O milho é considerado uma das espécies com maior variabilidade genética e possui grande importância sociocultural e econômica, pois apresenta uma ampla base de usos. A espécie Zea mays Linnaeus pertence à família Poaceae e ao gênero Zea. O gênero é composto por um grupo de gramíneas, algumas perenes e outras anuais, inclui a espécie cultivada, o milho, como os parentes silvestres conhecidos comumente como teosinte ou teosinto; ambos são nativos do México e da América Central (Doebley, 1990).
O milho é um cereal de origem americana e possui uma ampla variabilidade e adaptação por encontrar-se distribuído em diferentes ambientes ao longo do continente (Paterniani & Goodman, 1977; Doebley, 1990; Matsuoka et al., 2002; Freitas et al., 2003; Vigouroux et
al., 2008). A sua distribuição iniciou-se desde o processo de
domesticação da espécie e vem ocorrendo até os dias atuais.
A existência dessa grande variabilidade genética para a cultura do milho contou com diversas contribuições por meio dos povos da América Central, que domesticaram o milho, bem como dos demais povos distribuídos ao longo de toda a América. A contribuição brasileira foi importante tanto por parte dos indígenas e agricultores familiares quanto das instituições de pesquisa (Paterniani & Goodman, 1977; Paterniani et al. 2000). O milho já era cultivado no Brasil em épocas pré-colombianas (Paterniani, 1998; Piperno & Flannery, 2001; Freitas et
al., 2003). Com a descoberta da América, os europeus tomaram contato
pela primeira vez com o milho, planta nativa desse continente e, portanto, desconhecida nos demais (Doebley, 1990; Paterniani, 1998). Com o tempo, aumentando-se o conhecimento sobre os povos locais, verificou-se que cada tribo mantinha em cultivo tipos próprios de milho. Eles eram o resultado de longos anos de seleção praticada pelos povos nativos, para atender às suas preferências quanto ao tipo de espiga, textura e coloração dos grãos, utilizados para o preparo de alimentos e para fins cerimoniais (Paterniani, 1998).
Os conquistadores passaram a cultivar o milho Cateto, cultivado pelos índios Tupi, e o milho Cristal, cultivado pelos Guarani. O milho Cateto possui grãos cristalinos, muito duros e de cor laranja, e o milho Cristal, grãos cristalinos, muito duros e de cor branca. Os índios Guarani ainda cultivavam o milho-pipoca, com grãos redondos e grãos pontudos, ambos adotados pelos conquistadores (Paterniani, 1998). Entretanto, o
34 processo de conquista provocou grandes impactos ambientais devido às guerras e epidemias no país. Muitas populações de povos nativos foram extintas e, consequentemente, posteriormente perderam-se muitos recursos genéticos e conhecimentos tradicionais.
O Brasil recebeu imigrantes de muitos países e diversas sementes foram introduzidas no país ao longo dos anos. A mistura entre as variedades introduzidas e as variedades nativas gerou novas variedades que foram adotadas pelos agricultores. Por volta dos anos de 1860/65, durante a Guerra de Secessão nos Estados Unidos, muitos americanos imigraram para o Brasil, trazendo consigo sementes de milhos dentados amarelos. Estes cruzaram-se naturalmente com os milhos locais, dando origem a vários tipos de milhos dentados e semidentados que passaram a ser muito cultivados pelos agricultores (Paterniani, 1998). Outra introdução de milhos dentados americanos, feita pela Secretaria de Agricultura de Minas Gerais e por fazendeiros, ocorreu no período de 1910/15 (Paterniani, 1998). Em função dos cruzamentos e da seleção praticada por agricultores, variedades com características distintas foram sendo desenvolvidas e identificadas por vários nomes: Dente Paulista, Dente Riograndense, Caiano, Armour, Comum, Dente de Cavalo e Itaici (Paterniani, 1998).
O conhecimento sobre as raças de milho do Brasil foi ampliado por meio de um estudo desenvolvido por Paterniani & Goodman (1977) que descreveram as raças de milho do país. Quatro raças foram destacadas: Indígenas, representadas pelos milhos Caigang, Moroti, entrelaçado, entre outros; Antigas, representadas pelos Catetos, Cravo e Cristal; Recentes, representadas pelo Dente Paulista e Dente Rio Grandense; Exótica, representadas por introduções de germoplasma mexicanos e do Caribe, selecionadas por Centros de Pesquisa. Segundo Machado et al. (1998), entre as variedades existentes no Brasil, 90% são representadas pelas raças Recentes e Exóticas.
