1 INTRODUÇÃO
2.2 A IDADE MÉDIA
2.2.5 O programa modista no contexto dos estudos da linguagem na Idade Média
2.2.5.2 A homogeneidade do modismo como movimento
O trabalho de Jan Pinborg (PINBORG apud BURSILL-HALL, 1972, p. 21), professor da Universidade de Copenhagen, contribui na compreensão do desenvolvimento da teoria dos modistas. Nos anos 1970, Pinborg editou a obra completa dos principais gramáticos modistas, que, como ele, eram originários da Dinamarca: Martinho, Boécio, João e Simão da Dácia—na Idade Média a Dinamarca era conhecida como Dácia. Esse trabalho de edição crítica desses manuscritos em uma coleção que recebeu o nome de Corpus philosophorum danicorum medii aevi possibil (ROSIER, 1981, p. 49) e, além de trazer à tona o trabalho de gerações de estudiosos da linguagem, possibilita o acesso à natureza geral da doutrina gramatical dos modistas. Portanto, devido ao trabalho de Jan Pinborg, entre outros, existem edições críticas dos trabalhos dos modistas dinamarqueses (Martinho, Boécio, João e Simão) desde os anos 1970.
Apesar da publicação da coleção supracitada de autores modistas e também da tradução em língua inglesa da G.E. de TE, por Geoffrey L. Bursill-Hall, bem como da
tradução francesa da Suma dos Modos de Significar, de Siger de Courtrai, e da tradução bilíngüe, em língua inglesa, da gramática de Boécio da Dácia, por A. Charlene Senape McDermott, há ainda um grande número de obras modistas que permanecem em forma de códices nas bibliotecas da Europa. Por causa dessa carência de material editado, o estudo comparativo das gramáticas especulativas ainda não é suficientemente esclarecedor para se chegar a uma conclusão quanto ao grau de homogeneidade do modismo como movimento. Todavia, apesar dessa falta de evidências materiais, os modistas parecem partilhar de um núcleo teórico comum, ao menos no que se refere à natureza e ao objetivo da investigação da linguagem. Com relação às possíveis diferenças que a edição e explicação dos diversos tratados modistas venham a apresentar entre si, não seria mais que natural que as obras que os modistas legaram à posteridade contenham algumas diferenças, já que seu trabalho se estende por um período de 50 a 80 anos e compreende três gerações de pesquisadores. Assim, ao menos com base no andamento das pesquisas sobre a modística até os anos 1970 (BURSILL-HALL, 1972, p.21), é possível qualificar o modismo como um movimento consideravelmente homogêneo.
A ambigüidade da denominação das gramáticas modistas, que são chamadas tanto de “tratado sobre modos de significar” quanto de “gramática especulativa”, dá-se ao fato de o modismo ser o desenvolvimento de um tipo de investigação gramatical anterior: o comentário sobre as Intituições de Prisciano. Ao investigar as origens historicamente mais próximas do pensamento modista, que floresceu no final do séc. XIII, é preciso retroceder 150 anos, ao início do séc. XII, para então se encontrar as idéias orientadoras que dariam corpo à teoria modista. Há, portanto, um intervalo de um século e meio entre os primeiros gramáticos especulativos e os gramáticos modistas dos sécs. XIII e XIV (LYONS, p. 15, apud
BURSILL-HALL, 1972, p.21).
