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2.1.2 A Coleta de Dados

2.1.3.1. A História da Unidade

Palma (2005) em seu trabalho sobre a educação de jovens e adultos no Colégio Estadual Mário Quintana nos apresenta um pouco da história da penitenciária:

A fundação da Penitenciária Lemos de Brito se deu com a promulgação da Carta imperial de D. José I, recebendo a denominação inicial de Casa de Correção do Rio de Janeiro somente em 1850. O decreto 3971 de 24/12/1941 dispõe sobre a nova denominação da Casa: Penitenciária Central do Distrito Federal que, em 1957, passa a se chamar Penitenciária Professor Lemos de Brito. Este estaria aproximando-se da atual denominação da Unidade, uma vez que a criação do Estado da Guanabara subordinou-se ao Governo do Estado e, em pouco mais de uma década (de 1970 a 1981) chamando-se Instituto Penal Lemos Brito. De 1981 aos dias atuais, ostenta como denominação Penitenciária Lemos Brito, unidade prisional capaz de abrigar até 600 homens condenados a penas longas, caracterizando-se como Penitenciária de Segurança Máxima.

Ali, também, de 1968 a 2006 funcionou o Colégio Estadual Mario Quintana (PALMA, 2005:46).

32 Sabe-se ainda que, localizada anteriormente no Bairro do Estácio de Sá, mais especificamente à Rua Frei Caneca, 463, no Rio de Janeiro, a Unidade era parte integrante do Complexo Penitenciário Frei Caneca, composto por três presídios, e um antigo hospital penitenciário, a casa de Custódia Romeiro Neto. Para dar suporte ao efetivo da penitenciária, havia uma estrutura composta por 40 cubículos individuais distribuídos em 15 galerias (Azevedo, 2011).

Chama-nos a atenção a estrutura da Unidade, pois a Penitenciária possuía, quando no prédio antigo, um auditório com capacidade para 1800 lugares, duas quadras esportivas, uma capela católica, uma congregação evangélica e um espaço reservado para os estudos espíritas, respeitando e garantindo a liberdade de culto aos detentos. Ainda como espaços coletivos, contava-se com uma cozinha, uma cantina, uma biblioteca, contabilizando quase 8 mil exemplares e o Colégio Estadual Mário Quintana com ensino fundamental e médio.

Funcionava, ainda, no espaço da unidade, duas empresas que utilizavam a mão de obra dos apenados; a fábrica de restauração e confecção de móveis, a oficina mecânica e a preparação de pães congelados salgados e doces. Os apenados que exerciam atividades nestas empresas recebiam além da remissão de pena, também a remuneração.

Com vistas ao restabelecimento social, havia dois projetos institucionais em vigor desde 2002. Destacam-se o “Uma Chance” e o “100% Transformando Vidas”, ambos convergiam para objetivos em comum que eram a redução do ócio na unidade, o resgate da cidadania, o estímulo ao trabalho e a educação, possibilitando uma condição melhor para a reintegração desses apenados.

Ainda segundo Palma (2005:23),

Mesmo sendo considerada uma unidade de segurança máxima, os apenados ficavam soltos durante o dia no interior do cárcere, podendo se dirigir a qualquer setor da unidade para serem atendidos, trabalharem e/ou participarem de alguma atividade, exceto à noite que era hora do confere. Deste modo, a estrutura física, a forma de tratamento dos apenados pelos profissionais, o acesso à educação, à religião e ao trabalho, mesmo que para a minoria, contribuíram para que a unidade fosse considerada, pelas autoridades, como a Penitenciária mais harmônica do Sistema Penal.

De acordo com artigo publicado por Liliane Marques, em 2007, mesmo sendo considerada uma unidade de segurança máxima, na Lemos Brito, os apenados ficavam soltos durante o dia no interior do cárcere, podendo se dirigir a qualquer setor da unidade

33 para serem atendidos, trabalharem e/ou participarem de alguma atividade, exceto à noite que era hora do confere2.

Apesar das diversas atividades tanto laborativas, educacionais quanto culturais o cotidiano da prisão é caracterizado por diversas questões sociais que perpassam o dia a dia desses homens encarcerados.