As primeiras atividades desenvolvidas com germoplasma de milho no Brasil começaram em 1937, no Departamento de Genética da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ), em Piracicaba, sendo base de estudo de raças indígenas (Machado, 1998c). A criação do banco de germoplasma de milho no Brasil se deu em 1952, também na ESALQ, e, nesse período, foi levada para essa instituição uma grande quantidade de coleções nativas de variedades de milho para estudo e conservação. As coletas foram realizadas na Argentina, no Paraguai, na Bolívia, no Brasil e nas Guianas, perfazendo um total de 12.885.000 Km², o que corresponde a 72% da América do Sul. Cerca de
35 3.000 acessos originais dessa região foram conservadas e estudadas em Piracicaba, servindo de base para o início de muitos programas de seleção genética (Paterniani & Goodman, 1977).
Atualmente, a coleção de germoplasma de milho do Brasil, também conhecida como banco de germoplasma de milho é preservada na EMBRAPA Milho e Sorgo, localizada em Sete Lagoas-MG e EMBRAPA Recursos Genéticos e Biotecnologia, localizada em Brasília-DF, além de ser mantida cópia de segurança no CIMMYT localizado no México. As coleções mantidas na EMBRAPA juntas somam mais de 4000 acessos, sendo quase totalidade da espécie Zea
mays e apenas 7 acessos dos parentes próximos do milho (Z. diploperennis, Z. mexicana e Tripsacum dactyloides). Segundo Teixeira
(2008), os acessos mantidos na coleção de germoplasma de milho são, em sua maioria (82,1%) variedades crioulas obtidas por coletas ou por doações. Os acessos também são agrupados em compostos raciais formados por coleta nacional (3,9%), acessos melhorados (6,0%), acessos introduzidos (7,8%) e parentes silvestres, no caso Teosinto e Tripsacum, com menos de 0,2% do total da coleção.
O Banco Ativo de Germoplasma de milho (BAG Milho) foi criado, em Sete Lagoas-MG, com a finalidade de suprir os programas de melhoramento com germoplasma que apresenta uma adequada diversidade e variabilidade genética da cultura. O BAG visa conservar amostras de germoplasma em médio prazo, e tem como atividades principais a caracterização, avaliação, multiplicação, coleta, intercâmbio e documentação do germoplasma (Lopes & Mello, 2009).
Representantes institucionais têm sugerido expedições de coleta com o intuito de proteger e conservar os recursos genéticos considerados valiosos para a agrobiodiversidade (Lopes & Mello, 2009). É válido observar que em consequência dos processos adaptativos e evolutivos das variedades de milho mantidas pelos agricultores familiares nos dias atuais, estas não possuem as mesmas frequências alélicas que as variedades coletadas no passado e que hoje estão mantidas no Banco de Germoplasma de Milho. Portanto, torna-se fundamental a realização de novas coletas destinadas aos bancos de sementes locais bem como aos bancos de germoplasma.
Particularmente, com relação às variedades locais, tradicionais ou crioulas de milho, elas carregam consigo valores culturais importantes por participarem de tradições e heranças familiares, fatos históricos locais, cerimônias religiosas e receitas culinárias especiais, além de desempenharem importante papel social em diversas regiões do Brasil,
36 bem como no Oeste de Santa Catarina. Ogliari & Alves (2007) confirmam este fato e afirmam que, além das variedades locais de milho serem usadas na alimentação animal, na forma de silagem, forragem e grãos, também têm sido consumidas na alimentação humana, na forma de farinha, fubá, amido, melado, milho-pipoca, milho verde (pamonha e cremes) ou como grãos secos (canjica). Como medicamento, elas têm sido usadas em infusões feitas a partir dos estiletes dos milhos roxos, atuando principalmente como diurético, no alívio a dores, nos processos inflamatórios e infecciosos da vesícula, dos rins e da bexiga, bem como no combate a cálculos renais, ao ácido úrico, à pressão alta e a alergias (Ogliari & Alves, 2007). Finalmente, no artesanato local, o milho tem sido usado pela grande diversidade de cores apresentada por grãos e palha e também pela maciez da palha de certas variedades (Ogliari & Alves, 2007).
É fundamental que as variedades crioulas sejam submetidas à experimentação em diversos locais e por vários anos para que se possa determinar seu valor como variedade local, permitindo sua difusão através da troca de materiais entre os agricultores, bem como a avaliação do potencial genético para melhoramento, visando à sua utilização em diferentes agroecossistemas (Machado, 1998b).
Segundo Machado et al. (1998), a avaliação de variedades locais e melhoradas de milho foram testadas em diferentes regiões do Brasil. Foram utilizadas variedades locais resgatadas pela Rede PTA (Projetos e Tecnologias Alternativas) nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Durante 3 anos de experimentação, foram feitas modificações no conjunto de variedades utilizadas, retirando-se dos ensaios aquelas menos promissoras. As variedades promissoras, avaliadas e resgatadas apresentaram potencial adaptativo às mais diversas condições ambientais (Machado et al., 1998).
