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P ARTE III – I NTERNET

5.2 – A HISTÓRIA DA REDE

No início eram angústia e aflição embaladas pelo medo de uma superação tecnológica, de espionagem e, certamente, de uma derrota da grande e poderosa nação americana. Depois, em 1973, eram 25 computadores conectados. No final da década de 70, já eram 246 computadores. Os anos 80 marcaram um período de crescimento: 25 redes conectadas, algumas centenas de computadores primários e alguns milhares de usuários (CASTELLS, 1999). A década de 90 marcou a explosão! Em 1995, segundo dados do

Internet Growth Statistics (2008), 16 milhões de pessoas no mundo estavam conectadas à

Internet. No final dessa década, no ano de 1999, esse número saltou para 248 milhões. Esse olhar sobre alguns números da rede nos revela uma história de crescimento vertiginoso, tanto do ponto de vista tecnológico, quanto da quantidade de usuários. Essa equação exponencial não pára por aí. Dados da ONU (2007) estimam que no ano de 2008 o mundo já contava com aproximadamente um bilhão e meio de pessoas conectadas à rede mundial de computadores.

Antes de começar a falar especificamente do percurso histórico da Internet, é preciso localizar historicamente o surgimento de alguns artefatos tecnológicos que viabilizaram o nascimento da rede mundial de computadores. A Internet é uma tecnologia complexa que emerge a partir da convergência de várias outras, como é o caso do computador. É muito difícil dissociarmos esses dois artefatos considerando que este foi o primeiro suporte da rede. E, ainda nos dias de hoje, quando já existem outros suportes – como o celular –, é comum se apresentar a figura do computador para indicar a possibilidade de acesso à Internet.

De acordo com Marcelo (2001) a história do computador começou em 1883, com a invenção, do matemático inglês Charles Babbage, de uma máquina programável. Em 1876, temos outra invenção fundamental para a concretização da Internet: o telefone, inventado

pelo físico escocês Alexander Graham Bell, sem o qual seria inviável a conexão entre os computadores e a comunicação móbil.

Aproximadamente 40 anos depois, em 1936, surge o Eniac, construído pelo matemático inglês AlanTuring, considerado o primeiro computador. Esse artefato, além de grande, pesava várias toneladas: “(...) ocupava uma superfície correspondente a um andar de um grande edifício e era programado, ligando directamente os circuitos sobre uma espécie de painel inspirado, ainda, na tecnologia do telefone” (MARCELO, 2001, p. 17). Na década de 40, temos outro marco da história da computação. O invento de Turing foi aperfeiçoado pelo matemático húngaro, naturalizado americano, John Von Neumann. O pesquisador criou uma tecnologia que possibilitasse que as instruções fossem armazenadas na própria memória do computador. Isso tornou essas máquinas muito mais rápidas, já que até então as instruções eram armazenadas em cartões perfurados externos a elas. A maioria dos computadores, ainda hoje, segue o modelo de Neumann.

Apresentamos até aqui duas inovações fundamentais para o surgimento da Internet. Sem dúvida, existem outras, como telégrafo, o rádio, que também têm importantes contribuições. Contudo, não destacamos uma a uma para efeito de tornar mais sucinto e focado o nosso percurso histórico, ainda que saibamos que elencamos as tecnologias principais, mas não todas que corroboraram para a criação da rede mundial de computadores.

A Internet mudou a forma das pessoas verem o mundo, de fato, interligou nações, territórios antes distanciados, pessoas que nunca se viram, enfim, com um computador e acesso a uma rede telefônica os indivíduos estão aptos a entrar em contato com quase todas as partes do mundo. Criou-se uma nova geografia, uma geografia eletrônica, ou seja, espaços tecnológicos de vivência e sociabilidade.

Para Castells (1999), a origem da Internet é uma mistura de estratégia militar, grande cooperação científica e inovação contracultural. Portanto, a condição de nascimento da rede lhe conferiu traços que marcaram e marcam profundamente o seu uso.

A Internet surgiu, aproximadamente na década de 50, a partir de pesquisas extremamente avançadas – da Agência de Projetos de Pesquisa Avançada do Departamento de Defesa dos Estados Unidos (Darpa) –, embaladas pela ameaça russa de superação tecnológica. De acordo com Castells:

Com base na tecnologia de comunicação por comutação de pacotes, o sistema tornou a rede independente de centros de comando e controle, de modo que as unidades de mensagens encontrariam suas rotas ao longo da rede, sendo remontada com sentido coerente em qualquer ponto dela (CASTELLS, 1999, p. 375).