O séc. XII é a época dos primeiros gramáticos especulativos: Pedro Helias, Robert Kilwardly, Pedro Hispano, Roger Bacon, entre outros. Para Geoffrey L. Bursill-Hall (1972, p.22), tanto os gramáticos especulativos do séc. XII quanto os modistas dos sécs. XIII e XIV fizeram uma síntese entre as duas linhas principais do pensamento gramatical que haviam se desenvolvido separadamente na antiguidade: 1) a gramática lógico-filosófica de Platão, de Aristóteles e dos estóicos; 2) a gramática literária dos alexandrinos, de Donato e de Prisciano. Os modistas acrescentam a essa síntese suas próprias contribuições aos estudos da linguagem com base na metafísica e na lógica aristotélicas fortemente influenciadas pela interpretação que Boécio e os árabes fizeram delas. De fato, os modistas reformularam as
categorias gramaticais de Prisciano e Donato em termos metafísicos e lógicos. Essa reformulação da gramática deve-se ao fato, já mencionado, de que os modistas acreditavam que a gramática só poderia ser estudada como ciência se os seus enunciados refletissem a estrutura da realidade. Para os modistas, a verificação dessa necessidade dependia do fato de existir um sistema de princípios lingüísticos suficientemente geral para ser aplicado a todas as línguas.
Efetivamente, na Europa Ocidental, os modistas foram os primeiros estudiosos a enunciar a necessidade de uma gramática universal como um pressuposto para a formulação de uma teoria geral da lingüística (ROBINS, p. 78-9 apud BURSILL-HALL, p.22). Já que o estudo da gramática especulativa deve basear-se em princípios universais e não nos detalhes de línguas particulares, os modistas não se interessaram pela fonética e deram pouca atenção à morfologia, mas reservaram grande espaço à semântica e à sintaxe.
Na criação de sua teoria, os modistas mantiveram o sistema gramatical dos latinos tardios (Prisciano e Donato) e reinterpretaram-no com base em pressupostos teóricos que eram amplamente aceitos em sua época. Com a ajuda desses pressupostos, os modistas buscavam expressar um enunciado do funcionamento das categorias gramaticais que haviam herdado da Antiguidade tardia. O critério para o estabelecimento dessas categorias lingüísticas e de suas particularidades é a correlação entre elas e as propriedades da realidade a que elas correspondem. Essa correlação entre significado e referente é a principal característica da modística. Na verdade, a teoria dos modistas é a primeira teoria gramatical na história dos estudos da linguagem no Ocidente que se mantém relativamente fiel a um único critério interpretativo: o critério semântico.
Como os pressupostos teóricos da modística se originam da lógica e da metafísica medieval, para se entender a modística é necessário ter em mente os conceitos, os métodos e a terminologia técnica da filosofia desse período, principalmente no séc. XIII. Esse é provavelmente o maior desafio de uma tradução de um texto modista ou de um estudo detalhado das idéias originais contidas nas gramáticas modistas. No entanto, é possível chegar a uma compreensão satisfatória da teoria dos modistas através da consideração de sua metalinguagem e do entendimento de sua terminologia sob a luz da própria filosofia medieval. Neste trabalho, o capítulo introdutório e os capítulos sobre o nome e o pronome da
G.E. de TE serão analisados com base nesse princípio, ou seja, a partir de uma constante referência das idéias contidas na G.E. aos conceitos metafísicos em que se fundamentam.
2.2.6 A aproprição modista de doutrinas básicas da metafísica e da lógica aristotélicas
Na sua descrição da realidade, a metafísica aristotélica faz várias distinções binárias a respeito do mundo: matéria-forma, substância-acidente, gênero-espécie, ato-potência, etc—todas herdadas do pensamento aristotélico. A escolástica usa essas diferenças para explicar integralmente a diversidade dos fenômenos do universo. Por exemplo, ao aplicarem a distinção matéria-forma a um objeto qualquer, os medievais atribuem dois modos de existência ao mesmo ser: o existir como matéria amorfa e o existir como essência. A distinção matéria-forma, por exemplo, pode ser ilustrada pela arte da escultura: a forma da estátua a ser esculpida pré-existe na mente do escultor que selecionou o bloco de mármore (a matéria) a ser esculpido. Como o mármore para o artífice, as coisas são vistas como passivas e carentes de receberem uma forma pré-estabelecida para deixarem a virtualidade e virem a ser em sentido pleno. Nesse sentido, a forma em potencial está presente no bloco de mármore mesmo antes dele ser escupido. Isso exemplifica uma outra distinção metafísica: ato-potência. Como se verá a seguir, os modistas aproveitam-se de distinções como matéria-forma e ato-potência em sua teoria. TE, em particular, usa-as amplamente em sua metalinguagem.