Deste modo, a estrutura física, a forma de tratamento dos apenados pelos profissionais, o acesso à educação, à religião e ao trabalho, mesmo que para a minoria, contribuiu para que a unidade fosse considerada pelas autoridades como a Penitenciária mais harmônica do Sistema Penal (Marques, 2007).

Ainda segundo a autora, sobre a transferência para Bangu, seu texto corrobora a ideia da prevalência da segurança no sistema prisional, das questões políticas, econômicas e de segurança que determinaram a transferência.

Devido a uma questão política toda essa estrutura que a penitenciaria possuía, foi desestruturada onde hoje o retrato dessa penitenciária muda, pois com a transferência para Complexo do Gericinó os apenados encontram-se em condições sub-humanas, onde antes tinham sua individualidade e hoje são obrigados a compartilharem sua individualidade com os outros apenados, ou seja, antes cada apenado tinha seu cubículo individual, hoje dividem uma cela tendo cada cela quatro apenados. Cela essa que possui dormitório (de cimento, não tendo nenhum colchão, e muito mesmos ventilação) e um sanitário, mais conhecido como boi, na qual para fazerem suas necessidades fisiológicas precisam estar agachados. De acordo com LEP (Lei de Execução Penal) em seu Art.88, Capitulo II: O condenado será alojado em cela individual que conterá dormitório, aparelho sanitário e lavatório. Os mesmos ficam presos, onde antes tinham o livre acesso aos respectivos setores das unidades, estando hoje privado do livre arbítrio para se locomoverem até os mesmos. O atendimento é feito somente com senha, na qual os profissionais precisam informar nome, localização do apenado para só assim poder atendê-lo. Mostra-se evidente que o importante não é melhorar as condições de vida do individuo encarcerado mais manter a ordem para que o preso não infrinja as regras disciplinares e, principalmente, não fuja. (MARQUES, 2007:2)

2Confere significa o momento da contagem dos apenados, para constatar se todos estão nos seus devidos cubículos ou celas, é uma estratégia de segurança, a fim de controlar o cotidiano do cárcere.

34 Com vistas a tentar denunciar alguns problemas que ocorrem na Penitenciária Lemos Brito, após a transferência, encontramos um blog3 e um site4 que denunciam as condições da cadeia, principalmente no que se refere a “mistura” de grupos inimigos

“convivendo” no mesmo espaço.

Em 2014, a unidade possui um efetivo que gira em torno de 628 internos, de acordo com os dados apresentados pelo chefe da segurança da unidade,

Segundo essas fontes, a periculosidade da cadeia e a preocupação de quem fez as denúncias, vai além da aproximação entre os internos na unidade, visto que há a possibilidade das famílias se encontrarem na portaria, visto que embora a cadeia seja dividida em lado A e B, a portaria é unificada.

É sabido que, atualmente, a Lemos Brito agrega milicianos5, muitos ex-policiais, bombeiros, guardas municipais, agentes penitenciários, é “seguro” no lado A, e detentos pertencentes a facção criminosa Terceiro Comando6 (TC) no lado B.

3 http://adeexplb.blogspot.com.br/2012/04/presidio-lemos-brito-em-bangu-rio-de.html 4 http://robertatrindade.wordpress.com/2010/08/31/denuncia-bangu-seis/

5 O conceito de milícia, segundo CANO e DUARTE (2012), pode ser resumido pela confluência de cinco traços centrais: 1. Domínio territorial e populacional de áreas reduzidas por parte de grupos armados irregulares. 2. Coação em alguma medida, contra os moradores e os comerciantes. 3. Motivação de lucro individual como elemento central, para além das justificativas retóricas oferecidas. 4. Discurso de legitimação relativo à libertação do tráfico e à instauração de uma ordem protetora. Diferentemente do tráfico, por exemplo, que se impõe simplesmente pela violência, as milícias pretendiam se apresentar como uma alternativa positiva. 5. Participação pública de agentes armados do Estado em posição de comando.

6 O governo militar, em repressão aos opositores, criou a Lei de Segurança Nacional em 1969, que entre outras mudanças, não diferenciava presos comuns dos perseguidos políticos. Com a Lei da Anistia, os militantes ganham a liberdade, diferentemente dos outros presos. Essa ação dá “legitimidade” para a criação da Falange Vermelha, embrião do movimento que viria a se tornar o Comando Vermelho (CV), com o slogan “Paz, Segurança e Liberdade”.