O embrião da Internet, a Arpanet - Advanced Research Projects Agency Network nasceu, no ano de 1969, durante o auge da Guerra Fria nos Estados Unidos, resultado das pesquisas para evitar bombardeios russos. A idéia era não ter todas as informações concentradas em um único computador ou em poucas máquinas. Isso porque essas informações se tornavam alvos fáceis de ataques. Era só bombardear o Pentágono, por exemplo, que o sistema de informação americano poderia ficar profundamente danificado. A Arpanet, então, era uma proposta de militares para evitar os nós de informações e promover uma redundância destas em vários computadores, evitando assim um colapso do sistema e a perda de dados. Conforme Silva (2001), a Arpanet desde o princípio já se colocava como uma rede diferenciada porque, pela primeira vez, era possível conectar órgãos do governo e centros universitários a despeito de sua localização geográfica.

O embrião da Arpanet teve origem, em 1962, a partir da publicação de uma série de artigos por um investigador do MIT, chamado Licklider, que previu uma série de computadores ligados em rede, ao qual nomeou de Galactic Network (MARCELO, 2001). Porém, só foi concretizada, como colocamos antes, no final dessa década.

Em 1969, cientistas de quatro universidades americanas – Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA); Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara (UCSB); Universidade de Utah; e o Instituto de Pesquisas de Stanford (SRI) – fizeram a primeira demonstração da Arpanet. O fim da Guerra Fria esfriou os planos dos militares e a utilização dessa rede. Foi quando estes liberaram o uso dela para os pesquisadores e professores universitários. Assim colocado, a década de 70 marca outra fase da história da Internet. Agora menos vinculada a estratégia militares e mais aproximada dos interesses de cientistas e professores universitários.

Segundo Marcelo (2001), em 1972, a Arpanet foi finalmente apresentada publicamente, a partir de então a rede passou a se estender ainda mais, mesmo que continuasse sobre o controle dos militares. Essa expansão possibilitou o aperfeiçoamento da Internet. Ainda na década de 70, é criado o Internet Protocol¸ mais conhecido como Protocolo IP, que, na verdade, era uma maneira mais segura de manter o funcionamento da rede, já que permitia que todos os pontos dela se comunicassem mesmo que alguns deles se

encontrassem inoperantes. Essa foi uma maneira de tornar a Internet praticamente impossível de ser paralisada.

A década de 80 é, segundo Silva (2001), um momento de consolidação da Internet como rede mundial. É nessa época que é criada, nos Estados Unidos, a NSF – National

Science Foundation que cria a NSFnet, uma rede baseada na mesma tecnologia da

Arpanet. “A NSFnet foi crescendo com a conexão de inúmeras redes localizadas em instituições de pesquisa, faculdades e universidades, departamentos governamentais e organizações privadas orientadas à pesquisa, tornando-se a principal backbone (espinha dorsal) da rede” (SILVA, 2001, p. 40 e 41).

Nos anos 90 ocorreu o batismo da Internet e, nesse momento, já existiam 200 redes locais44 em funcionamento. Durante muito tempo a rede mundial de computadores ficou restrita às universidades. Foi somente a partir da década de 80 que os computadores pessoais começaram a baratear e o acesso ficou mais fácil. Os computadores passaram a diminuir de tamanho, de nível de complexidade de utilização e de preço tornando-se muito mais acessíveis. Segundo Marcelo (2001), em 1986, a rede passou a ser aberta para algumas escolas americanas. Entre os anos de 1984 e 1988 houve um salto de 1.000 para 6.000 computadores conectados.

Contudo, a popularização só chegou mesmo na década de 90 com o uso comercial do protocolo HTTP, que permitiu a montagem de sites no sistema WWW – World Wide Web, o que os tornou mais atraentes porque permitiu o uso de cores e sons. “Na prática (o protocolo HTTP), trata-se de permitir que a passagem de um documento (palavra, expressão ou imagem) remeta para outra seção ou documento, ou mesmo para outro, através de links, ou hiperlinks” (MARCELO, 2001, p. 22). Ou seja, cabe retomar a idéia da metáfora da rede. Não se pode esquecer o fato de que não se trata apenas de computadores conectados, mas, também, de conteúdos e serviços. Por isso, se usam palavras como “navegar”, “surfar” para se referir ao uso da rede. Já que quem cai na rede tem como horizonte um “mar” de possibilidades conectadas, não encalha em bancos de areia ou becos sem saída, por que a Internet não tem começo, nem fim, enfim não tem extremidades.

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Silva (2001) afirma que as redes locais são agrupamentos de computadores e tecnologias da comunicação interconectados entre si que se ligam a outras redes locais e tornam enfim a metáfora da rede possível. Ou seja, são pequenas redes locais interconectadas que constroem a grande rede mundial de computadores.

A história da Internet que apresentamos aqui, de acordo com Silva (2001) e Castellani, Reinhard e Zwicker (1998), pode ser dividida em três fases principais. A primeira seria a rede como “Arma de Guerra” por que ao longo da década de 60 servia a fins estritamente militares. A segunda fase, que se passa entre as décadas de 70 e 80, o autor intitula de “ambiente universitário”, já que é marcada por uma expansão para a comunidade acadêmico-científica. A partir dos anos 90, o autor aponta o surgimento da terceira e última fase da história da rede. Essa etapa, conhecida por “mercado de informação dos anos 90”, é marcada pela abertura e popularização da Internet.

