3. A adolescência e a transmissão psíquica: família e sociedade
3.2. A história grupal: vergonha e processos identificatórios
Os vínculos na família são estabelecidos não apenas a partir das experiências atuais compartilhadas por seus membros, mas englobam também elementos do passado familiar, que sustentam os sentimentos de identidade individual e familiar. Dentre esses elementos do passado, incluem-se as histórias contadas, assim como eventos que não alcançaram a esfera representacional.
Abraham e Torok (1978/1995) descrevem as ressonâncias psíquicas das falhas de simbolização de determinados elementos e os aspectos patológicos da transmissão psíquica transgeracional, dando ênfase à transmissão da vergonha, associada a cenas da história familiar, vivenciadas como lutos. Esses autores assumem a nuance mais regressiva do processo de incorporação do objeto, em relação ao processo de introjeção50, associando-a a falhas e a desdobramentos patológicos do vínculo. Vale notar que, em Luto e Melancolia, Freud (1917/1989) assume o modelo da incorporação para explicar a melancolia, enquanto luto patológico. Conforme discutimos no capítulo anterior, a incorporação remete à forma mais
50Conceito criado por Sandor Ferenczi em oposição à projeção, como mecanismo através do qual o sujeito faz passar para o mundo interno qualidades inerentes aos objetos (Laplanche & Pontalis, 2001).
63 arcaica de relação com o objeto, segundo o protótipo corporal, num momento em que ainda não há uma distinção entre o ego e o objeto. Segundo Freud, a identificação narcisista com o objeto transforma sua perda em perda do próprio ego, que passa a receber o ódio antes dirigido ao objeto, o que explicaria os sintomas do melancólico. Para Abraham e Torok (1978/1995), o sofrimento do melancólico não se liga apenas à perda do objeto, mas, sobretudo, ao sentimento vergonhoso do sujeito ao ver-se invadido pelo desejo e pela libido.
Não é como se poderia pensar, a aflição causada pela própria perda objetal, mas o sentimento de um pecado irreparável, pecado por ter sido invadido pelo desejo, por ter sido surpreendido por um transbordamento de libido, no momento em que convém afligir-se e abandonar-se ao desespero. (Abraham & Torok, 1978/1995, p. 218)
A incorporação é considerada como um mecanismo utilizado diante de um “luto vergonhoso”, depois de o sujeito ter compartilhado com o objeto um acontecimento que se tornou um segredo. Quando ocorrem falhas na elaboração da separação, o objeto é incorporado como uma medida diante do excesso de excitação e da impossibilidade de aceitar os próprios desejos e relações com o objeto perdido. A fantasia de incorporação substitui a introjeção, funcionando segundo o princípio de prazer, quando a realidade não pode ser suportada (Abraham & Torok, 1978/1995). Para Thomazi (2012), a criação dessa fantasia “revela a impossibilidade de proceder de outra maneira que não seja perpetuar um prazer clandestino, fazendo dele um segredo intrapsíquico.” (p. 158). Como descrito por Abraham e Torok (1978/1995), a realidade da perda não é reconhecida e, por este caminho, evita-se o trabalho de luto e as mudanças nele implicadas. Neste caso, ao invés de elaborado, o luto é recusado. Se há incorporação, houve um luto vergonhoso, não uma separação psíquica entre sujeito e objeto, em função do fracasso na introjeção. Assim, o que não foi elaborado por uma geração será transmitido à seguinte com potenciais desdobramentos patológicos nos vínculos.
Todas as palavras que não puderam ser ditas, todas as cenas que não puderam ser rememoradas, todas as lágrimas que não puderam ser vertidas, serão engolidas, assim como, ao mesmo tempo, o traumatismo, causa da perda. Engolidos e postos em
conserva. O luto indizível instala no interior do sujeito uma sepultura secreta. Na
furna repousa, vivo, reconstruído a partir de lembranças de palavras, de imagens e de afetos, o correlato objetal da perda, enquanto pessoa completa, com sua própria tópica, bem como os momentos traumáticos - efetivos ou supostos - que haviam tornado a introjeção impraticável. Criou-se, assim, todo um mundo fantasístico inconsciente que leva uma vida separada e oculta. Acontece, entretanto, que, por ocasião das realizações libidinais “à meia-noite”, o fantasma da cripta vem assombrar o guardião do cemitério, fazendo-lhe sinais estranhos e incompreensíveis, obrigando-o a realizar atos insólitos, inflingindo-lhe sensações inesperadas. (Abraham & Torok, 1978/1995, p. 249, itálico dos autores)
A cripta, “sepultura secreta”, encerra o lugar de destino da negação da realidade e da recusa do segredo, cujas marcas, embora encapsuladas e impedidas de serem integradas na
64 esfera representacional, permanecem ativas no psiquismo. Ela emana de experiências traumáticas da vida dos pais e antepassados, que envolvem dor, vergonha e (des)organizam os vínculos. O fantasma designa aquilo que, por efeito dos conteúdos encriptados, assombra o sujeito. Dito de outra forma:
aquilo que fica oculto, não dito ou “mal dito”, atravessando as gerações na dimensão do transgeracional. Quando [a transmissão] é marcada pelo negativo, observamos que o que se transmite é aquilo que não pode ser contido, o que não encontra inscrição no psiquismo dos pais é depositado no psiquismo da criança: os lutos não realizados, os objetos desaparecidos sem traço nem memória, a vergonha, as doenças e a falta. (Correa, 2003, p. 36, itálicos nossos)
Tisseron (1994) destaca o papel das diversas formas de comunicação entre pais e filhos – através da linguagem, da motricidade, das reações sensoriais e afetivas –, na transmissão dos segredos ao longo das gerações. Segundo o autor, o que foi vivido pelos pais como acontecimento traumático, “indizível”, surge para os filhos como “inominável” e para os netos como “impensável”. O “indizível” relaciona-se a distorções na comunicação ou ao silêncio firmado pelos envolvidos, em uma dimensão ainda simbolizável e não necessariamente excluída da consciência. Como “inominável”, na geração dos filhos, o segredo não é objeto de representação verbal, mas pode ser por eles pressentido – como, por exemplo, quando os pais mostram seu incômodo diante de uma situação vivenciada com o filho que evoca o segredo. Assim, por exemplo, um gesto hesitante ou uma respiração ofegante compreendem formas de comunicação que permitem que o segredo seja pressentido.
