar de não haverem desaparecido

de todo as cidades que o formavam, suas ações coletivas e comunitárias perderam a autonomia que antes tinham e passaram a estar baseadas nos ditames do poder central.

Nesta outra dimensão, a tradição jurídica de Roma, a cidadania não comportava espaços diretos de participação. Ser cidadão romano era estar sob a égide da lei, protegido por ela. Nas palavras de Cortina (2005, p.43) se resume essa nova face cidadã dizendo: “a cidadania é, então, um estatuto jurídico, mais que uma exigência de implicação política, uma base para reclamar direitos, e não um vínculo que pede responsabilidades.” O homem político, ativo, passa a dar lugar ao homem da lei, amparado.

Em Heater (2007) pode-se perfilhar uma distinção muito clara da cidadania romana em relação à cidadania grega: nesta os cidadãos participavam realmente da Assembleia, enquanto em Roma nunca houve esse poder político de real participação para os cidadãos. Na verdade, a democracia romana era, por assim dizer, contradizente: no momento em que foi República, o poder estava nas mãos dos senadores e cônsules e quando foi Império, detinha-o o próprio imperador.

Ainda nos momentos em que a Assembleia popular teve algum prestígio, durante o período republicano, era bastante difícil a participação tendo em vista a quantidade de indivíduos que portavam o título de cidadão romano. Já em meados do século III a. C., conforme assinala Heater (2007), centenas de milhares de cidadãos romanos viviam no território que se estendia desde Roma até o mar Adriático, de uma costa a outra da Itália, causando empecilho de locomoção, dinheiro e tempo para se dirigirem às Assembleias quando eram convocadas.

Houve uma ampliação da concessão de cidadania, “a concessão da cidadania alastrou-se até alcançar todos, ou quase todos, os habitantes do Império.”

(Guarinello, 2013, p.44), ao mesmo tempo em que também existiu uma sensível restrição do espaço público para o cidadão, não havia como comportar debates para decisões políticas num território tão vasto e com um número tão grande de cidadãos.

Isso faz surgir uma diferença abissal no cidadão romano ante o cidadão grego; em Roma, perde-se um pouco a importância de se deter tal título, começando a dar-se maior valor à riqueza de que dispunha o indivíduo para alcançar os privilégios e os benefícios do Estado.

Foi, ao mesmo tempo, uma conquista e uma perda. As prerrogativas do que o fosso entre os mais ricos e os mais pobres não cessava de aumentar.

[...] A própria comunidade cidadã acabou por dividir-se em duas classes, juridicamente distintas e com direitos diferenciados: os chamados “mais honestos”, os ricos e os denominados “humildes”, os mais pobres, cuja situação econômica e social não os distinguia muito da posição dos escravos. (GUARINELLO, 2013, p. 44).

Assim, transformou-se a cidadania em uma série de reivindicações das populações excluídas, num choque de concepções sobre o que seriam os direitos e obrigações dentro dessa comunidade tão diversa que se formou com o grande Império Romano. Séculos mais tarde, no período das revoluções, o modelo que inspiraria os pensadores iluministas foi o da Grécia Antiga, o modelo político de cidadania, segundo Guarinello (2013, p.46), aquele onde se podia efetivamente participar das decisões nas pequenas cidades-estado ao longo do Mediterrâneo.

Discrepante é o pensamento de Vieira (2013, p. 27), para ele não foi a República Moderna revolucionária quem deu origem ao conceito de cidadania; ele é criado sim, na República Antiga: tem em Roma o seu marco inicial, no tempo em que pela Constitutio Antoniana, é declarada a cidadania plena, na qual todos os cidadãos são iguais em direitos.

Com o Imperador Caracalla (Marcus Aurelius Antoninus - 186 (?)–217) Roma universaliza a cidadania. No ano de 212 é promulgada a Constitutio Antoniana, que concede cidadania romana a todos os habitantes livres do império, independente de qualquer condição. (GORCZEVSKI e MARTIN, 2011, p. 27).

Heater (2007), apesar de relatar a democracia contradita de Roma e mostrar a dificuldade que havia mesmo em período republicano de efetivamente o dito cidadão vir a participar das Assembleias, ressalta o prestígio e o significado que continham este título tanto para o indivíduo que o ostentava quanto para o estado romano.

No obstante, y pese a su falta de poder de decisión incluso em los momentos em los que la Asamblea popular contaba com uma mayor autoridade constitucional, durante la República el título de ciudadano romano tenía bastante prestígio, y la declaración Civis Romanus sum (soy ciudadano romano) era uma expresión de orgullo. Obtener la ciudadanía implicaba disfrutar de ciertas ventajas que ya hemos visto, y, a su vez, la incorporación de nuevos ciudadanos resultaba beneficiosa para el estado

romano, pues quedaba garantizada su lealtad y su posible reclutamiento como legionários. (HEATER, 2007, p. 66).

Convém, entretanto, caminhar alguns passos adiante na história, para compreender esse processo de construção da cidadania como algo dinâmico e contínuo. Estudar a cidadania no século das luzes, das revoluções e das ideias esclarecidas é crucial para entender sua evolução junto com os direitos fundamentais.