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Capítulo 1. O estado da ―Arte‖: uma proposta teórico-metodológica e um balanço

1.1. A história militar e a ―nova história militar‖

1.1.4. A história militar e a compreensão do presente

Visto como os historiadores de formação castrense lidam com a história militar, podemos retomar a Luvaas. Para o autor, a história militar deve permitir aos historiadores ―uma compreensão atualizada do passado e, consequentemente, de um melhor entendimento do presente‖.215 Ainda mais porque no mundo em que o autor está

formulando suas ideias as questões militares continuam importantes e grande parte dos seus problemas estão relacionados a elas.216 Também deve servir para que a sociedade

civil seja capaz de compreender seu passado e avaliar o que é escrito pelos órgãos oficiais, entender como são produzidas e desconstruí-las, buscando assim um diálogo mais próximo ao social.217

Entretanto, López destacou que o uso da história militar, para a compreensão do

214

Revista do IGHMB, ano 66 nº 94 Especial – 2007 e 2008, p. 4. No que pese atualmente existir um diálogo mais intenso entre historiadores militares e civis, se comparado a momentos anteriores, como os descritos acima, os historiadores das instituições castrenses no Brasil ainda permanecem atrelados as ideias citadas acima. Como pode ser visto no Encontro de Historiadores Militares promovido, em maio de 2012, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende, no Estado do Rio de Janeiro. Evento patrocinado pelo Exército Brasileiro, por meio da Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército, juntamente com o Instituto de Geografia e História Militar do Brasil (IGHMB). As comunicações, abordando diversos assuntos, foram publicadas sobre forma de anais eletrônicos. Cf. Fernando Vêlozo Gomes Pedrosa & Vanessa Ferreira de Sá Codeço (Orgs.). Anais do Encontro de

Historiadores Militares. Rio de Janeiro: CEPHiMEx, 2012. Acessado em 03/01/2013, no sítio:

www.dphcex.ensino.eb.br.

215

Jay Luvaas. ―História militar‖, p. 43 e 55.

216

Aqui o autor faz menção, sobretudo a sociedade norte americana, sem dúvida muito mais militarizada que a brasileira.

217

Jay Luvaas. ―História militar‖, p. 55. Vale ressaltar que esta não é uma característica exclusiva destes campo da história, mas da disciplina como um todo como sublinhou Hobsbawm, Eric. Sobre história. São Paulo: Cia das Letras, 1998.

presente, pode estar ligado às questões nacionalistas, tal como feito pelos historiadores militares tradicionais.218 Destarte, vale citar um caso bem explícito que mostra como

uma abordagem baseada na nova história militar, feita por civis, pode ter a mesma finalidade. O autor sublinhou que a historiografia catalã moderna tem produzido análises nessa perspectiva, sobretudo tendo como ponto principal os fatos ocorridos na chamada Revolta da Catalunha de 1640. Desnecessário lembrar toda a problemática existente na Espanha na luta pela autonomia política da região. Sendo esses acontecimentos centrais para a discussão. Assim, por exemplo, o referido autor219

mostra como a historiadora Eva Serra220

fez uso da manipulação da história tal qual os historiadores tradicionais. Serra defendeu a tese de que nos séculos XVI e XVII haveria um Estado catalão autônomo responsável pela administração e pelas questões militares, o que foi criticado por outros historiadores, porque essa administração não teria o caráter moderno e sua análise careceria, segundo López, de uma maior profundidade científica.221Assim:

(…) el uso y abuso de la historia militar en beneficio de unos determinados apriorismos ideológicos lo que conduce, a nuestro juicio, a un callejón sin salidad para esta disciplina a menos que se valore su importancia intrínseca.222

Amanda Mancuso aprofundou um pouco mais esta questão e nos permite olhar a história militar, feita pelos profissionais da guerra, com outros olhos. A autora enfatizou que os problemas apontados para esse tipo de história também são pertinentes à produção historiográfica como um todo. Some-se a isso certa prepotência por parte dos historiadores civis, como veremos adiante, que têm certo receio de que seus escritos sejam apropriados pelos militares para confirmação de alguma teoria de cunho propagandístico. Entretanto, nos diversos contextos acadêmicos nacionais os ritmos serão diversos, devido às questões ligadas às suas próprias histórias. Há países em que as guerras têm uma importância mais acentuada que em outros, como, por exemplo, nas

218

Antonio Espino López. ―La historia militar‖.

