2. PATRIMÔNIO HISTÓRICO CULTURAL EM CHAPECÓ (SC)
3.1 A HISTÓRIA CULTURAL: REPRESENTAÇÃO E IMAGEM
Para essa discussão, acerca da História Cultural de representação e imagens, apoiamo- nos nos pesquisadores Chartier (1990) e Barros (2005). Roger Chartier é um dos representantes da História Cultural e trabalha com o conceito de “representação”. Já Barros é um estudioso das correntes historiográficas.
O historiador José D’Assunção Barros (2005) faz uma síntese do campo de atuação da história cultual. Conforme o pesquisador,
Para além dos sujeitos e agências que produzem a cultura estudam-se os meios através dos quais está se produz e transmite: as práticas e os processos. Por fim, a matéria prima cultural propriamente dita (os padrões que estão por trás dos objetos culturais produzidos): as ‘visões de mundo’, os sistemas de valores, os sistemas normativos que constrangem os indivíduos, os ‘modos de vida’ relacionados aos vários grupos sociais, as concepções relativas a estes vários grupos sociais, as ideias disseminadas através de correntes e movimentos de diversos tipos. (BARROS, 2005, p.130).
A História Cultural, mais do que estudar o sujeito produtor da cultura, dedica-se à forma como são produzidos e difundidos práticas e processos culturais, dando ênfase às
visões de mundo social, as quais estariam por traz das normatizações e das naturalizações das ações, como também dos estranhamentos, advindos dos modos de vida que não são os seus.
As contribuições de Roger Chartier para a História Cultural estão ligadas às noções de “práticas” e “representações”. Por essa perspectiva, as diferentes culturas poderiam ser estudadas por meio desses dois polos, numa relação de complementariedade. “Tanto os objetos culturais seriam produzidos ‘entre práticas e representações’ como os sujeitos produtores e receptores de cultura circulariam entre estes dois polos, que de certo modo correspondiam aos ‘modos de fazer’ e aos ‘modos de ver’.” (BARROS, 2005, p. 131).
Cabe explicitar o que seriam as práticas culturais e as representações para Chartier. A noção de “práticas culturais” não deve ser vista somente em relação às instituições oficiais de produção de cultura, mas deve contemplar também os usos e costumes que caracterizam a sociedade investigada pelo historiador. Dessa forma,
São práticas culturais não apenas a feitura de um livro, uma técnica artística ou uma modalidade de ensino, mas também os modos como, em uma dada sociedade, os homens falam e se calam, comem e bebem, sentem-se e andam, conversam ou discutem, solidarizam-se ou hostilizam-se, morrem ou adoecem, tratam seus loucos ou recebem os estrangeiros. (BARROS, 2005, p. 131).
Portanto, a noção de “práticas culturais” é bastante abrangente, indo desde a feitura de um livro até os comportamentos da sociedade em determinadas ocasiões.
Por “representação” Chartier (1990) considera como sendo algo que permite ver uma coisa ausente, havendo uma distinção entre representação e representado. Por exemplo, o desenho de uma maçã representa o objeto maçã que está ausente na ocasião, mas é representado na imagem. A representação também pode ser uma presença, como apresentação pública de algo ou alguém. Em suas palavras, a noção de “representação”:
Mais do que o conceito de mentalidade, ela permite articular três modalidades da relação com o mundo social: em primeiro lugar, o trabalho de classificação e de delimitação que produz as configurações intelectuais múltiplas, através das quais a realidade é contraditoriamente construída pelos diferentes grupos; seguidamente, as práticas que visam fazer reconhecer uma identidade social, exibir uma maneira própria de estar no mundo, significar simbolicamente um estatuto e uma posição social; por fim, as formas institucionalizadas e objetivadas graças às quais uns ‘representantes’ (instâncias coletivas ou pessoas singulares) marcam de forma visível e perpetuada a existência do grupo, da classe ou da comunidade. (CHARTIER, 1990, p. 23).
A noção de “representação” atua em três frentes: as classificações e delimitações oriundas de como a realidade é concebida pelos diferentes grupos; as práticas e ações que
fazem o grupo construir uma identidade social e serem reconhecidas em sua singularidade; as formas institucionalizadas pelas quais a existência do grupo se faz presente e visível na sociedade por seus representantes.