Logo no início do Da Interpretação, Aristóteles define o nome e o verbo (ónoma
e rhêma), a seguir, ele define a frase (lógos) (ARISTOTLE, 1996, p. 115). Em suas definições, Aristóteles considera essas duas classes de palavras como vocalizações significativas que não podem ser divididas em outras partes significativas. Segundo Maria Helena de Moura Neves (2001, p. 37), ao definir o nome e o verbo dessa forma, Aristóteles instaura a distinção entre uma primeira e uma segunda articulação da linguagem. A essa segunda articulação corresponde o stoicheîon, que, para os estóicos, era a menor unidade material da significação.
A metafísica medieval, de inspiração aristotélica, distingue a existência dos elementos do mundo de acordo com dois princípios fundamentais: a permanência e a mudança. Uma vez que a gramática modista deve ser a expressão sistêmica das propriedades da realidade, é necessário que haja nas categorias gramaticais elementos que correspondam às propriedades reais da permanência e da mudança. Os modistas identificam tais elementos, respectivamente, como as classes dos nomes e dos pronomes e como as classes dos verbos e dos particípios. Como resultado dessa classificação, há quatro classes de palavras que
correspondem, em dois pares, a essas duas meta-classes ou princípios gerais da realidade (BURSILL-HALL, 1972, p. 23). Essas duas meta-classes podem ser usadas numa outra subdivisão das classes de palavras com o acréscimo de uma terceira classe: a meta-classe que se deriva da propriedade da ordenação seqüencial das partes de um todo. Nessa classificação tripartite, as classes de palavras declináveis corresponderiam à propriedade da permanência, as conjugáveis à propriedade da mudança e as indeclináveis (as preposições, os advérbios e as interjeições) à propriedade da ordenação seqüencial das partes de um todo. Essa classificação foi sugerida por Siger de Courtrai (CORTRACO apud BURSILL-HALL, p. 23).
Segundo McMAHON (1980, p. 145), uma vez que, para os modistas, as partes do discurso não podem ser distinguidas sem que primeiramente estabeleçam-se as propriedades reais, i.e., os modos de ser de uma coisa, é necessário, antes de tudo, definir a que tipos de modos de ser essas propriedades correspondem. Como os modistas fazem uso da metafísica e da lógica aristotélicas para justificar a metalinguagem de sua teoria, os modos ou maneiras de uma coisa ser são definidos por meio das dez categorias de Aristóteles.
2.2.6.1 A correspondência entre as dez categorias e os modos de significar
John Lyons (1979, p. 286, apud BOGES NETO (1990, p.8)), declara o seguinte a respeito das dez categorias de Aristóteles: “Na filosofia aristotélica (e escolástica), as categorias eram as diferentes maneiras, os modos, pelos quais se podia atribuir propriedades às coisas: e partia-se do princípio de que os diferentes modos de predicação representavam diferenças no mundo objetivo, difentes modos de ‘ser’.”
Como Aristóteles criou uma lista das categorias mais gerais possíveis da realidade? Segundo BORGES NETO (1990, p.8), o método de Aristóteles foi o de fazer uma lista de proposições (afirmações) sobre uma mesma entidade do mundo, por exemplo, sobre Sócrates. Em seguida, cada uma dessas proposições é diferenciada de acordo com o predicado que atribui a Sócrates, por exemplo: “um metro e oitenta de altura”, “grego”, “filósofo”, etc. Segundo Aristóteles, existem dez perguntas gerais que podem ser usadas para classificar qualquer um desses predicados. Essas perguntas organizam esses predicados-repostas em famílias ou tipos, que Aristóteles limitou a dez categorias: substância, quantidade, qualidade, relação, tempo, lugar, posição, condição, ação e paixão.