219

Vale ressaltar que não é qualquer historiador que tece a crítica, mas um professor da Universidad Autónoma de Barcelona.

220

Eva Serra et alii. ―La revolució Catalana de 1640‖. Barcelona: Ed. Crítica, 1991 Apud Antonio Espino López. ―La historia militar‖, p. 215-242.

221

A respeito da inserção da Catalunha na Monarquia Católica ver a obra de John Elliott, em especial. John Elliott. ―Una Europa de monarquías compuestas‖, in John Elliott. España, Europa y el mundo de

Ultramar (1500-1800). Madri: Taurus, 2010, ou, em inglês, John Elliott. ―A Europa of Composite

Monarchies‖. In Past and Present, n. 137, 1992, pp. 48-71; John Elliott. ―A Espanha e a América nos Séculos XVI e XVII‖ in Leslie Bethell (org.). História da América Latina colonial, Vol. I. 2ª Ed. 2º Reimpressão. São Paulo: EdUSP, 2004, pp. 283-337.

222

nações européias e nos Estados Unidos. Assim, a população e a própria academia têm uma maior aproximação com as histórias militares e com suas instituições. Do mesmo modo que a produção histórica institucional, além de ser direcionada para os militares também é lida pelos civis. Embora, isto não signifique dizer que os profissionais da guerra tenham tido maior participação nos rumos políticos dos respectivos Estados nacionais.223

No Brasil, por exemplo, a questão se deu de forma inversa e, portanto, ―a difundida percepção de ausência de ameaças externas fez com que a temática militar não ocupasse posição de destaque na academia‖.224

Já a história política brasileira, por vezes, se confunde com a própria história castrense, como no recente caso da Ditadura Militar (1964-1985).225 Logo, a aproximação dos historiadores civis e da própria

sociedade com a história militar é pautada pelos ressentimentos oriundo dos chamados ―anos de chumbo‖.226

Nesse sentido, Soares e Vainfas destacaram que, no meio acadêmico, os historiadores militares tinham que enfrentar o receio de seus colegas, posto que eram tidos como comprometidos com o regime ditatorial. Já para os militares, os historiadores castrenses eram vistos como ―amadores ou estranhos no ninho‖.227 Para

além desses problemas, segundo Mancuso, persiste a visão na academia de que a ―guerra é uma alienação no processo histórico e que, consequentemente, seu estudo não é nem frutífero, nem decente‖.228 Já no âmbito das Forças Armadas, Soares e Vainfas

defendem que já há algum tempo, cerca de meio século, existe um desenvolvimento da pesquisa e do ensino da história militar, de forma a buscar uma especialização, em analisar e interpretar os fatos, para que sejam utilizados nos mais diversos níveis hierárquicos daquelas instituições. Assim, os cadetes e aspirantes fazem uso dela nas escolas preparatórias e o alto comando militar a utiliza para planejamento estratégico.229

Todavia, voltemos ao ponto central de Mancuso. Para a autora, essa visão

223

Amanda Mancuso. ―A história militar‖.

224

Amanda Mancuso. ―A história militar‖, p. 7.

225

Fato que segundo a autora também ocorre em outros países latino-americanos e africanos. Cf. Amanda Mancuso. ―A história militar‖, p. 7.

226

Amanda Mancuso. ―A história militar‖.

227

Grifo dos autores. Luiz Carlos Soares e Ronaldo Vainfas. ―Nova História Militar‖, p. 120.

228

Amanda Mancuso. ―A história militar‖, p. 4. Postura influenciada pelo olhar marxista. Segundo Soares e Vainfas, o marxismo em suas diversas versões (Marx e Engels; Lênin; Gramsci; Hobsbawm e; E. P. Thompson) não deu muita atenção ao estudo da história militar. O caso mais exemplar, a que Mancuso faz referência, está ligado à visão de Lênin de que a guerra, sobretudo a 1ª Guerra Mundial (1914-1918), fora motivada por questões imperialistas. Cf. Luiz Carlos Soares e Ronaldo Vainfas. ―Nova História Militar‖, p. 119.