O potencial de utilização das variedades locais também foi observado por Machado & Machado (2004), Machado et al. (2006), Machado (2007) e Machado et al. (2011). Machado et al. (2011) avaliaram, em diferentes ambientes, variedades de milho oriundas de diferentes estratégias de melhoramento, com o objetivo de verificar o potencial genético para utilização em diferentes agroecossistemas. Na média geral desses ensaios, observou-se produções de 7.677, 7.598, 7.522 e 7.492 kg ha-1 para algumas variedades (Machado et al., 2011). É importante integrar a pesquisa institucional às comunidades do campo, com o intuito de oferecer soluções localizadas e contribuir para a manutenção de inúmeras variedades locais.
37 A erosão genética e a perda de conhecimento tradicional têm se tornado ameaças constantes nos últimos anos e muitos profissionais encontram-se preocupados com a conservação e o uso sustentável dos recursos genéticos vegetais. O uso sustentável dos recursos genéticos proporciona o desenvolvimento de comunidades locais e ao mesmo tempo viabiliza a conservação in situ-on farm. É com esse foco que o Núcleo de Estudos em Agrobiodiversidade (NEABio) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) tem trabalhado. O principal tema tratado pelos membros desse grupo envolve questões relacionadas à conservação, ao manejo e ao uso da agrobiodiversidade, em comunidades de agricultores familiares de Santa Catarina. Por entender que a manutenção do homem integrado ao seu meio natural é a melhor forma de preservar e conservar os recursos biológicos e não-biológicos ainda disponíveis é que a pesquisa participativa tem sido a principal ferramenta de trabalho deste grupo (Ogliari & Alves, 2007).
A primeira ação desse grupo no Extremo Oeste de Santa
Catarina aconteceu em 2002. Esse trabalho inicial permitiu conhecer os agricultores que conservavam variedades tradicionais de milho na região. Posteriormente, um diagnóstico sociocultural, econômico e biológico mais detalhado foi conduzido em Anchieta, focado principalmente nos agricultores que conservam variedades locais e crioulas de várias espécies, inclusive milho. Esse trabalho foi conduzido pelo NEABIO com o apoio do SINTRAF e evidenciou a existência de uma grande diversidade de variedades locais e crioulas de várias espécies vegetais. Essas informações foram fundamentais para a realização dos trabalhos subsequentes conduzidos pelo grupo (Ogliari & Alves, 2007). Após a realização desse diagnóstico inicial, buscou-se efetuar uma análise das potencialidades de algumas das variedades de milho resgatadas pelo SINTRAF de 1998 e 2002. A partir de experimentos conduzidos nas safras 2002/2003 e 2003/2004, foi possível caracterizar grande parte dessas variedades quanto à diversidade/similaridade genética, aspectos morfológicos, fenológicos e agronômicos, bem como quanto ao valor adaptativo frente a agentes fitopatológicos, ao valor nutricional e medicinal. Nos experimentos a campo conduzidos no sistema orgânico em unidades de produção de agricultores, em Anchieta e de Canoinhas, quatro dessas variedades apresentaram rendimentos satisfatórios, variando de 6,1 a 6,9 t ha-1 de grãos na safra 2002/2003 (Balbinot et al., 2005). Outras sete apresentaram uma amplitude de variação de 6,81 a 7,98 t ha-1 de grãos na safra 2003/2004 (Balbinot et al., 2005). Entretanto, a produtividade
38 média de Santa Catarina, nas mesmas safras, foi de 4,99 (safra 2002/2003) e 4,10 (2003/2004) t ha-1 de grãos (ICEPA, 2005). Além da produtividade satisfatória, a reação a campo das variedades crioulas da região frente a doenças do milho tem sido muito promissora. É notável a resistência quantitativa Exserohilum turcicum, especialmente daquelas variedades portadoras de palha de coloração roxa (Ogliari et al., 2007, Sasse, 2008).
Além dos experimentos conduzidos em condições de campo, foram realizadas análises químicas dos grãos, folhas e estiletes, as quais permitiram a identificação preliminar do potencial de uso desses recursos locais quanto ao valor alimentar, nutricional e medicinal. Algumas dessas variedades devem, além disso, ser destacadas pela elevada concentração de componentes com atividade antitumorial e antioxidante, que contribuem para a redução de alguns tipos de câncer e de degeneração macular (Kuhnen et al., 2006; Kuhnen et al. 2009; Kuhnen et al. 2010a; Kuhnen et al. 2010b; Kuhnen et al. 2011; Kuhnen
et al. 2012)). Muitas dessas variedades de Anchieta e da região agregam
valores com potencial para uso imediato na indústria alimentícia e farmacêutica (Ogliari & Alves, 2007).
As variedades crioulas da região Oeste Catarinense apresentam inúmeros potenciais. Portanto, a pesquisa aplicada ao desenvolvimento de atividades de uso e manejo das variedades locais, tradicionais e crioulas pode ser um estímulo para a manutenção e o aumento destes cultivos no município de Anchieta. As estratégias para integrar os agricultores familiares às atividades de conservação dos recursos genéticos podem ser desenvolvidas pelo avanço de projetos focados no desenvolvimento local.