• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 4 – DO ENCONTRO: A RELAÇÃO MFC-PACIENTE

5.2 A história de Noêmia e a abordagem do MFC

Bernardo, o MFC, começa narrando para Egídio (psiquiatra) e Daniela (psicóloga), a história de Noêmia, antes que ela seja chamada ao consultório. A narrativa de Bernardo, e nessa parte focaremos mais na sua atuação do que nas dos demais profissionais, nos ilustrará um pouco sobre a visão do MFC em relação ao tema da saúde mental, seus aspectos conceptuais e práticos.

A história de Noêmia relatada por Bernardo parece bastante caótica. Não me refiro à vida de Noêmia, que provavelmente também é, assim como as nossas, mas ao modo como ele narra, que não parece médico, nem leigo, nem psicológico, nem psiquiátrico. Por exclusão, talvez seja esse o modo como MFCs e demais profissionais da APS narram as histórias das pessoas que atendem. Bernardo nos diz sobre ela:

... o pai xingou o cara, o cara levantou, pegou a arma e matou na frente dela, e ela foi então criada pela mãe e seis (família grande) irmãos, mas tinha uma irmã, a mais velha, bonita (...), o que era pra ela cortava, rasgava, cara-feia, foi maltratada psicologicamente, ela não batia, não chegou a bater, dava presente pros outros irmãos,

eles tinham mais. Então, ela é uma pessoa que foi conduzida dessa forma, que tem essa história pregressa. Um dia ela teve uma crise, não sei se de pânico, e ela foi parar no HU, e lá avaliaram, tudo bem, mas lá um profissional que tava lá olhou a mão dela, tinha uns defeitos, aqueles cortinhos, resolveu encaminhar pro reumato e fez o diagnóstico de Lúpus, assintomático, não tinha queixa, não tinha nada. A partir daí o pânico dela piorou. Piorou depois que a médica medicou ela e ela teve uma reação adversa à medicação. E passou muito mal à noite com a medicação. Foi parar a noite no pronto-atendimento, voltou, tentou tomar de novo passou mal. Então ela tem o diagnóstico de Lúpus, não em tratamento, mas continua acompanhando com a reumato e a partir daí a vida dela mudou... Então era esse o diagnóstico que tinha... Ela veio uma vez com o Dr. Egídio, Dr Egidio passou para ela rivotril, fluoxetina e ela não quis tomar, abandonou, falei que era importante tomar, e ela resolveu experimentar o tratamento e ela resolveu então fazer o tratamento, só que ela deixava.... Ela vinha no grupo de relaxamento, eu tenho um grupo de relaxamento, e ela melhorou bastante com o relaxamento, e aí ela começou a ter um pouco mais de sociabilidade, que antes ficava mais em casa. Mas o humor tem flutuado muito. Na última vez que teve aqui, ela falou que agrediu a filha dela, eu falei vamos voltar para o matriciamento novamente, avaliar o diagnóstico. Mas ela falou, quero um tratamento com o psiquiatra mesmo. E eu orientei que ela continuasse com o mesmo. (...) Qual que é minha ideia, que ela fosse para você mesmo, que revisse o diagnóstico, bom é isso mesmo, dá alta e volta para o grupo de relaxamento. Ela tem que fazer as duas coisas, a psicoterapia e o relaxamento.

Nesse trecho, Bernardo relatou a história que conhecia sobre Noêmia com algumas pequenas interrupções de Egídio e da Daniela, que foram suprimidas para facilitar nossa análise dessa introdução. Como dizíamos já no caso anterior que relatamos mais acima, Bernardo não faz o relato médico tradicional, que concentraria suas atenções na

sintomatologia e na cronologia desses sintomas, além dos tratamentos prévios e atuais. Em vez de dizer que, “Noêmia é uma mulher, casada, de 36 anos, 2 filhos, que tem um diagnóstico prévio (questionável) de Lúpus assintomático e uma história de flutuações de humor em tratamento irregular com rivotril e fluoxetina e para quem agendei esse encontro agora para avaliar melhor o diagnóstico de transtorno do humor”, Bernardo enfatiza aspectos no seu relato que o tornam bastante mais caóticos (e subjetivos) que seriam situações de vida da Noêmia que lhe pareceram importantes demais para não se comentar, como o fato de haver testemunhado o assassinato do próprio pai e o diagnóstico de Lúpus. Ao mesmo tempo em que ressalta esses aspectos não poderíamos dizer que se trata de um relato psicológico, porque Bernardo não chega a traçar um perfil de personalidade ou a refletir mais aprofundadamente sobre o pânico ou as variações de humor a partir das situações que resgata de seu passado. Do mesmo modo que parece crer que existe algo além de um diagnóstico biomédico baseado apenas nas variações do humor, pede ao psiquiatra que forneça um diagnóstico de modo bastante pragmático para que afinal possam continuar o seguimento que lhe parecia funcionar bem, o grupo de relaxamento. O que me surge é que Bernardo parece dialogar com o psiquiatra e com a psicóloga como um representante de Noêmia, como um tradutor médico de suas angústias mais confusas, caóticas e inclassificáveis e, ao mesmo tempo, de suas necessidades mais práticas e imediatas. A angústia de Bernardo, e ele parecia mais incomodado naquela situação de passar o caso para outros profissionais do que quando está somente com as pessoas que atende, não parecia ser tanto a do médico preocupado em traduzir bem uma situação de vida em linguagem biomédica, quanto a de explicar bem as dificuldades que Noêmia lhe contou e suas necessidades mais práticas para aquele grupo de profissionais. Tanto que nas duas vezes em que iniciou seu relato para os profissionais de saúde mental na presença da paciente, começava assim “Eu tava conversando com eles, expliquei seu caso já, porque a gente conversa antes de chegar e eu queria que você me corrigisse se eu falar alguma coisa diferente do que eu passei pra eles.” E também lembra à Noêmia ao iniciar esse relato que foi ela mesma quem demandou algo a ele, assim como esse encontro: “Bem, você na última consulta veio como uma demanda para mim, porque agrediu sua filha...”.

O que pretendo destacar nessa parte é o quanto o espaço de trabalho do MFC ajuda a caracterizar seu modo de ver e de lidar com a demanda que recebe. Não pretendo generalizar e dizer que todos são assim, do mesmo modo que não quero fazê-lo com a denominação de

reformadores ou de novos psiquiatras, são termos que servem apenas para desenhar grosseiramente sensos comuns, ideias e conceitos mais gerais, que vemos em determinadas áreas. Mas assim como descrevi no capítulo sobre a MFC como uma subcultura, sempre haverá algum espaço de ação para o sujeito se mover dentro do contexto que o cerca. Agora gostaria de voltar para o tema ou conceito de saúde mental. Esse mesmo espaço que vai empurrando e moldando e lapidando o MFC e os profissionais da APS para um determinado saber-poder, um modo de ver e de entender o mundo, o coloca em rota de colisão com a ideia de saúde mental.

Documentos relacionados