Na relação da família com a criança e com o adolescente, o fantasma assombra sem ser formulado, aparece na forma de silêncio onde era para haver palavra, podendo levar a manifestações em atos contra o que assombra. “O filho pode, então, desenvolver sintomas que tentam dar sentido ao que ele pressente do segredo que lhe é oculto, em particular sintomas fóbicos ou obsessivos.”51 (Tisseron, 1994, p. 23, tradução nossa). Ao longo das gerações, os
efeitos do segredo tornam-se menos discerníveis, mas continuam a ser determinantes do psiquismo.
As figuras dos antepassados ligadas a esses eventos, que foram objeto do segredo, desempenham um papel importante na intersubjetividade grupal, pois elas têm uma função organizadora dos vínculos e das identificações (Eiguer, 2001; Benghozi, 2010). Segundo Eiguer (2001), neste caso, os antepassados permanecem ativos como “objetos fantasmas”, os quais se relacionam a cenas violentas ou eróticas (abortos, divórcios, doenças, suicídios), em que um
51 « L'enfant peut alors développer des symptômes qui tentent de donner sens à ce qu'il pressent du secret qui lui
65 antepassado ocupou o lugar de carrasco ou de vítima. Mas se, entre os antepassados, há aqueles que guardam um passado infame, outros são idealizados como benevolentes e gloriosos. Nesta condição, os antepassados também suscitam fantasias e provocam identificações nos membros da família. Ao considerar que a transmissão possibilita ao sujeito identificar-se com um terceiro com o qual não teve contato, Eiguer (2001) ressalta que as identificações podem, desse modo, ser intermediadas.
Como estruturantes dos processos identificatórios, os objetos psíquicos comuns aos membros da família definem suas fronteiras com relação à exterioridade e estruturam o pertencimento grupal. Segundo Benghozi (2010), esses objetos (como os antepassados e os mitos familiares), bem como as crenças compartilhadas, as missões e delegações inconscientes, transmitidas aos descendentes, são constitutivas da identidade de pertencimento do sujeito ao grupo familiar. O autor considera que o trabalho psíquico realizado na “adolescência familiar” consiste em uma tentativa do grupo de colocar o adolescente a serviço da família ameaçada. Nesse sentido, “o sujeito singular está mobilizado a serviço do sujeito de pertencimento.” (Benghozi, 2010, p. 98).
Considerando o lugar central da adolescência na transmissão e as mudanças relativas nos envelopes psíquicos individual e familiar – dos quais falaremos a seguir –, supõe-se que os fantasmas relacionados aos segredos, alianças e pactos familiares encontram na adolescência um momento favorável à sua ressurgência.
Ponto de vista semelhante é desenvolvido por Benghozi (2010), que reconhece que o adolescente e o jovem se tornam, não raramente, os “portadores” da vergonha do grupo familiar (“porta-sintoma”), depositários do material não simbolizado e não metabolizado da herança familiar. A vergonha é organizadora dos continentes psíquicos e do vínculo identitário, dois aspectos em mudança durante a adolescência. Segundo Benghozi (2010), a “transmissão genealógica da vergonha”, não elaborada pela família, manifesta-se em sintomas, tais como a toxicomania, a anorexia e o autobanimento do grupo. O autor concebe, no nível fenomenológico, três registros da vergonha: ter vergonha envolve o afeto consciente de vergonha, ligado à existência de um segredo inconfessável que irrompe na intimidade do sujeito; ser a vergonha contamina o grupo de pertencimento, em um nível atual, podendo levar à marginalização ou ao autobanimento do sujeito; portar a vergonha corresponde a ser depositário e herdeiro do conteúdo relativo ao segredo das gerações, o que se manifesta em sintomas, sem que o sujeito tenha consciência. O autor ressalta que, diferentemente de uma
66 demanda neurótica, ligada à culpa, a demanda da vergonha pode se traduzir numa crise narcísica grupal, com consequências para a identidade do sujeito e do grupo.