Um conceito importante para a História Cultural e que está relacionado com a noção de “representação” é o de “ideologia”. Segundo Barros (2005, p. 138), “a ideologia [...] corresponde a uma determinada forma de construir representações ou de organizar representações já existentes para atingir determinados objetivos ou reforçar determinados interesses”. O pesquisador adverte existir uma polissemia do conceito de “ideologia”, mas se for visto como um projeto de agir sobre a sociedade estaria associado ao “poder” e ao “controle social” exercido sobre membros de uma sociedade sem que esses, muitas vezes, tenham consciência.
A interação entre cultura e poder é entendida por Chartier (1990) pela noção de “apropriação”. Para o historiador, “a apropriação [...] tem por objetivo uma história social das interpretações, remetidas para as suas determinações fundamentais (que são sociais, institucionais, culturais) e inscritas nas práticas específicas que as produzem” (CHARTIER, 1990, p. 26), ou seja, o modo como interpretamos as práticas e representações e nos apropriamos delas. Ao encontro desse entendimento, Fonseca (2009b) articula a noção de “apropriação” proposta por Chartier (1990) com os patrimônios, ao afirmar que
[...] as significações produzidas pelas diferentes leituras podem, inclusive, estar bem distantes da intenção ou do interesse do autor da obra – ou, no caso dos bens patrimoniais, das significações e valores que os agentes estatais autorizados lhes atribuem enquanto patrimônio (FONSECA, 2009b, p. 44).
Fonseca (2009b) ressalva que uma democratização da apropriação não deve ser entendida como a mera difusão das significações produzidas pelos agentes institucionais. Ou seja, uma abordagem alinhada à perspectiva de Chartier (1990) deve levar em conta a complexidade dos processos de recepção e os diversos significados que podem ser atribuídos aos mesmos bens culturais. Isto possibilita, inclusive, uma apropriação diferenciada pelos grupos sociais, mesmo que estejam em condições sociais e econômicas desiguais.
No que tange ao uso da imagem como fonte, Chartier (1993, p. 405) considera que, ao menos na França, por muito tempo ficou restrito apenas aos historiadores da arte. Com isso, “os historiadores das sociedades ou das culturas negligenciaram durante muito tempo as fontes iconográficas, deixadas à erudição museográfica ou ao comentário estético”.
Entretanto, quando os historiadores passam a investigar as imagens como fontes, suas abordagens não são da categoria do belo, “porque ela leva em conta objetos que pertencem a gêneros considerados sem finalidade ou qualidades estéticas ou que, num gênero com dignidade artística, são ‘obras médias’ e não obras primas” (CHARTIER, 1993, p. 405). Nesse sentido, os historiadores se dedicam às imagens em sua ampla abrangência: outdoors, estátuas, cinema, fotografia, e não somente às obras de artistas renomados, como realizado por uma história da arte tradicional. Outro aspecto destacado pelo pesquisador refere que os tratamentos históricos das imagens sofrem uma dupla inflexão: por um lado, as investigações se apropriam novamente das grandes obras e dos grandes artistas, estudando suas relações sócias: encomenda, criação, funções rituais, pedagógicas entre outras; por outro lado, a atenção se desloca para a análise dos materiais iconográficos para apreensão dos seus usos e das compreensões possíveis destes.
Denominada pelo pesquisador de uma “história (difícil) das interpretações da imagem, situada numa encruzilhada de uma sociologia histórica dos sistemas de percepção e de uma explicação das convenções” que são inscritas nas obras entre aquele que produz e aquele que observa e interpreta, “a imagem é aprendida como um documento histórico cujas propriedades técnicas, estilísticas, iconográficas ligam-se a um modo particular de perceber, a uma maneira de ver moldada por toda uma experiência social posta em prática para a interpretação” da imagem em seus mais variadas formas e suportes (CHARTIER, 1993, p. 407).
Pensando na utilização das imagens como fonte aos historiadores em suas pesquisas, no próximo item, explanaremos acerca de algumas considerações e particularidades no que tange a sua análise e interpretação.