utilitarista e doutrinária da história pelos militares não lhe é exclusiva.230 E aí se dá a

aproximação com a história cultural, da qual Certeau é um dos principais expoentes. Em linhas gerais, esse autor defende que todo o passado ―é uma reconstituição das sociedades e dos seres humanos de outrora por homens e para homens engajados na trama das sociedades humanas de hoje‖.231A produção da história oficial responderia a

necessidade de construir um discurso no qual:

(...) enfatize a unidade militar a despeito dos conflitos internos, excluindo assim lutas de facções, aliados civis e abusos de força violentos, que fazem parte da história do Exército desde a sua constituição, ocultando muitas dessas experiências em favor das escolas, dos grandes oficiais, das ideologias dominantes e das missões externas.232

Keegan mostrou que estes conflitos internos estão presentes no seio dos militares. O que chamou de ―tribalismo‖, ou seja, uma identificação maior do soldado não com a instituição como um todo, mas com a divisão, com a sua ―tribo‖, a que está ligado. Sendo, por vezes, muito mais importante para o militar não o reconhecimento da instituição, embora é claro, esteja preocupado em progredir na hierarquia, mas ser considerado bom soldado por seus colegas mais próximos da tal ―tribo‖. Fato que pode inverter a própria lógica.233

No que pese a existência destas clivagens internas, o discurso da instituição deve inseri-la e lhe fornecer um lugar na história nacional e ao mesmo tempo não pode entrar em choque com a imagem interna da corporação que será usada para a formação de seus novos quadros. Sendo assim deve ter uma dupla preocupação, satisfazer ao público geral (externo) e ao interno (pares). Aí reside a questão apontada por Mancuso. Essa não é uma especificidade dos historiadores militares. Ou será que os historiadores civis não estão preocupados em dialogar com seus colegas?234 Esses agentes, os pares, seja de que

natureza forem, não irão, mesmo que de forma indireta, dizer o que pode e o que não pode ser dito? De modo que, quem produz o discurso não tem que ―satisfazer‖ as necessidades esperadas por seus semelhantes?

Mas, para além de serem descartados, como sugeriu Luvaas, estes estudos produzidos por uma tradicional história militar são obras historiográficas, ou melhor,

230

Assim como todo o tipo de história oficial, entendida como o discurso produzido por qualquer instituição.

231

Michael Certeau. A Escrita da História. São Paulo: Forense Universitária, 2008, p. 22.

232

Amanda Mancuso. ―A história militar‖. p. 11.

233

John Keegan. História da Guerra, p. 15-6.

234

fazem parte de algo mais amplo denominado de ―Cultura Histórica‖235, que devem ser

lidas como fontes históricas para análises historiográficas futuras, levando-se em consideração o ―Lugar Social‖236 de produção. Esses ―Lugares Sociais‖ também geram

produtos como jornais, romances, programas de televisão, biografias, monumentos, praças, livros didáticos etc., que concorrem com os ditos ―históricos científicos‖ (por falta de termo melhor)237 na formulação do que foi o passado e na tentativa de explicá-

lo. A ―história científica‖ não tem o monopólio do passado. Porém, a meu ver, e talvez explicitando meu ―Lugar de Fala‖, Luvaas estava correto: ela deve ser capaz de sinalizar ao grande público estas questões.

Contudo, em sua maioria, os historiadores que defendem a ―Nova História Militar‖ censuram uma história militar considerada ―tradicional‖, cuja narrativa, sobremaneira memorialista, estava pautada exclusivamente na descrição rica em detalhes de batalhas, sem a busca de uma problematização analítica ou reflexão central. Criticam também o culto aos grandes heróis, que eram tratados como exemplos incontestes para as gerações futuras, bem como o modo como eram entendidos, agiam e movimentavam a realidade.238 Outra ponderação, é a de que a historiografia militar

tradicional naturalizava o comportamento humano e as instituições militares, tornando- os, em última instância, ahistóricos.239 Isso ocorria, porque não havia interesse em se

compreender o comportamento e as instituições militares em seus contextos social, político, econômico e cultural. Portanto, se acusaria este campo do conhecimento de esquecer o outro lado, o social. Todavia, como já vimos, esta acusação também pode ser feita a ―Nova História Militar‖, como apontou Weigley, que por vezes esquece os conflitos e as especificidades das instituições militares.240