A contribuição da ciência e da tecnologia para a criação da rede foi só um dos braços da sua origem. Outra razão importante foi uma contracultura computacional que surgia nos EUA, no mesmo período do desenvolvimento da rede: “(...) muitas vezes mentalmente associada às conseqüências dos movimentos dos anos 60 em sua versão mais libertária/utópica” (CASTELLS, 1999, p. 377). Se uma parte da história da Internet está indiscutivelmente ligada ao setor militar, outra, não menos importante, está relacionada com os esforços dos pesquisadores das universidades norte-americanas e com os movimentos sociais de contracultura, muitas vezes provenientes das mesmas instituições de ensino desses pesquisadores, só que na figura dos estudantes.

Muitos hackers, por exemplo, foram responsáveis por importantes descobertas que possibilitaram o desenho que a Internet tem hoje:

Essa cultura eletrônica dos primeiros usuários marcou para sempre a evolução e o uso da rede. Embora os tons mais heróicos e a ideologia contracultural tenham desaparecido com a generalização do meio em escala global, as características tecnológicas e os códigos sociais desenvolvidos a partir do uso gratuito original da rede deram forma a sua utilização (CASTELLS, 1999, p. 378).

Castells (1999) acredita que esses movimentos iniciais determinaram algumas características da rede, como: a possibilidade de uma coexistência pacífica de vários interesses e culturas e a dificuldade de se estabelecer controle e sistemas de cobranças.

Essa participação tão diversa propiciou a comunicação espontânea dentro da rede mundial de computadores. “A comercialização do espaço cibernético estará mais próxima da experiência histórica das ruas comerciais emergentes da palpitante cultura urbana que dos shoppings centers espalhados na monotonia dos subúrbios anônimos” (CASTELLS, 1999, p. 379).

O que é importante ressaltar desse breve histórico da Internet, como já viemos discutindo, é que sua origem foi marcada por tensões importantes, como: o establishment militar/científico e a contracultura, que, conforme Castells (1999), tiveram como base comum o mundo universitário. “Essa origem universitária sempre foi decisiva para o desenvolvimento e difusão da comunicação eletrônica pelo mundo” (CASTELLS, 1999, p. 379).

Segundo Castells (1999), essa origem com base em universidades imprimiu marcas profundas na comunicação mediada por computadores:

Na verdade, ao contrário do suposto isolamento social sugerido pela imagem da torre de marfim, as universidades são os principais agentes de difusão de inovações sociais porque geração após geração de jovens por ali passam, ali conhecem novas formas de pensamento, administração, atuação e comunicação e se habituam a elas (CASTELLS, 1999, p. 380).

O autor acredita que a Internet se desenvolverá como uma ágora eletrônica global. A cultura desses primeiros usuários moldou a rede em duas direções opostas: restrição do acesso a uma minoria de usuários que entravam nela por hobby (essas pessoas desconfiavam da comercialização e tinham o medo do sonho de uma comunicação generalizada); e a contracultura também imprimiu à rede a informalidade e a capacidade auto-reguladora de comunicação.

Certamente, a opção de manter a Internet com acesso restrito não vingou. Como comentamos, no início desse tópico, os números revelam um aumento crescente na quantidade de usuários. Na verdade, uma das óbvias fragilidades da rede mundial de computadores é exatamente esse número incontrolável de usuários, que cada vez cresce mais, o qual pode causar um congestionamento das transmissões e até colapsá-la. Além disso, não convém deixar de apontar outra grande fragilidade da Internet que é exatamente o que está de fora dela. Como veremos no tópico seguinte, a maioria dos que estão dentro estão em países desenvolvidos. A Internet repete o padrão de exclusão ao qual inúmeras pessoas estão submetidas.

A história da Internet não acaba nas escassas linhas que traçamos aqui. Ela continua, continua agora mesmo nos grandes centros tecnológicos. Outras tecnologias vão sendo incorporadas e, sem dúvida, acabamos esse percurso histórico sabendo que estamos no meio de uma trama, muito longe do final. Como evidência, o computador já não é mais o único suporte no qual podemos utilizar a Internet. O advento da telefonia celular interfere

profundamente na história da rede mundial de computadores e até aparelhos de jogos eletrônicos podem proporcionar acesso a esta.

A mobilidade, o individualismo e a personalização das tecnologias de comunicação se tornam realidade na convergência midiática que a Internet promove (CUNHA, 2006). Como dissemos antes, terminamos o relato de uma história que não acabou. Não obstante, somos todos testemunhas e partícipes dessa trama.