Posteriormente, por divergências e jogo de interesses, surgiram facções rivais como Terceiro Comando (TC), a Amigos dos Amigos (ADA) e o Terceiro Comando Puro (TCP). Também foram criadas dissidências juvenis como o Comando Vermelho Jovem (CVJ), Terceiro Comando Jovem (TCJ) e Primeiro Comando Jovem (PCJ), criado com o apoio o Primeiro Comando da Capital (PCC). Disponível em https://twiki.ufba.br/twiki/bin/view/CetadObserva/Noticia20100515_1

35 Devido ao projeto de concentração das prisões cariocas no Complexo Penitenciário do Gericinó toda a estrutura que a penitenciária possuía foi modificada. A partir de então o retrato dessa penitenciária começa a mudar.

Um dos pontos a ser considerado é que com a transferência para Complexo do Gericinó os apenados, hoje, são obrigados a compartilhar sua individualidade com os outros apenados, ou seja, antes cada apenado tinha seu cubículo individual; agora dividem uma cela com outros três companheiros. Cela essa que possui dormitório (de cimento) e um sanitário, mais conhecido como “boi”7, no qual para fazerem suas necessidades fisiológicas precisam estar agachados. De acordo com LEP (Lei de Execução Penal) em seu Art.88, Capitulo II: “O condenado será alojado em cela individual que conterá dormitório, aparelho sanitário e lavatório”.

Os mesmos ficam, durante o dia, em suas celas, sem contar com o livre acesso aos respectivos setores das unidades, como se fazia anteriormente. O atendimento é feito somente com senha, como já citado.

De acordo com o site da Associação pela Reforma Prisional8, “a unidade funciona no regime fechado. Mostra-se evidente que as questões de segurança se sobrepõem aos intentos de reinserção do apenado.

Desse modo, observamos que o mais importante, para as instituições de segurança pública, não é melhorar as condições de vida do indivíduo encarcerado, como forma de contribuir para o projeto de reinserção previsto em lei, mas manter a ordem para que o preso não infrinja as regras disciplinares e, principalmente, não fuja.

De acordo com a pesquisa de mestrado de Cardoso (2006), em que aponta a ineficiência das unidades prisionais do estado do Rio de Janeiro, percebemos o prestígio

7 privada ou latrina.

8 Associação pela Reforma Prisional é uma organização sem fins lucrativos, criada em 2003, por profissionais de diversas áreas, convencidos de que é necessário mobilizar o Poder Judiciário, Poder Executivo e sociedade para combater as condições degradantes do sistema penitenciário do Rio de Janeiro.

http://redjusticiaprevia.com/portal/index.php?option=com_content&view=category&layout=blog&id=63&I temid=375

36 da unidade Lemos de Brito frente à possibilidade de cumprimento dos objetivos da pena de prisão

No entanto, há no Rio de Janeiro, uma penitenciária que se aproxima do modelo 'ideal’, pois nela grande parte do efetivo tem acesso ao trabalho e ao estudo. ‘A única penitenciária legal no estado do Rio de Janeiro é a Lemos Brito, que tem celas individuais, com cama, banheiro, mesa, oficinas’. Ao contrário de outras unidades de segurança máxima, lá os internos têm acesso a inúmeras atividades: teatro, música, capoeira, biblioteca, atividades desportivas, cultos religiosos, oficina mecânica, indústria de móveis, fábrica de pães, atendimento médico e jurídico, dentre outras. Justo por ser tão peculiar, a Penitenciária Lemos Brito foi escolhida para a nossa pesquisa de mestrado, em andamento, acerca das memórias de seus presidiários”. (CARDOSO, 2006:32)

Sendo assim, conhecer a realidade do Colégio Estadual Mário Quintana nos ajudará a entender a cultura de uma escola na prisão e organizar a memória desse espaço, repleto de significação.

A partir das narrativas de alguns sujeitos envolvidos no processo educacional do Colégio Mário Quintana, das interações, das práticas pedagógicas e da organização do espaço escolar podemos construir a memória e cunhar a categoria cultura escolar prisional.

A partir disso faremos a descrição da unidade do Colégio Estadual Mário Quintana situado no Complexo do Gericinó em Bangu.

Primeiramente, abordaremos as questões relativas à localização geográfica.